Vocabulário - parte 8
CURRUÍRA, CURRUÍLA, s. f. - certo pássaro. | M. Lobato escreve "corruila (do brejo)" em "Bóca-torta". - Em Minas dá-se a este pássaro o nome de "cambaxirra" (L. Gomes). CURRUÍRA D'ÁUA, d'água, s. f. - certo pássaro: "...guapés tranquilos e verdes que rodam nas cheias, carregando ninhos de curruíra d'agua, avezinha que, não abandonando o ninho, lá se vai rio abaixo..." (C. P.). CURRUÍRA DO BREJO, S. f, - certo pássaro. O mesmo que o precedente? CURRUPIRA, s. m. - Duende ou trasgo da mata. | É superstição mais do Norte do pais, que do Sul, mas ainda se lhe notam traços em S. P. Como todas as entidades da mitologia indígena em dissolução, é figura amorfa e vaga, confundindo-se com outras. C. P. cita-o numa lista de entidades irmãs, no conto "As Cruzes do Mato-dentro". C. Mag. escreve curupira, com um só r no principio. O mesmo escritor cita um morro, nas proximidades de Sorocaba, que conserva esse nome, e diz que o duende "é descrito como um pequeno índio, com os calcanhares virados para diante, que faz perder o caminho aos que viajam". (Conf. Anch.). CURSO, s. m. - diarréia "Andei meio vexado uns pares de dias, com perdão da palavra, com um curso danado". (L. de O.). | Curso e cursar são "muito usados dos clássicos", diz o sr. J. Rib. no "Fabordão". - Na poesia "Verdades", de Greg. de M., há esta, entre muitas outras que ele desfia: O fazer "curso" é purgar - CURUCA, s. f. - agitação de peixes à flor d'água, na época da desova. | Do tupi? CURUQUERÊ, CRUQUERÊ, s. m. - inseto que ataca as maçãs do algodoeiro. CURURÚ1, s. m. - uma espécie de sapo. CURURÚ2, s m. - certa dança em que tomam parte os poetas sertanejos (diz C. P.), formando roda e cantando cada um por sua vez, atirando os seus desafios mútuos". ("Musa Caip."). CUSCUZ, s. m. - espécie de bolo de farinha, cozinhado em fôrma ao bafo da água quente. Freqüentemente se adicionam à farinha camarões, peixe ou galinha, palmito e vários temperos. O cuscuz simples, só de farinha; vai caindo em desuso. Fazia outrora as vezes de pão. | Encontra-se em Gil V. ("Juiz da Beira"): ...dae-me outro cruzado, Que, prazendo a Madanela, Logo sereis aviado, Deus querendo, muito prestes, Porque aquelle que me destes Em cuz-cuz o comeo ella. - Coscus, cuzcuz, cuscus, alcuzcuz, alcuzcuzu, são formas que se acham nos antigos escritores da língua ("Cron. do Inf. Santo", gloss.). A origem da palavra e da coisa é árabe. Ianguas define: "genero de hormiguillo que hacen los moros de massa deshecha em granos redondos". CUSCUZIERO, s. m. - fôrma de lata, para se fazer cuscuz. Mede cerca de um palmo ou pouco menos de altura, vinte centímetros de boca e um terço menos no fundo, tendo portanto a forma de cone truncado. F. J. Freire regista o t. como significando "chapeu de copa alta e aguda", denominação tirada, naturalmente, da fôrma acima descrita. CUTUBA, q. - fortíssimo, valentíssimo, excelente. CUXILÁ(R), v. i. - cabecear com sono; "passar pelo sono", dormir um pouco e de leve; descuidar-se. | Costuma-se escrever, aportuguesadamente, "cochilar" e "cochilo", mas o povo desconhece em absoluto essa pronúncia. - Orig. afric.? Ou simples alter. de acutilar, por alusão aos movimentos bruscos de cabeça, feitos por quem cuxila sentado? Com o mesmo sentido de "cabecear com sono se emprega às vezes, por graça, pescar. CUXILO, s. m. - o ato de cuxilar; descuido. DADA, s. f. - assalto (por bando armado de bugreiros) a um aldeamento de índios. DANADO, q. - zangado, furioso; duro, malvado; teimoso; ágil, forte, esperto; hábil, finório. Acrescenta-se freqüentemente um modificador: "danado de bão, de brabo, de experto, de teimoso". DANINHÁ(R), v. i. - fazer diabruras (a criança); fazer estragos (animal): "Este minino só sabe daninhá dia entêro!" DANINHEZA, s. f. - qualidade do que é daninho; ato próprio do daninho. DANINHO, q. - diz-se da criança que gosta de brinquedos em que há perigo ou que resultam em estragos. DANISCO, q. - o mesmo que danado, mas com um valor irônico. Registado também em Pernamb. por Garc. DECUMENTO, DICUMENTO, documento, s. m. DE-CUMÊ(R), s. m. - comida, provisão de comida: "Eu ganho dois mi-réis i mais o de-cumê". | Af. Taun. regista "decomer", farnel, como t. cearense, abonado com o romance "Luzia Homem"; mas é também paulista. - Muito compreensível esta substantivação de uma locução que, em certas frases, devia soar a ouvidos rudes como um apelativo: Dar de comer a alguém, etc. DEFERENÇA, diferença, s. f. - desacordo, estremecimento. | "... o que faz muito ao caso pera as deferenças que ouve entre Vossa Alteza e o emperador..." (Carta de D. João de Castro, em "D. J. de Castro", p. 21). DEFERENTE, diferente, q. - inimizado, estremecido com: "Vacê parece que anda meio deferente cum seu Pedro?" | Ver DEFERENÇA. DEFINIÇÃO, s. f. - descobrir, encontrar, entregar, na loc. "dar definição" (de alguma coisa) : "O Juca, que levô daqui minha faca, há de me dá definição dela hoje mesmo". DELÚVIO, DILÚVIO, s. m. - grande quantidade: "Lá im casa tem um delúvio de laranja madura". DERDE, desde, prep.: "Derd'aí num tive mais alivio!" (C. P.). | No Nord. do país, seg. se vê dos versos de Cat., há a forma "dende". DEREITO, direito, q. | Diz L. de Vasc. nas suas "Lições", referindo-se à linguag. arcaica: "A forma corrente era dereito, representada hoje na voz do povo em algumas regiões por "dreito"; cf. esp. derecho". E diz J. J. Nunes, referindo-se a i átono proveniente de i breve latino: "na linguagem desafetada, embora se escreva i, há tendência para pronunciar e: assim se diz imperador e emperador, imbigo e embigo, infusa e enfusa, etc. É de crer que a influência erudita tenha tido parte na transformação do e em i, a julgar pela pronúncia atual de direito, v. g. e a arcaica dereito". - Cp. dereitura, endereitá(r), desposto, etc. DEREITURA, direitura, s. f. DERMENTI(R), desmentir, v. t. | Esta troca de s por r resulta da influência da labial m; cp. mermo, fantarma, num far má ("faz mal"), etc. DERRAME, s. m. - vertente, declive (de morro). | Af. Taun. regista derrama, como t. paulista. DESABOTINADO, q. - diz-se do indivíduo meio doido, espalhafatoso, insubordinado, destabocado, arreminado. DESACOCHÁ(R), v. t. - perder (alguém) a compostura altiva, ou presunçosa; ficar desorientado e envergonhado. | T. admiravelmente expressivo. Envolve em metáfora a idéia da corda cujas pernas se afrouxam e desenrolam, que se desacocham, ou, em port. de Port., descocham. - Ver ACOCHÁ(R). DESACOCHADO, q. - envergonhado, desorientado, desmoralizado. DESAGUAXÁ(R), v. t. - fazer correr, por exercício (um cavalo que esteve por muito tempo desocupado e porisso engordou ou tornou-se preguiçoso). Ver AGUAXAR. DESAGUAXADO, q. - que está de novo exercitado e ágil (o cavalo) depois de longo descanso. DESBOCADO, q. - que usa de linguagem torpe. | Ocorre em Camilo (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 221) e é popular em Port. DESCABEÇÁ(R), v. t. - limpar de touceiras e tocos (um terreno). DESCANHOTÁ(R), v. t. - quebrar a força do braço, desmunhecar. DESCOIVARÁ(R), v. t. - limpar (um terreno) da coivara resultante de uma queimada. DESEMPARÁ(R), desamparar, v. t. | Arc. na ling. liter., mas ainda popular também na Europa. Assim os teus derivados. DESEMPARADO, desamparado, part. DESEMPARO, s. verbal de desempará(r). DESENCABEÇÁ(R), v. t. - induzir (alguém) a proceder mal. DESGUARITÁ(R), - perder-se, extraviar-se: "Fazia u"a proção de dia que u"a perdiz andava desguaritada, piano no pasto" (C. P.). Romag. regista no R. G. do S. "desguaritar-se" desgarrar-se do rebanho ou tropa (um animal); separar-se dos companheiros (pessoa) etc. É, com pequena diferença, ou mesmo nenhuma, como se entende em S. P.; apenas, não se usa aqui pronominadamente. | De guarita. DESIMBRAMÁ(R) v. t. - desembaraçar, desenredar. DESIMPENADO, q. - forte, galhardo, destemido: "... o pião mais cuéra e mais desimpenado". (C. P.). | Em port. há desempeno = vigor, galhardia, etc. Desempenado parece que só se aplica em sentido material. DESINCAIPORÁ(R), v. t. e i. - tirar a caipora, a má sorte; perder a caipora: "Num hai geito de desincaiporá êste jogo". DESINSARADO, q. - que ainda está mal restabelecido de qualquer moléstia. | Deve ser corr. de "recensarado". É de notar-se que em Rui de Pina, "Cron. de D. Duarte", se acha rezente = recente. DESINXAVIDO, desenxabido, q. - insípido, desgracioso, sem atrativo; corrido, envergonhado: "Disinxavido... Num dê cunfiança..." (C. P.) diz uma roceirinha agastada a um importuno que a corteja. | Cp. xavi, xavié, javevó, etc. DESMORALIZÁ(R), v. t. - tirar a energia moral; desfazer o entusiasmo, a confiança: "O Antonico não quiz mais trabaiá prá festa: ficô desmoralizado co a farta de corage dos cumpanhêro". DESPACHADO, q. - franco, aberto; dizedor, destabocado. DESPENCÁ(R), v. t. e i. - separar do cacho (bananas, ou outra fruta) ; cair, saltar do alto: "Quano o diabo me viu lá de cima da teipa, despencô!" | De penca. DESPOIS, adv. - Freqüentemente se apocopa: despoi; também não e raro aferesar-se: espois; e às vezes dão-se os dois fatos conjuntamente: espoi; tudo depende, como em tantos outros casos, da pressa com que se fala, e da posição do voc. na frase: "Inté despois" - "Espoi mais vô lá". Despois é forma arcaica, que se encontra em Camões, entre outros clássicos, já em concorrência com a que veio a prevalecer. DESPOSIÇÃO, disposição, s. f | "...asy de ventos prosperos e mares bonançosos como de saude e boas desposyções que nosso Senhor deu a todollos soldados que o ymos servir (Carta de Dom J. de Castro ao rei, em M. de S. Pinto, p, 21). DESPOSTO, disposto, q. | "...som desposto pera ficar na terra..." ("Cron. do Cond.", cap. XX). DESPOTISMO, s. m. - grande quantidade: "nuvens que depois o vento toca para cá, dando em resultado esse despotismo de águas". (G. Rangel, "O Oráculo", "Rev. do Br." n. 41). | Esse exemplo, de um escritor mineiro, mostra que o brasileirismo é também do seu Estado, como é ainda de Mato Grosso, onde Taunay o colheu ("Inoc."). DESPREPÓSITO, DESPERPÓSITO, DESPERPÓITO, despropósito, s. m. - grande quantidade: "E esperá que os otro já vem. Aqui é ponto de reunião. Ante do sór cabá de entrá na bôca da noite, é desperpósito! - "...lhe inflamara o braço, pondo-lhe a cabeça a zunir, após o despropósito de sulfato que ingerira". (C. P.). DESPREPOSITÁ(R), DESPROPOSITAR, v. i. - perder a cabeça; irar-se e dizer palavradas: "Não pude levá o causo im paciença, desprepositei co diabo do home". DESTABOCADO, q. - desempenado, falador, brincalhão, destorcido: "O pai, já viuvo por essa época, esse babava-se d'orgulho. Filho médico, e ainda por cima destabocado e bem falante como aquele (M. L.). | B. - R. dá como t. cearense. De fato, encontra-se em Cat., "A Premessa": Um tropero acarbimbado, cum as barba co de timbó um cabra distabocado - DÈSTÃO, dez-tostões, s. m. - haplologia e despluralização. Mexa, mexa, cabocrada, que eu num respeito truquêro: jugo a dèstão a parada, tô misiurano o dinhêro. (C. P.) DESTORCIDO, DISTROCIDO, q. - lépido, decidido, pronto, destabocado, sacudido: "Aquele negro tem sorte, dizia Joaquim da Tapera; caindo no mundo, ninguém mais lhe bota a vista em riba. Cabra destorcido!" (C. R.). | O exemplo é de Goiás, mas representa justamente a acepção paulista. DESTRATÁ(R), v. t. - descompor, maltratar com palavras. DESTRO, na loc. adv. a destro, - expressão que se usa exclusivamente falando do animal de sela, que em viagem se traz de sobressalente: "...o macho crioulo que vinha a destro não duvidou em meter-se naquela perdição..." (C. R.). | É expressão antiquíssima, com o mesmo valor: "E foy entregue a quarta feira xvj dias doutubro ya bem tarde a Çala-bem-çala que o reçebeu em encima de huu cavaílo, que trazia comsigo a deestro". ("Cron. do Inf. Santo", cap. 12). Nota de M. dos Rem.: "- de dextra, direita, forma analógica a seestro, sextro, esquerdo, empregados um e outro por D. Duarte no "Leal Cons.". DESUNHÁ(R), v. i. - fugir velozmente, abalar. DEZANOVE, adj. numer. DEZASSEIS, adi. num. | L. de Vasc. ("Lições") sustenta que o certo é com a; que essa "é a pronúncia vulgar de todo o país"; que existe em galego. co-dialeto do port.; além de que aparece em numerosos documentos antigos. Não é alter. de dezesseis; cp. o it. diciaseie, diciasette, dicianove; considere-se também a pronúncia "dezóito", (que é a de Lisboa e a de S. P.), a qual só se explica bem por contração de dezaoito, corno mór proveio do arc. maôr. (L. de Vasc.) - Contudo, cumpre notar que M. dos Rem. encontrou dezeseis na "Cron. do Inf. Santo". - Em S. P., o povo da roça diz dezasseis, dezasséte, etc., ao passo que a gente culta, ou que tal se presume, evita cuidadosamente esse "erro". DEZASSÉTE, adj. num. DEZÓITO, adj. num. DIABA, s. f. - mulher má. | Forma antiga - diáboa. DIABADA, s. f. - quantidade de diabos, isto é, de pessoas ordinárias, malvadas, antipáticas: "Deixa está, diabada! um dia vacêis me paga!" DIACHO, s. m. - forma supersticiosa de diabo, palavra cuja pronunciação perfeita, ou mesmo imperfeita, se evita. | Cp. dianho, demo, linhoso, sujo, rabudo, etc. - Parece que é corrente também em Port., onde houve ainda uma forma, decho, que se encontra em Gil V., "Barca do Purg.": Esta noite é dos pastores E tu, decho, estás em seco - DIZ-QUE-DIZ-QUE, s. m. - mexerico, intriga: "Óia, seu bôrra: eu num quero sabê de diz-que-dizque aqui cumigo, tá uvino?" | É freqüentíssimo começarem-se os contos e narrações que correm à boca pequena, com a fórmula consagrada: Diz que..., contração de dizem que. Isto vem de longe, na língua, e também existe em cast.: dice que. Gil V. escreveu, aportuguesadamente, numa das suas tiradas espanholas ("Com. de Rub."): Quieroos decir un cuento. Diz que era un escudero - O nosso diz-que-diz-que é, pois, uma substantivação semelhante ao on-dit dos franceses, apenas com uma reduplicação a mais. DOBRAR, v. t. - cantar (o pássaro); soar (o sino). Firmino Costa cita, no seu "Vocabulário analog." ("Rev. do Br.") um exemplo da primeira acepção, tirado de Virgílio Várzea, escritor catarinense; por onde se vê que o t. está generalizado mesmo fora de S. P. - Em Port., diz-se "dobrar o sino" por - fazê-lo dar volta, girar (V. "Novo Dic.") daí se originou, de certo, a acepção que o t. tomou aqui, primeiro aplicada aos próprios sinos, depois aos pássaros. DÓBRE, s. m. - o ato de dobrar (soar, cantar). | Este subst. verbal existe em Port., significando volta, giro do sino (V. "Novo Dic."). DONA, s. f. - mulher, senhora: "Sentei numa volta de cipó, maginando coisas exquisitas a respeito daquela dona tão estúrdia..." (V. S.). | Este arcaismo se acha igualmente em M. Grosso ("Inoc.") e, provavelmente, em todo o Brasil. Um exemplo do poeta Paay Soares, do séc. XII, citado por L. de Vasc., ("Lições"): Como morreu quen amou tal dona, que lhe nunca fez ben -. DO(U)RADI(LH)O, q. - animal cavalar ou muar de certa cor acastanhada. | É t. corrente no R. G. do S. DO(U)RADO, s. m. - grande peixe de rio, abundante no Piracicaba. DORDÓIO, dor d'olhos, s. m. - inflamação nas pálpebras. DÚVIDA, s. f. - disputa, questão, discordância. BOA - !, intj. usadíssima em S. P. com valor aproximado ao de um "sem dúvida!" enfático. QUE - !, outra intj. corrente. DUVIDÁ(R), v. i. - questionar; abusar: "Os home duvidárum, duvidárum, munto tempo, mais afinar amarrárum o negoço". - "Escuite, seu moço: vacê não duvide, que eu le deço o cacete!" - "I sabe o que mais? Não me duvide muito, que senão sai cinza!" | O último exemplo pode traduzir-se pôr: não abuse de mim, não brinque comigo. - Diz uma quadrinha pop. do R. G. do S., citada no "Vocabulário" de Romag.: Eu sou um quebra largado, Por Deus! e um patacão! E, se me duvidam, Descasco logo o facão. EAH! intj. de admiração, espanto: "Eah! nho Chico, puis vacê inda está aqui?" - "Eah, gente! num é que m'esquici do recado?" Como se vê desses exemplos, corresponde mais ou menos a "ora, esta!" EIGREJA, s. f. | Em antigos documentos encontram-se as formas eigreya, eigleyga, e outras de