Leia agora
Através do Brasil

Universo da obra

Através do Brasil

Capítulo 58 · Através do Brasil

LVIII. — A tempestade

58 de 83 ≈ 4 min de leitura

No dia seguinte, logo depois do meio dia, o calor apertou. O sol queimava. Quase não havia viração. Por volta das duas horas da tarde, uma nuvem negra começou a crescer no céu, sobre a proa do navio. Carlos e Alfredo ouviram o comandante dizer:

— Não tarda muito que a encontraremos! Caminhamos para ela, e ela caminha para nós.

— Ela, quem? — perguntou Alfredo curioso.

— A tempestade.

— Jesus! — exclamou o pequeno, empalidecendo — uma tempestade?! Então, estamos perdidos?!

O comandante passou-lhe a mão pela cabeça, e disse, gracejando:

— Fique sossegado, que ainda não chegou a hora da sua morte! A tempestade, que aí vem, não há de passar de uma boa trovoada, com uma boa carga de chuva...

A nuvem crescia cada vez mais. Agora uma viração passava. Ouvia-se longe o ronco do trovão. O navio começou a jogar com mais força. Quase todos os passageiros de primeira classe estavam na tolda, ao lado do comandante admirando o espetáculo do crescer da tormenta.

— Aqui as tempestades nunca são violentas. Para um marinheiro velho, como eu, a que nós vamos ver não passa de uma brincadeira! Tempestades terríveis já vi eu!... E no mar largo, longe de todo e qualquer pedaço de terra, longe de todo e qualquer auxílio, durante longos dias seguidos!

— Qual foi a mais terrível tempestade que já viu, comandante? — interrogou um passageiro.

— Foi uma que vi no Pacífico, há uns vinte anos.

Enquanto o comandante falava, amiudavam-se os trovões. Com incrível rapidez, a nuvem crescera e cobrira todo o céu. As ondas avolumavam-se, encrespando-se, e balançando o paquete. Começaram a cair alguns pingos de água.

— Já aí está a chuva... Daqui a pouco teremos o sol de novo, porque a tormenta vai em direção oposta à nossa. É bom que vamos para dentro, se não quisermos ficar inteiramente molhados...

Entraram para a sala de fumar. A chuva desabou com extraordinária violência.

— E como foi essa tempestade de que o senhor nos falava, comandante? — perguntou Carlos.

O oficial contou logo.

— Foi, como ia dizendo, no Oceano Pacífico. Estávamos em viagem de instrução, a bordo de uma corveta de guerra. Tínhamos atravessado o estreito de Magalhães, e íamos para a Austrália. Nesse ponto do globo as tempestades são tremendas... Ficamos seis dias sem governo, à mercê das ondas. A tormenta começou ao amanhecer de um Sábado, e só amainou na Quinta-feira à tarde. Logo no primeiro dia, a fúria do vento despedaçou algumas velas, e começou a impedir todas as manobras. Era quase impossível estar no convés: o vento queria carregar tudo quanto achava no seu caminho, e soprava com uma violência incrível. Havia ondas, que mais pareciam verdadeiras montanhas, subindo a uma altura extraordinária, e vindo desabar com fragor dentro do navio. Não havia a bordo um só lugar enxuto. Não comíamos, não dormíamos, estávamos extenuados de fadiga e de fome. No quarto dia quebrou-se o leme... Foi então que nos consideramos perdidos... O navio, sem governo, dançava sobre as águas ao capricho do vendaval, e de instante a instante estávamos vendo chegar o momento da catástrofe final. Essa situação desesperadora ainda durou dois dias, ao cabo dos quais, quando já todos contávamos com a morte inevitável, o tempo melhorou de súbito.

— E ninguém morreu? — perguntou Alfredo.

— Perdemos dois homens, arrebatados das vergas pelo tufão... A bordo, estava tudo quebrado. Além da perda do leme, ainda tivéramos a do mastro grande, lascado por um raio. Foi nessa triste situação que nos encontrou um navio francês, ao qual devemos a salvação. A corveta foi conduzida até Sidney. Felizmente, a tempestade levara-nos até perto da Austrália...

— Não sabiam que estavam perto? — indagou o pequeno.

— Nada sabíamos, porque estávamos sem bússola, sem sextante. Tínhamos perdido tudo. Foi por um verdadeiro milagre que não perdemos também de todo a corveta...

A chuva cessara, como o tinha previsto o comandante. Saíram todos para a tolda.

A tempestade já ia longe. O sol brilhava de novo sobre o mar, e o paquete continuava sem novidade a sua marcha.

— A que hora chegaremos amanhã ao rio? — indagou alguém.

— Devemos chegar ao romper do dia — respondeu o comandante.

Através do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Através do Brasil

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Através do Brasil

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Através do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Através do Brasil Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 58 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Através do Brasil

Capa de Através do Brasil
Continue a leitura LVIII. — A tempestade Capítulo 58 · 58 de 83 · ≈ 4 min
Todos os capítulos 83 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir