Universo da obra
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Carlos considerou que era realmente melhor não acordar o irmão; deixou-o dormir, e passou à sala, que era ao mesmo tempo de visitas, de trabalho e de jantar. Apesar da sua pobreza, o aposento tinha um ar alegre; os móveis, antigos e já sem verniz, estavam cuidadosamente espanados: o lampião de metal reluzia, de tão bem areado; na janela, dentro de uma pequena gaiola, cantava um curió.
O almoço era farto: feijão, carne de sol assada, bananas; mas Carlos comia maquinalmente, preocupado com a doença do irmão, e com as dificuldades com que ainda tinha de lutar até chegar à capital da Baía, — dificuldades que maiores lhe pareciam agora, na ausência do providente Juvêncio.
Ia em meio o almoço, quando se ouviu a voz de Alfredo, que despertara. Carlos correu ao quarto, e teve a satisfação de ver que o doente estava sem dúvida, muito melhor.
— Então? Como te sentes?
— Muito bem! — respondeu o pequeno. — Já quase não sinto dor no pé.
— Queres almoçar?
— Quero, sim, que tenho bastante fome.
— Não te levantes. Vou buscar o teu almoço.
A dona da casa arranjou à pressa um almoço leve para o enfermo, — um pirão de farinha, um ovo frito, — e disse à filha, Maria das Dores, que a fosse levar ao quarto.
Alfredo já vira, na véspera, a rapariga, à beira do rio. Mas, olhando-a entre tantas outras, não reparara bem nas suas feições. Agora, vendo-a entrar com o almoço, achou-a encantadora.
Maria das Dores era uma mocetona morena, quase cabocla, mas muito corada e de traços regulares. Tinha olhos negros, lábios finos mostrando uma fileira de dentes alvos e iguais, rosto redondo, testa estreita, cabelos muito lisos e pretos, atados no alto da cabeça. Tinha um ar de candura e de meiguice, e, ao mesmo tempo, de simples e ingênua franqueza.
Entrou, deu o almoço ao pequeno, e começou a conversar com ele, que logo se sentiu atraído pela sua bondade.
— Então, ainda não está bom?
— Não estou bom, mas já estou muito melhor. Ora eu, ontem, conversei tanto com você, e não lhe perguntei o seu nome!...
— Maria das Dores.
— Você não tem irmão?
— Tive um que morreu pequenino, de sarampo.
Daí a pouco, ia tão animada a conversação entre os dois, que Carlos e a velha lavadeira ouviam lá dentro as risadas alegres de ambos.
— Aquela rapariga — disse a velha — é sempre assim. Tem dezesseis anos, e parece uma criança de oito ou dez. está sempre falando, rindo, cantando. Nunca a vi triste... saiu à avó, que era uma tapuia: quando tinha setenta anos, andava tão alegre, tão risonha como uma moça.
Tentado por aquela alegria, cujo ecoar chegava à sala, Carlos foi ver o que a provocava.
Ao entrar no quarto, encontrou o irmão, bem disposto e com boas cores, sentado na cama, com o prato sobre as pernas cruzadas, ouvindo a rapariga, e rindo muito do que ouvia. Maria das Dores, sentada no chão, contava uma história em verso. Não se vexou com a entrada de Carlos, e continuou:
No sertão de Cabrobó
Havia um sapo casado:
Na seca de 34
Quase morreu de torrado...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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