III - Morfologia
FORMAÇÃO DE VOCÁBULOS 1. Como já mostrámos ("Lexicologia", "Formações próprias") o dialeto tem dado provas de grande vitalidade, na formação de numerosos substantivos e adjetivos, quer por composição, quer por derivação. De ambos os processos fornecemos muitos exemplos. Registamos agora, aqui, um curiosíssimo processo de reduplicação verbal, corrente não só entre os caipiras de S. Paulo, mas em todo o país, ou grande parte dele. Para exprimir ação muito repetida, usa-se uma perífrase formada com o auxiliar vir, ir, estar, andar, seguido de infinitivo e gerúndio de outro verbo. Assim: vinha pulá(r)-pulando, ia caí(r)caindo, estava ou andava chorá(r)-chorando. A explicação deste fenômeno alguns têm querido ir buscá-la ao tupi, "refugium" de tantos que se cansam a procurar as razões de fatos obscuros e complicados da linguagem nacional. Não nos parece que seja preciso apelar para as tendências reduplicativas daquela língua, em primeiro lugar porque. essas tendências são universais; em segundo lugar, porque se trata de palavras bem portuguesas, ainda que combinadas de maneira um tanto estranha; em terceiro lugar, porque há na nossa própria língua elementos para uma explicação, tão boa ou melhor do que a indiática. É sabido que, no tempo dos autores quinhentistas, o uso do gerúndio nas perífrases (como anda cantando), era muito mais vulgar do que hoje. Atualmente, em Portugal, o povo prefere, quase sempre, a construção com infinitivo (anda a cantar). Assim, a concorrência decisiva entre os dois processos se pronunciou justamente após a descoberta do Brasil. A particularidade em questão é talvez legado genuíno dessa época de luta, no qual se reúnem a modalidade mais freqüente outrora, importada pelos primeiros povoadores, e aquela que depois veio a predominar. O nosso povo, - inculto, em grande parte produto de mestiçagem recente, aprendendo a custo o mecanismo da língua, - diante dos dois processos concorrentes, não atinou, de certo, com as razões por que se preferia ora um, ora outro, e acabou por combiná-los. Depois, como um efeito, - que não como causa da reduplicação, - os verbos assim combinados sofreram uma pequena evolução sematológica no sentido da intensificação do seu valor iterativo. Assim, temos, em esquema: a virar Port. - Vinha a virá(r) ou (a) virá(r) virando Dial. - Vinha virando virando Corrobora esta hipótese o fato de que o nosso caipira, usando a todo o momento de perífrases com gerúndio de acordo com a velha língua, só muitíssimo raramente empregará, isolada, a forma popular portuguesa de hoje, - infinitivo com prep. Isto confirma que esta forma lhe terá causado estranheza desde cedo, originando-se daí a confusão. (19) 2. Várias formações teratológicas já foram apontadas e ainda o serão adiante, neste capítulo (Flexões de número). Queremos, aqui, deixar apenas registrados os seguintes processos de que ainda não tratamos: a) A ETIMOLOGIA POPULAR tem sido fonte de numerosas formas vocabulares novas: de "guapê", voc. de origem tupi, fez-se aguapé, por se ver nele um composto de água e pé; de "caa-puan", mato redondo, ilha de mato, fez-se capão; de "caa-puan-era", capoeira; de cobrêlo, cobreiro (cobra suf. eiro); de torrão, terrão, etc. b) Também a DERIVAÇÃO REGRESSIVA dá origem a outros termos: assim, de paixão, se fez paixa, por se tomar aquela forma como um aumentativo; de satisfação, por idêntico motivo, se tirou sastifa, com hipértese de s. GÊNERO 3. O adjetivo e o particípio passado deixam, freqüentemente, de sofrer a flexão genérica, sobretudo se não aparecem contíguos aos substantivos: essas coisarada bunito, as criança távum quéto, as criação ficarum pestiado. NÚMERO 4. Já dissemos algo sobre o som de s-z no final dos vocábs. (I, 24). Vamos resumir agora tudo o que se dá com esse som em tal situação. Se bem que se trate aqui de flexões, é impossível separar o que se passa com o s final, tomado como sinal de pluralidade, do que sucede com ele em outras circunstâncias; e dificílimo se torna reconhecer, em tais fatos, até aonde vão e onde cessam a ação puramente fisiológica, do domínio da fonética, e a ação analógica, do domínio das formas gramaticais. Porisso faremos aqui uma exposição geral dos fatos relativos ao s final: a) Nos VOCÁBULOS ÁTONOS, conserva-se: os, as, nos (contração e pronome), nas. Aliás, há pronunciada tendência para tornar tônicos esses vocábulos; pela ditongação: ois, ais, etc. A conjunção mas tornou-se mais. b) Nos OXÍTONOS, conserva-se, - salvo quando mero sinal de pluralidade: crúiz, retróis, nóis (nós), nuz (nóz), juiz, ingrêis, vêiz, (vez), dois, trêis, déiz, fáiz, fiz, diz, páiz (paz), pois. Como sinal de pluralidade, desaparece: os pau, os nó, os ermão, os papé, as frô(r), os urubú. Excetuam-se os determinativos uns, arguns, seus, meus (sendo que estes dois últimos, quando isolados, perdem o s: estes carru são seu', esses não são os meu'). Há hesitação em alguns vocábulos, como péis ao lado de pé'. Réis conserva-se, por se ter perdido a noção de pluralidade (isto não vale nem um réis) ; semelhantemente, pasteis, pernís, cóis. c) Nos vocábulos PARO e PROPAROXÍTONOS, desaparece: um arfére, os arfére; o pire, os pire; dois home; os cavalo, os lático; nóis fizémo, vamo, saímo. Quando o s pluralizador vem precedido de vogal a que se apoia, desaparece também esta: os ingrêis (ingleses), as páiz (pazes), às vêiz (vezes), as côr (cores). Excetuam-se os determinativos, que conservam o s: u"as, argu"as, certos, muitos, estes, duas, suas, minhas, etc. assim como o pronome eles, elas. Quando pronominados, porém, os determinativos podem perder o s: Estas carta não são as minha. 5. De acordo com as regras acima, - e abstraindo-se das flexões verbais, - a pluralidade dos nomes é indicada, geralmente, pelos determinativos: os rei, duas dama, certas hora, u"as fruita, aqueles minino, minhas ermá, suas pranta. 6. O qualificativo foge, como o subst., à forma pluralizadora: os rei mago, duas casa vendida, u"as fruita verde, as criança távum queto. Abrem excepção apenas algumas construções, quase sempre expressões ossificadas, em que há anteposição do adjet.: boas hora, boas tarde. 7. Esta repugnância pela flexão pluralizadora dá lugar a casos curiosos. A frase exclamativa "há que anos!", equivalente a "há quantos anos!", sofreu esta torção violenta: há que zano! (ou simplesmente que zano!) Ouve-se freqüentemente bamozimbora. Não se deve interpretar como bamos+embora, mas como bamo+zimbora, pois o som de z, resultante originariamente da ligação de vamos com embora, passou a ser entendido pelo caipira como parte integrante da segunda palavra; tanto assim que diz: nóis bamo, e diz: êle foi zimbora. Prótese semelhante se dá em zóio (olhos), zarreio (arreios), com o s do art. def. plur. - Outro caso curioso é o que se dá com a expressão portuguesa uns pares deles, ou delas, que o nosso caipira alterou para uns par dele e u"as par dela. A frase - Vai-me buscar uns pares deles, ou delas, assim se traduzirá em dialeto: Vai-me buscá uns par-dele, ou u"as par-dela, como se par-dele e par-dela fossem as formas do masculino e do feminino de um simples substant. coletivo. GRADAÇÃO 8. As flexões de grau subordinam-se às regras gerais da língua. Apenas algumas observações: a) QUANTIDADE - O aumentativo e o diminutivo têm constante emprego, sendo que as flexões vivas quase se limitam a ão ona para o primeiro, inho inha, ico ica para o segundo. Nos nomes próprios de uso mais generalizado, há grande número de formas consagradas: Pedrão, Pedróca, Zé, Zezico, Zéca, Zêquinha, Juca, Juquinha, Jica, Jéca (José); Quim, Quinzinho, Quinzóte (Joaquim); Joanico, Janjão, Zico, (João); Totá, Totico, Tonico (Antônio) Mandá, Manduca, Maneco, Mané, Manécão, Manéquinho (Manuel); Carola (Carolina); Manca, Maricóta, Mariquinha, Mariquita, Maruca, Maróca (Maria); Colaca, Colaquinha (Escolástica); Anica, Aninha (Ana) ; Tuca, Tuda, Tudinha, Tudica (Gertrudes). O emprego do aumentat. e do dimin. estende-se largamente aos adjetivos e aos próprios advérbios: longinho, pertinho, assimzinho, agórinha. Acompanham estas últimas formas particularidades muito especiais de sentido: longinho equivale a "um pouco longe"; pertinho, a "bem perto, muito perto"; assinzinho, a "deste pequeno porte, deste pequeno tamanho"; agorinha, a "neste mesmo instante", "há muito pouco", "já, daqui a nada". Dir-se-ia existir qualquer "simpatia" psicológica entre a flexão diminutiva e a idéia adverbial. São expressões correntes: falá baxinho, parô um bocadinho, andava deste jeitinho, vô lá num instantinho, falô direitinho, ia devagarinho, fartava no sírviço cada passinho, etc. b) COMPARAÇÃO - As formas sintéticas são freqüentemente substituídas pelas analíticas: mais grande, mais piqueno, mais bão, mais rúm e até mais mio, mais pió. c) SUPERLATIVIDADE - Quase inteiramente limitada às formas analíticas. FLEXÕES VERBAIS 9. PESSOA - Só se empregam correntemente as formas da 1.ª e 3.ª pessoas. A 2.ª pessoa do sing., embora usada às vezes, por ênfase, assimila-se às formas da 3.ª: Tu num cala essa bôca? Tu vai? A 2.ª do plur. aparece de quando em quando com suas formas próprias, no imperativo: oiai, cumei. 10. NÚMERO - O plural da 1.ª pessoa perde o s: bamo, fômo, fazêmo. Quando esdrúxula, a forma se identifica com a do sing.: nóis ia, fosse, andava, andasse, andaria, fazia, fizesse, fazeria. Nas formas do preter. perf. do indic. dos verbos em ar, a tônica muda-se em e: trabaiêmo - trabalhamos, caminhêmo = caminhamos. O plural da 3.ª modifica-se: quérim, quiríum, quizérum, quêirum; ándum, andávum, andárum, ándim. No pres. do indic. de pôr, ter, vir, as formas da 3.ª pessoa são: ponham, tenham, venham. 11. MODOS E TEMPOS - 0 fut. imperf. do indic. exprime-se com as formas do presente: eu vô, nóis fazêmo, ele manda, por "eu irei", "nós faremos", "ele mandará". Entretanto, dubitativamente, empregam-se as formas próprias, às vezes modificadas: Fazerêmo? - Fazerá? - Não sei se fazerei - Quem sá' se fazerão! Será verdade? Sei lá se irei! 12. Com o condicional se dá coisa parecida. Correntemente, é expresso pelas formas do imperf. do indic.: eu dizia, ele era capáiz; mas: Dizeria? - Não sei se poderia - Seria verdade? 13. Aparecem não raro formas próprias do imperativo, do sing. e do plur., - anda, puxa, vai, andai, correi, trabaiai; são, porém, detritos sem vitalidade, que se empregam sem consciência do seu papel morfológico, de mistura com as formas da 3.ª pessoa, únicas vivas e correntes. PRONOMES 14. Tu tem emprego puramente enfático, ligando-se a formas verbais da 3.ª pessoa: tu bem sabia, tu vai, tu disse, Vóis (vós) já não se ouve, senão, talvez, excepcionalmente. 15. Os casos oblíquos nos, vos têm emprego muito restrito: na maior parte das vezes preferemse-lhes as formas analíticas pra nóis, pra você. Vos já não corresponde a Vós, mas a vacê: - v. já deve de sabê, porque eu vos disse muntas vêis. 16. Outras formas pronominais: a gente, u"a pessoa (ambas correspondentes ao francês on) ; você e suas variantes, todas muito usadas, vacê, Vancê, vossuncê, vassuncê, mecê, ocê. 17. Um fato que merece menção, apesar de pertencer mais ao linguajar dos pretos boçais do que propriamente ao dialeto caipira: a invariabilidade genérica do pronome ele, junta à invariabilidade numeral. Quando se trata de indicar pluralidade, o pronome ele se pospõe ao artigo def. os, e tanto pode referir-se ao gênero masculino, como ao feminino: osêle, zêle fóro zimbora - eles (ou elas) foram-se embora.