Universo da obra
Universo da obra
A viagem até Vila Nova fez-se sem incidentes. No compartimento de Segunda classe, os três rapazes não se cansavam de recordar os casos diversos que tinham havido até ali, durante aquela difícil peregrinação.
— Quanta cousa nos tem acontecido! — dizia Carlos — se fôssemos contar tudo isso, pensariam que estávamos inventando uma história...
É verdade! — respondia Juvêncio. — Não lhe disse anteontem que não havíamos de morrer à fome? Não lhe disse? Já almoçamos bem, temos dinheiro para chegar à Baía... A gente, nesta vida, deve ter confiança em si mesma. É preciso não desanimar nunca! O dia da desgraça é a véspera da felicidade.
— O que eu admiro, Juvêncio, é a sua calma! — observou Carlos — você é de uma coragem extraordinária! Depois de tudo quanto tem sofrido, a sua alegria é sempre a mesma. Olhe que bastavam aqueles sustos que você passou em casa do coronel para abater um homem forte!
— Ah! Seu Carlinhos! A gente do sertão é toda assim! Nós não somos como muitos desses, das cidades, para quem a vida é fácil desde o princípio. No sertão, a gente sabe que só deve e pode contar consigo mesma... Depois, esta vida ao ar livre, no campo e na serra, no meio dos matos, é uma vida que dá alegria e coragem.
Alfredo, que adorava o pequeno sertanejo, e concordava com tudo quanto ele dizia, gritou:
— Apoiado! Eu também já estou ficando sertanejo, não é verdade, Juvêncio? Já monto a cavalo sem cansaço, e de nada tenho medo! A minha vontade era viver sempre no mato!
Carlos sorria, ouvindo a tagarelice do irmão. Juvêncio levantou os ombros, e respondeu:
— Não diga isso! O senhor é um menino de boa família... O senhor e seu irmão hão de estudar, hão de ser engenheiros como seu pai, ou médicos, e nunca mais hão de pensar no sertão, nem em mim...
Carlos, comovido, disse então, com voz grave:
— Juvêncio! Não quero que você diga isso. Você então supõe que esqueceremos algum dia estas semanas em que vivemos e penamos juntos? Eu e meu irmão não somos ingratos. Olhe! Vamos fazer um juramento, aqui: eu prometo que nunca me hei de separar de você!
— Ah! Isso é cousa que nunca se pode jurar! — disse o rapaz — daqui a pouco, quando chegarmos à Bahia, eu irei para o meu lado, os senhores irão para o seu...
— Embora! — afirmou Carlos com energia — poderemos separar-nos pelas necessidades da vida, mas nunca pela indiferença ou pela inimizade. Vamos prometer que seremos sempre amigos. Eu, por mim, juro-o pela memória de meu pai!
— Eu também juro! — exclamou Alfredo com entusiasmo.
O pequeno sertanejo tinha os olhos cheios de lágrimas, e não sabia o que queria responder.
O trem corria, a toda velocidade. O dia era lindo. Um sol risonho alegrava a paisagem. E havia qualquer cousa tocante e sublime naquele grupo de três crianças, que o sofrimento unira, e que assim prometiam estimar-se sempre, querendo robustecer pela constância do afeto os laços que as provações da vida tinham criado.
Juvêncio, por fim, disse com voz trêmula de comoção:
— Eu também juro que nunca me hei de esquecer dos senhores, e que hei de fazer o possível para, depois de homem feito, ir encontrá-los onde quer que estejam!
E continuaram a viagem, alegrados por aquele juramento de amizade.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.