Parte 02 Guilherme Tell · Capítulo 2 de 35
Obra Menu

Parte 02

Por amor de Deus, barqueiro, vosso bote!

Ruodi.

Ora, ora, que há de tão urgente?

Baumgarten.

Desatai-o!

Salvais-me da morte! Levai-me à outra margem!

Kuoni.

Conterrâneo, que tendes?

Werni.

Quem vos persegue assim?

Baumgarten

(ao pescador).

Depressa, depressa, já me estão rente aos calcanhares!

Os cavaleiros do bailio vêm atrás de mim;

Sou homem morto, se me apanharem.

Ruodi.

Por que vos perseguem esses homens de armas?

Baumgarten.

Salvai-me primeiro, depois vos darei contas.

Werni.

Estais manchado de sangue; que aconteceu?

Baumgarten.

O castelão do Imperador, que morava em Roßberg...

Kuoni.

Wolfenschießen! É ele quem vos manda perseguir?

Baumgarten.

Ele não faz mais mal a ninguém; eu o matei.

Todos

(recuando).

Deus tenha piedade de vós! Que fizestes?

Baumgarten.

O que faria todo homem livre em meu lugar!

Exerci o bom direito de minha casa

Contra o infamador de minha honra e de minha esposa.

Kuoni.

O castelão vos feriu na honra?

Baumgarten.

Que ele não consumasse seu mau desejo,

Deus o impediu — e meu bom machado.

Werni.

Partistes-lhe a cabeça com o machado?

Kuoni.

Oh, deixai-nos ouvir tudo; tendes tempo

Até que ele solte o bote da margem.

Baumgarten.

Eu cortava lenha no bosque, quando veio

Minha mulher correndo, tomada de mortal angústia.

“O castelão está em minha casa; ordenou-lhe

Que lhe preparasse um banho.

Depois exigiu dela coisa indecorosa;

Ela escapou, vindo procurar-me.”

Então corri para lá, assim como estava,

E, com o machado, abençoei-lhe o banho.

Werni.

Fizestes bem; ninguém poderá censurar-vos por isso.

Kuoni.

O furioso! Teve agora seu pagamento!

Há muito o merecia do povo de Unterwalden.

Baumgarten.

O feito tornou-se sabido; vêm no meu encalço...

Enquanto falamos... Deus!... o tempo se escoa...

(Começa a trovejar.)

Kuoni.

Depressa, barqueiro — leva esse homem de bem à outra margem!

Ruodi.

Não é possível. Pesada tempestade

Vem chegando. Tendes de esperar.

Baumgarten.

Santo Deus!

Não posso esperar. Cada demora me mata...

Kuoni

(ao pescador).

Lança-te com Deus! Ao próximo se deve socorro;

O mesmo nos pode acontecer a todos.

(Rugidos e trovões.)

Ruodi.

O föhn está solto; vedes como o lago se alteia;

Não posso governar contra a tormenta e as ondas.

Baumgarten

(abraça-lhe os joelhos).

Que Deus vos ajude como vos compadecerdes de mim...

Werni.

É caso de vida ou morte. Sede misericordioso, barqueiro!

Kuoni.

É pai de família, e tem mulher e filhos!

(Novos estrondos de trovão.)

Ruodi.

Quê? Também eu tenho uma vida a perder,

Tenho mulher e filho em casa, como ele... Olhai,

Como arrebenta, como ondula e faz remoinhos,

E revolve todas as águas nas profundezas.

— Eu bem quisera salvar esse homem honrado;

Mas é de todo impossível, vós mesmos o vedes.

Baumgarten

(ainda de joelhos).

Então devo cair nas mãos do inimigo,

Com a margem salvadora tão perto dos olhos!

— Ali está ela! Posso alcançá-la com o olhar,

Até lá chega o som da voz;

Aqui está o bote que me levaria à outra margem,

E tenho de ficar aqui, sem amparo e sem esperança!

Kuoni.

Vede quem vem ali!

Werni.

É Tell, de Bürglen.

Tell

com a besta.

Tell.

Quem é o homem que aqui implora socorro?

Kuoni.

É um homem de Alzellen; defendeu sua honra

E matou Wolfenschießen,

O castelão do Rei, que morava em Roßberg...

Os cavaleiros do bailio vêm-lhe nos calcanhares.

Ele suplica ao barqueiro que o passe;

Este teme a tempestade e não quer partir.

Ruodi.

Este é Tell, que também maneja o remo;

Que ele me diga se a travessia se deve ousar.

(Violentos trovões; o lago ruge.)

Hei de lançar-me na goela do inferno?

Não o faria homem algum que estivesse em seu juízo.

Tell.

O homem valente pensa em si por último.

Confia em Deus e salva o atribulado.

Ruodi.

Do porto seguro, fácil é dar conselho.

Ali está o bote, e lá o lago! Tentai vós!

Tell.

O lago pode ter piedade; o bailio, não.

Tenta, barqueiro!

Pastores

e

Caçadores.

Salva-o! Salva-o! Salva-o!

Ruodi.

Ainda que fosse meu irmão, meu próprio filho,

Não pode ser; hoje é dia de Simão e Judas,

O lago se enfurece e quer sua vítima.

Tell.

Com palavras vãs nada se consegue aqui;

A hora aperta, este homem precisa de socorro!

Dize, barqueiro: queres partir?

Ruodi.

Não, eu não!

Tell.

Em nome de Deus, então! Dá-me o bote!

Tentarei com minhas fracas forças.

Kuoni.

Ah, bravo Tell!

Werni.

Isso é digno de um companheiro da caça!

Baumgarten.

Meu salvador sois vós, e meu anjo, Tell!

Tell.

Da força do bailio, bem vos posso salvar!

Das angústias da tempestade, Outro há de ajudar-nos.

Mas é melhor cairdes nas mãos de Deus

Que nas dos homens!

(Ao pastor.)

Conterrâneo, consolai

Minha mulher, se me acontecer coisa humana.

Fiz o que não podia deixar de fazer.

(Salta para dentro do bote.)

Kuoni

(ao pescador).

Sois mestre timoneiro. O que

Tell se atreve a tentar, não pudestes

vós

ousar?

Ruodi.

Homens bem melhores não fazem o que Tell faz;

Não há dois como ele nas montanhas.

1/1
Menu

Fazer anotação