Parte 18
Se eu resisto ao poder do Imperador?
Não é a vontade poderosa dos parentes
Que tiranicamente dispõe de vossa mão?
Bertha.
Nos cantões florestais ficam meus bens,
E, se o suíço é livre, também eu o sou.
Rudenz.
Bertha, que visão me abris!
Bertha.
Não espereis conquistar-me pelo favor da Áustria;
Para minha herança estendem eles a mão,
Querem uni-la à grande herança.
A mesma cobiça de terras que vossa liberdade
Quer devorar ameaça também a minha!
— Ó amigo, fui escolhida para sacrifício,
Talvez para recompensar algum favorito —
Para lá, onde moram a falsidade e as intrigas,
Para a corte do Imperador querem arrastar-me;
Lá me aguardam as cadeias de um casamento odioso;
Só o amor — o vosso pode salvar-me!
Rudenz.
Poderíeis decidir-vos a viver aqui,
A ser minha em minha pátria?
Oh, Bertha, todo o meu anseio para longe,
Que foi ele senão apenas um esforço por vós?
Só a vós buscava no caminho da glória,
E toda a minha ambição era apenas meu amor.
Se podeis encerrar-vos comigo no vale silencioso
E renunciar ao esplendor da terra —
Oh, então foi encontrado o alvo de meus esforços;
Então pode a torrente do mundo selvagemente agitado
Bater contra a margem segura destas montanhas —
Não tenho mais desejo fugidio
A enviar para as vastidões da vida —
Então que estes rochedos ao nosso redor
Estendam a muralha firme e impenetrável,
E só este vale fechado e venturoso
Fique aberto ao céu e banhado de luz!
Bertha.
Agora és inteiramente como meu coração pressago
Te sonhou; minha fé não me enganou!
Rudenz.
Vai-te, vã ilusão que me seduziste!
Devo encontrar a felicidade em minha pátria.
Aqui, onde o menino floresceu alegre,
Onde me cercam mil rastros de alegria,
Onde todas as fontes e árvores vivem para mim,
Na pátria queres tornar-te minha!
Ah, bem sei que sempre a amei! Eu o sinto:
Ela me faltava para toda felicidade da terra.
Bertha.
Onde se poderia encontrar a ilha venturosa,
Se não é aqui, na terra da inocência,
Aqui, onde a antiga lealdade mora em casa,
Onde a falsidade ainda não achou caminho?
Ali inveja alguma turva a fonte de nossa ventura,
E eternamente claras fogem-nos as horas.
— Ali te vejo
a ti
no verdadeiro valor de homem,
O primeiro entre os livres e os iguais,
Honrado por homenagem pura e livre,
Grande como um rei que atua em seus reinos.
Rudenz.
Ali te vejo
a ti
, coroa de todas as mulheres,
Em atividade feminil e encantadora,
Erguendo-me o céu dentro de minha casa
E, como a primavera espalha suas flores,
Ornando-me a vida com bela graça
E tudo em redor animando e fazendo feliz!
Bertha.
Vê, caro amigo, por que eu me entristecia
Quando via tu mesmo destruir
Esta suprema felicidade da vida — Ai de mim!
Que seria de mim, se tivesse de seguir
O cavaleiro soberbo, o opressor da terra, para seu sombrio castelo!
— Aqui não há castelo. Muralha alguma me separa
De um povo que posso fazer feliz!
Rudenz.
Mas como salvar-me — como desfazer o laço
Que, insensato, lancei sobre minha própria cabeça?
Bertha.
Rompe-o com resolução viril.
Aconteça o que acontecer — fica com teu povo!
É esse teu lugar de nascimento.
(Trompas de caça ao longe.)
Bertha.
A caçada
Aproxima-se — fora, devemos separar-nos — Luta
Pela pátria; lutas por teu amor!
É
um
só inimigo diante do qual todos trememos,
E
uma
só liberdade a todos nos torna livres!
(Saem.)
Terceira Cena.
Prado perto de Altorf.
Em primeiro plano, árvores; ao fundo, o chapéu sobre uma haste.
A perspectiva é limitada pelo Bannberg, acima do qual se ergue
uma montanha nevada.
Frießhardt
e
Leuthold
montam guarda.
Frießhardt.
Vigiamos em vão. Ninguém quer
Aproximar-se e prestar sua reverência
Ao chapéu. Antes isto aqui parecia uma feira;
Agora todo o campo está como deserto,
Desde que o espantalho pende da haste.
Leuthold.
Só ralé se deixa ver e, para nosso desgosto,
Agita-nos os gorros esfarrapados.
Gente de bem prefere fazer
O longo rodeio por metade da aldeia
A dobrar as costas diante do chapéu.
Frießhardt.
Eles precisam passar por esta praça quando
Vêm da casa do conselho ao meio-dia.
Então pensei que faria boa presa,
Pois ninguém se lembrava de saudar o chapéu.
Nisso o padre, o Rösselmann, o percebe — vinha justamente
De visitar um enfermo — e posta-se
Com o Santíssimo bem diante da haste —
O sacristão teve de tocar a sineta;
Então todos caíram de joelhos, eu mesmo também,
E saudaram a custódia, mas não o chapéu.
Leuthold.
Ouve, companheiro, começa a parecer-me
Que estamos aqui no pelourinho diante do chapéu;
É, afinal, uma afronta para um homem de armas
Montar sentinela diante de um chapéu vazio —
E todo sujeito direito há de desprezar-nos.
— Fazer reverência a um chapéu,
É, por certo, uma ordem de doidos!
Frießhardt.
Por que não a um chapéu vazio, oco?
Tu te inclinas diante de muito crânio oco.
Hildegard,
Mechthild
e
Elsbeth
entram com crianças e colocam-se em torno da haste.
Leuthold.
E tu também és um patife bem serviçal