Parte 10
Que as que adquiriste nestes vales.
— Vai, vende tua alma livre,
Toma terras em feudo, torna-te servo de príncipe,
Quando podes ser senhor de ti mesmo e príncipe
Em tua própria herança e solo livre.
Ah, Uly! Uly! Fica junto dos teus!
Não vás a Altorf — Oh, não abandones
A causa sagrada de tua pátria!
— Sou o último de minha estirpe — Meu nome
Termina comigo. Ali pendem elmo e escudo;
Hão de pô-los comigo no túmulo.
E devo eu pensar, no último suspiro,
Que tu apenas esperas que meu olho se feche
Para ir diante desta nova corte feudal
E receber da Áustria meus nobres bens,
Que livres recebi de Deus!
Rudenz.
Em vão resistimos ao rei.
O mundo lhe pertence: havemos nós, sozinhos,
De obstinar-nos teimosamente, endurecidos,
Para interromper-lhe a cadeia de terras
Que ele traçou com força ao redor de nós?
Seus
são os mercados, os tribunais,
suas
As estradas dos mercadores, e até o cavalo de carga
Que sobe ao Gotardo deve pagar-lhe tributo.
Por suas terras, como por uma rede,
Estamos cercados e encerrados em toda parte.
— Haverá o Império de proteger-nos? Pode ele próprio
Proteger-se contra o poder crescente da Áustria?
Se Deus não nos ajuda, nenhum imperador pode ajudar-nos.
Que confiança se há de pôr na palavra dos imperadores,
Se eles, em aperto de dinheiro e de guerra, podem empenhar
As cidades que se refugiaram sob o amparo da águia,
E aliená-las do Império?
— Não, tio! É benefício e sábia prudência,
Nestes tempos duros de facção,
Aderir a uma cabeça poderosa.
A coroa imperial passa de linhagem em linhagem;
Ela
não guarda memória dos serviços fiéis.
Mas merecer bem do poderoso senhor hereditário
É lançar sementes no futuro.
Attinghausen.
És tão sábio?
Queres ver mais claro que teus nobres pais,
Que pelo precioso diamante da liberdade
Com bens e sangue e força heroica lutaram?
— Navega até
Lucerna
e pergunta
lá
Como pesa sobre as terras o domínio da Áustria.
Eles virão contar nossas ovelhas e bois,
Medir nossas alpagens,
Interditar o voo alto e a caça nobre
Em nossas florestas livres, pôr sua cancela
Em nossas pontes, em nossas portas,
Pagar com nossa pobreza suas compras de terras,
Com nosso sangue suas guerras —
— Não; se devemos arriscar nosso sangue nisso,
Que seja
por nós
— compramos mais barato
A liberdade que a servidão!
Rudenz.
Que podemos nós,
Um povo de pastores, contra os exércitos de Albrecht!
Attinghausen.
Aprende a conhecer este povo de pastores, rapaz!
Eu o conheço, conduzi-o em batalhas,
Vi-o combater em Favenz.
Que venham impor-nos um jugo
Que estamos decididos a
não
suportar!
— Oh, aprende a sentir de que estirpe és!
Não lances fora, por vão brilho e ouropel,
A verdadeira pérola de teu valor —
Chamar-te cabeça de um povo
livre
,
Que por amor somente se consagra a ti de coração,
Que fielmente está contigo no combate e na morte —
Seja
esse
teu orgulho; dessa nobreza te gloria —
Aperta firmes os laços inatos,
Une-te à pátria, à pátria querida,
E prende-te a ela com todo o coração.
Aqui estão as fortes raízes de tua força;
Lá, no mundo estrangeiro, estás só,
Frágil caniço que qualquer tormenta quebra.
Oh, vem, há muito não nos vês mais;
Experimenta ficar conosco apenas
um
dia — só hoje
Não vás a Altorf — ouves? Hoje, não;
Dá este
único
dia aos teus!
(Toma-lhe a mão.)
Rudenz.
Dei minha palavra — Deixai-me — Estou preso.
Attinghausen
(solte-lhe a mão, com gravidade).
Estás preso — Sim, infeliz,
Estás, mas não por palavra e juramento;
Estás preso pelos laços do amor!
(Rudenz volta-se para outro lado.)
— Esconde-te como quiseres. É a donzela,
Bertha von Bruneck, que te atrai
Ao castelo senhorial, que te prende ao serviço do Imperador.
Queres conquistar a dama cavaleiresca
Com tua deserção da terra — Não te iludas!
Para atrair-te, mostram-te a noiva;
Mas ela não foi destinada à tua inocência.
Rudenz.
Já ouvi bastante. Passai bem.
(Sai.)
Attinghausen.
Jovem insensato, fica! Ele se vai!
Não posso retê-lo, não posso salvá-lo —
Assim Wolfenschießen desertou
De sua terra — assim outros hão de segui-lo;
O encanto estrangeiro arrebata a juventude,
Lançando-se com violência sobre nossas montanhas.
— Ó hora infeliz em que o estrangeiro
Veio a estes vales silenciosos e felizes,
Para destruir a piedosa inocência dos costumes!
O novo penetra com força; o antigo,
O digno, se aparta; outros tempos vêm,
Vive uma geração de outro pensar!
Que faço eu aqui? Estão todos sepultados,
Aqueles com quem governei e vivi.
Debaixo da terra já jaz
meu
tempo;
Feliz daquele que não precisa mais viver com o
novo
!
(Sai.)
Segunda Cena.
Um prado cercado de altos rochedos
e floresta.