Universo da obra
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O paquete, em que partiam para o sul Carlos e Alfredo, era novo. Era aquela a sua sétima viagem. A bordo, tudo reluzia, limpo e brunido; brilhavam os metais; os soalhos, lavados todas as manhãs a grandes jorros de água, estavam de um irrepreensível asseio.
O comandante, a quem os dois meninos tinham sido apresentados por Inácio Mendes, e que os havia recebido com carinho, era um antigo oficial da marinha brasileira, agora reformado. Era alegre e bondoso, amigo de conversar. Logo na tarde do primeiro dia de viagem, viram-no os dois irmãos na tolda, olhando o mar e conversando com um grupo de passageiros. Aproximaram-se dele.
Não se via a costa. O mar estava calmo. O sol fulgurava sobre as ondas, dando-lhes uma coloração de seda azul achalamotada. O paquete, deixando na água um rasto de espumas e no ar um longo penacho de fumaça, guardava uma bela marcha. Carlos e Alfredo notaram que o comandante e os passageiros olhavam com insistência um ponto distante, muito ao longe. Firmaram a vista, e descobriram um ponto branco, que oscilava, muito afastado do paquete.
— É uma jangada! — estava o comandante, dizendo aos companheiros.
— Mas, assim tão longe da costa?! — não pôde deixar de exclamar o mais velho dos dois irmãos.
— Pois, então?! — disse, sorrindo, o comandante — os jangadeiros não têm medo do mar alto.
— É uma gente de uma bravura extraordinária! — afirmou um dos passageiros.
— Se é... Aqui não é muito comum o encontro de jangadas. Onde elas aparecem em maior número é da Bahia para cima. Ao longo de toda a costa do norte do Brasil, as águas estão sempre cheias dessas pequenas embarcações.
— E para que servem? — interessou-se Alfredo.
— Para a pescaria, — explicou o comandante. — Os jangadeiros são pescadores.
Agora, o pequenino ponto branco pouco a pouco ia ficando mais distante.
— Mas sempre é preciso ter muita coragem para afrontar assim os perigos do mar!
— É uma questão de hábito, — disse o comandante. — Essa gente está tão acostumada a arriscar a vida que já nem pensa nisso. Em cada uma dessas tábuas oscilantes, há sempre um homem, de pé, equilibrado, desafiando e vencendo a morte, manejando o remo fino, ou lançando a linha de pescar. Às vezes uma onda mais forte sobe para o céu, como uma montanha; jangada e jangadeiro desaparecem; mas, quando a onda cai sobre si mesma, a embarcação e o homem aparecem de novo, a embarcação sempre leve e linda sobre o mar azulado, e o homem sempre firme e sereno, tão calmo como se estivesse pisando a terra...
— Bravo! — exclamou Alfredo; — que gente!
— Em Pernambuco, e em todo o norte do Brasil, há milhares de criaturas que vivem assim, nessa trabalhosa existência, expondo-se aos naufrágios, para ganhar o pão de cada dia... Esses homens fazem-se ao mar ao romper da manhã, e vêem o dia todo escoar-se lentamente, na solidão das águas, e só voltam à terra quando cai o crepúsculo da tarde. Mas nem sempre voltam...
— Muitos morrem, não?! — interrogou Alfredo.
— Alguns... O mar também tem fome, — e não é muito raro que a jangada, surpreendida pelo temporal, fique boiando sozinha, sem o seu jangadeiro, tragado pelas ondas ou devorado por um tubarão.
A jangada tinha desaparecido de todo. Agora, nada mais se via, senão o céu e a água... Desfez-se o grupou dos que conversavam, e os dois meninos ficaram ainda algum tempo contemplando o mar.
— Quantos perigos corre a gente aqui! — disse Alfredo.
— Nem tantos! — tranqüilizou-o Carlos. — Hoje a navegação é muito mais fácil, muito menos perigosa do que antigamente...
Ouviu-se um toque de sineta. Era a chamada para o jantar.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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