Universo da obra
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Com a fadiga natural da longa viagem, Alfredo adormecera; mas o irmão, Carlos, continuou atento. Aproveitando um momento em que o caixeiro suspendeu um pouco a conversa, perguntou-lhe:
— Mas, Sr. Rogério, como pode o senhor, que mora no Rio de Janeiro, conhecer tão bem assim a lavoura do café?
— É que tenho viajado por toda esta região, e já passei muitos dias em fazendas, tanto na época da plantação como na das colheitas... Em maio, entra a estiagem, os cafés estão maduros, começa a colheita. Um enxame de colonos segue para os cafezais. Com uma peneira presa à cintura, um samburá a tiracolo, panos e escadas para os cafezais mais altos, lá vão eles: são famílias inteiras — homens, mulheres e crianças. Cada grupo de trabalhadores segue por uma rua, de arbusto em arbusto, correndo as mãos pelos ramos, e despejando para o samburá os punhados de cerejas e de folhas. A planta fica nua, as varetas finas tremem ao vento, como ramalho seco, e a plantação parece, depois da colheita, uma roça devastada pelas formigas, ou assolada pelos gafanhotos. Não se pode colher de fruto em fruto; raspa-se todo o ramo, e, com um só movimento, apanha-se uma mão cheia.
“O serviço é áspero; a haste nodosa do cafeeiro dilacera as mãos ainda não habituadas e calejadas. Colhida uma certa porção, leva-se à peneira; retiram-se as folhas que ficam em cima, e vão os frutos para os montes. Cada apanhador de café tem o seu pano, espécie de lençol, que se estende em baixo do arbusto, e onde cai grande número de frutos; antes de passar adiante, ergue-se o pano, e recolhem-se todas as bagas que sobre ele caíram. Cada trabalhador leva para as grandes ruas do cafezal, para os caminhos de carro, — o seu café, e aí o entrega, medido. Fazem-se grandes montes de café em cereja, isto é, do fruto maduro, colhido e fresco, ainda rubro ou alaranjado como a cereja madura. Dois, três, quatro dias passa aí o fruto, e os carros de bois o vão conduzindo para os terreiros de café, ao pé do engenho.
“Esse terreiro é uma vasta esplanada, de chão nivelado, horizontal, cimentado, ou batido, de centenas de metros quadrados de superfície, e sobre o qual o café é espalhado para secar. Em face, fica o engenho; e, logo junto, o paiol, as tulhas.
“Espalham-se as carradas de cereja sobre o terreiro, e aí fica o fruto, até secar completamente a casca, que toma o aspecto de um pequeno coco, ou de uma pequena avelã, comprida e quase negra. Dentro, chocalha o grão do café. É o café em coco. Para que ele chegue a esse estado, é preciso ficar por muitos dias exposto ao sol e ao ar livre. Para isso, espalham-no sobre o terreiro, em camadas muito finas, de menos de uma polegada: duas, três vezes por dia é revolvido; de espaço a espaço, abre-se a camada de café, e formam-se leiras estiradas, deixando a nu compridas faixas do chão do terreiro, para que receba o sol diretamente, e para que este enxugue toda a umidade.
“Seco o fruto, o café em coco é lavado. Lavam-no em grandes tanques anexos ao terreiro, tanques dispostos em declive, tendo em baixo uma grade bastante fina para que o coquilho não passe. Despeja-se o fruto, e sobre ele cai o forte jorro de água, que o desembaraça de todos os elementos estranhos: os gravetos, as folhas, os grãos apodrecidos; tudo isso vem à tona da água, e escapa-se pelos escoadouros dos tanques. As terras, as pedrinhas mais pesadas vão para o fundo. O café puro, lavado, é ainda uma vez estendido no terreiro limpo; e seco de novo, está pronto para entrar no engenho, onde será beneficiado; isto é: entra para as máquinas, que o descascam por completo, e separam os grãos, pelo tamanho, pelo formato. Estas máquinas são: os descascadores, os ventiladores, os catadores. O café sai do maquinismo para o saco. A maior parte das grandes fazendas já têm também despolpados — máquinas que desembaraçam o fruto, apenas murcho, da casca carnosa, evitando-se deste modo o longo período do trabalho no terreiro, e obtendo-se um produto melhor.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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