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Capítulo 2 · Através do Brasil

I. — Ma noticia

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Eram dois irmãos, Carlos e Alfredo, o primeiro de quinze annos de idade, e o segundo cinco annos mais moço. Não tinham mãe. Havia dois annos que a tinham perdido.

Estavam ambos em um collegio, no Recife. O pae, que era engenheiro, fora obrigado a deixal-os ahi, afim de trabalhar na construcção de uma estrada de ferro, no interior do Estado. Era a primeira vez que se separava dos filhos, depois da morte da mulher; sempre fôra muito carinhoso e meigo; principalmente depois de enviuvar, tornara-se de uma bondade excessiva, como querendo compensar com um redobramento de ternura a falta dos cuidados maternos de que via os filhos privados. Era simples e affectuoso, preferindo ser attendido e amado a ser obedecido e temido. Não castigava nunca os filhos: era para elles um amigo, um camarada, um companheiro.

A separação foi para os trez um golpe doloroso. Mas não era possivel evital-a: e o engenheiro, no momento de partir, abraçando os dois rapazes, fez-lhes esta recommendação: “Vocês devem ser sempre muito amigos., muito unidos, tendo um só coração e uma só vontade. não temos parentes por aqui. Todos os nossos parentes vivem longe, no Rio Grande do Sul. Se seu morresse, ficariam vocês desamparados; e, se não fossem muito amigos e muito unidos, a desgraça seria terrível...”

Havia já dois meses que o pai partira. Carlos e Alfredo, no colégio, estudavam, e tinham um pelo outro uma amizade que nenhuma divergência alterava. O que era de um era do outro; o que um pensava, também o outro pensava. Não havia entre eles segredos, nem desconfianças, nem brigas. Ligados pelos laços de sangue, eram ainda mais ligados pelos laços do afeto. Compreendiam a responsabilidade da sua condição, e esperavam com confiança um futuro melhor.

Em certa manhã de domingo, quando iam sair a passeio, receberam um telegrama. O pai estava doente. Doente “sem gravidade”, - dizia o telegrama. Os dois meninos, porém, num sobressalto, imaginaram logo uma desgraça: “O pai estava tão longe, num lugar quase deserto, num sertão bruto, onde ainda havia, talvez, índios ferozes, - e estava ente estranhos, sem um amigo!... Que moléstia seria a sua? e se o seu estado se agravasse, - se ele morresse, assim, sozinho, abandonado, sem ter o consolo de poder dar a última Bênção aos filhos?”

Carlos, o mais velho, disse logo, com os olhos rasos de água.

— Sabes, Alfredo? não me resigno a esta incerteza! Vou para junto de papai... E vou já! Nem previno o diretor do colégio, porque receio que não me deixes partir. Tenho ainda algum dinheiro do que papai nos deixou; vou vender o relógio, s sempre hei-de poder pagar a viagem.

— Também eu quero ir! – exclamou Alfredo – leva-me contigo!

— Mas tu és pequeno, a viagem é longa, o dinheiro é pouco...

— Venderei também o meu relógio...

Carlos não teve a coragem necessária para se opor à vontade do irmão. Foram logo dali preparar a jornada, que era penosa, - um dia em caminho de ferro, e ainda muitas léguas a cavalo.

O trem só partia no dia seguinte, às seis horas e meia da manhã. para economizar o pouco dinheiro que possuíam, os meninos nada compraram; e não querendo voltar ao colégio, onde receavam a oposição do diretor, resolveram não dormir. Foram até Afogados, onde tinham uma família conhecida, com a qual jantaram depois vagaram longamente pelas ruas da cidade, cansados, pensando no pai. Alta noite, dirigiram-se para os lados da estação, e ficaram por lá, à espera da madrugada, encostados às portas, lutando com o sono. às vezes, Carlos sentava-se, encostava a cabeça do irmão nos joelhos. Mas lá vinha um vulto, - um soldado ou um transeunte, - e os dois assustavam-se, temendo ser presos e reconduzidos ao colégio. Levantavam-se e continuavam a sua triste peregrinação.

Assim passaram a noite. Ansiosos pelo dia. tinham vendido os relógios, e não podiam saber a hora. De instante a instante, Carlos levantava a cabeça e olhava o céu, para ver a altura do Cruzeiro do Sul, ou para verificar se a estrela d’Alva já aparecia.

Por fim, depois de uma longa espera torturante, viram o céu tingir-se de um ligeiro rubor. Começaram a animar-se as ruas. passaram as primeiras carroças, levando pão, carne e verduras para a cidade.

Amanheceu.

Através do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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