Universo da obra
Universo da obra
Nessa viagem, da Bahia a Vitória, Alfredo divertiu-se extraordinariamente. Logo cedo, saía do beliche, e vinha, com os pés nus, assistir à baldeação do navio. Depois conversava com os marinheiros, pedia a explicação de tudo, ia à proa, entretinha-se em contemplar as reses e as aves que tinham de ser sacrificadas à fome dos passageiros, vinha contemplar à ré o sulco de espuma que o paquete deixava na água, travava palestra com vários viajantes que gostavam da sua vivacidade, — e prestava serviços a algumas senhoras, que enjoavam, estendidas em cadeiras de lona e vime, indo buscar-lhes laranjas e limões.
Carlos, na tolda, olhando a extensão iluminada do mar, não podia deixar de sofrer, ao encarar o oceano agitado por onde o navio avançava; tudo agora lhe era desconhecido, como era desconhecida a vida que ia viver... E volveu o pensamento ao passado, e, em turbilhão acudiram-lhe à lembrança todas as cenas da vida que desaparecera coma pessoa do pai; os olhos arrasavam-se-lhe de lágrimas, torturava-o a saudade... “Nunca mais!... Nunca mais o veria! Nunca mais ouviria aquela voz, nem veria aqueles olhos de penetrante bondade!... “Carlos soluçava oprimido. “Nunca mais!... E se, por um milagre, ele aparecesse?!... E, se não tivesse morrido?...” Com este pensamento, a fronte se lhe iluminou: “quem sabe? O negociante da Bahia não conhecera seu pai... e não tinha a certeza absoluta da morte dele... A notícia dessa morte só chegara a Inácio Mendes por intermédio dele mesmo, Carlos...”
E lembrava-se Carlos de como recebera a notícia, — perto de Juazeiro, a bordo da lancha... O homem da canoa dissera apenas: “Morreu o engenheiro que estava em Petrolina”, — e não dissera o seu nome... Em Juazeiro, também ninguém lhe dissera o nome do engenheiro falecido...
O menino levantou-se agitadamente, e começou a passear pelo convés, apertando as mãos uma contra a outra... “Sim! E se o pai não estivesse morto?!” E, dizendo isso de si para si, uma sensação estranha lhe agitava o peito...
Mas essa exaltação durou pouco. Alguns momentos de reflexão mais calma bastaram para mostrar a Carlos quanto era ilusória a esperança.
Que absurdo! Pois eles não tinham seguido a pista do pai, de passo em passo, por assim dizer, — no escritório da “Estrada de Ferro de Águas Belas”, em Garanhuns, em Piranhas, em Boa Vista, em Juazeiro?... O engano era impossível!
E, tomado de um grande abatimento, deixou-se o órfão cair de novo sobre a cadeira.
Dessa situação, veio Alfredo tirá-lo, correndo e gritando:
— Carlos! Carlos! Já se vê a Costa do Espírito Santo!
Já se via, de fato, mal delineada no nevoeiro longínquo, uma vaga e baixa fita de terra.
— Antes da tarde, estaremos em Vitória! — disse um passageiro, moço ainda, que chegava à tolda com um grande binóculo.
— E poderemos descer? — perguntou Alfredo.
— Certamente! Mas não vale a pena.
— Como não vale a pena?! — exclamou o menino — sempre vale a pena ver uma cidade que nunca se viu!
— Não há dúvida! Mas...
— Então, a Vitória — interveio Carlos — é uma cidade tão insignificante, que não mereça uma curta visita?
— Não é isso o que digo! — explicou o moço. Vitória é, ao contrário, uma linda cidade... Digo que não vale a pena porque o comandante não quer ficar mais de quatro horas no porto, e tenciona partir ainda hoje. Só temos um companheiro de viagem que se destina à Vitória; e, como o navio não tem de receber carvão nem carga, o comandante prefere apressar a partida para o Rio.
Efetivamente, antes de anoitecer, depois de pouco tempo de parada, o paquete deixou o porto, tendo apenas recebido quatro passageiros: um deputado, que ia tomar parte nos trabalhos da Câmara, e embarcava acompanhado da mulher e de dois filhos.
Alfredo jantou à pressa para ver a saída do porto. Todas aquelas manobras, — o levantar das escadas, o ranger das correntes de ferro suspendendo a âncora, os primeiros movimentos do navio, rodando sobre si mesmo até colocar a proa na direção do mar largo, — tudo aquilo o interessava...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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