I - Fonética O Dialeto Caipira · Capítulo 2 de 24
Obra Menu

I - Fonética

1.º GENERALIDADES 1. Antes de tudo, deve notar-se que a prosódia caipira (tomando o termo prosódia numa acepção lata, que também abranja o ritmo e musicalidade da linguagem) difere essencialmente da portuguesa. O tom geral do frasear é lento, plano e igual, sem a variedade de inflexões, de andamentos e esfumaturas que enriquece a expressão das emoções na pronunciação portuguesa. 2. Os acentos em que a voz mais demoradamente carrega, na prolação total de um grupo de palavras, não são em geral os mesmos que teria esse grupo na boca de um português; e as pausas que dividem tal grupo na linguagem corrente são aqui mais abundantes, além de distribuídas de modo diverso. Na duração das vogais igualmente difere muito o dialeto: se, proferidas pelos portugueses, as breves duram um tempo e as longas dois, pode-se dizer, comparativamente, que no falar caipira duram as primeiras dois tempos e as segundas quatro. Este fenômeno está estreitamente ligado à lentidão da fala, ou, antes, se resolve num simples aspecto dela, pois a linguagem vagarosa, cantada, se caracteriza justamente por um estiramento mais ou menos excessivo das vogais (2), 3. Também decorre dessa mesma lentidão, como um resultado natural, o fato de que o adoçamento e elisão das vogais átonas, coisas comuns na pronunciação portuguesa, são aqui fenômenos relativamente raros. Com efeito, compreende-se bem que o português, na sua pronunciação vigorosa e rápida, torture muito mais os vocábulos, abreviando-os pelo enfraquecimento e supressão das vozes átonas internas, ligando-os uns aos outros pela absorção das átonas finais nas vogais que se lhes seguem: subrádu, p'dáçu, c'rôa, 'sp'rança, tiátru, d'hoj'em diante, um'august'assemblêia. Da mesma forma, compreende-se que o caipira paulista, no seu pausado falar, que por força há de apoiar-se mais demoradamente nas vogais, não pratique em tão larga escala essas mutações e elisões. O caipira (como, em geral, todos os paulistas) pronuncia, em regra, claramente as vogais átonas, qualquer que seja a posição das mesmas no vocábulo: esperança, sobrado, pedaço, coroa, e recorre poucas vezes a sinalefa. Nos próprios monossílabos átonos me, te, se, de, o, que, etc., as vogais conservam o seu valor típico bem distinto, ao contrário do que sucede com os portugueses, em cuja pronunciação normal elas se ensurdeceram, assumindo tonalidades especiais. Pode dizer-se que no dialeto não lia vogais surdas: todas soam distintamente, salvos os casos de queda ou de sinalefa. Dai provém o dizer-se que os caipiras acentuam todas as vogais, o que é falso, mas explica-se. E que não se leva em conta a duração relativa das átonas e tônicas, a que atrás nos referimos. 4. Não podemos, porém, atribuir inteiramente à influência da lentidão e pausa da fala essa melhor prolação das vogais átonas, no dialeto. Haverá também causas históricas, por ora pressentidas apenas. O fenômeno é, naturalmente, complexo, e são complexas as suas causas; mas é impossível negar que existe pelo menos uma estreita correlação entre um e outro fato. 5. Seria, aliás, muito interessante um estudo acurado das feições especiais da prosódia caipira, com o objetivo de discriminar a parte que lhe toca na evolução dos diferentes departamentos do dialeto. Chegar-se-ia de certo a descobertas muito curiosas, até no domínio dos fatos sintáticos. A diferenciação relativa à colocação dos pronomes oblíquos, no Brasil, deve explicar-se, em parte, pelo ritmo da fala e pelo alongamento das vogais (3), Esses pronomes, no português europeu, se antepõem ou pospõem a outras palavras, que os atraem, incorporando-os. Prosodicamente, não têm existência autônoma: são sons ou grupos de sons, destinados a adicionarem-se aos vocábulos acentuados, segundo leis naturais inconscientemente obedecidas (ênclise, próclise). Passando para o Brasil, a língua teve que submeter-se a outro ritmo, determinado por condições fisiológicas e psicológicas diversas: era o suficiente para quebrar a continuidade das leis de atração que agiam em Portugal. O alongamento das vogais, dando maior amplitude aos pronomes na pronúncia, tornando mais sensível a sua individualidade, veio acentuar, de certo, aquele efeito. 2.º OS FONEMAS E SUAS ALTERAÇÕES NORMAIS 6. Os fonemas do dialeto são em geral os mesmos do português, se não levarmos em conta ligeiras variantes fisiológicas, que sempre existem entre povos diversos e até entre frações de um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, só a fonética experimental poderia dar uma notação precisa. Cumpre, entretanto, observar o seguinte: a) s post-vocálico tem sempre o mesmo valor: é uma linguo-dental ciciante, não se notando jamais as outras modalidades conhecidas entre portugueses e mesmo entre brasileiros de outras regiões; s propriamente sibilante, assobiado, e bem assim chiante, são aqui desconhecidos. Para produzir este som a língua projeta a sua ponta contra os dentes da arcada inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes da arcada superior, só deixando uma pequena abertura sob os incisivos: modo de formação perfeitamente igual ao de c em cedo. (4) b) r inter e post-vocálico (arara, carta) possui um valor peculiar: é linguo-palatal e guturalizado. Na sua prolação, em vez de projetar a ponta contra a arcada dentária superior, movimento este que produz a modalidade portuguesa, a língua leva os bordos laterais mais ou menos até os pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade para cima, sem tocá-la na abóbada palatal. Não há quase nenhuma vibração tremulante. Para o ouvido, este r caipira assemelha-se bastante ao r inglês post-vocálico. É, muito provavelmente, o mesmo r brando dos autóctones. Estes não possuíam o rr forte ou vibrante, sendo de notar que com o modo de produção acima descrito é impossível obter a vibração desse último fonema. (5) c) A explosiva gutural gh tem uma tonalidade especial, sobretudo antes dos semiditongos cuja prepositiva é u, casos em que freqüentemente se vocaliza: áu-ua = água, léu-ua = légua). d) ch e j palatais são explosivos, como ainda se conservam entre o povo em certas regiões de Portugal (6), no inglês (chief, majesty) e no italiano (ciclo, genere). e) A consonância palatal molhada lh não existe no dialeto, como na maioria dos dialetos port. de África e Ásia, e como em vários dialetos castelhanos da América. (7) 7. Os fenômenos de diferenciação fonética que caracterizam o dial. resumem-se desta forma: VOGAIS As TÔNICAS, em regra, não sofrem alteração. O único fato importante a assinalar com relação a estas é que, quando seguidas de ciciante (s ou z), no final dos vocábulos, se ditongam pela geração de um i: rapáiz, méis, péis, nóis, láiz. (8) 8. Quanto às ÁTONAS: Na sílaba postônica dos vocábulos graves, conservam o seu valor típico. Não se operou aqui a permuta de e final por i, que se observa em outras regiões do país (oquêli, êsti), como não se operou a de o por u (povu, dígu), fenômeno este que se manifestou em Portugal, ao que parece, a partir do séc. XVIII. Nos vocábulos esdrúxulos, a tendência é para suprimir a vogal da penúltima sílaba e mesmo toda esta, fazendo grave o vocábulo (ridico = ridículo, legite = legítimo, cosca = cócega, musga = música. Exceção: lático < látego (curiosa reversão à forma originária; cp. cósca < coç'ca < cócica), sumítico, nófico, etc. 9. Nas sílabas pretônicas, alteram-se mais, como se verá das seguintes notas: e - a) Inicial, aparece mudado em i nasal em inzame < exame, inguá < igual, inzempro < exemplo, inleição < eleição. A nasalação de e inicial seguido de x é fenômeno observado em tempos afastados da língua: enxame < examen, enxada < exada, enxuito < exsuctum. Enxempro encontra-se nos escritores mais antigos. Do mesmo modo inliçon (eleição). b) Medial, muda-se freqüentemente em i (tisôra, Tiodoro, piqueno), sobretudo se há outro i na sílaba seguinte: pirigo, dilicado, minino, atrivido, intiligente, pidi(r), midi(r), pitiço (assimilação regressiva). Na pronúncia normal portuguesa tem-se dado, em tais casos, justamente o fenômeno contrário (dissimilação), embora nem sempre se substitua i por e na escrita: menino, preguiça, vezinho, menistro. O caipira ainda conserva, como remanescente do que aprendeu dos portugueses, a esse respeito, o nome próprio Vergílio, que pronuncia com e. Também diz Fermino. Este fonema perdura intacto nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas palavras originárias: pretura, pretinho, pretejado, pedrenio, medroso. 10. o - Medial, muda-se muitas vezes em u: tabuleta, cuzinha, dumingo, sobretudo nos infinitivos dos verbos em ir, que o têm na sílaba imediatamente anterior à tônica: ingulí(r), buli(r), tussi(r), surti(r). A possuir corresponde a forma dialetal pissuí(r), que também existe em galego. (9) Nos infinitivos dos verbos em ar e er, conserva-se: cobrá(r), cortá(r), broqueá(r), intortá(r), sofrê (r), podê(r). Conserva-se também nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas palavras originárias: locura, boquêra, porcada, mortinho, rodêro. Conserva-se geralmente, aberto, nos diminutivos de nomes que o têm assim: pòrtinha, pòtinho, còbrinho (ao contrário do que se dá em outros pontos do país; notadamente em Minas, onde estes diminutivos têm o fechado). 11. en (en, em) - Inicial, muda-se em in: imprego, incurtá(r), insino, imborná(l), insi(lh)á(r). Em inteiro e indireitar, ao contrário, depara-se às vezes o i mudado em e - entêro, endereitá(r), provavelmente por assimilação regressiva. Aliás, as formas enteiro, enteiramente, endereitar, encontram-se em documentos portugueses anteriores à reação erudita. 12. õ (on, om) - Medial, muda-se em u, em lumbi(lh)o, amuntá(r), cume(r), cumpadre, cumigo, cunversa, cumeçá(r) e em geral nos vocábulos cuja sílaba inicial e cõ. GRUPOS VOCÁLICOS (acentuados ou não) 13. ai (dit.) - Antes da palatal x, reduz-se à prepositiva: baxo, baxêro, faxa, caxa, paxão. Dois exemplos de mudança em éi: téipa, réiva. 14. ei (dit.) - Reduz-se a e quando seguido de r, x ou j: isquêro, arquêre, chêro, pêxe, dêxe, quêjo, bêjo, berada. Nos vocábulos em que é seguido de o ou a, como ceia, cheio, veia, também aparece às vezes representado por ê: chêo, vêa, cêa. Cp. a evolução destas palavras no português: cheio < chêo < cheno < *cheno < plenu(m); veia < vêa < vena etc. 15. ou e oi (dits.) - a) Acentuado ou não, contrai-se o primeiro em ô: poco, tôro, locura, rôpa. Em Portugal, bem como no falar da gente culta no Brasil, há notório sincretismo no uso dos ditongos ou e oi. Para o caipira tal sincretismo não existe: os vocábulos onde esses ditongos aparecem são pronunciados sempre de um só modo. Assim, lavôra, ôro, estôro, côro, côve, lôco, bassôra, tôca, frôxo, trôxa, e nunca lavoira, oiro, etc.; por outro lado, dois, noite, coisa, poiso, foice, toicinho, oitão, afoito, biscoito, moita, e nunca dous, noute, etc. Se há formas sincréticas, são raríssimas. A causa desta distinção é puramente fonética: note-se, nos exemplos acima, que há ô diante dos sons r, v, k e x, e oi diante de s = ç, z etc. b) Nas formas verbais em que o acento tônico recai em ou, este às vezes se contrai em ó: róba, estóre, afróxa. A trouxe corresponde truxe; a soube, sube. 16. ein (em) - Final de vocábulo, reduz-se a e grave; viaje, virge, home, êles corre. Parece-nos inútil acentuar que na palavra portuguesa viagem e em outras de idêntica terminação existe um verdadeiro ditongo nasal grafado em (viagein, virgein, etc.) Da mesma forma existe o ditongo nasal õu nas palavras bom, som, etc. (bõu, sõu). 17. õu (om) - a) Na preposição com, reduz-se à vogal nasal un, quando se segue a essa prep. palavra que comece por consoante: cum você, cum quem vô, cumsigo, (com-sigo). Quando há eclipse, reduz-se a o grave: co ele, cos diabo(s). b) Nas palavras bom, tom e som muda-se em ão: bão, tão, são. 18. ío (hiato) - Final de vocábulo, ditonga-se sempre em iu: paviu, tiu, riu. CONSOANTES 19. b e v - Muda-se às vezes uma na outra, dando lugar a várias formas sincréticas: burbuia e vevúia - borbulha bassôra e vassora - vassoura berruga e verruga - verruga biête e viête - bilhete cabortêro e cavortero - cavorteiro jabuticaba e jabuticava - jaboticaba Piracicaba e Pricicava - Piracicaba mangaba e mangava (fruta) - mangaba bespa e vespa - vespa bagaço e vagaço - bagaço bamo e vamo - vamos 20. d - Cai, quase sempre, na sílaba final das formas verbais em ando, ando, indo: andano = andando, veno = vendo, caíno, pôno, e também no advérbio quando, às vezes, 21. gh - Quando compõe sílaba com os semiditongos ua, uá, ue, ué, uê, ul, como em guarda, água, tigüera, sagüi, torna-se quase imperceptível, vocalizando-se freqüentemente em u. Neste caso, esse u ditonga-se com a vogal anterior, e o segundo u continua a formar semiditongo com a vogal seguinte: áu-ua, tiu-uéra, sáu-ui. 22. l - a) Em final de sílaba, muda-se em r: quarquér, papér, mér, arma. Na locução tal qual, cai apenas o segundo l, porque o primeiro se tornou intervocálico: talequá. E ainda digna de nota a locução adverbial malemá (grafada como se pronuncia), que quer dizer "passavelmente", "sofrivelmente", "assim assim". (Terá provindo de mal e mal, ou de mal a mal, ou ainda de "mal, mal"? Fazer um serviço mal e má (l): passavelmente, antes mal que bem; passar mal e má de saúde: sofrivelmente). As palavras terminadas em aí, el, il.. freqüentemente aparecem apocopadas: má, só, jorná = mal, sol, jornal. Não inferir daí que houve queda de l. Esse l mudou-se primeiro em r, e depois caiu este fonema, de acordo com uma das leis mais rígidas, e mais facilmente verificáveis, da fonética dialetal. É de notar-se ainda que a pronúncia em questão (má, só) é mais comum entre os negros, que, submetidos, em geral, ao império das mesmas leis, quando no mesmo meio, não deixam entretanto de diferir dos caboclos e brancos em mais de um ponto. b) Quando subjuntivo de um grupo, igualmente se muda em r: craro, cumpreto, cramô(r), frô(r). Esta troca é um dos vícios de pronúncia mais radicados no falar dos paulistas, sendo mesmo freqüente entre muitos dos que se acham, por educação ou posição social, menos em contato com o povo rude. (Cp. 6-b). 23. r - a) Cai, quando final de palavra: andá, muié, esquecê, subi, vapô, Artú. Conserva-se, entretanto, geralmente, em alguns monossílabos acentuados, tendo de certo influído nisso a posição proclítica habitual: dôr, cór, côr, par. Conserva-se também no monossíl. átono por, pela mesma razão, assim como, raras vezes, em palavras de mais de uma sílaba: amor, suôr. Nos verbos, ainda que monossílabos, cai sempre, provavelmente pela influência niveladora da analogia: vê, í, pô. b) Esta consonância é de extrema mobilidade no seio dos vocábulos, dando lugar a metáteses e hipérteses freqüentíssimas. (26, i-j). 24. s - Cai, quando final de palavra paro ou proparoxítona: arfére (alferes), pire (pires), bamo (vamos), imo (imos). Desaparece também nos oxítonos, quando é sinal de pluralidade: mau, bambu, avo. Conserva-se nos adjetivos determinativos e nos pronomes, ainda que graves, o que se explica, em parte, pela posição proclítica habitual: duas casa, minhas fiia, arguas pessoa, aqueles minino, eles, elas. A prova é que, quando não está em próclise, freqüentemente se submete à regra: aquelas são as minha, estas são sua. Em parte, porém, essa conservação se deve à necessidade de manter um sinal de pluralidade. Voltaremos oportunamente a este ponto, que é, talvez, mais do domínio dos fenômenos psicológicos na morfologia, do que de ordem fonética. 25. lh - Vocaliza-se em i: espaiado, maio, muié, fiio = espalhado, malho, mulher, filho. Cp. o que se dá com o l molhado em Cuba, na Argentina (caje = calle, cabajo = caballo) e na França, onde desde o século XVIII começou a acentuar-se a tendência para a vocalização deste fonema (batáie, Chantií = bataille, Chantilly). 3.º MODIFICAÇÕES ISOLADAS 26. Além das alterações francamente normais, que ficaram registradas, há toda uma multidão de modificações acidentais, de que daremos alguns exemplos: a) abrandamento: guspe = cuspo, musga = música. E de notar que nos esdrúxulos cócega, náfego e látego se dá o contrário: cócica (e coçca), náfico, lático. b) assimilação - progressiva. Carlo = Carlos, regressiva. birro -bilro; açcançá = alcançar; digêro = ligeiro (g palatal explosivo = dg). c) Aférese: (a)parece, (i)magina, (ar)rependeu, (ar)ranca, (a)lambique, (al)gibêra. d) Síncope: pês(se)co = pêssego, mus(i)ga = música, isp(i)rito, ca(s)tiçar, Jeró(ni)mo, ridíc(ul)o. e) Apócope: Ligite(mo). f) Prótese: alembrá = lembrar, avoá = voar, arripiti = repetir. g) Epêntese: rec-u-luta, Ing-a-laterra, g-a-rampo. h) Epítese: paletor. i) Metátese: perciso, pertende, purcissão, partelêra, agardecê, aquerditá(r). j) Hipértese: agordão (algodão), cardaço, chacoalhá(r), largato. 27. Devem mencionar-se ainda as formas proclíticas: de senhor - nho, seô, seu, siô, sô; de senhora - nhá, seá, sea, sia, sa; de minha - mea e mha; de sua - sa de não - num. (10)

1/1
Menu

Fazer anotação