Universo da obra
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Profundamente abatido pelas terríveis comoções daquele dia, Carlos quis desistir do seu projeto de acompanhar a boiada.
— Nada! — disse ele a Juvêncio — já fiquei conhecendo bem os perigos a que a gente se expõe, neste ofício de lidar com bois bravos... Quase vi o Alfredo morto, e escapei também de ser mutilado pelos chifres daquele novilho... Para que havemos de arriscar a vida inutilmente? Não esperemos pela partida da boiada, e partamos hoje mesmo!
— Bem! — respondeu o rapaz sertanejo — não sigamos com a boiada, mas, em vez de partir hoje, partamos amanhã. Aproveitaremos o dia, para consertar nossas roupas que estão rotas...
Assim fizeram. Remendaram e coseram as roupas, e, no outro dia, despediram-se do criador, que lhes forneceu generosamente alguns víveres, e partiram.
Caminharam durante quase todo o dia, vagarosamente — para evitar a fadiga, — e parando de quando em quando.
A estrada era boa, mas desabrigada, sem árvores, cortando terrenos despovoados e secos, muito castigados do sol. Os rapazes ofegavam e suavam, com as faces afogueadas pelo calor.
Ao cair da tarde, entraram numa região mais fresca, mais coberta de mato, e, ao mesmo tempo, mais cultivada. Sentia-se que havia habitações ali perto.
À beira da estrada, encontraram, numa encruzilhada, num sítio baixo, sombreado e triste, um ranchinho de telhas, aberto por todos os lados, abrigando uma cruz. Era um cruz de pau tosco, já enegrecida pelo tempo, — mas enfeitada com flores e fitas de papel.
Pararam todos: e Alfredo lembrou-se de já ter encontrado, várias vezes, pelo caminho, outras cruzes como aquela...
— Que quer dizer isto? — perguntou ele. — Desde Pernambuco, venho encontrando estas cruzes...
— Estas cruzes — explicou Juvêncio — marcam quase sempre os lugares onde mataram gente. Também, às vezes, marcam a sepultura de pessoas pobres, cujos corpos não puderam ser conduzidos para os cemitérios... Mas, em geral, quando se levanta uma cruz à beira da estrada, isso quer dizer que aí foi assassinada uma pessoa. Antigamente, cometiam-se por aqui muitos crimes: por qualquer causa insignificante, um indivíduo tirara a vida ao outro; e, naturalmente, os assassinos sempre praticavam as suas maldades em lugares ermos como este. Vinham esperar a vítima, e matavam-na a tiro ou a facada...
— E a polícia? — perguntou Alfredo.
— Ora, antigamente, quase não havia polícia por aqui. Era preciso que a vítima fosse alguma pessoa importante ou rica, para que as autoridades se abalassem. Na maioria dos casos, os criminosos ficavam sem castigo. Enterrava-se uma cruz no lugar em que o desgraçado tinha caído morto, — e não se tratava mais do caso.
— Mas a cruz está enfeitada... — notou Carlos — quem a terá enfeitado?
— Foi o povo... Quando uma pessoa morre assim, caída da perversidade um malvado, o povo acredita que a alma dessa pessoa foi logo para o céu, e começa a fazer-lhe “promessas”: acende velas, e coloca flores no lugar em que se deu o crime; às vezes até se levantam capelinhas, onde o povo vem rezar...
— Que horror! — exclamou Alfredo — e há sempre assassinatos?
— Ah! Não! Os tempos mudaram. Os costumes são outros. Agora são raros os crimes.
Continuaram a caminhar. Cem metros adiante a estrada subia, costeando um morro. Apareceram algumas casas, na colina; e, em breve, os viajantes chegaram a um pequeno arraial, formado por pouco mais de uma dúzia de habitações. A primeira casa do arraial era uma “venda”. Para aí se dirigiram os rapazes, e pediram ao vendeiro que lhes permitisse que se aboletassem debaixo de um telheiro ao lado.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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