IV - Sintaxe O Dialeto Caipira · Capítulo 5 de 24
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IV - Sintaxe

1. A complexidade dos fenômenos sintáticos, ainda pouco estudados no dialeto, - apenas enumerados às vezes, - não permite por ora sequer tentativas de sistematização. Só depois de acumulado muito material e depois de este bem verificado e bem apurado é que se poderão ir procurando as linhas gerais da evolução realizada, e tentando dividi-lo em classes. O material que conseguimos reunir é pouco, e ainda não estará livre de incertezas e dúvidas; mas foi colhido da própria realidade viva do dialeto, e tão conscienciosamente como o mais que vai exposto nas outras partes deste trabalho. FATOS RELATIVOS AO SUJEITO 2. Há no dialeto urna maneira de indicar o sujeito vagamente determinado, isto é, um indivíduo qualquer de uma classe ou indivíduos quaisquer de uma classe. Exprime-se por um substantivo no singular sem artigo: Cavalo tava rinchando - Macaco assubiô no pau - Mamono tá rebentano (Um cavalo estava a rinchar, rinchava - Um macaco assoviou, macacos assoviaram no pau - O mamono está, os mamonos estão rebentando). 3. Convém acrescentar, porém, que a supressão. do art. def. antes do sujeito, mesmo determinado, não é rara: Patrão não trabaia hoje -Pai qué que eu vá - Chuva tá caíno. 4. Quando o sujeito é algum dos coletivos gente, família, etc., o verbo aparece freqüentemente no plural: Aquela gente são muito bão(s) - A tar famía são levado da breca - A cabocrada tão fazeno festa. Encontra-se esta particularidade, igualmente, no falar do povo português, e vem de longe, como provam numerosos exemplos literários. Um de Camões (Lus., I, 38): Se esta gente que busca outro hemisfério, Cuja valia e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério. Outro, de Duarte N. ("Orig.", cap. 2.º): ...com hu"a gente de Hespanha chamados indigetes... 5. As cláusulas infinitivas dependentes de para têm por sujeito o pronome oblíquo mim, nos casos em que o sujeito deveria ser eu: Êle trôxe u"as fruita pra mim cumê(r). Este, como muitos outros, como quase todos os fatos da sintaxe caipira e popular de S. Paulo, repete-se nas outras regiões do país. Um exemplo dos "Cantos populares" de S. Romero: Ora toque, seu Quindim. Para mim dansar. PRONOME 6. O pronome ele ela pode ser objeto direto: Peguei ele, enxerguei elas. Este fato é um dos mais generalizados pelas diversas regiões do país. Dele se encontram alguns exemplos em antigos documentos da língua; mas é claro que o brasileirismo se produziu independentemente de qualquer relação histórica com o fenômeno que se verificou, sem continuidade, no período ante-clássico do português. 7. O pronome oblíquo o a perdeu toda a vitalidade, aparecendo quase unicamente encravado em frases ossificadas: Que o lambeu! etc. 8. Sobre as formas nos e vos, ver o que ficou dito na "Morfologia". 9. De lhe só usam os caipiras referido à pessóa com quem se fala. Assim, dizem eles, dirigindose a alguém: - Eu já le falei, fulano me afianço que le escrevia, i. é, "eu já lhe falei" (ao senhor, a você), "fulano me assegurou que lhe escrevia" (a você, ao senhor). Pode dizer-se, pois, que o pronome lhe, conservando a sua função de pronome. da "terceira" pessoa gramatical, só se refere, de fato, à "segunda" pessoa real. Aludindo a um terceiro indivíduo, o caipira dirá: Eu já decrarei pr'a ele, fulano me garantiu que escreveu pr'a ele. 10. J. Mor. (1.º vol), tratando do emprego de formas pronominais nominativas como complemento seguido de prep. (no aragonês, provençal, valenciano, etc.), diz: De construção semelhante encontram-se exemplos nos "Cantos populares do Brasil", interessante publicação do sr. Sílvio Romero: Yayá dá-me um doce, Quem pede sou eu; Yayá não me dá, Não quer bem a eu. É possível que no Norte elo país se encontre essa construção. Em S. Paulo o caipira diz: Não qué bem eu, sem prep., ou não me qué bem eu. Aliás, isto é fato isolado. A regra, quando se trata da primeira pessoa, e usar dos casos oblíquos: Não me qué, não me obedece, não me visitô. CONJUGAÇÃO PERIFRÁSTICA 11. Na conjugação perífrástica o gerúndio é sempre preferido ao infinitivo precedido de preposição, vulgar em Portugal e até de rigor entre o povo daquele país. (J. Mor., cap.. XX, 1.º vol.). Aqui se diz, invariavelmente: - Anda viajando - Ia caindo, estão florescendo, ao passo que, em Portugal, especialmente entre o povo, se diz em tais casos: "estou a estudar", "anda a viajar", "ia a cair" ou para cair", etc. O nosso uso é o mesmo dos quinhentistas e seiscentistas, dos quais se poderia citar copiosíssima exemplificação. Escrevia frei Luís de Sousa na "Vida de Dom Frei Bartolomeu", de perfeito acordo com a nossa atual maneira: "... ia fazendo matéria de tudo quanto via no campo e na serra para louvar a Deos; offereceu-selhe á vista não longe do caminho... um menino pobre, e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas que ao longe andavam pastando. 12. A ação reiterada, contínua, insistente, é expressa por uma forma curiosíssima: Fulano anda corrê-corrêno p'ras ruas sem o quê fazê - A povre da nha Tuda véve só chorá-chorano despois que perdeu o marido (V. "Morf.", 1). TER E HAVER 13. O verbo ter usa-se impessoalmente em vez de haver, quando o complemento não encerra noção de tempo: Tinha munta gente na eigreja - Tem home que não gosta de caçada - Naquêle barranco tem pedra de fogo. 14. Quando o complemento é tempo, ano, semana, emprega-se às vezes haver, porém, mais geralmente, fazer: Já fáiz mais de ano que eu não vos vejo - Estive na sua casa fáiz quinze dia. 15. Haver é limitado a certas e raras construções: Há que tempo! - Há quanto tempo foi isso? - Num hai quem num saiba. Nessas construções, o verbo como que se anquilosou, perdendo sua vitalidade. Restringimo-nos, entretanto, neste como em outros pontos, a indicar apenas o fato, sem o precisar completamente, por falta de suficientes elementos de observação. Vem a propósito referir que a forma hai, contração e ditongação de há aí (por "há i", que se encontra em muitos documentos antigos. da língua) só é empregada, que saibamos, nestas condições: - quando precede ao verbo o advérbio não, como no exemplo dado acima; - quando o verbo termina a proposição: É tudo quanto hai - Vô vê se inda hai. "CHAMAR DE" 16. O verbo chamar, na acepção de "qualificar", emprega-se invariavelmente com de: Me chamô de rúin - Le chamava de ladrão. O verbo chamar (diz, referindo-se a Portugal, J. Mor., cap. XXVIII, 1.ª volume) não se usa hoje com tal construção nem na linguagem popular nem na literária. mas teve-a em outro tempo, do que se encontram exemplos, como no seguinte passo de Gil Vicente, vol. II, p. 435: Se casasses com pàção, Que grande graça seria E minha consolação! Que te chame de ratinha Tinhosa cada meia hora etc. ORAÇÕES RELATIVAS 17. Nas orações relativas não se emprega senão que. Nos casos que, em bom português, reclamam este pronome precedido de preposição, o caipira desloca a partícula, empregando-a no fim da frase com um pronome pessoal. Exemplos: A casa em que eu morei ......... A casa... que eu morei nela O livro de que falei .......... O livro... que eu falei dele. A roupa com que viajava ......... A rôpa... que viajava cum ela. 18. Freqüentemente se suprimem de todo a preposição e o pronome pessoal, e diz-se: a casa que eu morei, o livro que eu falei, ficando assim a relação apenas subentendida. 19. Os relativos o qual, quem e cujo são, em virtude do processo acima, reduzidos todos a que: O cavalo com o qual me viram aquele dia. O cavalo que me virum cum êle aquêle dia. A pessoa de quem se falava A pessoa que se falava dela O homem cujas terras comprei O home que eu comprei as terra dele. Em Portugal observa-se entre o povo idêntico fenômeno, isto é, essa tendência para a simplificação das fórmulas das orações relativas. Lá, porém, tais casos são apenas freqüentes, e aqui constituem regra absoluta entre os que só se exprimem em dialeto, - regra a que se submetem, sem o querer, até pessoas educadas, quando falam despreocupadamente. 20. Outra observação: lá, o relativo quem precedido de a se resolve em lhe, e aqui só se substitui por pra ele. Assim a frase - "o menino a quem eu dei meu livro" será traduzida, pelo popular português: "o menino que eu lhe dei um livro"; pelo nosso caipira: o minino que eu dei um livro pra ele (ou prêle). Seria mais curial que, em vez de pra ele, se dissesse a ele; mas há a notar mais esta particularidade, que o nosso povo inculto prefere sempre a primeira preposição à segunda. NEGATIVAS 21. Na composição de proposições negativas, o adv. já, corrente em português europeu, é de todo desconhecido no dialeto. Em vez de "já não vem", "já não quero", diz à francesa, ou à italiana, o nosso caipira (e com ele, ainda aqui, toda a gente está de acordo, por todo o país): num vem mais, num quero mais. Esta prática é tão geral (diz, referindo-se ao Brasil, J. Mor., cap. XXX, 1.º vol.) que os próprios gramáticos não sabem ou não querem evitá-la. Assim, Júlio Ribeiro, na sua Gramática Portuguesa, escreve: "Hoje não é mais usado tal advérbio". Entre nós dir-se-ia: "já não é usado" ou "já não se usa tal advérbio". A observação é em tudo exata. Só lhe faltou acrescentar que, como tantas outras particularidades sintáticas de que nos ocupamos, também desta há exemplos antigos na língua, e talvez até em Gil Vicente, que J. Mor. tão bem conhecia e a cada momento citava. Eis um exemplo, onde, pelo entrecho, mais pode ser tomado como negativo: ANJO - Não se embarca tyrannia Neste batel divinal. FIDALGO - Não sei porque haveis por mal Qu'entre minha senhoria. ANJO - Pera vossa fantasia Mui pequena he esta barca. FIDALGO - Pera senhor de tal marca Não há hi mais cortezia? Um exemplo bem positivo de J. B. de Castro, "Vida de Cristo", (liv, IV): "Meu pae, contra Deus e contra vós pequei e não mereço que me chameis mais vosso filho..." 22. O emprego de duas negativas - ninguém não, nem não, etc., assim contíguas, - vulgar na sintaxe portuguesa quinhentista, mas hoje desusado na língua popular de Portugal, e na língua culta tanto lá como cá, - é obrigatório no falar caipira: Nem eu num disse - Ninguém num viu - Ninhum num fica. Deste uso no séc. XVI pode-se apresentar copiosa exemplificação. 23. Mas há fato mais interessante. A negativa não repetida depois do verbo: não quero não, não vou não, parece puro brasileirismo. Encontra-se, porém, repetidas vezes em Gil V., como neste passo: Este serão glorioso Não he de justiça, não. (Auto da Barca do Purg.) 24. Também o trivial nem nada, depois de uma preposição negativa, tem antecedentes que remontam pelo menos a Gil V.: Sam cappellão d'hum fidalgo Que não tem renda nem nada. (Farsa dos Almocreves). CIRCUNSTÂNCIA DE LUGAR 25. O lugar para onde é indicado com auxílio da preposição em: Eu fui im casa - Ia na cidade - Joguei a pedra n'agua - Chego na janela - Vortô no sítio. Deste fato, comum a todo o Brasil, e ao qual nem sempre escapam os próprios escritores que procuram seguir os modelos transoceânicos, se encontram numerosos exemplos em antigos documentos da língua, e ainda há vestígios nas expressões usuais: cair no laço, caí em mim, sair em terra (J. Mor., cap. XXIV, 1.º vol.). CIRCUNSTÂNCIA DE TEMPO 26. Os complementos de tempo são, na linguagem portuguesa de hoje, empregados quase sempre com uma preposição (a, e em), destinada a estabelecer uma espécie de liame que satisfaça o espírito do falante. Assim, dizemos: "Fui lá numa segunda-feira" - "No dia 5 ele virá" - "Anda por aqui a cada instante", etc. O caipira atem-se mais à tradição da língua. Ele dirá: Fui lá u"a segunda-f\êra - Dia 5 ele vem - Anda por aqui cada passo - Mando notícia quarqué instante - Nunca está im casa hora de cumida. Compare-se com os seguintes exemplos, entre outros citados por J. Mor. (cap. XXV, 1.º vol.) E o dia que fôr casada Sahirei ataviada Com hum brial d'escarlata - (Gil V.) Esta ave nunca sossega, He galante e muito oufana; Mas a hora que não engana Não he pega. (Gil V.) Aquel dia que os romãos foram vençudos veerom a Rei Artur hu"as mui maas novas. ("Demanda do Santo Graal"). CIRCUNSTÂNCIA DE CAUSA 27. Como o povo em Portugal (J. Mor., cap. XXVI, 1.º vol.) o nosso caipira usa a fórmula por amor de para exprimir circunstância de causa. "Hei de ir a Régoa no domingo pr amor de ver se compro os precisos" - é exemplo citado por Júlio Moreira. Em frase semelhante o caipira diria quase identicamente: "Hei d'i na vila dumingo pramór de vê se compro os perciso". Poderia, também, dizer simplesmente: mór de vê, ou ainda mó de vê. 28. Outra fórmula caipira: por causo de, com o mesmo valor de por causa de. Essa alteração de causa em causo deve-se, talvez, a confusão com caso (que o caipira mudou em causo). É de notar que em Gil V. se encontra por caso. O mesmo poeta escreveu freqüentemente "caiso" (subst.), o que mostra que talvez se dissesse também "por caiso", e quem sabe se até "por causo", como o nosso caipira.

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