Universo da obra
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Ali ficaram longas horas, e ficariam todo o dia, se o porteiro do cemitério não tivesse ido procurá-los.
Ergueram-se ainda chorando, e saíram. Para onde iriam agora? Carlos tinha no bolso três mil réis: era essa toda a sua fortuna. Pensando nisso, mediu toda a miséria da sua situação. Eram três horas da tarde; e ainda não haviam almoçado... Carlos viu que o irmãozinho, abalado pela desgraça terrível, e debilitado pela viagem e pelo jejum, mal se podia ter em pé.
Compraram a uma quitandeira ambulante um pouco de peixe assado. Enquanto comiam, — o mais velho dos dois irmãos, com a energia moral que felizmente não o abandonava nunca, encarou de frente o futuro, e procurou o meio mais fácil de sair de tão crítica situação.
Lembrou-se logo de recorrer aos seus parentes do Rio Grande do Sul, comunicando-lhes pelo telégrafo a morte do pai, e pedindo-lhes algum auxílio. Eram as únicas pessoas que ainda podiam interessar-se pela sorte dos dois órfãos. Mas aquele minguado dinheiro, que lhes restava, mal bastaria para cobrir a despesa com o telegrama... Como viveriam, enquanto esperassem uma resposta? Que seria deles, naquela cidade desconhecida, no meio de gente estranha?
Não! O melhor seria guardar esse pouco dinheiro com que sempre poderiam alimentar-se, ainda que mal, durante alguns dias, e tratar de sair de Juazeiro quanto antes. Havia dois partidos a escolher: ou voltar para o Recife, ou descer para a capital da Baía; em qualquer dessas cidades encontrariam conhecidos e amigos do pai, que os socorreriam, facultando-lhes o meio melhor de se comunicarem com os parentes do Rio Grande do Sul, e dando-lhes — quem sabe? — algum dinheiro com que para lá pudessem imediatamente seguir, se não preferissem ficar à espera da resposta. Voltar ao Recife seria quase uma loucura: não poderiam fazer frente às despesas de tão longa e penosa viagem. Para a Baía, a viagem era mais fácil. Se tivessem dinheiro bastante, tomariam a estrada de ferro... Mas, sem dinheiro, era preciso vencer a pé vinte e cinco léguas até Vila Nova da Rainha, onde mais facilmente arranjariam passagem até a Baía...
Carlos não hesitou mais. Decidiu partir, e partir sem demora, sem querer perder tempo em pensar no imenso sacrifício dessa jornada a pé, por um sertão bravio, sem pouso certo, sem auxílio de qualquer espécie. E, às quatro horas, estavam a caminho. O mais velho carregava o embrulho das roupas, e o mais moço conduzia o pequeno farnel, adquirido com uma rigorosa economia, e constituído por bolachas, biscoutos e um pouco de carne seca.
— Tudo é preferível — disse Carlos a Alfredo — à indecisão. Não nos deixemos abater pela desgraça, e procuremos salvar-nos do apuro em que nos vemos.
Alfredo ganhou coragem; e os dois órfãos entraram a caminhar com resolução, confiando no acaso. Mas, ao cabo de dois quilômetros, o pequeno foi obrigado a parar, extenuado de fadiga e de sede.
O lugar era deserto e seco: nem sombra, nem água. Alfredo não se pôde conter, e desatou a chorar. Carlos sentou-o ao seu lado, tomado de uma aflição terrível: parecia-lhe que o irmãozinho ia morrer ali, ao desamparo...
Mas uma voz cantou ao longe:
Foram-se os tempos felizes,
Mas outros dias virão;
E eu cantarei mais alegre,
Ao lembrar o meu sertão...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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