Vocabulário - parte 19
equídeos. TROSQUIA, tosquia, s. f. | "...os cabelos seus são coredios, e andavam trosqujados de trosquya alta..." (Caminha). Dous porquinhos trosquiados Coinchar não nos ouvistes? (Gil V., "Rubens"). Eu tenho as unhas cortadas, E mais estou trosquiada - (Gil V., "Inês Per."). "...fazeme a barba farteey a trosquia". ("Eufros.", I, sc.2.ª). -"Hivos embora, & olhay não vades por lãa, & venhais trosquiado". ("Eufros.", III, sc. 2.ª). TROTEÁ(R), v. i. - andar a trote (a cavalgadura); fig., andar de pressa, despachar-se, sob alheia instigação, ou sob a pressão de necessidade urgente: "Coitado, tava tão quéto im casa, e de repente teve que troteá!" | A forma port. é trotar, mas o nosso povo da roça tem decidida preferência pelas formas freqüentativas: trotear, barrear, bolear, etc. TROTEADA, s. f. - caminhada a trote; viagem rápida a cavalo; corrida. TROTÃO, q. - animal que trota. TRÓTE, s. m. - andar duro e cadenciado (de animal equídeo). Difere da signif. port. - "andamento natural dos cavalos". TRUCADA, s. f. - uma vez, uma jogada ou mão de truque; o ato de TRUCAR: Cheguei agora, moçada. já escol meu cumpanhéro: quem é bão nua trucada, rebusque quarqué parcêro! (C. P.). TRUQUE, s. m. - jogo entre quatro parceiros, cada um dos quais dispõe de três cartas. | É este o mais popular dos jogos de cartas, no interior de S. P. e de quase todo o Br. Em S. P. joga-se com as seguintes cartas, pela ordem dos valores: os dois, os três (bicos), o sete-oro (sete de ouros), a espadia (espadilha), o séte-cópa (sete de copas), o quatro-pau (quatro de paus), ou zápe. Faz parte da pragmática do jogo levá-lo sempre com pilherias e bravatas, umas e outras geralmente acondicionadas em fórmulas estabelecidas. - DE MANO, variedade que se joga entre duas pessoas. TRUQUÊRO, s. m. - jogador de truque. TRUCÁ(R), v. i. - o ato de provocar o adversário, no jogo do truque, antes de uma jogada. | O que truca exclama, em regra: truco! O adversário manda, ou corre. Se manda, na dúvida de fazer a vasa, é geralmente com a frase - Bâmo vê, ou - Jogue. Se tem a certeza de ganhar, ou pretende amedrontar o outro, responde com ênfase, às vezes aos gritos: Toma seis! - Seis, papudo! - E diga porque não qué!" e outras bravatas por esse estilo. - DE FARSO: trucar sem carta que assegure o lance, só para amedrontar o adversário; fig., fazer citação falsa, alegar fatos não verdadeiros. TUBUNA, s. f. - abelha silvestre. | Tupi. TUCANO, s. m. - designa diversas aves trepadoras do gên. "Ramphastos". TUCUM, s. m. - designa várias palmeiras dos gêns. "Bactris" e "Astrocaryum", cujas fibras, de grande resistência, são muito empregadas em cordoaria rústica. | É a "tucumã" do Norte. - Tupi. TUIM, s. m. - pequena ave da fam. dos papagaios. TUTA-MÉIA, s. f. - pequeno valor, quantia insignificante; "Não faça quistã por essa tuta-méia". | Derivado, segundo J. Moreira ("Estudos", 1.º vol.) de "uma pequena moeda de cobre da África Port.". Convém notar, porém, que Moreira e com ele o "Novo Dic." escrevem tuta e meia, ao passo que a forma corrente em S. P. e como vai indicada, - sem e entre os dois elementos e com é aberto em meia. TUTUVIÁ(R), TURTUVIÁ(R), TITUBIÁ(R), v. i. - ficar perplexo, pasmar, hesitar: "Cuidado cum esse muleque: se tutuviá, êle tomô conta de vacê!" TUTUVIADO, TURTUVIADO, q. - perplexo, tonto, pasmado, hesitante: Fico meio turtuviado; gentarado, carro, bonde e em toda parte um sordado. (C. P.). Eta barúio do inferno! Fiquei meio turtuviado. (C. P.). Paiva regista titubiado entre os seus termos condenáveis: indício de que este curioso voc. é ainda uma importação. TUTÚ, TUTÚ-DE-FEJÃO, s. m. - feijão virado, isto é, feijão cozido que se mistura com farinha de milho ou de mandioca, ao fogo, no momento de servir. UAI! UIAI!, intj. de surpresa ou espanto: "Houve, porém, aparição menos esperada. - Uai, gente! Passei a mão, nesta horinha, maginem lá no que?" (V. S.) | Deve ser alter. de olhai. UnA, uma, adj. num. | É a única forma conhecida do caipira e, na língua, é a forma pop. e clássica. UÉ! UÊ! intj. de espanto. | Talvez provenha de olhai por oiai -> uiai -> uai -> uéi -> uêi, formas estas existentes todas no falar caipira. De troca de ai em éi há exemplos: téipa, réiva. - Contudo, há quem dê a esta intj. origem africana. UÉI-ME!, intj. de impaciência: "Aquerditá nessa bobiciada! Vacêis (es)tão que nem criança, uéime!" A última sílaba é muito rápida. Cp. HAME, alter. de homem, também usada como intj. UNTANHA, s. m. - espécie de sapo. URUNDÚVA, ORINDIÚVA, s. f. - certa árvore do mato. | Tupi. URÚ, s. m. - ave da fam. das Perdíceas: Sobre a folhagem sêca da floresta cantam urus. É quase ave-maria. (C. P.). | Tupi. URUCUNGO, s. m. - instrumento músico usado por pretos africanos: consiste num fio qualquer, esticado num arco, à maneira de arco de seta, com uma cabaça numa das extremidades, servindo de caixa de ressonância. Sobre esse fio o executante bate a compasso com uma pequena vara. | T. africano. URUCURANA, s. f. - grande e bela euforbiácea, de que se conhecem duas ou mais espécies. | Tupi. URUTAU, s. m. - ave noturna da fam. "Caprimulgidae", que habita o mato virgem. | A lenda do urutau é das mais conhecidas do folclore regional, e tem sido contada por vários escritores. - O t. é tupi e, segundo B. - R., usado também pelos guaranis do Paraguai. URUTÚ, s. f. - certa cobra venenosa. | B. - R. dá como t. do Paraná, mas é também paulista, e dos mais vulgares. UVÁIA, s. f. - fruto de uma mirtácea de grande e belo aspecto; a árvore que o produz. | Segundo B. Caet., do guar. "ybá" + aia", fruto azedo. UVAIÊRA, s. f. - a árvore da UVAIA. VACÊ, VANCÊ, VASSUNCÊ, VOSSUNCÊ, alterações de vossa-mercê, como o você de uso culto. A primeira forma é mais familiar; vancê, mais respeitosa; as outras, ainda mais cerimoniosas do que essa. Ha outras: vamicê, suncê, mecê. VAPÔ(R), s. m. - locomotiva de estrada de ferro; locomóvel. VAQUEANO, s. m. - indivíduo que conhece minuciosamente determinada porção de território. | Voc. usado nas repúblicas hispano-americanas e, seg. B. - R., vem de "baquia", nome que os espanhóis deram, depois da conquista do México, aos soldados velhos que nela haviam tomado parte. VARÁ(R), v. i. - caminhar direito, resolutamente: "Fronteemo aquêle primeiro capão da chacra do Chico Manuel, fomo varando". (V. S.). VARANDA, s. f. - sala de jantar. VARANDA(S), s. f. pl. - guarnições laterais das redes de descanso, geralmente em "filet", com franjas. | Também usado no Norte. VAREJÃO, s. m. - vara comprida com que se impelem canoas e botes. VARIÁ(R), v. i. - proferir frases e vocábulos desconexos, por efeito de delírio. VARIEDADE, s. f. - ato de VARIAR. VARRIÇÃO, s. f. - ato de varrer. VASSO(U)RINHA, s. f. - vegetal da fam. das Sapindáceas, de lenho escuro, veiado e manchado de preto. VEIACO, velhaco, q. - diz-se da cavalgadura que tem manchas, habituada a dar corcovos. VEIAQUIÁ, velhaquear, v. i. - corcovear (a cavalgadura). | Também usado no R. G. do S. VEIÊRA1, abelheira, s. f. - casa de abelhas indígenas. VEIÊRA2, velheira, s. f. - pessoa muito velha. VELÁ(R), v. t. - pôr ao relento (batatas doces). | Só conhecemos o t. aplicado à batata. - Em port., há avelar - encarquilhar (como avelã?), velar de vigilare e velar de velare. O nosso t. talvez se ligue ao primeiro. E de notar-se que, no Norte, se diz "velado" o coco cuja amêndoa está solta. VÊ(R), v. t. - nas frases que começam por é vê(r), é vê(r) que... eqüivale a dir-se-ia, afigura-se, parece: "É vê que veio da invernada do Xavié..." (C. P.) "O Antónho é vê que tá doente". "Mecê é vê seu avô". | Por mais estranho que tudo isto pareça, explica-se facilmente. A principio, tratarse-ia de um circunlóquio muito natural, em frases como as seguintes: "Olhe aquele pobre rapaz: é ver um fantasma". - "O Pedro não pára; anda, corre, desanda, - é ver um macaco". Com o tempo, ter-se-ia perdido a consciência do valor lógico dessas palavras, sendo elas tomadas como um só vocábulo (évê) com função igual à de parece. Dai a grande ampliação de seu emprego. E de notar-se que também se diz evê, com o primeiro e ensurdecido, e até simplesmente vê: "Aquele que vem lá não é o Chico? - Vê que não". VERDADE, s. f. - na loc. "de verdade", equivalente à moderna em verdade, na verdade. | "Dizemee Nunalurez de verdade faziees vos esto que asy começastes?" ("Cron. do Cond.", Xl). VERDEGÁIS, s. m. - corda de viola, usada em varas de pesca. VERÊDA, s. f. - na loc. "de vereda" e semelhantes: de seguida, sem interrupção, de uma vez: "Passô por aqui numa vereda, nem oiô pra tráis". VEVÚIA, s. f. - bexiga, tripas de animal: "...tendo ao ombro o bornal de iscas, pequenos lambaris, passarinho sapecado, vevúia de boi, minhocucu". | Alter. de borbulha. Atesta-o o uso que se faz deste último voc., na sua acepção de bolha, vesícula, sob aquela mesma forma; atesta-o a existência de vevuiá(r) - borbulhar. No Ceará, seg. Cat., se diz "burbuio": viu um "burbuio" de sangue do tronco véio corrê! Colhidas todas as variantes possíveis, no Br., talvez se verificasse que o "bubuiar" amazônico, onde se quer ver um radical indígena, não passa de simples alteração do mesmo borbulhar, com translação de sentido. VIAJADA, s. f. - caminhada, viagem: "Pra não voltar c'as mãos abanando e não perder a viajada, entendi de romper pro cafesal..." (V. S.). VIRÁ(R), v. t. e i. - misturar, pôr em desordem, transformar, transformar-se. percorrer em todos os sentidos: "O minino virô tudo naquela gaveta". - "A gente do sítio virô o triato nua estrivaria" - "Padre José, depois de morto, vira santo" -"Essa muié há de virá mula sem cabeça" - "Já virei esse sertão de tudo geito". VIRA-BOSTA, s. m. - pássaro conhecido. VIRADO, VIRADINHO, s. m. - comida que se mexe ao fogo, com farinha: virado de feijão, virado de couves, etc. VIRGE(M), s. f. - mourão, poste de moenda. VISGO, visco, s. m. VISGUENTO, q. - viscoso. VÓRTA DA PÁ, volta, s. f. - paleta. XARÁ, q. - indivíduo que tem o mesmo nome de outro. | Há outras formas, para o Norte: "xarapim", "xera". Do tupi. - No R. G. do S. se usa, em vez de xará, ou de qualquer de suas variantes, o cast. "tocayo". XERGÃO, s. m. - espécie de manta de lã ou pele que se coloca sobre a cavalgadura, por baixo da carona. | De enxergão. * * * * * * * * * *