Noite de Inverno
Nunca vi noite como esta agora :
Ai ! como, é negra, camo é sombria
Fechae as portas á ventania
Que vem de fora.
Passa a rajada cortante e fria;
Correm de brumas compridas levas ;
Que noite' escura ! brumas e trevas . .
Ave, Maria!
Inquiro as sombras, o ouvido aguço,
E ouço, medrosa, de quando em quando,
Um como choro tremulo e brando
Como um soluço.
Ai! que pungente pensar que um bando
De pobresinhas creanças nuas,
Corre nesfhora ruas e ruas
Choramigando.
E eu tenho leitos, boas flanellas,
Fogão acceso, carne em tressalhos :
Ai! se eu pudesse dar agasalhos^
A todas ellas !
E tenho sustos, o frio corta;
Quero as janellas muito fechadas ;
Vejo phantasmas, ouço pancadas
Ferindo a porta.
Gênios nocturnos, em negro bando,
Calmos e tristes sob as rajadas,
Andam, de certo, pelas estradas
Somnambulando.