Noite de Inverno Esphinges · Capítulo 44 de 52
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Noite de Inverno

Nunca vi noite como esta agora :

Ai ! como, é negra, camo é sombria

Fechae as portas á ventania

Que vem de fora.

Passa a rajada cortante e fria;

Correm de brumas compridas levas ;

Que noite' escura ! brumas e trevas . .

Ave, Maria!

Inquiro as sombras, o ouvido aguço,

E ouço, medrosa, de quando em quando,

Um como choro tremulo e brando

Como um soluço.

Ai! que pungente pensar que um bando

De pobresinhas creanças nuas,

Corre nesfhora ruas e ruas

Choramigando.

E eu tenho leitos, boas flanellas,

Fogão acceso, carne em tressalhos :

Ai! se eu pudesse dar agasalhos^

A todas ellas !

E tenho sustos, o frio corta;

Quero as janellas muito fechadas ;

Vejo phantasmas, ouço pancadas

Ferindo a porta.

Gênios nocturnos, em negro bando,

Calmos e tristes sob as rajadas,

Andam, de certo, pelas estradas

Somnambulando.

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