Universo da obra
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Carlos reanimou-se... Houve um silêncio, e, depois, a voz, já mais perto, repetiu a copla. Daí a pouco, assomou na estrada um viajante.
Era um rapazinho de dezesseis ou dezessete anos, vestido à moda do sertão: camisa de algodão grosso branco, paletó e calças de algodão riscado, sapatos e chapéu de couro vermelho. O tipo era simpático, moreno, entre caboclo e mulato, — de rosto largo, boca rasgada, olhos vivos e inteligentes. Alfredo quase ficou assustado, quando o viu perto de si; mas o tom de voz do viajante logo dissipou todos os receios:
— Que é isso? O menino está doente? — perguntou ele a Carlos.
— Não. Está muito cansado, e com muita sede. Não haverá aqui perto uma casa, um abrigo qualquer, — ou ao menos uma fonte?
— A falar verdade, não sei, porque não conheço estas paragens, e nunca por aqui me perdi: mas é impossível que não more alguém por aí fora... Quanto a água, ainda tenho um bocado na cabaça...
E, tirando a cabaça, que trazia ao ombro presa à extremidade de um cacete, entregou-a a Carlos. E continuou, indicando o sul:
— Olhe! Ali para aquele lado há uma quebrada coberta de mato... não vê? Pois, ali deve haver água... Vosmecês para onde vão?
— Para Vila Nova da Rainha.
— Ah! Então, vamos fazer juntos a viagem, porque eu também vou para lá.
— Nós não conhecemos o caminho...
— Isso não importa! “Quem tem boca vai a Roma...” Agora, precisamos sair daqui, porque este sol é que está fazendo mal a seu irmãozinho. Vamos andando para a frente, a ver se encontramos alguma moradia por aqueles lados!
— Mas, senhor... disse Carlos, hesitando, por não saber o nome do novo companheiro.
— Chamo-me Juvêncio...
— Mas, Sr. Juvêncio, se as casas não estiverem à beira do caminho, passaremos por elas sem as ver...
— Isso não! Se houver casas, há de haver algum caminho que venha ter à estrada, — disse o novo companheiro.
E, voltando para Alfredo:
— Dê-me o seu embrulho; vosmecê está tão cansadinho que mal pode agüentar-se.
Tomou o embrulho, e suspendeu-o ao pau, que levava ao ombro, juntamente com uma trouxa e a cabaça de água. E puseram-se a caminho.
— Vosmecês não são daqui?
— Não. Somos do Recife.
— E que é que andam fazendo por aqui?
Carlos hesitou um momento sobre se devia contar ou não a sua história àquele desconhecido. Mas a fisionomia deste era tão franca, e o seu olhar denotava uma tão rude e boa sinceridade, que o menino não se conteve, e narrou-lhe os acontecimentos que o tinham trazido até ali. Juvêncio ouvia-o com interesse e compaixão; e, enquanto o ouvia, ia examinando a estrada, de um lado e de outro. Em certa altura, exclamou:
— Olhem! Aqui está uma batida que desce. Quem sabe se ali em baixo há uma casa?
Carlos e Alfredo atentaram, e viram que o que ele chamava “uma batida” era um trilho estreitíssimo, quase invisível, como um caminho de formigas. Dirigia-se para a esquerda, e ia ter a um capão de mato. Seguiram por ele esperançados. O terreno era mais fresco, a vegetação viçosa. Pouco adiante, o trilho enveredou por dentro do mato, entre árvores grossas e altas de troncos direitos.
Iam a um de fundo. O rapaz seguia na frente, muito animado e comunicativo, conversando sempre. De repente, estacou, pousou no chão os embrulhos e a cabaça de água, e desfechou com o pau uma forte pancada no solo.
— Que é? — gritou Alfredo.
— Uma cobra... uma cascavel — disse o rapaz, com naturalidade.
O pequeno recuou assustado.
— Não é nada! Isto aqui pelo mato é assim... quem anda pelo mato encontra cobras... Mas quem está acostumado já não se espanta. Tudo está em ter a gente muito cuidado, e ver onde pisa. O perigo está em bater em uma delas com o pé: estas cobras geralmente só atacam a gente quando são tocadas...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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