Universo da obra
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Quando Maria das Dores acabou de contar a história do sapo, Carlos, sentado à beira da cama do irmão, falou daquilo que mais o preocupava.
— E o Juvêncio, Alfredo? Que dirá ele, se não chegarmos?
— Há um remédio, — respondeu o pequeno. — Vá você hoje encontrar-se com ele: eu irei amanhã...
— Não pode ser...
— Não pode ser, por quê? Perguntou Maria das Dores. — Seu irmão pode muito bem ficar aqui conosco. Não lhe hão de faltar cuidados.
— Não é isso! — explicou o mocinho — o que digo é que Alfredo não poderá ir sozinho até Riachinho. E quem sabe se amanhã já ele poderá caminhar? Não! Mais vale ficarmos ambos aqui...
E continuou, pensando em voz alta, torturado pela sua preocupação:
— Com certeza, o Juvêncio não continuará sozinho a viagem. Espera-nos hoje... Mas, vendo que não chegamos, há de compreender que aconteceu alguma cousa, e voltará para saber o que houve. Talvez amanhã o tenhamos por aqui... Ah! Lembro me agora... É natural que, se voltar, ele vá imediatamente procurar-nos na venda; e, como ninguém sabe que estamos aqui, pode ficar sem notícias...
E, voltando-se para a rapariga:
— Por onde se vai para a venda? — é longe daqui?
— É muito perto. Já lhe mostro o caminho.
Maria das Dores levantou-se, e saiu acompanhada de Carlos. Foram até a porta da casa. O dia estava lindo e quente. A soalheira ardia.
A casa ficava num declive, na parte mais baixa. Em frente, havia o morro, de terra vermelha, pedras e barro, coberto de um mato ralo, de árvores crestadas e capim escasso, onde algumas cabras pastavam. À direita, havia um mato fechado; à esquerda, uma extensa plantação de mamoneiras e algodoeiros. Defronte da casa, no sopé do morro, levantavam-se algumas paineiras, altas e copadas, que espalhavam em torno uma larga sombra.
— Olhe! — disse a rapariga, estendendo o braço — siga por este caminhozinho, suba o morro, e depois desça: há de achar duas veredas. Tome a da esquerda, que vai dar na estrada real. Siga sempre para a esquerda, que há de logo encontrar a venda; se quer, vou acompanhá-lo...
— Não, não é preciso, disse Carlos. E pôs-se a caminho.
— Maria das Dores voltou para junto de Alfredo. Este, assim que soube que o irmão fora à venda, exclamou:
— Que tolice de Carlos! Pensa que eu não sou capaz de andar sozinho por essas estradas! Como se eu não soubesse ir daqui ao Riachinho!
— Mas note que é longe...
— Que é que tem? De mais longe viemos nós... Viemos do Recife!
— Eu não conheço o Recife... — disse a rapariga.
— Ah! É uma bela cidade! Quando saímos de lá à procura de papai...
Neste ponto, Alfredo parou, e levou a mão a testa, cerrando os olhos.
— Que é — perguntou Maria das Dores — está sentindo alguma cousa?
— Não! Não é nada! — disse o pequeno, enxugando as lágrimas.
É que, ao pronunciar o nome do pai, Alfredo lembrara-se da sua figura, tão nobre, tão simpática, tão carinhosa, e sentiu que uma nuvem de pranto lhe toldava o olhar.
Passou-se esse dia, passou-se o segundo, passou-se o terceiro, sem que Juvêncio aparecesse. Carlos, ia à venda à procura de notícias, e voltava sem elas, apreensivo e desanimado.
Uma idéia fixa o perseguia: “Quem sabe se aconteceu alguma desgraça? — pensava. — Quem sabe se o Juvêncio se viu envolvido em algum barulho? Quem sabe se está preso?...”
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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