Universo da obra
Universo da obra
O relógio
A lua cheia africana derramava sua luz do céu azul sobre a planície larga e solitária. A terra seca e arenosa, com sua cobertura de arbustos do karoo de poucas polegadas de altura, as colinas baixas que orlavam a planície, os arbustos-leiteiros com suas longas folhas semelhantes a dedos — tudo era tocado por uma beleza estranha e quase opressiva, enquanto repousava na claridade branca.
Em um só ponto se quebrava a solene monotonia da planície. Perto do centro erguia-se um pequeno kopje solitário. Jazia ali sozinho, um monte de pedras redondas de ferro empilhadas umas sobre as outras, como sobre o túmulo de algum gigante. Aqui e ali, entre as pedras, haviam brotado alguns tufos de capim ou pequenas plantas suculentas, e bem no cume um grupo de figueiras-da-índia levantava seus braços espinhosos e refletia, como espelhos, o luar em suas largas folhas carnudas.
Ao pé do kopje ficava a casa da fazenda. Primeiro, os currais de pedra das ovelhas e as choças kaffir; para além deles, a casa de moradia — uma construção quadrada de tijolos vermelhos, com telhado de palha. Mesmo sobre suas paredes vermelhas e nuas, e sobre a escada de madeira que levava ao sótão, o luar lançava uma espécie de beleza sonhadora, e quase eterizava o baixo muro de tijolos que corria diante da casa e encerrava um pedaço nu de areia e dois girassóis raquíticos.
Sobre o telhado de zinco do grande galpão aberto das carroças, sobre os telhados dos anexos que saíam de seu lado, o luar faiscava com um brilho muito particular, até parecer que cada nervura do metal era de prata polida. O sono reinava por toda parte, e a casa da fazenda não estava menos quieta que a planície solitária.
Na casa, em sua grande cama de madeira, Tant Sannie, a mulher bôer, rolava pesadamente durante o sono. Fora para a cama, como sempre fazia, vestida; e a noite estava quente, o quarto abafado, e ela sonhava sonhos ruins. Não com os fantasmas e demônios que tanto assombravam seus pensamentos de vigília; não com o segundo marido, o inglês tísico, cuja sepultura ficava longe, para além dos cercados de avestruzes, nem com o primeiro, o jovem bôer; mas apenas com as patas de carneiro que comera no jantar daquela noite. Sonhava que uma delas ficava entalada em sua garganta, e movia a enorme forma de um lado para outro, resfolegando horrivelmente.
No quarto ao lado, onde a criada esquecera de fechar a veneziana, o luar branco entrava em jorro e fazia ali uma claridade de dia. Havia duas pequenas camas contra a parede. Em uma jazia uma criança de cabelos amarelos, testa baixa e rosto sardento; mas o luar amoroso escondia aqui, como em outras partes, os defeitos, e mostrava apenas o rosto inocente de uma criança em seu primeiro e doce sono. A figura na cama vizinha pertencia, por direito, ao luar, pois era de uma beleza quase feérica. A criança deixara a coberta cair no chão, e o luar espiava os pequenos membros nus. Em seguida, ela abriu os olhos e olhou para o luar que a banhava.
— Em! — chamou a adormecida na outra cama; mas não recebeu resposta. Então puxou a coberta do chão, virou o travesseiro e, trazendo o lençol sobre a cabeça, tornou a dormir.
Somente em um dos anexos que saíam do galpão das carroças havia alguém que não dormia. O quarto estava escuro; porta e veneziana fechadas; nenhum raio de luz entrava por parte alguma. O feitor alemão, a quem pertencia o quarto, dormia profundamente em sua cama no canto, os grandes braços cruzados, a barba espessa, cinzenta e preta, subindo e descendo sobre o peito. Mas havia no quarto alguém que não dormia.
Dois olhos grandes olhavam em volta na escuridão, e duas mãozinhas alisavam a colcha de retalhos. O menino, que dormia sobre uma caixa embaixo da janela, acabara de despertar do primeiro sono. Puxou a colcha até o queixo, de modo que pouco aparecia acima dela além de uma grande cabeça de cachos negros e sedosos e os dois olhos pretos. Fitou ao redor, no escuro.
Nada era visível, nem mesmo o contorno de uma viga carcomida, nem o da mesa de pinho sobre a qual estava a Bíblia que seu pai lera antes de se deitarem. Ninguém poderia dizer onde ficava a caixa de ferramentas, nem onde estava a lareira. Havia algo de muito impressionante para a criança naquela escuridão completa. Na cabeceira da cama do pai pendia um grande relógio de algibeira, de prata. Batia alto. O menino o escutou e começou mecanicamente a contar.
Tique-taque — um, dois, três, quatro!
Logo perdeu a conta e apenas escutou.
Tique-taque — tique-taque!
Nunca se detinha; seguia inexorável; e cada vez que batia, um homem morria! O menino ergueu-se um pouco sobre o cotovelo e ouviu. Queria que aquilo parasse. Quantas vezes teria batido desde que ele se deitara? Mil vezes, um milhão de vezes, talvez. Tentou contar de novo e sentou-se para ouvir melhor.
— Morrendo, morrendo, morrendo! — dizia o relógio. — Morrendo, morrendo, morrendo!
Ele o ouvia distintamente.
Para onde iam todas aquelas pessoas? Deitou-se depressa e puxou a coberta por cima da cabeça; mas logo os cachos sedosos reapareceram.
— Morrendo, morrendo, morrendo! — dizia o relógio. — Morrendo, morrendo, morrendo!
Pensou nas palavras que seu pai lera naquela noite: “Porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.”
— Muitos, muitos, muitos! — dizia o relógio.
“Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem.”
— Poucos, poucos, poucos! — dizia o relógio.
O menino ficou deitado, os olhos muito abertos. Via diante de si uma longa corrente de pessoas, uma grande multidão escura que se movia numa única direção; então chegavam à beira escura do mundo e passavam para além dela. Via-as passando diante de si, e nada havia que pudesse detê-las.
Pensou em como aquela corrente rolara através de todas as longas eras do passado — como os antigos gregos e romanos haviam passado para além; os incontáveis milhões da China e da Índia, esses passavam agora. Desde que ele se deitara, quantos tinham ido! E o relógio dizia:
— Eternidade, eternidade, eternidade!
— Detende-os! Detende-os! — gritou a criança.
E, durante todo o tempo, o relógio continuava a bater; exatamente como a vontade de Deus, que nunca muda nem se altera, faça-se o que se quiser. Grandes gotas de suor cobriram a testa do menino. Ele saltou da cama e deitou-se com o rosto voltado para o chão de barro.
— Ó Deus, Deus! Salvai-os! — clamou em agonia. — Ao menos alguns, ao menos uns poucos! Ao menos um para cada momento em que eu estiver rezando aqui!
Cruzou as pequenas mãos sobre a cabeça.
— Deus! Deus! Salvai-os!
Prostrou-se no chão.
Oh, as longas, longas eras do passado, nas quais eles haviam passado para além! Oh, o longo, longo futuro, no qual passariam! Oh, Deus! a longa, longa, longa eternidade, que não tem fim!
A criança chorava e se encolhia mais perto do chão.
O sacrifício
A fazenda à luz do dia não era a fazenda ao luar. A planície era uma fatigante extensão plana de areia vermelha solta, esparsamente coberta por arbustos secos do karoo, que estalavam sob os pés como gravetos e deixavam aparecer por toda parte a terra vermelha. Aqui e ali um arbusto-leiteiro erguia suas hastes pálidas, e em todas as direções formigas e besouros corriam pela areia ardente. As paredes vermelhas da casa, os telhados de zinco dos anexos, os muros de pedra dos currais, todos refletiam a luz feroz do sol, até que os olhos doessem e se retraíssem. Não se via árvore nem arbusto, perto ou longe.
Os dois girassóis que ficavam diante da porta, vencidos pelo olhar do sol, inclinavam para a areia suas faces de bronze; e os pequenos insetos semelhantes a cigarras gritavam alto entre as pedras do kopje. A mulher bôer, vista à luz do dia, era ainda menos bela do que quando, na cama, rolava e sonhava. Sentava-se numa cadeira da grande sala da frente, com os pés sobre um fogareiro de madeira, enxugava o rosto achatado com a ponta do avental, bebia café e, em holandês do Cabo, jurava que o amado tempo estava maldito.
Menos bela, também, à luz do dia, era a filha do inglês morto, sua pequena enteada, sobre cujas sardas e testa baixa e enrugada o sol não tinha piedade.
— Lyndall — disse a criança à sua pequena prima órfã, que estava sentada com ela no chão, enfiando contas —, como é que as suas contas nunca caem da agulha?
— Eu tento — disse a pequena, gravemente, umedecendo o dedinho. — É por isso.
O feitor, visto à luz do dia, era um alemão enorme, vestindo um terno puído, e com o hábito infantil de esfregar as mãos e balançar prodigiosamente a cabeça quando alguma coisa o agradava. Estava lá fora, nos currais, sob o sol ardente, explicando a dois rapazes kaffir o próximo fim do mundo. Os rapazes, enquanto cortavam os bolos de esterco, piscavam um para o outro e trabalhavam tão devagar quanto lhes era possível; mas o alemão jamais o percebia.
Longe, para além do kopje, Waldo, seu filho, guardava as ovelhas e os cordeiros — um rebanho pequeno e poeirento — coberto de areia vermelha da cabeça aos pés, usando um casaco esfarrapado e sapatos de couro cru por cujos buracos apareciam os dedos. Seu chapéu era grande demais e deslizara até os olhos, escondendo por completo os cachos negros e sedosos. Era uma pequena figura curiosa.
O rebanho lhe dava pouco trabalho. Fazia calor demais para que os animais se afastassem; reuniam-se em torno de cada pequeno arbusto-leiteiro, como se esperassem encontrar sombra, e ali ficavam, imóveis, em grupos. Ele próprio rastejou para baixo de uma pedra saliente que ficava ao pé do kopje, estendeu-se de bruços e agitou no ar os sapatinhos arruinados. Logo, da sacola azul onde guardava o almoço, tirou um pedaço de ardósia, uma aritmética e um lápis.
Começando a armar uma conta com modos solenes e aplicados, pôs-se a somá-la em voz alta:
— Seis mais dois são oito — e quatro são doze — e dois são catorze — e quatro são dezoito.
Aqui parou.
— E quatro são dezoito — e — quatro — são, dezoito.
A última frase saiu muito arrastada. Lentamente, o lápis escorregou de seus dedos, e a ardósia o seguiu na areia. Por algum tempo ficou imóvel; depois começou a murmurar para si mesmo, cruzou os bracinhos, pousou a cabeça sobre eles, e poderia estar dormindo se não fosse o som de murmúrio que de tempos em tempos saía dele. Uma velha ovelha curiosa veio farejá-lo; mas demorou muito até que ele erguesse a cabeça. Quando o fez, olhou para as colinas distantes com seus olhos pesados.
— Recebereis — recebereis — recebereis, recebereis, recebereis — murmurou.
Então sentou-se. Lentamente a estupidez e o torpor derreteram de seu rosto; ele se tornou radiante. O meio-dia chegara agora, e os raios do sol desciam verticalmente; a terra tremia diante dos olhos. O menino levantou-se depressa e limpou um pequeno espaço entre os arbustos que o cobriam. Procurando com cuidado, achou doze pequenas pedras de tamanho mais ou menos igual; ajoelhando-se, arranjou-as cuidadosamente no espaço limpo, em uma pilha quadrada, com a forma de um altar.
Então caminhou até a sacola onde estava seu almoço; dentro havia uma costeleta de carneiro e uma grande fatia de pão escuro. O menino tirou-as e virou o pão na mão, ponderando profundamente. Por fim, jogou-o fora, caminhou até o altar com a carne e a depositou sobre as pedras. Perto dali, na areia vermelha, ajoelhou-se. Certamente, nunca desde o princípio do mundo houve sacerdote tão esfarrapado e tão pequeno.
Tirou o grande chapéu e o colocou solenemente no chão; depois fechou os olhos e cruzou as mãos. Orou em voz alta:
— Ó Deus, meu Pai, eu Vos fiz um sacrifício. Tenho apenas dois pence, por isso não posso comprar um cordeiro. Se os cordeiros fossem meus, eu Vos daria um; mas agora só tenho esta carne; é a carne do meu almoço. Por favor, meu Pai, mandai fogo do céu para queimá-la. Vós dissestes: Todo aquele que disser a este monte: lança-te ao mar, sem duvidar, isso se fará. Peço por amor de Jesus Cristo. Amém.
Ajoelhou-se com o rosto sobre o chão e cruzou as mãos sobre os cachos. O sol feroz derramava seu calor sobre sua cabeça e sobre seu altar. Quando olhasse para cima, sabia o que veria — a glória de Deus! De medo, seu coração quase parou; a respiração vinha pesada; ele estava meio sufocado. Não ousava olhar para cima. Então, por fim, ergueu-se.
Acima dele estava o céu azul e quieto; ao redor, a terra vermelha; havia os grupos de ovelhas silenciosas e o seu altar — era tudo. Olhou para cima — nada rompia a intensa quietude do azul acima. Olhou em volta, espantado; depois curvou-se de novo, desta vez por mais tempo que antes. Quando se ergueu pela segunda vez, tudo estava inalterado. Apenas o sol derretera a gordura da pequena costeleta, e ela escorria sobre as pedras. Então, pela terceira vez, curvou-se.
Quando enfim levantou os olhos, algumas formigas tinham vindo até a carne sobre o altar. Ele se pôs de pé e as afastou. Depois colocou o chapéu sobre os cachos quentes e sentou-se à sombra. Abraçou os joelhos com as mãos. Sentou-se para vigiar o que haveria de acontecer. A glória do Senhor Deus Todo-Poderoso! Sabia que a veria.
— Meu querido Deus está me provando — disse; e ficou sentado ali durante o calor feroz da tarde.
Ainda vigiava e esperava quando o sol começou a inclinar-se; e, quando se aproximou do horizonte e as ovelhas começaram a lançar longas sombras sobre o karoo, ele ainda estava sentado ali. Esperou quando os primeiros raios tocaram as colinas, até que o sol mergulhou atrás delas e desapareceu. Então reuniu as ovelhas, desfez o altar e atirou a carne para longe, para muito longe, no campo. Caminhou para casa atrás do rebanho. Seu coração estava pesado.
Raciocinou assim:
“Deus não pode mentir. Eu tive fé. Não veio fogo. Sou como Caim — não pertenço a Ele. Ele não ouvirá minha oração. Deus me odeia.”
O coração do menino estava pesado.
Quando chegou ao portão do curral, as duas meninas foram encontrá-lo.
— Venha — disse Em, a de cabelos amarelos —, vamos brincar de esconde-esconde. Ainda há tempo antes de escurecer de todo. Você, Waldo, vá se esconder no kopje; Lyndall e eu vamos fechar os olhos aqui, e não vamos olhar.
As meninas esconderam o rosto no muro de pedra do curral das ovelhas, e o menino subiu até a metade do kopje. Agachou-se entre duas pedras e deu o chamado. Nesse instante, o leiteiro saiu caminhando do curral das vacas com dois baldes. Era um kaffir de má aparência.
“Ah!”, pensou o menino, “talvez ele morra esta noite e vá para o inferno! Preciso rezar por ele, preciso rezar!”
Então pensou: “Para onde eu vou?” E rezou desesperadamente.
— Ah! Isto não está certo de jeito nenhum — disse a pequena Em, espiando entre as pedras e encontrando-o em uma postura muito curiosa. — O que você está fazendo, Waldo? Não é a brincadeira, sabe? Você devia sair correndo quando chegássemos à pedra branca. Ah, você não brinca direito.
— Eu... eu vou brincar direito agora — disse o menino, saindo e ficando diante delas com ar envergonhado. — Eu... eu só esqueci; vou brincar agora.
— Ele estava dormindo — disse a sardenta Em.
— Não — disse a bela pequena Lyndall, olhando-o com curiosidade —; ele estava chorando.
Ela nunca se enganava.
A confissão
Uma noite, dois anos depois, o menino sentava-se sozinho no kopje. Escapara silenciosamente do quarto do pai e viera para ali. Fazia isso muitas vezes, porque, quando orava ou chorava em voz alta, seu pai poderia despertar e ouvi-lo; e ninguém conhecia sua grande tristeza, ninguém conhecia sua dor, senão ele próprio, e ele as enterrava fundo no coração.
Virou para cima a aba do grande chapéu e olhou para a lua, mas principalmente para as folhas da figueira-da-índia que crescia bem diante dele. Elas reluziam, reluziam, reluziam, exatamente como seu próprio coração — frio, tão duro, e muito perverso. Seu coração físico também doía; parecia cheio de pequenos cacos de vidro que machucavam. Estava sentado ali havia meia hora e não ousava voltar para a casa abafada. Sentia-se horrivelmente só. Não havia em todo o mundo uma só coisa tão perversa quanto ele, e ele sabia. Cruzou os braços e começou a chorar — não em voz alta; soluçava sem fazer som, e suas lágrimas deixavam marcas queimadas onde caíam. Não conseguia rezar; rezara noite e dia por tantos meses; e naquela noite não conseguia rezar.
Quando parou de chorar, segurou a cabeça dolorida com as mãos morenas. Se alguém pudesse ter ido até ele e tocado nele com bondade; pobre criaturinha feia! Talvez seu coração estivesse quase partido. Com os olhos inchados, ficou sentado ali sobre uma pedra chata, bem no alto do kopje; e a árvore, com cada uma de suas folhas perversas, piscava, piscava, piscava para ele. Logo começou a chorar de novo, e então interrompeu o choro para olhá-la.
Ficou quieto por muito tempo; depois ajoelhou-se devagar e inclinou-se para a frente. Havia um segredo que carregava no coração havia um ano. Não ousara olhar para ele; não o sussurrara a si mesmo, mas durante um ano o carregara.
— Eu odeio Deus! — disse.
O vento tomou as palavras e fugiu com elas, entre as pedras e através das folhas da figueira-da-índia. Ele pensou que elas morreram a meio caminho do kopje.
Ele o dissera agora!
— Eu amo Jesus Cristo, mas odeio Deus.
O vento levou aquele som como levara o primeiro. Então ele se levantou e abotoou o velho casaco. Sabia que agora certamente estava perdido; não se importava. Se metade do mundo haveria de se perder, por que ele também não? Não rezaria mais por misericórdia. Era melhor assim — melhor saber com certeza. Estava terminado agora. Melhor assim. Começou a descer, tropeçando, os lados do kopje, para voltar para casa.
Melhor assim! Mas oh, a solidão, a dor agonizante! por aquela noite, e por noites e noites depois! A angústia que dorme o dia inteiro sobre o coração como um verme pesado e desperta à noite para se alimentar! Há entre nós quem, em anos posteriores, diga ao Destino: “Agora desfere teu golpe mais duro, dá-nos o que quiseres; mas não nos deixes sofrer outra vez como sofremos quando éramos crianças.” A farpa na flecha do sofrimento infantil é esta: sua solidão intensa, sua agonia intensa.
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