Universo da obra
Universo da obra
Carlos saíra, sem destino, para se distrair. Deu duas ou três voltas, e parou na venda da vila, — estabelecimento que era ao mesmo tempo armarinho, hospedaria e armazém de víveres.
À porta, um pequeno tomava conta de alguns cavalos arreados. Sentado no poial da entrada, um preto velho fumava cachimbo. De lá de dentro vinham vozes de pessoas que conversavam e riam. Carlos entrou para pedir um pouco de água.
Três viajantes, aos quais pertenciam, de certo, os cavalos que estavam à porta, jantavam em torno de uma mesa, ao fundo da venda. Tinham deixado sobre o balcão os chapéus, os rebenques e outros objetos de uso.
Bebendo água, Carlos reparou que, entre esses objetos, havia um maço de jornais dobrados e atados com um barbante, — e reconheceu logo que eram jornais da Baía. Imediatamente, surgiu-lhe no cérebro uma idéia: aqueles jornais trariam, talvez, notícias que o interessariam... Refletindo melhor, não pôde deixar de sorrir dessa idéia: agora que o pai estava morto, que poderia haver de interessante em tal leitura? Mas apesar dessa reflexão desconsolada, a idéia voltou a martelar-lhe o cérebro. Não se conteve mais, e perguntou ao proprietário da venda:
— Faça-me um favor: pode dizer-me a quem pertencem aqueles jornais?
— São de um daqueles viajantes que ali estão jantando.
O menino ainda hesitou. Mas o desejo de ler os jornais foi mais forte do que o acanhamento e dirigindo-se aos homens que jantavam, Carlos perguntou-lhe se lhe permitiam passar os olhos pelas folhas...
— Que é que você quer ver nos jornais, menino? — perguntou um dos sujeitos.
— Tenho parentes na Baía, e como não vou lá há muito tempo...
— Pois, leia as folhas, contando que não as estrague, e torne a dobrá-las com cuidado.
O menino sentou-se, perto da porta, sobre um caixão, e começou a desdobrar e a percorrer com a vista os jornais. Nos dois primeiros, que abriu, nada encontrou. Mas no terceiro, logo na primeira página, achou algumas linhas que o perturbaram, fazendo-o empalidecer de comoção.
Era um aviso da redação, com o título: “Meninos desaparecidos”.
Dizia: “pedem-nos que chamemos a atenção dos nossos leitores e das autoridades deste Estado e dos Estados vizinhos para o anúncio que publicamos, na seção competente, sobre o desaparecimento de dois meninos, alunos de um colégio do Recife”.
Carlos procurou ansiosamente a seção dos anúncios, e encontrou logo naquele que buscava, e vinha encimado pelo mesmo título da notícia: “De um colégio do Recife desapareceram há dias dois alunos, Carlos e Alfredo, o primeiro de 15 anos de idade, e o segundo de 10, filhos do engenheiro Dr. Meneses. Dar-se-á uma boa recompensa a quem os apresentar, ou a quem deles der notícias seguras, ao Sr. Inácio Mendes, negociante, à rua... n. ...., nesta cidade da Baía”.
O menino abençoou o pressentimento que tivera ao avistar o maço de jornais sobre o balcão; tomou nota da rua indicada no anúncio e do nome do negociante, e, depois de dobrar com cuidado as folhas e de agradecer aos viajantes, saiu apressadamente, para comunicar a notícia a Alfredo e Juvêncio.
Na oficina cessara o trabalho. Era hora do jantar. Quando Carlos entrou, já estava preparada a refeição, frugal mas boa, a que o ferreiro, os seus ajudantes, e os três meninos souberam fazer honra. O ferreiro estava satisfeito com o trabalho de Juvêncio, e conversava com animação. Juvêncio e Alfredo notavam que Carlos estava visivelmente preocupado: e observavam que o seu ar era mais de alegria do que de tristeza.
Terminado o jantar, Carlos chamou de parte o sertanejo e o irmão, e deu-lhes parte do que acabava de ler no jornal da Baía. Alfredo começou logo a saltar de contente. Mas o irmão mais velho ainda não via o horizonte cor de rosa...
— Tudo está muito bom, mas ainda não sei como havemos de chagar até a Baía...
— Ora! Como havemos de chegar à Baía! — exclamou Juvêncio — como chegamos até aqui! Nestes dois dias de trabalho, sempre hei de ganhar alguma cousa, e poderemos caminhar até Vila Nova. Daí por diante, veremos! Deixe estar, que não havemos de morrer à fome!
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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