Universo da obra
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— Prompto! aqui está a agua! — disse Juvêncio, entrando, lepido e alegre.
Trazia o rosto, as mãos e os pés lavados... Vendo Carlos e Alfredo naquella attitude desanimada e lacrimosa, condoeu-se d'elles:
— Não chorem! vamos comer alguma cousa... Depois, hei de contar-lhes a história da minha vida, e vosmecês hão-de vêr que eu também tenho muitas razões para ser triste, apesar d'este meu ar alegre... Vamos comer.
Tirou da trouxa um naco de carne-de-sol, um peixe assado, e um pouco de farinha. Assou a carne ao calor da fogueira, aqueceu o peixe, e fez a distribuição. A refeição foi completada com os biscoutos que os meninos traziam. Carlos e Alfredo, sentados no chão, e o rapaz, de cocoras, ao pé do fogo, comeram com apetite. Emquanto comiam, conversavam:
— Ninguem no mundo — disse Juvêncio — das pessoas que conhecem vosmecês, é capaz de imaginar que vosmecês estejam no sítio em que estão... Quem imaginaria que haviam de andar por este sertão, a pé, comendo no chão, bebendo agua em cabaça, dormindo assim sem commodidade, num ermo como este, dentro de um rancho tão pobre? Tudo, no mundo, é para o bem da gente... Vosmecês ficam conhecendo a sua terra... Eu, por mim, gósto muito d'estas cousas, e já não estranho os incommodos das viagens. Era capaz de ir de um polo ao outro como dizia o meu mestre!
— Ui! — gritou Alfredo.
Ouviu-se de repente um ruido rapido e surdo e viu-se um vulto atravessar o espaço, cortando o ar, e sumindo-se pela porta do rancho. Dir-se-ia, pelo tamanho, uma pomba-rôla.
— É um morcego que estava dormindo ahi! — disse Juvencio.
— Um morcego! exclamou Alfredo — Dizem que esse bicho chupa o sangue da gente...
— É muito raro. E as feridas que resultam da sua picada nunca são perigosas: sómente nas crianças recemnascidas é que podem apresentar alguma gravidade. Os morcegos atacam de preferencia os animaes.
— E os animaes não se defendem?
— Não, porque são atacados durante o somno; e, além d'isso, quasi não sentem a dentada, porque o morcego, quando morde, abana as azas e faz com que a língua sobre a pelle, uma cocega ligeira, que disfarça a dor...
— Então o morcego tem dentes, para morder?
— Tem. O morcego voa, mas não é passaro. É um animal como o rato, com o corpo coberto de pêlos; tem focinho e cauda, bocca e dentes.
— Como é que você sabe tudo isso? — insistiu Alfredo, com a sua eterna curiosidade.
— Porque já vi! vi morto, um dia, um morcego, e examinei-o bem.
A conversa continuou. Juvencio começou a falar das cousas e das gentes do sertão, dos animaes, das pessoas que nelle vivem. Contou os costumes dos sertanejos, que vivem á custa das roças que cultivam e do gado que criam:
— A terra é muito rica, e nunca nega o sustento a quem sabe tratal-a: dá o milho, o feijão, a mandioca, o algodão, o fumo, a cana; e, além de alimentar os homens, ainda alimenta os bois, os carneiros, as cabras, os cavallos que, bem tratados, são para o criador uma verdadeira fortuna. No tempo das chuvas, ha uma fartura geral: o gado engorda, as vaccas dão muito leite, com que se fabricam queijos e requeijões. Mas no verão, na época das sêcas, quando se passam commummente seis e oito mezes sem um pingo de chuva, os campos mirram, as plantações morrem, os pastos ficam torrados, os rios e as fontes secam, o gado em grande parte morre de fome e sêde, e até os homens, para não morrer, andam, ás vezes leguas e leguas, em busca de agua. Quando a sêca dura muito, ha muita gente que morre, quando não emigra em tempo para outros lugares menos assolados pelo rigor do verão. Apesar de tudo isso, a gente toda, que aqui nasce, ama loucamente o seu sertão, e supporta com paciencia e coragem esses revezes.
— É uma boa gente, não é, Juvencio?
— É uma gente muito boa, muito honrada. O sertanejo é sempre serio e fiel. Pode ser desconfiado, mas gosta de praticar o bem. Toda a gente do sertão é hospitaleira e caridosa. Eu sei o que estou dizendo, porque já tenho recebido muitos beneficios de todo este povo.
— É verdade! — exclamou Alfredo — você de onde é, Juvencio? Cumpra a sua promessa, e conte-nos a sua história!
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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