Vocabulário - parte 1
O QUE CONTÉM ESTE VOCABULÁRIO Este glossário não se propõe reunir, como já dissemos em outro lugar, todos os brasileirismos correntes em S. Paulo. Apenas regista vocábulos em uso entre os roceiros, ou caipiras, cuja linguagem, a vários respeitos, difere bastante da da gente das cidades, mesmo inculta. Quanto a esses próprios vocábulos, não houve aqui a preocupação de indicar todos quantos constam das nossas notas. Deixamos de lado, em regra geral, aqueles que não temos visto usados senão em escritos literários, e por mais confiança que os autores destes nos merecessem. Iguais reservas tivemos com os nomes de vegetais e animais. Alguns destes, dados por diversos autores como pertencentes ao vocabulário roceiro, nunca foram por nós ouvidos, talvez por mera casualidade. Não os indicamos aqui. Outros, e não poucos, estão sujeitos a tais flutuações de forma e a tais incertezas quanto à definição (o que é muito comum na nomenclatura popular), que, impossibilitados, muitas vezes, de proceder a mais detidas averiguações, preferimos deixá-los também de lado por enquanto. AS VÁRIAS FORMAS Registam-se os vocábulos, em primeiro lugar, em VERSAL, na sua forma dialetal mais freqüente, e como a pronunciam. Outras formas e pronúncias, quando há, se registam, quase sempre, logo na mesma linha (para não alongar demasiado este glossário), e em VERSALETE. Quando as formas dialetais diferem sensivelmente das correspondentes da língua, escrevem-se também estas, na mesma linha, em itálico. Nos casos em que a diferença pode ser indicada no próprio título do artigo, assim se procede, como em ABOMBÁ(R), onde a queda de r está suficientemente assinalada. ABONAÇÕES As citas que se fazem logo após as definições, para as esclarecer, levam muitas vezes indicação de autor, entre parêntese. Não quer isto dizer que os vocábulos tenham sido colhidos em tais escritores, pois até citamos algumas frases de autores estranhos ao Estado de S. Paulo; quer dizer apenas que tais vocábulos foram aí usados com o verdadeiro valor que lhes dão os roceiros paulistas. Tendo de juntar às definições frases que dessem melhor idéia dos termos, achamos que seria interessante tirar essas frases de escritores conhecidos e apreciados, desde que quadrassem perfeitamente com o uso popular. Apenas lhes fizemos algumas modificações de grafia. ABREVIATURAS Além das abreviaturas de nomes de autores e outras que constam da lista inserta em outro lugar, há no vocabulário as seguintes, que convém esclarecer: adj. - adjetivo. a part. - particípio adv. - advérbio, adverbial prep. - preposição, prepositiva Br. - Brasil pl. - plural bras. - brasileiro, brasileirismo Port. - Portugal cast. - castelhano port. - português conj. - conjunção pron. pronome, pronominal det. - determinativo q. - qualificativo dial. - dialeto, dialetal rel. - relativo ext. - extensão signif. - significação f. - feminino subst. - substantivo fig. - figurado, figuradamente sing. - singular i. - intransitivo t. - termo intj. - interjeição t. - transitivo loc. - locução v. - verbo m. - masculino, a voc. - vocábulo p. - página V. - Veja O sinal | separa da definição e exemplificação do termo qualquer comentário ou nota que se julgou útil acrescentar. ABANCÁ(R) [SE] - v. pron. - sentar-se: "Entre i se abanque". | De banco. ABANCÁ(R). v. i. - fugir: "0 dianho do home, quano viu a coisa feia, abancô" ABERTO DOS PEITO(S), - diz-se do animal de sela ou tiro, que, andando, cai para a frente. ABOBADO, q. - atoleimado, pateta: "O cabo da guarda sopapeou o Quirino, abobado de medo, fazendo-o cambetear para dentro da salinha". (C. P.) | Com signif. semelhante, Gil V. empregou atabobado, t. cast. ABOMBADO, q. - diz-se do animal de sela, tiro ou carga, extenuado de fadiga. Por ext. também se aplica a pessoa: "Era em Fevereiro, eu vinha abombado da troteada..." (S. L.). ABOMBÁ(R), v. i. - extenuar-se (o animal). ABRIDERA. s. f. - aguardente de cana. | De abrir (o apetite). AÇA, aço, q. - albino. | - Usado em quase todo o Brasil. ACARÁ, s. m. - peixe também chamado, no Brasil, cará e papa-terra (R. v. I.). ACAUSO, s. m. - casualidade: "Isso se deu por um acauso". | V. CAUSO. ACERTÁ(R), v. t. - ensinar (o animal de sela) a obedecer à rédea. | V. ACERTADÔ(R). ACERTADÔ(R), s. m. - indivíduo que acerta animais de sela: "Passaram-se anos e a Eulália teve que aceitar o Vicente do Rancho, moço de boa mão e de boa cabeça, quando ele deu os últimos repassos num piquira macaco do pai dela e entrou a cercar-lhe a mãe de carinhos e presentes. Q acertador não enxergava terra alheia quando olhava da janela para fora...". (V. S.). ACOCÁ(R), v. t. - mimar com excesso (a criança): "Esse tar num dá pra nada. Tamem, o pai e a mãe só sabium acocá ele..." Cp. à coca, expressão port., e também cuca, côca e côco. V. a primeira destas palavras. ACOCHÁ(R), v. t. - torcer como corda: "É perciso acochi meió esse fumo". | De cochar. ACUPÁ(R), ocupar, v. t. "De tudo isto tenho feyto hum roteiro que poderá acupar duas mãos de papell..." (Carta de d. João de Castro ao rei, escrita em Moçambique). ADONDE, onde, adv. Só nas partes mais altas pareciam Uns vestígios das torres que ficavam. Adonde a vista o mais que determina E medir a grandeza co'a ruína. (G. P. de Castro, "Ulisseia") Também no Norte do Brasil persiste esta forma: Eu ante quina sê a pedra adonde lavava sua roupa a lavandêra (Cat., "Meu Sertão") AFINCÁ(R), v. t. - embeber, cravar (qualquer objeto delgado e longo): "Afinquei o pau no chão". "Não afinque prego na parede". "O marvado afincô a faca no ôtro". | É port., como fincar, mas com acepções diversas. AFITO, s. m. - mau olhado. | Apesar de nunca termos ouvido este voc., e só o havermos encontrado num escrito ("A Superst. Paulistana", eng. E. Krug), resolvemos registá-lo, por ser dos mais curiosos. É palavra antiga na língua com a significação de indigestão, diarréia ("Novo Dic."). Em cast. existe ahito, q., - o que padece de. indigestão ou embaraço gástrico. Comparando-se isto com o sentido que dão à palavra os caipiras. segundo o citado escritor, e com a expressão "deitar o fito", equivalente a "deitar mau olhado". que se encontra em Gil V., pode deduzir-se que a significação primitiva do voc. port. e cast. deve ter sido, mais extensamente, a de - indisposição causada por mau olhado, quebranto. AFORA(R), v. t. - tirar fora, subtrair. Usado apenas sob a forma do gerúndio, "aforando": "Vinticinco, aforan(d)o quatro, são vintium" | Acreditamos que seja hoje bem raramente usado este expressivo verbo, que ouvimos muitas vezes, porém há algumas dezenas de anos, e só numa localidade paulista (Capivari). AGÒRINIIA, adv. - agora mesmo. neste instante. AGREGADO, s. m. - indivíduo que vive em fazenda ou sítio, prestando serviços avulsos, sem ser propriamente um empregado. AGRESTE, q. - ríspido, intratável, desabrido: "Nunca vi home tão agréste como aquêle nho Tunico!". - Também indica certos estados de ânimo indefiníveis e desagradáveis: "Num sei o que é que tenho hoje: tô agréste..." AGUAPÉ, s. m. - plantas que bóiam à superfície das águas remansosas ou paradas. | Do tupi? AGUARDECÊ(R), AGARDECÊ (R), agradecer, v. t. | Encontra-se guardeço na "Cron. do Cond." ("o que vos eu guardeço muito e tenho em seruiço...", cap. XI), provavelmente por errada analogia com guardar. A forma dialetal, que também aparece com freqüência aferesada, deve provir do mesmo engano. - Na citada "Cron." encontra-se igualmente agardeceo: "E o mestre seedo dello ledo mãdou logo chamar Nunalvrez e agardeceolhe muyto o que com Ruy Pereyra fallara...", cap. XVI. AGUAXADO, q. - entorpecido por longa inatividade e pela gordura (o animal de sela). | Há quem escreva aguachado e ligue o voc. a guacho, mas erradamente. Origina-se, ao que parece, do árabe alguaxa, de onde o castelhano aguaja (úlcera ou tumor aquoso que se forma nos cascos dos cavalos ou das bestas) e o português ajuaga ("tumor nos cascos das bestas", segundo o "Novo Dic."). - Parece indiscutível que o vocáb. veio do castelhano pela fronteira do sul, região onde é conhecido e usado. A mudança de sentido deu-se evidentemente pela similitude dos efeitos do tumor e da gordura, causas que por igual embaraçam a marcha. Como se deu essa mudança, eis o que é mais difícil explicar. Talvez tenha influído nisso a palavra aguado, já existente em port., e, segundo certos autores, com a mesma origem (J. Rib., "Fabordão"). - As palavras aguado, aguar, aguamento, são correntes em Portugal e Brasil. Aguado diz-se do animal atacado de certa doença que lhe tolhe os movimentos: por aqui se prenderá a alguaxa, tumor do casco. Essa doença caracteriza-se por uma abundância de líquido seroso, que os nossos roceiros dizem existir no pescoço do animal e que se faz vazar, geralmente, por meio de sangria: por aqui se relaciona com água. A doença é atribuída pelo povo, ao menos em alguns casos, a desejo insatisfeito de comer: ainda uma influência de água, pois o apetite faz vir água ã boca. Também se diz de uma criança que ela aguou quando ficou triste e descaída por ver outra criança mamar, não podendo imitá-la, ou por lhe apetecer coisa que não lhe podia ser dada. - Há razões para se desconfiar que a sangria atrás referida seja mera abusão de alveitaria bárbara, possivelmente originada, como tantas usanças e mitos, numa falsa etimologia. De alguaxa ter-se-ia extraído aguar, aguado, por se ver ali o tema de água. Tratando-se de animal aguado, era forçoso que houvesse água, e foram descobri-la no pescoço, não já nos cascos, como seria mais razoável. Existe essa água? Os roceiros afirmarão que sim, sem admitir dúvida, mas há quem duvide. Eis o que diz, por exemplo, o dr. E. Krug: "Deve ser considerado superstição o tratamento de animais aguados por intermédio de uma sangria, que se executa no pescoço. Esta superstição é muito espalhada no nosso Estado e mesmo pessoas que se devia presumir possuírem maiores conhecimentos na zootecnia usam-na. O estar aguado do animal nada mais é do que um crescimento irregular dos cascos, geralmente devido a um excesso de marcha, etc., e isto, certamente, não se pode curar sangrando um animal. Diz-se que, depois de uma sangria, quando esta é feita de um só lado, o animal fica sempre manco; para se evitar este inconveniente sangra-se o animal dos dois lados. Não posso dizer se isto é também superstição ou fato verificado praticamente". - Cp. o cast. aguas, ferida ulcerosa na região dos machinhos ou nos cascos dos animais; aguacha, água podre; aguachar-se, alagar-se, e outros vocábs. que têm, quase todos, correspondentes em port. - Em Goiás, segundo se depreende de uma frase do novelista Carv. Ramos ("Tropas", 25), corre a expressão "aguar dos cascos": "...o macho mascarado trazido à escoteira, sempre à mão,... aguara dos cascos na subida da serra de Corumbá..." AÍVA, q. - adoentado, mofino. | O "Novo Dic." regista o voc. com significação diversa: "pessoa ou coisa sem valor, insignificante". Em S. Paulo não se entende assim. - Do tupi aíba, ruim (Mont.). AJÚPE!, intj., usada pelos tropeiros para estimular os animais. ALACRANADO, LACRANADO, q. - diz-se de coisa cuja superfície está cheia de talhos e esfoladuras, como de dentes ou de espinhos. Derivado de alacran (o mesmo que lacrau, lacraia, alacraia), se é que não veio feito do cast., em cujo vocabulário antigo existiu forma igual, com a significação de "mordido de lacrau". ALAMÃO, adj. patr. - forma dupla de alemão, muito antiga na língua. ALEGRE, s. m. - faca recurva com que se fazem colheres de pau. | Corr. de legra, que o "Novo Dic." regista como provincianismo alentejano de origem castelhana. ALELÚIA, f. - fêmea alada do cupim, que sai, às centenas, dos ninhos, à tarde, e se desfaz das asas com extrema facilidade, logo que não mais necessita delas. O mesmo que sará-sará? (R. v. I.) V. SIRILÚIA. ALEMBRÁ(R), lembrar, v. | Esta prótese vem de muito longe na história da língua, e ainda é pop. Alambrava-vos eu lá? (Gil V., "Auto da índia") ALEMBRANÇA, lembrança, s. f. ALEMÔA, alemã, fem. de alemão. ALIFANTE, elefante, s. m. | Forma ant., e pop. tanto no Brasil como em Port. ALIMÁ, ALIMAR, LIMAR, animal, s. m. - Entenda-se "animal cavalar". | "... me parece ainda mais que som coma aves ou alimares monteses..." (Carta de Caminha). AMARELÃO, MARELÃO, s. m. - anquilostomose. AMARELÁ, MARELÁ, amarelar, v. i. - empalidecer de repente: "Quano o Chico uviu a vóiz de prisão, marelô" AMARIO, AMARILHO, q. - baio com crina e cauda brancas (cavalo) o mesmo que "baio amarilho". | Cast. amarillo. AMARRÁ(R)1 v. t. e i. - estacar diante da perdiz (o cão), de olhos fitos sobre ela: "Brinquinho amarrô a bicha i eu, fogo!" "Quano, nu"a vorta do caminho... o Bismarque chateô no chão, amarrano, que era u"a buniteza..." (O último exemplo é de C. P.). AMARRÁ(R)2, v. t. - tratar, fechar (uma aposta, um negócio). AMENHÃ, AMINHÃ, amanhã, ad. | É forma arc. e "'ainda corrente no povo (em Port.) na forma aminhão", diz Leite de Vasc., "Emblemas", introd. AMIÁ, amilhar, v. t. - dar milho (aos animais). Acreditamo-lo pouco usado. AMIADO, amilhado, part. de "amilhar": "O tempo tava bão, a estrada era meió, o cavalo tava descansado e bem amiado: a viage foi u"a gostusura". AMIÚDA(R), v. i. - tornar-se freqüente, nas expressões inté os galo amiùdá, quando os galo amiùdávum e semelhantes, onde galo está por canto dos galos: "Depois que acaba a candeia, aí que a coisa é triste... Vai inté os galo amiùdá". (C. P.) | Esta acepção do verbo é corrente em todo o Brasil. AMOLAÇÃO, s. f. - ação ou efeito de amolar. AMOLADÔ(R), q. - o que amola; importuno, maçador. AMOLANTE, q. - o mesmo que amolador. AMOLÁ(R), v. t. - importunar. AMUNTADO, MUNTADO, q. - diz-se do animal doméstico que se meteu no mato, asselvajandose: "Gado amuntado". "Não há pior fera que porco muntado". - Cp. monte que em Port. envolve também idéia de mato, assim como monteiro, montês, montesino, andar a monte. ANDADURA, s. f. - andar apressado do animal de sela, com balanços de anca. ANGOLA,1 s. m. - certa gramínea forrageira; capim de Angola. ANGOLA,2 s. 2 gens. - usado às vezes por galo ou galinha de Angola. ANGÚ, s. m. - papas de farinha ou de fubá. Fig.: negócio desordenado, teia de intrigas e mexericos, coisa confusa, e ininteligível. ANGÙADA, ANGÙSADA, ANGÚLADA, s. f. - grande porção de angú; negócio complicado, questão inextricável. ANHUMA, s. f. - ave da fam. "Palamedeidae". ANSIM, assim, adv. 1| Forma pop. em todo o Brasil com o a nasalizado por influência de im. - Encontra-se freqüentemente nas peças castelhanas de Gil V. ANTA, s. f. - quadrúpede da fam. "Tapiridae". ANTÃO, INTÃO, então, ad.: -"Antão ela reparou bem em mim, não disse mais nada, e saiu adiante". (V. S.) | Filhos forão, parece, ou companheiros, E nella antão os incolas primeiros. (Camões, "Lus."). ANTÃOCE, ANTONCE, INTONCES, outras formas de então. | Cp. o arc. entonces: "E do acabamento do livro eu dey encomenda ao lecenceado frey João uerba meu conffessor fazendo per outrem o que de acabar per my entonces era embargado" (Inf. D. Pedro, "Livro da Virtuosa Bemfeitoria"). ANTE, antes, prep. | E Acreditamos que este ante seja simplesmente antes modificado pela lei da queda de s final do dial., embora sendo certo que ante = antes de é do vernáculo antigo e ainda subsiste em anteontem (antonte), antevéspera, antemanhã, etc. DANTE, loc. adv. - antigamente: "Eu dante fazia o que pudia, agora já tô véio i num posso mais". | É loc. port. muito antiga, no sentido de "antecedentemente", como se vê deste passo do "Castelo perigoso" (séc. XIV): "...honde perde Deos e o Paraíso e guanha os tormentos do Inferno e perde os bees que d'ante auya fectos, sse o Deos nom chama pera sua graça..." (L. de Vasc., "Textos arc.", p. 38 e p. 124). TEMPO DE DANTE, loc. equivalente a "tempo 'antigo", e na qual "dante" é tomado como um subst.: "Macaia, que fôra escravo do capitão Tigre, fazendeiro do tempo de dante entre Porto Feliz e Capivari..." (C. P.) ANTES, prep. - A notar: IM ANTES, em antes, loc., usada as vezes pela forma simples "antes":