Universo da obra
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O Sr. Ribeiro Gomes, o negociante a quem os rapazes vieram recomendados, providenciara efetivamente para a viagem; e, quatro dias depois da chegada ao Rio de Janeiro, tomaram Carlos e Alfredo o trem, na estação da Estrada de Ferro Central.
O Dr. Caldas que os guardara sempre consigo, foi levá-los à estação. Já lá estavam o negociante e o empregado que tinha de seguir. Era este um brasileiro, moço de uns trinta anos, ares decididos.
Fazia frio, mas os rapazes quase não o sentiam, interessados pelo movimento que viam àquela hora: os trens de subúrbios despejavam ondas de povo.
A locomotiva silvou... As despedidas foram comoventes. E Carlos, quando o trem se pôs em movimento, embebido em pensamentos tristes, pensava: “Nesta longa viagem quantos amigos vamos deixando perdidos! Primeiro, papai! Depois, Juvêncio, Maria das Dores, tantos outros! — e agora, Jorge e Rodolfo...”
Tirou-o dessa melancolia o caixeiro:
— Vejam como é belo isto! — e apontava pela portinhola do trem.
Efetivamente, era uma beleza o que se via: as serras, ao fundo, envoltas em neblina, e a casaria da cidade em baixo; o trem passava, cortando ruas, margeando jardins, costeando trilhos de bondes... Mas tudo isto se via rapidamente, fugazmente. Depois as casas fizeram-se mais espaçadas: eram quase todas chalés, dentro de jardins...
— Já estamos nos subúrbios, — informou o caixeiro — é daqui que vai para a cidade toda aquela gente que viram chegar à estação central. E há trens especiais para esse tráfego dos subúrbios, parando em todas as estações por onde vamos passando...
Alfredo ouvia atento, ao mesmo tempo que examinava a fisionomia simpática e decidida do homem. Chamava-se este Rogério Cortes.
— Sr. Rogério, este nosso trem não pára?
— Pára, sim, daqui a pouco, em Cascadura, e depois em Belém e depois em muitas outras estações...
Depois de Cascadura a máquina bufou, e o comboio partiu por uma baixada igual, salpicada aqui e ali de habitações, que se tornavam cada vez mais raras à proporção que o trem avançava. O horizonte fechava-se ao fundo por uma cadeia de montanhas. Mostrando-as, Rogério Cortes recomeçou a conversa:
— É a Serra do Mar... Lá adiante, vamos galgá-la, atravessando grotões, cortando despenhadeiros, furando montanhas... Há quatorze túneis neste ramo de estrada de ferro, de Belém até a Barra do Piraí; é um trecho que se transpõe em uma hora, sempre em curvas e voltas pela serra acima. Um dos túneis, o “túnel grande”, tem mais de três quilômetros de extensão, e gasta o trem, para atravessá-lo, mais de três minutos.
Efetivamente, o comboio, desde que saiu da planície e passou Belém, enfiou pela serra, por entre cabeços de montes, a bufar ruidosamente por sobre barrancos, junto a penedias abruptas, que pareciam vir esmagá-lo. Varava túneis, e transpunha pontes, parando de vez em quando.
— Barra do Piraí! — anunciou o chefe do trem.
— Aqui acabam os túneis e a montanha. Tem este nome o local, — explicou o caixeiro, — porque neste ponto deságua o rio Piraí no soberbo Paraíba. Nesta estação a estrada bifurca-se; a linha do Centro segue para Minas, e a linha de São Paulo vai margeando o Paraíba pelo vale acima até entrar no Estado de São Paulo. Lembram-se da estação de Maxambomba, que lhes mostrei, logo depois de sairmos do Rio de Janeiro?... Foi aí que entramos no Estado do Rio de Janeiro; agora, estamos no Estado do Rio, e iremos por território fluminense até depois de Rezende: aí entraremos no território paulista, cuja primeira estação é Queluz.
Com isto, o trem já havia chegado à Barra do Piraí.
— Vamos almoçar; o trem demora-se aqui vinte minutos.
Almoçaram e partiram. O horizonte era agora outro: o longo vale quase plano, e estiradas cadeias de montanhas aos dois lados.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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