Universo da obra
Universo da obra
“Minha madrinha abraçou-me chorando — prosseguiu Juvêncio — e quis que eu partisse imediatamente. Mas tranqüilizei-a, dizendo-lhe que eram apenas onze horas da manhã, e que somente à noite o desalmado me procuraria. Era um engano! Por volta de meio-dia, ouví a voz dele: — Está aqui, sim! Está aqui! Não negue!
— Minha madrinha, pálida de terror, só me pôde gritar: —Ganha o mato, Juvêncio!
“Voei pelo quintal, como um foguete. Por trás da casa, entendia-se um catingal: caí nele, e corri, sempre para a frente, durante uns dez minutos. Parei, e verifiquei que ninguém me seguia. Arrependi-me logo de ter fugido: refleti que o miserável talvez se vingasse de mim, espancando a mulher... Dei uma volta, e ganhei a estrada. Daí avistei o meu perseguidor, que voltava para o povoado, em companhia de dois soldados. Escondi-me, para que não me vissem, e, quando calculei que já deviam estar longe voltei à casa: não tinha almoçado, e estava caindo de fome. Enquanto eu comia alguma coisa, minha madrinha e a irmã resolveram ir à vila, à procura de informações sobre o que meu inimigo contava fazer.
“Voltaram às quatro horas da tarde, muito contentes. Falaram ao delegado, e este dissera-lhes que estava tudo acabado, que ficassem tranqüilas, que eu não seria preso...
“Não acreditei nisso, pois bem sabia que o ódio do meu tutor era implacável. O que me tranqüilizava era que, devendo haver eleições no dia seguinte, o delegado, os oficiais de justiça, e os soldados estariam muito ocupados, e não pensariam em mim. Em todo o caso, deliberei partir ao raiar do dia. Jantei, e deitei-me cedo. Pelo meio da noite, ouví a voz de minha madrinha, que me chamava: — Acorda, Juvêncio! Acorda, que o maldito está aí!
“Tinha-se formado uma grande tempestade; e entre o ruído da queda da chuva e o rumor forte dos trovões, ouvi a voz de meu tutor, que bradava:
Abram! Abram! Senão, meto a porta dentro! — enfiei as calças às pressas, e corri para a porta do fundo. Mas, ouvindo vozes, compreendi que estava cercado. Fui à cozinha, onde o telhado era tão baixo que a mão facilmente o alcançava, afastei duas telhas, subi para o teto da casa, saltei para o catingal, e desatei a correr como um louco, tomando o rumo do sul, que era a direção oposta à da vila.
“Um pouco adiante, alcancei a estrada. Mas a chuva caía sem cessar. Era um verdadeiro dilúvio! Descia pela estrada, numa cachoeira; e tudo estava tão escuro, que eu só via onde punha o pé quando um relâmpago alumiava o céu. Molhado inteiramente, com a roupa pegada ao corpo, corria sempre, para o lado da mata. Era o que me valia: era esse o lado que eu mais conhecia. Quando já me pareceu ter andado uma légua, parei, e tentei achar um abrigo. Foi em vão. Chovia cada vez mais, e as árvores, sacudidas pela ventania, escorriam água. Continuei a caminhar. Andei mais meia légua. A tempestade abrandou. A chuva foi cessando, e apareceram os primeiros clarões do dia. Entrei no mato, e encostei-me a uma pedra, para descansar um pouco. Encolhido, regelado até os ossos, adormeci.
“Quando acordei, devia ser meio-dia. O sol estava a pino, quente como fogo. Mas eu tremia, sacudido por uns tremores, como os calafrios das sezões. Doíam-me a cabeça, o peito e as cadeiras. Sentia ânsias. Veio-me uma tosse seca, e comecei a sentir uma dor muito forte, muito fina, sob as costelas. Não podia respirar, e parecia-me que, tonta, a cabeça andava à roda. Olhei em torno e reconheci que estava justamente no ponto do mato, tão meu conhecido, onde vinha sempre fazer carvão. Quis levantar-me, mas as pernas doíam-me tanto, que fiquei quieto.
“Ah! Vosmecês não podem imaginar o que senti então! Via-me ali perdido, desamparado, sentindo que ia morrer, sem esperar socorro! E pensava: — se fico aqui, morro abandonado, sem Ter quem me dê um golpe d’água: se saio para a estrada, prendem-me, e vou sofrer as maldades daquele homem ... eu que nunca fiz mal a ninguém!...
“Fiz um esforço desesperado, levantei-me, andei uns dez passos e dei com uma picada, um caminho de arrastão de madeira. Verifiquei que estava perto de casa de um velho serrador, onde eu e os meus companheiros da oficina descansávamos às vezes, quando vínhamos fazer carvão. Animei-me, e arrastei-me para lá. Mas pernas não me podiam levar. Deixei-me cair no chão, — e, por felicidade, avistei o velho serrador, com as suas grandes barbas brancas de missionário. Ele reconheceu-me, aproximou-se, tomou-me ao colo ...
“Perdi os sentidos ...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.