Universo da obra
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Entregue a carta, Juvêncio comprou um pão, jantou frugalmente, e, recolhendo-se sob um alpendre que havia na praça da Matriz, ali passou a noite.
Ao amanhecer, percorreu com descanso as duas ou três ruas da vila, para matar o tempo, e ao meio-dia, foi postar-se à porta da igreja à espera dos companheiros. Só se afastou daí para jantar: jantou numa venda, ali perto, e, enquanto comia, não perdia de vista a igreja. Mas a espera foi baldada. Passou-se a tarde, passou-se a noite, e os companheiros não apareceram. Juvêncio, aborrecido, andou passeando sem destino, e recolheu-se de novo ao alpendre, onde já passara uma noite.
— Que terá acontecido? — pensava. — Ter-se-ão eles perdido no caminho? Talvez não... talvez a roupa não tenha ficado enxuta, e eles tenham adiado a viagem para amanhã.
A madrugada veio encontrá-lo já de pé. Não sabendo como matar o tempo, interessou-se pelo movimento das ruas. Assistiu à partida de uma tropa, e chegou a ajudar os tropeiros. Depois, foi até a porta de uma escola pública, e presenciou a chegada dos alunos, pobremente vestidos, mas limpos; levavam nas sacolas os livros e a merenda. Em seguida foi ao mercado da vila, onde os vendedores de hortaliças se reuniam. Às onze horas, postou-se de novo à porta da Matriz; as horas continuaram a correr, monótonas e tristes...
Sentado num poial, o rapaz começava a cochilar, quando ouviu uma grande gritaria. Uma pobre velha atravessava a praça, perseguida por alguns desocupados, que a apupavam:
— Maluca! Maluca!
A pobre velha nada dizia, e ia caminhando, ofegante, com a cabeça baixa e os passo trôpegos.
— Maluca! Maluca! — berravam os garotos.
Um deles apanhou no chão uma pedra, e arrojou-a sobre a desgraçada. A pedra passou-lhe por cima da cabeça, e veio cair a poucos passos de Juvêncio. O sertanejo, indignado contra a covardia dos perseguidores, levantou-se e tomou a defesa da velha.
— Que é que você tem com isto, seu atrevido? — perguntou-lhe desaforadamente um dos vadios, rapaz de dezesseis ou dezessete anos. Juvêncio mirou-o, e os seus olhos fuzilaram de raiva e desprezo:
— Você não se envergonha do que está fazendo?... que mal lhe fez esta pobre mulher?... Você é que é um malvado e um covarde!
O rapazola, que era forte e sacudido, avançou e atirou-se para Juvêncio, disposto a sová-lo. Juvêncio esperou-o, e desviando rapidamente o corpo, recebeu-o com um soco, que o atirou a quatro passos de distância. O valentão voltou à carga, meio tonto, e o sertanejo, ágil como um gato, segurou-lhe a cintura, pelas costas; mas o malvado era forte, e os dois rolaram no chão, esmurrando-se. Nisto, acudiu gente da venda fronteira, em auxílio de Juvêncio, e o vadio agressor teve de fugir, para não sofrer maior castigo.
Ao meio-dia, Juvêncio, com a roupa rasgada, estava outra vez sozinho à espera dos meninos. Sentia bastante ter estragado a roupa, que era a única, mas ao mesmo tempo estava satisfeito por Ter dado uma boa lição ao atrevido. Às três horas da tarde, a sua preocupação aumentou: “Não! Não era natural aquela demora! Com certeza, alguma cousa tinha havido!...
Quando anoiteceu, o sertanejo resolveu partir para o lugar em que havia deixado Carlos e Alfredo. Não podia mais suportar aquela incerteza. A noite devia ser de luar, e a viagem era curta...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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