O Ribeirinho
A Olavo Bilac
O arroio fresco, em remanso,
De curva em curva, em marulhos,
Num leito de pedregulhos
Escorregava de manso
Em quedas lentas e bolhas
Sob a arqueada galeria
Da folhagem, que o cobria
Com urn^tecto verde de folhas.
E bocejava de somno
Entre a douda garridice
Dos roseiraes da planice,
Num descançado abandono.
Valle abaixo, sem esforço,
Folhas levava e raizes,
Como embarcações felizes
Que lhe singravam o dorso.
A' tarde, em vôo ligeiro
Vinham, as azas ruflando,
Os passarinhos em bando
Beber d'agua do ribeiro.
Assim vivia o riacho,
Dando de beber ás aves,
Descendo em giros suaves
Campos e valles abaixo.
Más chorava a todo o instante,
Tinha desgostos e maguas
Por não possuir tantas águas
Como um affluente gigante.
Queria ser. como os rios
De grossas águas redondas,
Que podem erguer nas ondas
Embarcações e navios ;
Ser um rio soberano
Que terras alaga, invade,
E em noites de tempestade
Tem vagalhões de oceano.
E penetrado de dor,
Soltando queixas e maguas,
Vae levando suas águas
Pelas campinas em flor-