Universo da obra
Universo da obra
No sítio de Tibúrcio, separaram-se os três de Bento Função, que lhes entregou a prometida carta para o compadre Martinho. Partiram a cavalo. Mas em Jaguarí uma nova decepção os esperava: Martinho estava viajando havia dois dias, e não devia voltar senão daí a mais de uma semana. E não havia quem o representasse e pudesse atender aos rapazes...
— Que fazer? — perguntou Juvêncio. — Voltar?
— Isso não! — respondeu logo Carlos. — Daqui, só para diante, e haja o que houver!
Deixaram os cavalos na casa de Martinho, e começaram a andar, tristes e apreensivos.
Juvêncio, que, com a sua previdência, não deixava de pensar em tudo, refletia. De repente, falou:
— Se eu arranjasse aqui o meio de ganhar qualquer dinheiro, trabalhando, estaríamos salvos. Poderíamos ficar uns dois ou três dias; e não seria inútil esse descanso, depois dos trabalhos e das comoções que tivemos...
— Arranjar trabalho? Aí está o que nem sempre é fácil... — disse Carlos.
Nesse momento, passavam diante de uma oficina de ferreiro. Lá dentro era grande a atividade. Via-se flamejar o fogo, e ouviam-se choques violentos e repetidos de metais. Juvêncio murmurou:
— Tenho uma idéia... Vou perguntar ali se precisam de um ajudante. Se disserem que não, paciência!
Entraram. O ferreiro, batendo com o malho um peça de ferro incandescente, que o aprendiz apoiava sobre a bigorna com uma tenaz, não pareceu dar pela entrada dos três viajantes.
— Desculpe-me, se o interrompo — disse Juvêncio, — o senhor não terá por agora necessidade de um ajudante?
O ferreiro interrompeu o trabalho, passou o martelo sobre o cepo da bigorna, e disse:
— Se tenho! Justamente adoeceu hoje o rapaz que tratava do fole, e estou atrapalhado com um trabalho urgente. Você conhece alguém que me possa servir, rapaz?
— Conheço, sim, senhor!
— E quem é?
— Sou eu.
O homem examinou-o com atenção, e não pareceu ficar muito satisfeito com a sua pouca idade:
— Você?
— Sim, Senhor! Não sou muito desenvolvido, mas sou forte, e trabalho bem. Além disso, conheço esse trabalho, porque já fui aprendiz de ferreiro.
— Homem! — disse o ferreiro, hesitando — você nessa idade não pode prestar grandes serviços... Depois, vocês todos, quando se querem empregar, pedem tanto dinheiro...
— Eu não! — acudiu Juvêncio — olhe! Não faço questão de salário. Deixe que durmamos aqui, eu e os meus companheiros; comeremos um pouco do que houver, e, se o senhor, no fim da tarefa, ficar satisfeito comigo, poderá dar-me o que quiser...
— Lá quanto à dormida e comida, estamos entendidos. Não faltam por aí cantos onde vocês se deitem; e comida, graças a Deus, nunca faltou nesta casa... Vá lá! Aceito os seus serviços; e, se você for trabalhador quanto é “despachado”, sempre há de ganhar algum cobre... Mas é bom ficar bem entendido que só o emprego enquanto o outro rapaz estiver doente.
— Não há dúvida! Nós temos necessidade de continuar a nossa viagem, e não tencionamos demorar-nos...
Juvêncio foi logo pôr o avental, e começou a trabalhar, com grande divertimento de Alfredo, que achava em tudo aquilo mais uma novidade para sua distração.
O rapaz sertanejo tomou conta do fogo da forja, e do grande fole, que era movido por uma grossa corda; ora deitava carvão no braseiro, ora puxava a corda: o fole abria-se e fechava-se, expelindo ar para o montão de brasas, e ativando as chamas, a que o ferreiro expunha as peças de ferro, até que ficassem incandescentes e prontas para o trabalho.
Carlos, deixando os dois companheiros na oficina, foi dar uma volta pela vila. Alfredo não quis sair; preferiu ficar ali, admirando a labuta dos ferreiros.
O patrão, ajudado pelo aprendiz, trazia as peças ao fogo, e ia depois de batê-las sobre a bigorna. Um outro operário, nos fundos da oficina, estava ferrando um cavalo, pregando-lhe nos cascos as ferraduras novas, que ali tinham sido feitas. Um terceiro, com o auxílio de uma grossa lima de aço, estava polindo eixos de carroças.
Alfredo corria, encantado, toda a oficina, examinando os objetos que se enfileiravam, encostados à parede: instrumentos, eixos de carros, montes de pregos, argolas de ferro, grades. Havia também chaves e fechaduras, porque a oficina era, ao mesmo tempo, uma oficina de ferreiro e de serralheiro. Alfredo sentia apenas que Juvêncio não pudesse prestar-lhe atenção, para lhe explicar a utilidade de todas aquelas cousas...
Mas o sertanejo não tinha mãos a medir: trabalhava deveras. A forja chamejava. O fole movia-se, com um ronco surdo. E enchia-se a oficina de um barulho metálico e estridente, que ia ecoar longe, animando todo o lugarejo...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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