Universo da obra
Universo da obra
Em Belém, houve um grande movimento. Muitos viajantes desceram, muitos outros embarcaram. A cidade encantou Juvêncio pelo seu aspeto e pela sua agitação. Belos edifícios, ruas largas, bem calçadas e arborizadas, muita gente nas praças públicas e na grande avenida da República.
A partida de Belém para Manaus foi alegre: havia muitos viajantes novos, e o navio regurgitava.
Poucas horas depois, o Santo passava à vista de Breves, pequena povoação, e entrava depois, enfim, no Amazonas. Juvêncio não se fartava de admirar a portentosa paisagem que se desenvolvia a seus olhos. As águas desciam plácidas, como as de um grande lago que se deslocasse por entre florestas. Ora o vapor seguia o meio do rio, ora chegava-se para uma das margens, a roçar quase a ramagem da mataria que descia até às águas.
— Admire! Admire! — dizia com ingênuo orgulho o cearense a Juvêncio, atento a contemplar o grande rio. E continuava:
— É tudo assim. Adiante são ilhas e mais ilhas... Veja aquele banco de areia, coalhado de garças!...
— E é muito fundo o rio?
— Se é fundo! Talvez daqui a pouco encontraremos grandes árvores, árvores imensas, mas altas do que uma torre, descendo pelo rio abaixo, como se fossem gravetos; e troncos enormes mergulham nas águas, sem tocar o fundo do rio, e a sua copa, mais vasta do que uma casa, aparece boiando em cima, como uma ilha flutuante. Por vezes encontram-se mesmo verdadeiras ilhas flutuantes...
— Mas de onde vêm essas árvores e ilhas?
O imediato do navio, ouvindo a conversação, deu ao pequeno sertanejo as explicações que Gervásio não lhe sabia dar:
— O rio nem sempre está neste nível. Há regularmente época da cheia, e a outra, da vazante. Em fevereiro, março, abril, — o Amazonas e todos os afluentes começam a encher, e o seu nível sobe mais de quinze metros. Então, todas as ilhas baixas desaparecem; as margens são inundadas, cobertas: todos esses braços do rio, esses “furos”, e lagos — comunicam-se; as águas invadem tudo, alagam todas as florestas, e as canoas podem viajar pelo mato a dentro, léguas e léguas... Depois, quando começa a vazante as águas, escoando-se para o leito do rio, cavam as terras frouxas e encharcadas das margens, e fazem cair grandes bancos de terra, arrastando tudo quanto ali existe. Os índios daqui — porque ainda se encontram muitos índios, quase todos já domesticados — os índios conhecem bem quando a terra começa a afrouxar, e embarcam logo, para não ser arrastados. Assim, desaparecem ilhas inteiras. Nessas destruições, acontece que se entrelaçam grandes árvores, e a elas se vem juntar então uma erva que nestas águas se desenvolve muito — a canarana, — formando ilhas flutuantes, sobre as quais não é raro encontrar até animais terrestrês.
Passaram dias... A grandeza da paisagem, a contínua majestade das águas, a constante opulência da vegetação verde e assombrosa causavam já monotonia.
O Santos navegava entre as ilhas, seguia as sua rota, sem incidentes. Passou por Obidos...
O imediato e Gervásio conversavam sempre com Juvêncio, alimentando a sua curiosidade, desvendando-lhe a novidade daquelas regiões maravilhosas. Gervásio, que conhecia os habitantes de quase todos os seringais e “sítios” que se viam pelas margens do rio, contava a existência daquela gente corajosa; narrava a fartura, mas às vezes as tristezas dos trabalhadores, e a história das grandes fortunas que tinham granjeado, alguns proprietários dos seringais. O imediato, por seu turno, relatava as suas viagens pela extensão do “rei dos rios”; e descrevia o imenso percurso da formidável artéria fluvial, — nascendo na República do Peru, chamando-se a princípio Velho Maranhão, depois Novo Maranhão quando entra no território brasileiro, depois Solimões, e enfim Amazonas; e falava ainda o imediato das povoações que marginam os afluentes do Amazonas, e as cidades recém-nascidas que já estão florescendo no Acre...
Enfim, numa tarde linda, o navio, deixando as águas do maior dos rios do Brasil, entrou no rio Negro, e fundeou no porto de Manaus.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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