Vocabulário - parte 9 O Dialeto Caipira · Capítulo 14 de 24
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Vocabulário - parte 9

mais ou menos hesitante grafia, mostrando a ditongação da primeira sílaba de ecclesia. É verdade que também se acham formas nas quais não aparece o ditongo, como egreya, egreia, na "Cron. do Inf. Santo". Isto, porém, indicará apenas que já em época afastada começara a luta pela fixação de uma forma definitiva. A pronunciação pop. paulista é interessante, e faz duvidar se representará uma persistência arcaica, se mera coincidência. EINÊS, Inês, n. p. | Encontra-se esta forma em antigos documentos da língua. Alter. regular de Agnes. EIRADO, q. - diz-se do porco na idade da engorda. | O mesmo que ERADO? ENDÊIZ, endêz, s. m. - ovo que se coloca no lugar onde a galinha deve fazer a postura. | É t. de Port., na segunda forma e vem de indicii. (L. de Vasc., "Lições"). ENTREVERÁ(R), v. i. - alternar, entremear, misturar: "O redomoinho do Moreira, a cabo de coçadelas, sugeriu-lhe uma traça mistificatória: entreverar de caètés, cambarás, unhas de vaca e outros padrões transplantados das vizinhanças a fímbria das capoeiras, e uma ou outra entrada acessível aos visitantes", (M. L.). | É corrente no R. G. do S., mas como t. de guerrilhas, por "mixturar", aplicado a facções adversas em combate. Também lá se usa entrevero, outro castelhanismo. ERADO, q. - velho, idoso: "boi erado". | De era? V. EIRADO. ERMÃ, irmã, s. f. ERMANDADE, s. f. - o conjunto dos irmãos numa família. ERMÃO, irmão, s. m. | É forma arcaica, ou coincide com a arc. ESCANDECÊ(R), v. i. - produzir escandecência, i. é, peso de cabeça, prisão de ventre, etc. "Não coma carne de porco nem farinha de mio, que escandece". | É port., mas os dicionários não registam esta acepção, a única que o dial. conhece e que se prende às idéias da velha medicina, com seus alimentos e bebidas quentes e frios, de que ainda muito se fala em S. Paulo. ESCANDECÊNCIA, s. f. - V. Escandecê(r). ESCANDECIDO, part. - em estado de escandecência: "ando meio escandecido êstes dia; de manêras que não quero tomá melado e outras coisa quente". ESCÔlA, escolha, q. - diz-se do café baixo, de que se separaram os grãos melhores. ESCOMUNGADO, q. - muito usado como insulto. | Encontra-se com c mesmo sentido em Gil V., "Auto da Índia": Má nova venha por ti Perra, escomungada, torta. ESCORÁ(R), v. t. - aturar, fazer frente (a um trabalho pesado, uma agressão, uma prova de força ou de valentia) : "vacê quê trabaiá na roça, mais vacê escóra o serviço?" - Fazer frente a alguém: "Êle veiu pra cima de mim, pensando de certo que eu fugia: escorei êle no lugá". ESCOTÊRO, q. - usado na loc. "de escotêro", que quer dizer "sem bagagem". "Duma feita que viajava de escotêro com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, veiu varar aqui neste mesmo passo (S. L.). ESCUITÁ(R), escutar, v. t. | Forma arc. Na "Cron. do Cond." acha-se escuytas = espias, sentinelas. - "Filho, ascuyta os preceptos do mestre..." ("Regra de S. Bento", séc. XIII-XIV). ESFRÉGA, s. verbal - surra; trabalho penoso; sofrimento prolongado: "João Lino andava desanimadão, amarelo, meio esverdeado, depois de uma esfréga de maleita..." (C. P.). ESFREGÁ(R), v. t. - surrar; sujeitar a grandes trabalhos, ou contrariedades. ESPARRAMÁ(R), v. t. - espargir, dispersar: "A ventania foi tão forte que esparramô laranja pro pomá intêro". - "Num jogo na lotaria, porque isso é andá esparramando dinhêro à toa". - "Tudo ia munto bem: a purcissão im orde, munta gente, muntas irmandade. De repente, chuva! Aquilo esparramô o povo num instantinho". - V. pr.: tombar pesadamente, rolar, espapaçar-se (no sentido material e no figurado): "O diacho do home se esparramô". | Os dicionários registam como brasileirismo. Camilo usou-o, numa acepção que apenas se compreenderá, era S. Paulo, mas não é corrente: "Passarei também ás coudelarias, quando o brasão subir da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas elegantes". (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 227"). - Cp. esparralhar, esparrimar. Do cast. esparramar, desparramar. ESPARRAMO, s. m. - ato ou efeito de esparramar; desordem, confusão: "Vacêis num me atente, num me atente, que sinão ainda faço um esparramo". ESPELOTEADO, q. - maluco, tonto. ESPICULÁ(R), especular, v. t. e i. - Comerciar: "Ando espiculando com fumo na praça, pra vê se ganho uns cobres"; indagar, perguntar insistentemente: "Espiculei, mais não pude sabê de nada"; fazer perguntas indiscretas: "Não me espicule. Não espicule êsse negócio" (i. é, esse assunto"). | Esta forma é antiga e ainda hoje pop. no Sul de Port. (L. de Vasc., "Emblemas", introd.) A forma culta é especular. ESPICÚLA, q. - perguntador, indiscreto: "Nunca vi home tão espicúla". ESPINHÉ(L), s. m. - aparelho de pesca, que consiste num fio ao qual se ligam a espaços diversas linhas com anzóis. | Port. espinel. ESPÓTICO, despótico, q. - autoritário, rude: "Aquilo é um sojeito espótico; mandão cumo êle só". ESPRAIADO, s. m. - ribeirão que corre em leito raso, geralmente de areia. ESQUIPADO, s. m. - marcha esquipada, ESQUIPADA, q. - diz-se de certa marcha do animal equ., a que se dá também o nome de guini (lh)a. Consiste em andar o animal erguendo a um tempo o pé e a mão do mesmo lado | É, seg. B. - R., o furta-passo de Port. e o amble francês. ESTABANADO, estavanado, q. - estouvado. | "Mordido do tavão" (cp. "alacranado", mordido de alacrã), segundo J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 229. ESTABANAMENTO, s. m. - ato próprio de um estabanado; qualidade do que é estabanado: "Nossa! mecê quage me derruba! Que estabanamento!" - "O Mandú, cura aquêle estabanamento dêle, desagrada tudo o mundo". ESTACA, s. f. - cabide pregado na parede, ou dela suspenso: Entra furioso o Chico, e já da estaca despendura a espingarda e põe de lado a aguçada lapeana, a enorme faca -. (C. P.) ESTADÃO, s. m. - pompa, aparato, modo ostentoso de vida: "Aquela gente sustenta um estadão". || Estado, em port. antigo, significava pompa ou aparato. Cf. D. Nunes, "Orig.". ESTALÊRO, s. ra. - armação de madeira para plantas que trepam, como abóboras; espécie de jirau. ESTÂMEGO, ESTÂMAGO, ESTAMO, ESTOMBO, estômago, s. m. | "... e os vazios com a barriga e estamego era da sua própria cor..." (Carta de Cam.) - "... cõsonancias de clausulas, em que nunca achei sabor, nem forão do meu estamago". (Arraiz, prol. dos "Dialog.") - Estâmago era como F. J. Freire, no seu exagerado culto pela prática dos clássicos, queria que se dissesse. ESTAQUEÁ(R), v. t. e i. - espichar em estacas (um couro); prender de pés e mãos a estacas (um homem); plantar estacas; parar de repente, imóvel e de pé: "No chegá no chapadão do pasto véio, êle estaqueô". (C. P.). ESTAQUÊRA, s. f. - série de cabides de madeira, ordinariamente pregados na parede ou nos portais. | De estaca. ESTOPADA, s. f. - grande amofinação, trabalho duro, tarefa penosa. ESTOPENTO, qual. - aborrecido, importuno. | De estopa? Cp. estopada. ESTÓRIA, história, s. f. | "...per seu mandado foy o liuro que digo escrito e está no moesteiro de Pera longa; e chama-se estorea geral..." (Fern. de Oliv., "Gram.", segundo Ad. Coelho). ESTREPA(R) (se -), v. pr. - ferir-se com estrepe; ser mal sucedido em questão ou luta, encontrar homem pela frente: "Ele que não continue, porque cumigo se estrepa". ESTREPE1, s. m. - lasca ou ponta de pau em que pessoa ou animal se fere, ou pode ferir-se. | A definição é longa, mas necessária para bem limitar a significação especialíssima do voc., que só temos encontrado envolvendo a idéia de ferimento atual ou provável. Esta significação está de acordo com o sentido vernáculo de púa, abrolho, espinho, porém é menos geral. Quadra perfeitamente ao que lhe dá Lucena na "Vida de S. Francisco Xavier": "...affirmaram todos os presentes que chovera cinza, e foy era tanta cantidade, que além de cobrir e entulhar o campo dos estrepes, de maneira que sem nenhum perigo se podia correr e saltar por cima d'elles", etc. (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 274). - Além da signific. geral citada, e da signific. especial de arma defensiva, usual no tempo de Lucena, o voc. tem mais as seguintes, em Port., segundo J. Mor. (obra cit.): pedúnculo da abóbora (em Lousada) e cana de milho depois de colhidas as espigas (no Minho). Em italiano, "sterpe" tem sentido parecido: "rebento de uma raiz ou toco de árvore cortada ou partida pelo vento". Sobre isto e mais sobre a etimologia, ver J. Mor., "Estudos", 2.º v., 273-5). ESTREPE2, s. m. - menino importuno; diabrete: "Sai daqui, estrépe!" | Simples desenvolvimento do sentido material de estrepe1? Ou haverá apenas contaminação desse termo, desfigurando um outro cuja forma própria se ignora? Cf. ESTREPULIA. ESTREPULIA, s. f. - travessura, desordem: "O dianho do macaco escapuliu e fêiz estrepulia na casa". ESTUMAR, v. t. - ativar os cães na caça com ruídos, assovios, etc. | Sinão quando na horta do Duque Andando de ronda um certo malsin. Estimando-lhe um cão pecheuiigue O demo do gato botou o ceitil. (Greg. de M., "Marinicolas"). - De estimular? ESTÚRDIO, q. - esquisito, estapafúrdio: "Sentei numa volta de cipó, maginando coisas exquisitas a respeito daquela dona tão esturdia..." (V. S.). FACE, s. f. - cada um dos lados de uma casa, em relação aos pontos cardeais: "face de nacente", "face de sur". FACEÁ(R), v. t. - orientar (uma casa, em relação aos pontos cardeais): "Vacê num sôbe faceá sua casa: se fosse eu, escoía a face de nacente". FACERÁ(R), v. i. - exibir boas roupas; ostentar elegância. | Temos visto definições mais amplas, abrangendo outras acepções. Em S. P., ao que sabemos, o verbo não se refere senão aos indumentos. Assemelha-se muito ao lucir cast. - De facê(i)ro. FACERICE, s. f. - garridice, ostentação de vestidos. FACÊRO, q. - taful; que gosta de se vestir bem, que ostenta elegância e luxo. | Usa-se mais no feminino. Faceiro é t. port., e mesmo na Europa tem acepções que se aproximam da brasileira, mostrando que não seria difícil a evolução realizada. FACHINA, s. f. - mato delgado, paus esguios. | Sul de S. P. e Estados meridionais, onde também se diz "fachinal". - É t. port., adaptado facilmente a um aspecto da nossa natureza. Escreve-se, na chamada "ortografia mista ou usual", fachina e feixe, apesar de se tratar de vocábulos irmãos. Também entre nós se escreve fachina, subst. com., e Faxina, nome de uma cidade paulista. FÁIA, falha, s. f. - falta, lacuna, omissão. | Com estas mesmas acepções se usa era Port., mas entre nós parece ser o seu uso muito mais freqüente, além de diferir em algumas aplicações. Aqui se usa a cada passo com referência a dias (de viagem, de serviço, etc.): "Vim certo de chegá na somana passada, mais tive dois dia de fáia no caminho, por causo de um carguêro que deu de ficá duente". - B. - R. já notara a freqüência deste emprego particular do t., no Brasil. FAIÁ, falhar, v. i. - faltar. Além de outras acepções castiças (negar fogo, não acertar, não se realizar, etc.), tem esta de "faltar", que parece paulista (e brasileira), principalmente com a aplicação a "dias", aqui feita a cada passo: "Fáiz óito dias que viajo: saí de casa na térça-fêra da somana passada; caminhei inté sexta; faiei sábudo e dumingo na vila..." FALÁ(R), v. t. - Apresenta a particularidade, que é um arcaísmo, de servir como sinônimo de dizer: "Falei pra o home que não contasse cumigo". | Ad. Coelho cita estes exemplos do uso antigo: "Nós nora podemos estar, que nem falemos o que vimos, e ouvimos". (Atos dos Apóstolos"). - "Dá aos teus a falar a tua palavra cora feuza". (Ibid.) -"Falo palavras de verdade e de mesura". (Ibid.). FALADÔ(R), FALANTE, q. - maldizente, indiscreto. FAMI(LI)A, s. f. - filho: "Tenho cinco famia, dois home e treis muiér". | Às vezes empregam-no de preferência com relação às filhas. FANDANGO, s. m. - festa ruidosa, era que há danças: Ai, seu moço, eu só quiria pra minha filicidade, um bão fondongo por dia e um pala de qualidade. (C. P.) FARRANCHO, s. m. - bando de pessoas; t. usado na expressão acompanhar farrancho que quer dizer: ir com os outros deixar se levar. | É voc. port. e significa rancho divertido, bando de romeiros. Empregou-o nessa acepção M. A. de Alm.: "Levantaram-se então, arrumaram tudo o que tinham levado era cestos e puzeram-se a caminho, acompanhando o Leonardo o farrancho". FARRUMA, s. f. - estardalhaço, farronca, farronfa, farfanteria. FAVA DE SANTO INÁCIO, s. f. - certa semente a que se atribuem virtudes medicinais; a planta que a produz. Rub. dá como sinon. de "guapeva". FÊA, s. f. - fêmea (de pássaro). | Esta curiosa contração do voc. fêmea é de uso corrente e vulgaríssimo no Estado, mas, que o saibamos só com a aplicação restrita, acima indicada. FEANCHÃO, aum. de feio, o mesmo que feiarrâo. | É antiq. em Port. FEDEGOSO, s. m. - nome de um arbusto do campo. FEIÇÃO, s. f. - traço fisionômico; fisionomia. | O uso atual da língua pede plural, na segunda acepção. Um exemplo antigo: "A feiçam deles he serem pardos, maneira d'avermelhados, de boos rostos e boos narizes bem feitos..." (Carta de Cam.). FEITO, adv. conj. - a maneira de, como: "O home ficô feito lôco cum a notícia". - "Esse minino véve feito vagabundo, mexê-mexêno pra rua". FÊMIA, s. f. - mulher da vida airada. FERMOSO, formoso, q. | Arc. FERMOSURA, formosura, s. f. | Arc. FESTÁ(R), v. i. - tomar parte em festa, assistir a festa: "E quando nóis ia festá na cidade, era um estadão..." (C. P.). FIANÇA, s. f. - confiança, ato ou efeito de fiar (de algo ou alguém): "Daí a instante está tudo pronto, colocados os bois do coice - o "Dourado" com o "Monarca", e na guia o "Letrado com o 'Pimpão", que eram as juntas da fiança..." (A. S.). | É t. arc. na língua culta, na acepção acima. FIAPO, s. m. - pequena quantidade, ínfima porção: "Tomei só um fiapo de leite". Muito usado no diminut. fiapico. | É port., na acepção restrita de fio tênue, que também se usa aqui. FIRIDENTO, q. - cheio de chagas. | De ferida. FITIÇO, feitiço, s. m. | Dois étimos são propostos: facticiu(m) (J. J. Nunes, p. LXXXI) e ficticiu (m) ("Novo Dic."). Convém notar que o caipira pronuncia fitiço, fiticêro, fitiçaria, ao passo que diz claramente feito, feitorizá(r), feição, etc. Como diz também fitiu = feitio, parece que se pode atribuir o primeiro i de fitiço a alteração do ditongo ei sob a influência do segundo i, acentuado. Por outro lado, compare-se afito = mau olhado e a expressão "deitar o fito", que se acha em Gil V. FIUZA, s. f. - confiança: usado na loc. na fiuza de, tal como neste passo de G. Dias ("Expos. Univ."): "...não seria prudente deixar-se este ramo de riqueza pública, e de prosperidade individual, entregue inteiramente nas mãos da ventura, na fiuza de que a grandeza de Deus e a bondade do clima farão por nosso amor o que não cuidamos de fazer enquanto é tempo disso". | É arc.: "...esta fiuza ouue eu sempre em vós e ey porque eu pera mais vos tenho..." ("Cron. do Cond."). No "Leal Conselheiro" há feuza, com e. - L. de Vasc. afirma ser ainda forma pop. na Extremadura. ("Liv. de Esopo"). FLÚIS, flux, s. m. - certo efeito alcançado no jogo do poker e semelhantes, e que consiste era reunir cinco figuras. Costuma-se dizer: "fazer flux com rei, ou com valete", etc., conforme qual seja a carta maior. "Fazer flux", figuradamente, vale o mesmo que "fazer bonito", "brilhar". | Trata-se de t. e frase arc., como se vê do seguinte passo de Gil V. ("Barca do Purg."), onde dialogam o diabo e um taful: D. Ó meu socio e meu amigo, Meu bem e meu cabedal! Vós irmão ireis comigo Que não temeste o perigo Da viagem infernal. T. Eis aqui flux dum metal. D. Pois sabe que eu te ganhei. T. Mostra se tens jogo tal. D. Tu perdes o enxoval. T. Não é isto flux com rei. FOGO SARVAGE, f. selvagem, s. m. - certa erupção cutânea. FOLIA, s. f. - grupo de pessoas que, com a bandeira do Divino" (Div. Esp. Santo), ao som de pandeiros, violas e cantigas, percorre as casas dos povoados e campos, pedindo esmolas para alguma festa em louvor do Espírito Santo. Geralmente se diz "folia do Divino". | Ainda hoje, no Algarve, costuma haver certo divertimento, por ocasião da festa do Esp. Santo, a que se dá o

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