Universo da obra
Universo da obra
— O gaúcho é um tipo humano, especial. — disse Roberto. — O ar franco, a vida sadia do campo, a liberdade, o espetáculo quotidiano de um horizonte ilimitado, dão a esta gente um temperamento distintivo, uma força de alma, uma independência e uma alegria extraordinárias. Os homens são naturalmente corajosos, dispostos a arriscar a vida, sem pestanejar perante a morte. E são naturalmente nobres, incapazes de uma traição. Amigos do trabalho e da ordem, têm um certo ar de arrogância, mas não são turbulentos sem razão; o que os indigna e revolta é qualquer ameaça de escravidão, qualquer suspeita de servilismo. E são cavaleiros admiráveis!... Um escritor disse que o gaúcho é um “centauro”. Sabem o que isto quer dizer?
— Sei! — disse Carlos — É uma ficção da mitologia, monstro fabuloso, meio homem e meio cavalo.
— Pois é assim um cavaleiro riograndense. O cavaleiro e o cavalo são inseparáveis. Vejam: lá está um gaúcho, e, não longe, o seu cavalo.
Por trás de um grande potreiro, viram um homem, de cócoras, picando fumo para o cigarro. Era moreno, musculoso, desempenado. A curta distância, pastava o cavalo, arreado, com o laço pendente da sela.
Os estancieiros apresentaram-lhe os sobrinhos, e contaram-lhe rapidamente a história da longa travessia dos rapazes. Depois nomearam-lhes o gaúcho, dizendo: “É o mais forte destas cochilhas no laço e na bola”.
O gaúcho riu, e não tardou a mostrar as suas reais habilidades. Não longe dali, relinchava um potrilho; e o homem, tendo montado a cavalo, fez girar a longa corda de couro cru, tecida, terminada em três pontas, cada ponta com uma bola. Segurou a extremidade livre da corda, e agitou no ar as três bolas, atirando-as depois na direção do animal, que imediatamente se viu preso; as cordas emboladas enrolaram-se-lhe em torno das pernas, peando-o completamente. O potro pinoteava, furioso, com grande prazer dos rapazes para quem o espetáculo era inteiramente novo.
Depois, ainda viram com admiração e comoção o gaúcho montar em pêlo um cavalo chucro: o animal corcoveava, relinchava, escouceava, mas não conseguiu deitar ao chão o cavaleiro, que acabou por subjugá-lo e reduzi-lo à obediência.
Quando chegaram à casa, a velha avó os recebeu à porta, dizendo?
— Ouçam, meninos! Não me contenho mais! Quero dizer-lhes toda a verdade! Não a disse mais cedo, porque sei que muita alegria também faz mal, e receava que vocês ficassem fulminados pela boa notícia... Ouçam, seu pai não morreu! Não foi ele quem morreu! Não foi ele quem morreu! Seu pai está vivo!...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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