Universo da obra
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Quando tomaram o trem, que devia deixá-los na Bahia, eram mais de duas horas da tarde. Carlos respirou. Não deixara de apreciar a visita ao engenho, mas o desejo ardente que tinha de chegar à capital da Bahia não lhe dava margem para qualquer distração ou divertimento. Estava ansioso por tocar o termo daquela vida de aventuras e de expedientes. Enfim, via aproximar-se esse termo, tão fervorosamente ambicionado. Dali a menos de cinco horas, — que tanto dura a viagem de Alagoinhas à Bahia, — ia ele saber o que o esperava, e qual o rumo que devia tomar com o irmãozinho.
O que mais preocupava Carlos não era a sua própria sorte; era a de Alfredo, tão criança ainda, e que daquele modo se expusera a perigos sem conta, atravessando os sertões, alimentando-se mal, dormindo mal, mal vestido. Felizmente, nada acontecera de muito grave. Mas só em pensar nos perigos passados Carlos estremecia de horror.
Alfredo, esse não tinha preocupações. Encostado à janela do carro, contemplava a paisagem, divertia-se com o movimento dos passageiros e com o atropelo das bagagens nas estações de parada, e fazia perguntas sobre perguntas a Juvêncio, que respondia como podia, às vezes bem embaraçado para satisfazer aquela inesgotável curiosidade.
Por volta das quatro horas da tarde, o trem atravessou sobre uma ponte o rio Jacuípe, de águas plácidas, banhando margens cobertas de abundante vegetação, e, logo depois, parou numa estação. Havia quinze minutos de demora, e os rapazes desceram, para, como dizia Juvêncio, desenferrujar as pernas. Assim que pisaram a plataforma da estação, uma voz gritou:
— Juvêncio!
O sertanejo voltou-se, e teve uma exclamação de júbilo:
— Oh! Manuel!... — e precipitou-se para abraçar um rapaz, pouco mais velho do que ele, que lhe retribuiu o abraço com efusão.
Eram conhecidos antigos, filhos da mesma terra, criados juntos. Juvêncio apresentou-o aos seus companheiros.
— Para onde vão? Perguntou Manuel.
— Para a Bahia.
— E eu também! — disse ele.
E começou a contar o que tinha feito, depois que saíra de Cabrobó. O pai mudara-se de lá para uma roça, perto da cidade de São Francisco. A mãe falecera, e o velho ficara muito acabrunhado de desgosto, começara a ficar inativo e triste, e agora estava doente, numa cama, sem se poder mover. De modo que era ele, Manuel, quem sustentava toda a família.
— Como, Manuel?
— Trabalhando. Apesar da minha pouca idade, sou o homem de confiança do dono da fazenda, em que me empreguei. Sou eu, por assim dizer quem dirige tudo, quem faz as compras, e quem paga as contas. Agora vou à Bahia receber um dinheiro do patrão, uns três contos de réis.
— E não tem medo de viajar sozinho, com tanto dinheiro? — perguntou Carlos.
— Não, porque ninguém imagina que um criançola como eu, ande com os bolsos cheios de contos de réis. Sei disfarçar, e até hoje, apesar de sempre andar fazendo estas viagens, nunca me aconteceu cousa desagradável. Uma vez... Mas a locomotiva já apitou... Vamos tomar os nossos lugares, que em viagem lhes contarei a história.
Entraram no carro, sentaram-se, e Alfredo foi logo exigindo a narrativa.
— O caso é engraçado, — começou Manuel. — Eu andava fazendo cobranças entre Curralinho e Cachoeira, e tive de pernoitar numa venda, onde achei uns sujeitos mal encarados, que também lá deviam passar a noite. Levava comigo quatro contos de réis; e, quando me fui deitar, num quarto pequeno, que havia no fundo da casa, tive um pressentimento mal: a porta do quarto não tinha chave, e as caras antipáticas dos dois sujeitos nada de bom anunciavam. Mas, como nunca me faltam expedientes, pus o dinheiro em baixo de uma bacia de rosto, que havia sobre a mesa, deitei água dentro da bacia, e meti-me tranqüilamente na rede, apagando a luz. Dormi; mas, uma hora depois, acordei ouvindo a porta ranger. Tive o cuidado de não fazer um só movimento: abri um pouco os olhos, e vi que eram os dois tratantes que entravam pé ante pé. Um deles trazia uma lanterna. Aproximaram-se da rede: fechei os olhos e fingi que ressonava. Acreditaram que eu dormia, e começaram a passar revista no quarto; esquadrinharam a minha maleta, remexeram todos os bolsos da minha roupa, espiaram debaixo da mesinha, revistaram até as minhas botas. Depois, um deles, veio apalpar-me com toda a cautela, enquanto eu ressonava mais alto ainda; quando viram que nada achariam, saíram com o mesmo cuidado com que haviam entrado, — e fiquei rindo sozinho... — Os idiotas lembraram-se de tudo, menos de levantar a bacia!
— É boa! — exclamou Alfredo — mas olhe que o senhor esteve com a vida em perigo!
— Não há dúvida! Mas salvei-me, salvei o dinheiro do patrão, e ainda hei de salvar-me muitas vezes, graças ao meu sangue frio e aos estratagemas que invento!
Com essa e outras conversas, passava-se o tempo. Ouviu-se um estrondo forte: era o trem que começava a passar uma longa ponte
É a ponte da plataforma! — disse Manuel. — Já estamos sobre o mar.
E, dali a poucos minutos, o trem chegava ao termo da viagem. Os dois irmãos e Juvêncio despediram-se de Manuel, e foram procurar a casa do negociante, autor do anúncio.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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