Universo da obra
Universo da obra
Andaram mais uma légua, e chegaram a um sítio, a uma fazenda de criação de gado, à beira da estrada. Era quase noite, e, sem discussão, resolveram dormir ali. A princípio, pensaram em andar mais um pouco, e ir pedir pousada na casa da fazenda: mas estavam tão cansados, e a casa ainda devia ser tão distante, que deliberaram pousar no rancho deserto que encontraram: estariam mais em liberdade, e não incomodariam o fazendeiro.
Entraram, apanharam lenha, acenderam uma fogueira, e forraram com folhas secas o chão do casebre.
Enquanto Juvêncio e Carlos preparavam o jantar, Alfredo saiu, e adiantou-se alguns passos pelo campo. A essa hora, vinha o gado recolhendo. O céu ia pouco a pouco trocando a cor pálida do crepúsculo pela cor escura da noite. As estrelas começavam a palpitar no firmamento. Alfredo, encantado, contemplava os bois, os bezerros, as cabras, os carneiros que passavam com a cabeça baixa, num tropel cerrado e confuso. Atrás do rebanho, vinha o vaqueiro. Era um homem de feia catadura, barbado. Avistando o menino, parou, mirou-o durante alguns segundos, e chamou-o. Alfredo hesitou, acanhado, mas animou-se.
— Quem é você? — perguntou o vaqueiro, com voz rude.
— Sou... sou... — titubeou o pequeno.
— Sou... sou... hem? É com certeza algum vagabundo. Não quero vagabundos aqui! Afaste-se, afaste-se quanto antes!
Transido de medo, com os olhos cheios de lágrimas, Alfredo voltou ao rancho e contou aos companheiros o que lhes sucedera.
— Que maldade! — exclamou Carlos — enxotar-nos daqui, a esta hora! Que mal lhe fazíamos nós?!
— Ora, paciência! — disse Juvêncio — vamos levantar acampamento! Dormiremos no mato. A noite está boa.
Saíram, e enveredaram pelo negror da noite. Carlos ia acabrunhado, pensando na dureza da alma daquele homem. Alfredo mal podia caminhar, e gemia. Cerca de trezentos metros adiante, avistaram uma luz, fixa e brilhante como a de um farol.
— Ali há uma casa. Vamos ver se nos dão pousada! — disse Juvêncio.
— Não, protestou Carlos; — prefiro dormir no mato a sujeitar-me a ser expulso outra vez!
— Mas nem todos os homens são perversos como aquele bruto! — retrucou o rapaz. — Quem sabe? Talvez acharemos ali gente de bom coração... Se nos repelirem, paciência; mas o nosso dever é ver se arranjamos um pouso. Olhe que seu irmão está quase caindo de cansaço, e não está acostumado a dormir ao relento!
Esta última razão bastou para vencer a resistência de Carlos. Felizmente, a casa não estava longe. Alcançaram-na com algumas passadas. Era uma construção baixa e modesta, mas muito limpa, tendo ao lado um curral de cabras, e mais adiante uma roça bem cuidada. Bateram à porta; acudiu logo ao chamado um homem ainda moço, simpático, que era o dono da casa. Juvêncio não se enganara: tinham encontrado gente de bom coração. O homem acolheu-os com afabilidade, e tratou de agasalhá-los do melhor modo possível, dando-lhes comida boa e abundante.
Quando estavam terminando a refeição, alguém bateu à porta, que se abriu para dar passagem a um visitante. Carlos, Alfredo e Juvêncio não puderam conter um grito de alegre surpresa: o recém-chegado era aquele mesmo carreiro, com quem se tinham encontrado de manhã. Era irmão do dono da casa, e vinha também pernoitar ali, depois de ter depositado a lenha num sítio próximo.
No dia seguinte, Alfredo acordou com os tornozelos vermelhos e inchados. Ser-lhe-ia impossível continuar a viagem a pé, sem ter descansado mais algum tempo. O dono da casa declarou terminantemente que não o deixaria sair naquele estado: e a mulher começou logo a tratar o pequeno, lavando-lhe os pés com uma mistura de água quente, aguardente e sal.
Depois do almoço, o dono da casa e o carreiro saíram para o trabalho. Enquanto Alfredo ficava em casa, repousando, Carlos e Juvêncio foram a passeio, e internaram-se pelo mato próximo. Juvêncio sentia-se ali dentro como em sua casa, movendo-se e dirigindo-se com facilidade naquele intrincado de ramos e cipós.
— E se nos perdêssemos por aqui... — lembrou Carlos.
— Qual! Não vê como vou assinalando todos os lugares por onde passamos?
Efetivamente, de distância em distância, Juvêncio quebrava ou torcia um ramo, marcando assim, quase de passo em passo, o roteiro que seguia. O mato era rico de caça. O sertanejo, de vez em quando, mostrava a Carlos um rasto de animais no chão, ou apontava um pássaro grande pousado nos galhos altos de uma árvore:
— Ah! Seu Carlos! — exclamava ele — quem me dera aqui uma boa espingarda! Já não voltaríamos para a casa com as mãos abanando!
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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