Vocabulário - parte 16 O Dialeto Caipira · Capítulo 21 de 24
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Vocabulário - parte 16

está em "praeda". - Diz F. J. Freire: "Os bons antigos quando usavam do dito termo, era para significar os mutuos presentes dos esposos; e ainda hoje neste sentido dizemos com toda a propriedade Prendas". PREPÓSITO, PERPÓSITO, propósito, s. m. | Preposito Frei Soeiro, diz lá o exemplo velho - (Gil V., "Auto da Feira"). - "E eu vos disse que ia era fyndo segundo preposito e tençom primeira que eu ouuera en o começar". (lnf. D. Pedro). - "... a qual veo muyto a preposito e fez muyta devaçom". (Caminha). PRETEJÁ(R), v. i. - encher-se (de gente, uma praça; de frutas escuras, uma árvore) : "... aquelas árvores pretejavam de jaboticabas". (T. de A.) - "Quando parê a prucissão, a rua pretejô". PRÓSA1, s. f. - conversa; parolagem; pretensão, fumaças: "Houvesse ou não um plano qualquer, o certo é que o engenho ganhou fama de assombrado e tirou a prosa de muita gente". (C. P.). PRÓSA2, q. - falador, roncador, paroleiro: "Você é um prosa, seu Chico!" PROSEÁ(R), v. i. - conversar; palrar. PUBA1, q. - diz-se da mandioca fermentada. | Tupi. PUBA2, s. f. - na frase "estar na -", isto é, "estar no trinque", estar muito bem vestido e ataviado. PUÍTA, s. f. - instrumento músico, constante de um cilindro com uma das bocas fechada por um couro, em cujo centro está fixada uma vareta, que se puxa e fricciona com a mão cerrada. | Africanismo. PULÊRO, poleiro, s. m. - cavalo doente e trôpego: vão procurar o Tico do Salgado, que diz que não tem pungas nem poleiros. (C. P.) | Parece originar-se da frase "poleiro de corvo", com que também se qualifica o cavalo imprestável, sobre o qual até os urubus pousam impunemente. PUNGA, q. - cavalo ordinário; por ext., indivíduo moleirão, sem préstimo: vão procurar o Tico do Salgado, que diz que não tem pungas nem poleiros. (C. P.) PUNHO, s. m. - cada uma das extremidades da rede caseira, feitas de cordões compostos de fios da mesma fazenda e rematados em argola. PUNI(R), v. i. - lutar em favor de, esforçar-se em defesa: "A mãe pune pelo filho". | Empregou-o M. A. de Almeida: "É melhor não se meter nisto... o compadre é seu official (da justiça), e ela há de punir pelos seus". É, aliás, de uso clássico: vós que punis pela pureza do materno vulgar... (Filinto, "Arte poet."). "Meu pae que devia ser o primeiro a punir pela minha honra, é o primeiro a embaraçar-me". (M. de Figueiredo, "Passaro Bisnao"). - De pugnar e punir, por cruzamento. PURUNGA, s. f. - o mesmo que PURUNGO. PURUNGO, s. m. - cabaça; vaso de boca estreita, feito de uma cabaça oca: Ergue o purungo dágua e vai, sequioso. matando a sede... (C. P.) | No R. G. do S. se diz "porongo". No Chile e no Peru dá-se esse nome a um cântaro de barro, de gargalo comprido (que é o nosso moringue, moringa). Do quechua "puruncca", como pretendem alguns? Como quer que seja, parece muito provável que haja qualquer parentesco entre purungo, porongo, purunca e moringa, moringue (talvez por boringa, boninga, etc.). PURURUCA, q. - quebradiço (couro torrado, torresmo seco, etc.). | É muito aparentado com. piririca, mas cumpre distinguir: piririca se refere de preferência às superfícies com aparência de lixa; pururuca, a coisas de comer, leves, secas e quebradiças, como o couro torrado, que estala nos dentes. Aqui há, provavelmente, mera extensão do sentido primitivo. que se referiria de certo ao aspecto que tem o couro torrado e outras coisas de superfície áspera. - Tupi. PUXADO1, q. - afetado no falar: "Arre. que mocinha puxada pra falá!" Part. pass. com signif. ativa. PUXADO2, s. m. - acréscimo feito a uma casa, geralmente do lado dos fundos. PUXÁ(R), v. t. - transportar (coisas em grande quantidade, como lenha, produto de uma colheita, etc.) "Eu vô puxá o café do majó pra a cidade" - "Êle tinha obrigação de puxá a lenha na bêra da estrada". PUXA-PUXA. q. e s. f. - calda de açúcar quando começa a solidificar-se: "A carda já tá puxapuxa". "A criançada gosta de puxa-puxa". QUAGE, quase. adv. - "Pescou muito, nho Antonio?" - "Quage nada". (C. P.). QUARESMA. s. f. - árvore da fam. das Melostomáceas. "Tibouchina mutabilis". | A pronúncia mais vulgar é coresma. QUARTA-FÊRA. q. - tonto, atoleimado: "Também, o que é que faz um pobre dum quarta-feira no meio dos que tenham juizo?" (V. S.). | Acreditamos que seja antes um t. de gíria local, sempre instável e caprichosa, do que aquisição definitiva da linguagem geral do povo. QUATRÓIO. quatrolhos, q. - que tem manchas claras acima dos olhos (o cão, principalmente). QUÉBRA1, s. f. - aquilo que se recebe a mais da conta ou medida, numa compra; o mesmo que choro. O v. "quebrar" e em certos casos sinôn. de "diminuir". tratando-se de peso ou medida, e isto é da língua e é do dial. Diz-se, por ex., que o arroz, descascado, quebra tanto por litro. A quebra, ou diminuição, certa ou provável. dá lugar, naturalmente, em muitos negócios, a uma compensação prévia ao comprador; dai a expressão de quebra, ainda corrente, mas reduzida, também com freqüência, ao subst. QUÉBRA2, s. m. - indivíduo forte, valente; tuntum-cuéba, cuéra, caibra. etc. QUEIMADO. s. m. - bala de açúcar. QUE(I)XADA. s. f. - porco do mato. QUENQUEN. s. f. - certa formiga. QUENTÃO. s. m. - aguardente aquecida com gengibre e açúcar. QUENTE, q. - diz-se de certas substâncias alimentares que se julga produzirem escandecência, prisão de ventre, ou irritação dos "humores", e serem boas para constipações e resfriamentos: "Mecê anda cum tanta bertoeja, e come farinha de mio e carne de porco. Num sabe que é quente? | Às substâncias quentes opõem-se as frias: são compreendidas como tais as "refrigerantes" e outras que se julgam indicadas para certos estados inflamatórios, ou contraindicadas em casos de constipação ou resfriamento. Quem, por ex., está afetado de bronquite não deve tomar limonada, nem sangria, nem comer abacate, porque isso tudo são coisas frias. QUERÊ(R), v. t. - A forma da 3.ª p. do sing. junta a um infinitivo de outro verbo, indica a probabilidade, a quase certeza, o receio de que se dê o fato designado pelo infinitivo: "Oi que já qué chovê", isto é, "olhe que chove, cuidado, que aí vem chuva". | J. Mor., "Estudos", 2.º v., enumera este entre os muitos processos pelos quais a fraseologia pop. e fam. port. "designa a possibilidade ou probabilidade de que um fato se dê", e cita este exemplo: "Parece que quer chover", acrescentando: "Compare-se em inglês o emprego do auxiliar will para a formação do futuro". - Como se vê, ainda este brasileirismo, parecendo original, talvez tenha a sua genealogia transatlântica. É de notar-se, porém, que a fórmula mais comum não é a que aí fica registada, mas - a forma do gerúndio, posposta ao infinitivo "estar", que tem o mesmo sentido, e é de uso vulgaríssimo: "Aquela torre parece que tá quereno caí". QUERÊNCIA. s. f. - lugar a que um animal está habituado; por ext., aplica-se também à pessoa: "... nunca não vi dizer que êle manducasse coisa de peso noutras querências..." (V. S.). | Em port., querença, de onde se derivou querençoso: "El Rei Dom Fernando era muy querençoso do caça e monte..." (Fem. Lopes). QUIBÊBE, s. m. - abóbora pisada e cozida. | Afric. QUIÇAÇA, s. f. - mato baixo e espinhento, capoeira de paus tortuosos e ásperos. QUIÇAMBA, s. f. - jacá de taquara, de fundo estreito, em que se conduz o café em grão do cafezal para a tulha. Pouco us. | Alter. de "caçamba"? QUILOMBO, s. m. - nome que se dava às habitações de escravos fugidos, situadas em lugares ermos e distantes. | O mesmo que "mocambo", desusado em S. P.. É t. bundo, significando acampamento (Capêlo e Ivens, cit. por B. - R.). - Nas repúblicas hispânicas da América do S., também é, ou foi já usado como sinôn. de "conventilho". QUILOMBÓLA, s. m. - habitante de quilombo, escravo fugido. É t. literário de que o povo nunca usou empregando em seu lugar canhembora. É muito possível que este voc. de orig. tupi houvesse influído para a forma daquele derivado de quilombo QUINGENGUE, s. m. - espécie de tambor grosseiro que se usa nas festas e danças. | Diz C. P. no glos. da sua "Musa": "semelhante ao tambu tendo interiça a metade do volume". - Afric. QUIRÉRA, s. f. - resíduos de milho, arroz ou outro cereal, que ficam na peneira: mistura de cascas quebradas e fragmentos de grãos. | Do tupi "curuéra"? É de notar-se que há no nheng. e na ling. ger. (B. Rodr.) "piera", significando "casca". QUITANDA, s. f. - designa coletivamente os doces, broas, biscoitos, ou frutas e legumes expostos à venda, geralmente em tabuleiros, pelas ruas. | Modernamente, nas cidades, designa também pequenas casas de comercio de frutas e verduras; mas isto já não é dialeto caipira. - O voc. é bundo, seg. G. Viana, e veio-nos de Port., onde também é corrente com acepção ligeiramente diversa. - É curioso observar que há em port. o t. quintalada, que, em Gil V., parece ter a mesma signif. brasileira de "quitanda": Vendo dessa marmelada, E ás vezes grãos torrados, Isto não releva nada: E em todolos mercados Entra a minha quintalada. ("Auto da Feira"). QUITANDÊRO, s. m. - indivíduo que vende ou faz quitanda. QUITUTE, s. m. - acepipe, guisado bom. QUITUTÊRO, q. - que sabe fazer quitutes; que gosta deles. RABACUADA, s. f. - gente ordinária. | De rabo? Do cast. "rebaja"? RABEÁ(R), v. t. - erguer pelo traseiro (um veículo) para o colocar na direção desejada, quando se tem de fazer uma curva muito viva. RABÊRA, s. f. - a parte traseira de um veículo. RABI, q. - de rabo cortado. Formado talvez pelo tipo de nambi, sem orelha. RABO-DE-TATÚ, s. m. - relho cujo cabo é feito do mesmo couro das talas, trançado de modo que se assemelha ligeiramente à coisa que lhe deu o nome. RABUDO, q. - que tem grande rabo; s. m. - o diabo. RAIA, s. f. - lugar que se adota como pista para carreiras de cavalos. RANCHO, s. m. - cabana, geralmente de sapé, que se faz nas roças para abrigo de trabalhadores; casa rústica sem compartimentos; telheiro ou cabana para abrigo de viajantes, à beira das estradas; por ext., casa pobre. | T. geral no Br. Usa-se no R. G. do S.: "... dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou..." (S. L.). Usa-se no Nordeste: Na barranca do raminho, abandonado, um ranchinho entre o mato entonce viu. (Cat.). RAPÔSA, s. f. - marsupial do gên. "Didelphus", a "saruê" ou "sarigùê" de outros Estados. REBENQUE, s. m. - espécie de relho. | Há em port. "rebem", antiq., e em cast. "rebenque". REBOLÊRA, s. f. - capão de mato; maciço que se destaca entre a vegetação. REBORDÓSA, s. f. - doença; mau acontecimento: "Está sarando; mas com outra rebordosa dessas, vai-se". | B. - R. regista-o com a signif. de "reprensão", que não lhe conhecemos, sem a contestar. - De revoltosa? RÉCULA. s. f. - bando, súcia, caterva: "O resto era uma récula de famílias mulheres..." (M. L.). Alter. de récua, récova. RÊDE, s. f - espécie de balanço que se arma dentro das casas, ou nos alpendres. | Em S. P. faz as vezes de espreguiçadeira; é o assento de honra, que se oferece às visitas respeitáveis. No Norte e no Centro do país substitui a cama. Consiste num retângulo de tecido de malha, ou de pano grosso de algodão, cujos lados maiores são enfeitados com franjas, chamadas varandas, e de cujos lados menores partem cordões com cerca de meio metro de comprimento, que se enfeixam nas extremidades, formando uma espécie de argola. Esses cordões constituem os punhos da rede. Pela argola formada dos cordões passam-se cordas fortes, que as ligam a outras argolas de ferro, e estas são suspensas a escápulas ou ganchos, fixos a portas, janelas, ou moirões. REDOMÃO, q. - diz-se do animal de sela ainda não domado de todo, mas que já sofreu alguns repasses. | É t. hispano-americano, "redomon". RÉFE, réfle, s. m. - sabre-baioneta. | O "Novo Dic." regista com acepção diversa. - Do ingl. "rifle". REINÁ(R), v. i. - fazer travessuras. | "... estevemos sobre isso hum pouco rijnando..." (Caminha). A forma fixada na carta do escrivão da armada deve-se, de certo, a uma das muitas hesitações ortográficas que transparecem desse docum. - Liga-se provavelmente a renhir. (Cp. J. Rib., "Fabordão"). REINADÔ(R), q. - travesso. | De REINAR. RÉIS, rei, s. m. - "Evem vindo o reis! exclamou a atalaia". (M. L.). | Corrut. generalizada, por todo ou quase todo o pais, entre a gente inculta. Deve-se provavelmente a influência de "réis". RÉlVA raiva, s. f. - | Cp téipa por taipa. REJUME, regime, s. m. disciplina; obediência às prescrições do médico. RELÁ(R) v. t. e i. - roçar, deslizar sobre, tocar de raspão: "O cavalo deu uma arrancada para o mangueiro, relou os cascos na ferragem do portão, quase focinhou com o abalo..." (V. S.). - "A bala me relô no braço". - "Êle passou relando por mim". | De ralar. RELAMPEÁ(R), v. i. - apareceram relâmpagos; brilhar fugazmente. | E port., mas não deixa de ser curioso notar que é esta a única forma usada no dial., dentre as diversas que o voc. tem ("relampaguear, relampadar, relampejar"). - De relampo, pop. tanto no Br., como em Port. RELAMPO, relampago, s. m. DE -, rapidamente. fugazmente. RELANCINA, s. f. - na loc.: DE -, de relance, de revés, de fugida. REMONTÁ(R). v. i. - voltar pelo mesmo caminho (a caça). REPASSO, REPASSE, s. m. - cada uma das vezes que o domador monta um animal chucro. | De passar, com pref. DAR UM -, submeter a uma nova corrida (o animal redomão); fig., submeter a uma nova prova. REPONTÁ(R), v. t. - cercar pela frente e fazer voltar (o gado). REPOSTA, s. f. | "E como Nunalurez com elles esto fallou: e delles ouue a rreposta que lhe derõ". ("Cron. do Cond.") REPRESENTÁ(R), v. i. - parecer: "... me representa escuitar uns guinchos finos..." (V. S.). | Este verbo, usadíssimo entre o povo, é o castiço representar-se (pronom.) = afigurar-se. RÉQUE-RÉQUE, s. m. - "gomo de bambu, de meio metro, dentado, em que o tocador passa compassadamente uma palheta do mesmo vegetal, seco..." (C. P., notas finais da "Musa"). | É o réco-réco de outras regiões. REQUIFIFES, s. m. pI. - fanfreluches, adornos complicados. | Provavelmente de requife, fita ou cordão. Em todo caso, é t. antigo e muito usado em S. P., e também no Norte do pais: com efeito, J. Brigido o apanhou no Ceará, consignando-o como de velho uso, com a signif. de cordões de ouro cheios de emblemas e enfeites. RESTINGA, s. f. - tira de mato à beira de um rio. RETACO. q. - baixo e atarracado, curto e forte (indivíduo). RETOVÁ(R), v. t. - cobrir de um revestimento ajustado (uma bola, por ex., que se revista de tecido, ou couro). | Muito usado no R. G. do S. - Cast. "retobar". RETOVADO, q. - recoberto de uma capa que se ajusta à superfície: "...aquilo ficô retovado que nem chifre de viado". | Part. de RETOVAR. REÚNA, s. f. - carabina de soldado. | O "Novo Dic." regista com a signif. de "espingarda curta e de fusil", hoje desusada, e como alter. de raiúna, que nos parece improvável. REÚNO, q. - sem dono, vagabundo (animal) : "...um poldro que a gente larga no campo reúno e véve sem lei nem freio... " (V. S.) | Corrente no R. G. do S. - De rei, designando primitivamente o que era do Estado, o que não tinha dono certo e concreto. REZÃO, razão, s. f. RINGIDÊRA, q. - que ringe (botina). RÓÇA, s. f. - plantação, lavoura: roça de milho, roça de mantimento. Tem signifs. aproximadas em port.: lugar onde se roça o mato, sementeira em terreno roçado. - De roçar. ROÇADA, s. f. - ação ou efeito de roçar. ROÇÁ(R), v. t. - cortar com foice (um mato); limpar de mato com a foice (um terreno). RODADA1, s. f. - queda do cavalo para a frente: "levar rodada". RODADA2, s. f. - pescaria em canoa, deixando-se esta rodar ao sabor da corrente. RODADO, q. - diz-se do cavalo cujo pelo é branco e preto, com pequenas rodas desta última cor. RODEIO, s. m. - reunião do gado vacum criado em campo, para se marcar, para se fazerem curativos, etc. ROJÃO, s. m. - foguete. | Em port. registam-se duas acepções: torresmo, e vara com choupa para picar os touros. Em qualquer delas, o voc. vem, naturalmente, de rojar. A signif. bras. não é local, mas está espalhada por grande parte do país, o que faz supor uma terceira acepção

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