Universo da obra
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Trancoso, o negociante e os visitantes, transpondo a porteira do pasto, abandonaram a estrada real, que passava à esquerda, e dirigiram-se logo para o lado oposto, que era justamente o lado da bagaceira, e onde o movimento era maior. Costearam o engenho pela parte de baixo. Esta face era meio fechada por uma parede baixa, de dois metros de altura; no canto, à esquerda, somente, a parede se elevava até o teto. Por cima da meia parede, viam-se os bustos suarentos de quatro homens, movendo-se por entre nuvens de uma fumaça esbranquiçada, que se derramava para todos os lados.
— Aqui estão as caldeiras e os tachos em que se cozinha o açúcar. Esta fumaça vem do caldo de cana fervendo... — comentou Juvêncio.
Ao dobrar o canto da direita, em baixo, notaram com espanto os dois meninos uma ribanceira que ia dar a um fosso, no fundo do qual um preto robusto bracejava, movendo grossos toros de lenha; viram também, na parede que se levantava em face dele, uma larga abertura mostrando o interior incandescente de uma fornalha.
— É a fornalha do engenho? — perguntou Carlos, sem hesitar.
— É sim, — respondeu-lhe Juvêncio.
Contemplaram-na um instante, e, rodeando-a, penetraram na grande usina agrícola. O interior era o de um vasto galpão aberto, exceto para o lado da estrada real, fechado pela parede que ia até o teto. Num pequeno patamar, sobranceiro à divisão onde ferviam os caldos de açúcar, estava o dono do engenho, um homem já idoso, mas robusto, tez queimada, olhar apagado, e fronte enrugada. Trancoso dirigiu-se logo para ele; os rapazes ficaram de pé, ao lado, atentos ao enorme movimento que os cercava; e mal tinham espalhado o olhar em torno, tiveram de apartar-se espremendo-se contra o patamar, para dar passagem a um rapazote conduzindo um burro que arrastava um largo couro de boi. Dirigindo-se para a moenda, que se levantava no meio da casa, rapazote desatrelou o couro arrastado, e prendeu aos peitorais do animal os tirantes de um outro couro que ali se achava, já cheio de bagaço, e retirou-se, depois de bem ajustar o couro vazio para receber o bagaço que saía da moenda.
— Aquilo é a moenda, — explicou Juvêncio, apontando com o dedo a espessa engrenagem de ferro, em cuja parte superior se viam três cilindros, movendo-se em sentidos contrários.
Um homem e uma mulher não paravam, apanhando as canas, às duas e às três, encostando-as aos cilindros da moenda, por entre os quais os caules lisos desapareciam, tragados em segundo, e surgindo do outro lado, transformados em bagaço. Os cilindros moviam-se apertadíssimos e as canas comprimidas chiavam e esguichavam longos fios de caldo, que vinham pintar a face dos “metedores”.
Perto da moenda, um pouco abaixo, fixava-se o motor, — a máquina a vapor; o volante, alto de três metros, girava com um velocidade tal, que mal podia o olhar acompanhá-lo com as suas voltas.
O ruído do motor batendo surdamente, o chiado do esguicho do caldo, o ranger da moenda, o baque das canas atiradas, o arfar dos tachos cheios do melado fervente, as vozes dos trabalhadores, — tudo isso formava um alarido contínuo, um concerto de rumores confusos, uma atmosfera de sons atroadores...
E perto do motor, por trás do volante, erguia-se uma vasta chaminé, que furava o teto.
Trancoso explicava aos três rapazes o funcionamento de todas as máquinas; e notava:
— O que estão vendo é apenas uma usina rudimentar. Há engenhos de açúcar, cujo maquinismo é muito mais complicado do que este. Mas, enfim, já isto basta para satisfazer-lhes a curiosidade...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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