Universo da obra
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A manhã do dia da partida foi toda empregada nos preparativos da viagem. Carlos e Alfredo ficaram munidos de boa roupa, — porque os parentes haviam recomendado ao negociante que lhes fornecesse todo o necessário. À sua custa, Inácio Mendes, também deu alguma roupa a Juvêncio, que devia ficar morando em sua casa, até seguir para Manaus. Um outro telegrama foi expedido para o Rio Grande, anunciando o embarque dos órfãos; e estes, depois de se despedirem da senhora do negociante, de Maria Nazaré, e Georgina, e do pequeno Otávio, desceram para embarcar.
No cais, esperando o bote que os devia levar ao navio, Carlos e Alfredo sentiram o coração apertado e não disfarçavam as lágrimas que lhes molhavam os olhos. Doía-lhes a separação. Ambos estimavam Juvêncio, como se ele fosse verdadeiramente um irmão. Juvêncio também estava triste; mas o seu bom senso, a sua inteligência prática de sertanejo faziam-no aceitar como uma fatalidade inevitável aquele apartamento.
— Isto não podia durar sempre! — dizia ele — e, depois, não vai haver uma separação; não se lembram do nosso juramento?
— E hei de sempre lembrar-me dele! — exclamou Carlos.
— E eu também! — acrescentou Alfredo.
— Pois, então? Ainda nos encontraremos, e sempre seremos amigos!
— Sim! — observou o mais velho dos irmãos — mas sempre é uma tristeza que você não venha conosco... Quando me lembro do que lhe devemos...
— Nem diga isso! — atalhou o sertanejo — que é que os senhores me devem? Eu é que lhes devo tudo! Se não fossem os senhores, eu não teria encontrado este homem, que me tratou como nunca tive quem me tratasse, acolhendo-me com carinho, dando-me trabalho, e encarreirando-me na vida!
E, comovido, beijou a mão do negociante.
— Bem! Bem! — disse, enternecido, Inácio Mendes, esquivando-se aos agradecimentos — que é isto? Eu, se vou fazer alguma cousa por você, é porque você o merece. E aí está o bote...
desceram os degraus da escada de pedra, e tomaram lugar no bote, que, logo impelido pelas remadas fortes dos dois catraeiros, começou a afastar-se do cais.
A bordo, as despedidas foram rápidas e comovedoras. Inácio Mendes apresentou os meninos ao comandante e ao comissário do paquete, e abraçou-os carinhosamente, repetindo as recomendações que havia feito:
— No Rio de Janeiro, logo que chegar o vapor, irá recebê-los a bordo esse amigo, para quem lhes dou uma carta e a quem vou telegrafar logo que salte. Ele providenciará para que vocês sigam brevemente e com toda a segurança para o Rio Grande. Hão de ser tão bem acolhidos por ele, como foram por mim.
Entre Juvêncio e os rapazes ficou combinado que se escreveriam amiúdo:
— Quero umas cartas bem compridas, Juvêncio! — recomendava Alfredo. — Você há de mandar dizer tudo quanto lhe acontecer!
— Prometo! Prometo!
Um último abraço, ainda mais apertado do que os outros, pôs termo às despedidas. Inácio Mendes e Juvêncio tomaram de novo lugar no bote, que lentamente se foi distanciando do costado do navio.
Carlos e Alfredo ficaram por muito tempo agitando os lenços no ar.
Quando o bote se escondeu ao longe, entre as outras pequenas embarcações que enchiam o mar junto ao cais, os dois meninos deixaram-se ficar encostados à amurada, olhando as águas e a cidade longínqua.
Ao longo do litoral côncavo, alinhavam-se as casas imensas do bairro comercial, de quatro e cinco andares, como uma alta muralha, tapando o horizonte, e toda furada de janelas pequenas e simétricas. O sol declinava. O céu tocava-se de leves tons cor de rosa.
Carlos passou o braço pelo ombro do irmão, e beijou-o na testa...
O que mais o consolava era isto: o pai por várias vezes lhe recomendara que fossem sempre amigos, sempre unidos; e, felizmente, ali estavam eles, ao cabo de tantas aventurar e de tantos desgostos, sempre unidos e sempre amigos...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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