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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 16 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 2.I. Tempos e Estações.

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Capítulo 2.I. Tempos e Estações.

Waldo jazia de bruços sobre a areia. Desde que rezara e uivara para seu Deus no depósito de combustível, três anos haviam passado.

Dizem que no mundo vindouro o tempo não se mede por meses e anos. Aqui tampouco. A vida da alma tem suas próprias estações; períodos que não se acham em calendário algum, tempos que anos e meses não podem medir, mas que se recortam uns dos outros com tanta destreza e nitidez quanto os anos regularmente ordenados que o movimento da terra nos dá.

A olhos estranhos, essas divisões não são evidentes; mas cada um, olhando para trás o pequeno rastro que sua consciência ilumina, vê-o dividido em porções distintas, cujos limites são o término de estados mentais.

Assim como um homem difere de outro, assim diferem esses anos da alma. A vida mais material não está desprovida deles; a história da mais espiritual é contada por eles. E pode acontecer que alguns, olhando para trás, vejam o passado recortado desta maneira:

I.

O ano da infância, em que, do fundo sombrio do esquecimento, saltam imagens de surpreendente clareza, desconexas, mas vivamente coloridas e impressas de modo indelével na mente. Muito do que vem depois se apaga, mas as cores dessas imagens de bebê permanecem.

Ergue-se, talvez, uma quente tarde de verão; estamos sentados à soleira; temos ainda na boca o gosto do pão com leite, e o pôr do sol vermelho se reflete em nossa tigela.

Depois há uma noite escura, em que, despertando com o medo de que exista algum grande ser no quarto, corremos de nossa cama para outra, nos encolhemos junto de alguma figura grande e somos consolados.

Depois vem a lembrança do orgulho quando, no ombro de alguém, com os braços em torno de sua cabeça, cavalgamos para ver os porquinhos, os porquinhos novos com caudas enroladas e focinhos minúsculos — de onde vêm eles?

Lembrança do deleite no tato e no cheiro da primeira laranja que vemos; da tristeza que nos faz projetar o lábio e chorar com força quando, certa manhã, saímos correndo para tentar apanhar as gotas de orvalho, e elas derretem e molham nossos dedinhos; da tristeza onipotente e desesperada quando nos perdemos atrás dos kraals e não conseguimos ver a casa em lugar algum.

E então uma imagem se destaca mais vivamente que qualquer outra.

Houve uma tempestade; o chão, até onde a vista alcança, está coberto de granizo branco; as nuvens se foram, e no alto aparece um céu de azul profundo; longe, um grande arco-íris repousa sobre a terra branca. Nós, de pé à janela para olhar, sentimos soprar sobre nós o vento fresco, indizivelmente doce, e um sentimento de anseio nos invade — anseio inexprimível, não sabemos por quê. Somos tão pequenos que nossa cabeça só alcança as três primeiras vidraças. Olhamos a terra branca, e o arco-íris, e o céu azul; e oh, nós o queremos, queremos — não sabemos o quê. Choramos como se nosso coração se partisse. Quando alguém ergue nosso pequeno corpo da janela, não conseguimos dizer o que nos aflige. Corremos para brincar.

Assim se parece o primeiro ano.

II.

Agora as imagens tornam-se contínuas e ligadas. As coisas materiais ainda dominam, mas o espiritual e o intelectual tomam seus lugares.

Na noite escura, quando temos medo, rezamos e fechamos os olhos. Apertamos os dedos com muita força sobre as pálpebras e vemos manchas escuras rodando e rodando, e sabemos que são cabeças e asas de anjos enviados para cuidar de nós, vistos de modo indistinto na escuridão enquanto se movem em torno de nossa cama. É muito consolador.

De dia aprendemos as letras e nos perturbamos por não enxergar por que k-n-o-w deve ser know, e p-s-a-l-m, psalm. Dizem-nos que é assim porque é assim. Não ficamos satisfeitos; odiamos aprender; preferimos construir pequenas casas de pedra. Podemos fazê-las como quisermos, e sabemos a razão delas.

Temos também outras alegrias, incomparavelmente maiores até que a construção de casas de pedra.

Somos atravessados por um estremecimento de prazer quando, na areia vermelha, encontramos uma daquelas flores brancas de cera que jazem, entre suas duas folhas verdes, planas sobre a areia. Mal ousamos colhê-las, mas nos sentimos compelidos a fazê-lo; e cheiramos, cheiramos, até que o deleite se torne quase dor. Depois puxamos as folhas verdes suavemente em pedaços para ver os fios de seda cruzarem-se por dentro.

Além do kopje crescem alguns arbustos verde-claros, de folhas peludas. Somos tão pequenos que eles se fecham sobre nossa cabeça, e nos sentamos entre eles, e os beijamos, e eles nos amam de volta; parece que estão vivos.

Um dia estamos sentados ali e olhamos para o céu azul, e para baixo, para nossos joelhinhos gordos; e de repente nos ocorre: Quem somos nós? Este eu, que é? Tentamos olhar para dentro de nós mesmos, e nosso eu rebate contra nosso eu. Então nos levantamos com grande medo e corremos para casa o mais depressa que podemos. Não conseguimos contar a ninguém o que nos assustou. Nunca mais perdemos inteiramente esse sentimento de si.

III.

E então nasce um novo tempo. Temos sete anos. Já sabemos ler — ler a Bíblia. O que mais amamos é a história de Elias em sua caverna no Horeb, e a voz mansa e delicada.

Um dia, um dia notável, lemos no kopje e descobrimos o quinto capítulo de Mateus, e o lemos por inteiro. É uma nova mina de ouro. Então metemos a Bíblia debaixo do braço e corremos para casa. Eles não sabiam que era pecado tomar de volta suas coisas quando alguém as tirava, pecado ir à justiça, pecado...! Chegamos à casa quase sem fôlego; dizemos que descobrimos um capítulo de que nunca ouviram falar; contamos o que ele diz. As velhas pessoas sábias nos dizem que sabiam tudo sobre isso. Nossa descoberta para elas é uma ilusão tola; mas, para nós, é muito real. Dos dez mandamentos e do velho “Tu deves” já ouvimos falar bastante e não nos importamos com eles; mas essa nova lei nos incendeia.

Negaremos a nós mesmos. Nosso pequeno vagão que fizemos, nós o damos aos pequenos kaffirs. Ficamos quietos quando nos atiram areia (sentindo-nos, oh, tão felizes). Conscienciosamente escolhemos para nós a xícara rachada no café da manhã e pegamos o bolo de chapa queimado. Guardamos nosso dinheiro e compramos três pence de tabaco para a criada khoikhoi que nos chama nomes feios. Somos exoticamente virtuosos. À noite, somos profundamente religiosos; até o relógio que bate diz: “Eternidade, eternidade! inferno, inferno, inferno!”, e o silêncio fala de Deus e das coisas que hão de ser.

Ocasionalmente, também, perguntas desagradavelmente perspicazes começam a ser feitas por alguém, não sabemos quem, que se senta em algum lugar atrás de nosso ombro. Mais tarde viremos a conhecê-lo melhor.

Agora levamos as perguntas aos adultos, e eles nos dão respostas. Ficamos mais ou menos satisfeitos por algum tempo. Os adultos são muito sábios, e dizem que foi bondade de Deus fazer o inferno, e muito amoroso da parte Dele enviar homens para lá; e, além disso, Ele não podia evitar, e eles são muito sábios, pensamos, por isso acreditamos neles — mais ou menos.

IV.

Depois vem um novo tempo, cuja característica principal é que as perguntas perspicazes são feitas mais alto. Nós as levamos aos adultos; eles nos respondem, e não ficamos satisfeitos.

E agora, entre nós e o querido velho mundo dos sentidos, o mundo espiritual começa a espiar, e o cobre por inteiro. Que são as flores para nós? São combustível à espera do grande incêndio. Olhamos os muros da casa da fazenda e os concretos kraals de ovelhas, com o sol alegre brincando sobre tudo; e não os vemos. Mas vemos um grande trono branco, e aquele que se assenta sobre ele. Ao redor Dele está uma grande multidão que nenhum homem pode contar, harpistas tangendo suas harpas, mil vezes dez mil, e milhares de milhares. Como são brancas suas vestes, lavadas no sangue do Cordeiro! E a música sobe mais alto, e rasga a abóbada do céu com sua doçura indizível. E nós, enquanto escutamos, de tempos em tempos, quando ela desce à nota mais doce e mais baixa, ouvimos de baixo o gemido dos condenados. Estremecemos à luz do sol.

“O tormento”, diz Jeremy Taylor, cujos sermões nosso pai lê em voz alta à noite, “compreende tantos tormentos quantas juntas, nervos, artérias etc. tem o corpo do homem, sendo causado por aquele fogo penetrante e real de que este fogo temporal é apenas um fogo pintado. Que comparação haverá entre arder pelo espaço de cem anos e arder sem intermissão enquanto Deus for Deus!”

Lembramos o sermão ali, à luz do sol. Alguém vem e pergunta por que estamos sentados ali, cabeceando tão melancolicamente. Ah, eles não veem o que vemos.

“Um momento, estreito espaço, separa-me do celeste paço, ou me encerra no inferno.”

Assim diz o hino de Wesley, que cantamos noite após noite. Que importam sol e muros, homens e ovelhas?

“As coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.” Elas são reais.

A Bíblia carregamos sempre no peito; suas páginas são nosso alimento; aprendemos a repeti-la; choramos muito, pois ao sol e à sombra, de manhã cedo ou no fim da tarde, no campo ou dentro de casa, o diabo caminha conosco. Ele chega como uma pessoa real, rosto cor de cobre, cabeça um pouco inclinada para o lado, testa franzida, fazendo perguntas. Acredite-me: melhor seria ser seguido por três doenças mortais do que por ele. Ele nunca se cala — sem misericórdia. Ainda que gotas de sangue se destaquem em seu coração, ele fará sua pergunta. Suavemente ele se aproxima (somos apenas uma criancinha): “Foi bondade de Deus fazer o inferno? Foi bondoso da parte Dele não permitir que ninguém fosse perdoado a menos que Jesus Cristo morresse?”

Depois vai embora e nos deixa contorcendo. Logo volta.

“Você O ama?” — espera um pouco. “Você O ama? Estará perdido se não amar.”

Dizemos que tentamos.

“Mas ama?” Então se vai.

Nada lhe importa se enlouquecemos de medo diante de nossa própria maldade. Ele continua perguntando, o diabo questionador; não se importa com o que diz. Ansiamos por contar a alguém, para que partilhe nossa dor. Ainda não sabemos que a taça da aflição é feita com boca tão estreita que apenas um lábio pode beber de cada vez, e que a taça de cada homem é feita para se ajustar a seu lábio.

Um dia tentamos contar a alguém. Então uma cabeça grave se balança solenemente para nós. Somos maus, muito maus, dizem que não deveríamos ter tais pensamentos. Deus é bom, muito bom. Somos maus, muito maus. É esse o consolo que recebemos. Maus! Oh, Senhor! Não o sabemos? Não é o senso de nossa própria maldade excessiva que seca nosso jovem coração, enchendo-o de areia, fazendo de toda a vida uma caixa de poeira para nós?

Maus? Nós o sabemos! Vis demais para viver, vis demais para morrer, vis demais para rastejar sobre esta terra de Deus e mover-nos entre seus homens crentes. O inferno é o único lugar para aquele que odeia seu mestre, e é para lá que não queremos ir. Este é o consolo que recebemos dos velhos.

E mais uma vez tentamos buscar consolo. Desta vez, grandes olhos nos fitam admirados, e adoráveis pequenos lábios dizem:

— Se pensar nessas coisas o torna tão infeliz, por que não pensa em outra coisa, e esquece?

Esquecer! Nós nos afastamos e nos retraímos para dentro de nós. Esquecer, e pensar em outras coisas! Oh, Deus! Eles não compreendem que o mundo material é apenas uma película, por cada poro da qual o terrível mundo espiritual de Deus brilha sobre nós? Mantemo-nos o mais longe possível dos outros.

Uma noite, uma rara noite clara de luar, ajoelhamo-nos à janela; todos os outros dormem, mas nós ajoelhamos lendo à luz da lua. É um capítulo dos profetas, contando como o povo escolhido de Deus será carregado nos ombros dos gentios. Certamente o diabo poderia nos deixar em paz; não há muito ali para que ele manipule. Mas logo ele vem.

— É certo que haja um povo escolhido? Para Ele, que é pai de todos, não deveriam todos ser queridos?

Como poderíamos responder? Estávamos nos sentindo tão bons até ele chegar. Abaixamos a cabeça sobre a Bíblia e a empolamos com lágrimas. Depois cruzamos as mãos sobre a cabeça e rezamos, até os dentes rangerem. Oh, que daquele mundo espiritual, tão real e, no entanto, tão silencioso, que nos rodeia, viesse uma palavra para nos guiar! Somos deixados a sós com esse diabo; e Deus não nos sussurra. De súbito agarramos a Bíblia, virando-a de um lado para outro, e dizemos apressadamente:

— Será a voz de Deus falando conosco; Sua voz como se a ouvíssemos.

Ansiamos por um sinal do Inexoravelmente Silencioso.

Viramos o livro, pousamos o dedo numa página e nos inclinamos para ler à luz da lua. É a resposta de Deus. Trememos.

“Depois, passados quatorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito comigo.”

Por um instante nossa imaginação se agarra a isso; estamos torcendo, girando, tentando fazer uma alegoria. Os quatorze anos são quatorze meses; somos Paulo e o diabo é Barnabé, Tito é... Então nos vem uma súbita repugnância: somos mentirosos e hipócritas, estamos tentando enganar a nós mesmos. Que têm Paulo e Jerusalém conosco? Somos Barnabé e Tito? Não conhecemos esses homens. Antes que saibamos, agarramos o livro, brandimo-lo ao redor da cabeça e o arremessamos com toda a força para a outra ponta do quarto. Abaixamos a cabeça novamente e choramos.

Juventude e ignorância; haverá outra coisa capaz de chorar assim? É como se as lágrimas fossem gotas de sangue coagulado sob as pálpebras; nada se parece com essas lágrimas. Depois de longo tempo, ficamos fracos de tanto chorar e jazemos quietos; por acaso batemos contra a madeira que tapa a vidraça quebrada. Ela cai. Sobre nosso rosto quente e rígido sopra um doce hálito de vento. Erguemos a cabeça e, com os olhos inchados, olhamos para fora, para o belo mundo imóvel, e o doce vento noturno sopra sobre nós, santo e suave, como uma respiração amorosa vinda dos lábios de Deus. Uma paz profunda nos sobrevém, uma alegria calma e silenciosa; as lágrimas agora correm fáceis e brandas. Oh, a alegria indizível! Por fim, por fim a encontramos! “A paz com Deus.” “O sentimento dos pecados perdoados.” Toda dúvida desaparecida, a voz de Deus na alma, o Espírito Santo enchendo-nos! Nós O sentimos! Nós O sentimos! Oh, Jesus Cristo, por ti, por ti esta alegria! Comprimimos as mãos sobre o peito e olhamos para o alto com ventura adoradora. Brandas ondas de beatitude atravessam-nos. “A paz com Deus.” “O sentimento dos pecados perdoados.” Metodistas e avivalistas dizem as palavras, e o mundo zombeteiro projeta o lábio e passa sorrindo: “Hipócrita.”

Há mais tolos e menos hipócritas do que sonha o mundo sábio. O hipócrita é raro como icebergs nos trópicos; o tolo é comum como botões-de-ouro junto a um sulco de água: quer se vá por este caminho ou por aquele, pisa-se nele; não se ousa olhar o próprio reflexo na água sem ver um. Não há frase feita de beatice, apodrecida pela idade, que não tenha sido a roupa de um corpo vivo; nenhuma que, no fundo, não signifique uma condição real, física ou mental, pela qual alguns passaram.

Depois de horas e noites de medo frenético do sobrenatural, de desejo de apaziguar o poder lá de cima, de uma excitação feroz e trêmula em cada polegada de nervo e vaso sanguíneo, chega um tempo em que a natureza não pode suportar mais, e a mola longamente curvada recua. Afundamos, emasculados. Sobe rastejando a calma mortal e deliciosa.

“Como nuvem apaguei teus pecados, e como espessa nuvem tuas transgressões, e deles não me lembrarei mais para sempre.” Choramos com alegria suave e arrebatadora.

Poucos experimentam isso; muitos imaginam experimentá-lo, um aqui e ali mente a respeito. Em geral, “a paz com Deus; um sentimento dos pecados perdoados” designa certa reação mental e física. Sua realidade conhecem aqueles que a sentiram.

E nós, naquela noite de luar, pousamos a cabeça na janela. “Oh, Deus! Somos felizes, felizes; teu filho para sempre. Oh, obrigado, Deus!” E caímos no sono.

Na manhã seguinte beijamos a Bíblia. Somos de Deus para sempre. Saímos para trabalhar, e tudo vai feliz durante o dia, feliz durante a noite; mas dificilmente tão feliz, nada feliz, no dia seguinte; e na noite seguinte o diabo nos pergunta: “Onde está seu Espírito Santo?”

Não sabemos dizer.

Assim, mês após mês, verão e inverno, a velha vida continua — leitura, oração, choro, oração. Dizem-nos que ficamos inteiramente estúpidos. Sabemos disso. Até a tabuada, que aprendêramos com tanto cuidado, esquecemos. O mundo físico afasta-se cada vez mais de nós. Verdadeiramente não amamos o mundo, nem as coisas que nele há. Para além dos limites do sono, nossa dor nos acompanha. Quando acordamos à noite, estamos sentados na cama chorando amargamente, ou nos encontramos lá fora, ao luar, vestidos, andando de um lado para outro e torcendo as mãos, sem saber como fomos parar ali. Assim se passam dois anos, como os homens os contam.

V.

Então um novo tempo.

Diante de nós havia três caminhos possíveis — enlouquecer, morrer, dormir.

Tomamos o último caminho; ou a natureza o toma por nós.

Todas as coisas descansam no sono; as feras, as aves, as próprias flores fecham os olhos, e os riachos ficam imóveis no inverno; todas as coisas descansam; então por que não também a razão humana? Assim o diabo questionador em nós adormece, e nesse sono se ergue para nós um belo sonho. Mesmo que você ouça todos os sonhos dos homens, dificilmente encontrará um mais bonito que o nosso. Era assim:

No centro de todas as coisas há um Coração poderoso, que, tendo gerado todas as coisas, as ama; e, tendo-as parido para a vida, bate com grandes pulsações de amor em direção a elas. Nada de morte para Seus queridos insetos, nada de inferno para Seus queridos homens, nada de consumir pelo fogo Seu querido mundo — Seu próprio, próprio mundo que Ele fez. No fim tudo será belo. Não nos pergunte como fazemos nosso sonho conciliar-se com os fatos; a glória de um sonho é esta — que despreza os fatos e faz os seus. Nosso sonho nos salva da loucura; isso basta.

Seu ponto peculiar de doçura estava aqui. Quando o anseio de amor do Coração Poderoso se tornava grande demais para outra expressão, moldava-se na doce Rosa do céu, o amado Homem-Deus.

Jesus! Tu, Jesus de nosso sonho! Como te amamos; nenhuma Bíblia fala de ti como te conhecemos. Tuas doces mãos prendiam firmemente as nossas; tua doce voz dizia sempre: “Estou aqui, meu amado, não longe; põe teus braços em torno de mim e segura firme.”

Nós O encontramos em tudo naqueles dias. Quando o cordeirinho cansado que levamos para casa arrasta os pés, nós o agarramos e o carregamos com a cabeça contra nosso rosto. Seu pequeno cordeiro! Sentimos que O temos.

Quando o kaffir bêbado jaz à beira da estrada, sob o sol, puxamos-lhe a manta sobre a cabeça e pomos ramos verdes de arbusto-de-leite por cima. Seu kaffir; por que o sol haveria de feri-lo?

À tarde, quando as nuvens se erguem como portões e as luzes vermelhas brilham por entre elas, choramos; pois em tal glória Ele virá, e as mãos que doem por tocá-Lo hão de segurá-Lo, e veremos os belos cabelos e olhos de nosso Deus. “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, e entrará o nosso Rei da glória!”

As flores roxas, as pequenas flores roxas, são Seus olhos, olhando para nós. Beijamo-las e nos ajoelhamos sozinhos na planície, jubilando por elas. E o ermo e o lugar solitário se alegrarão por Ele, e o deserto se regozijará e florescerá como a rosa.

Se alguma vez, em nosso êxtase choroso e alegre, o pobre diabo sonolento e meio morto erguesse a cabeça, ríamos dele. Agora não é sua hora.

— E se houver um inferno, afinal! — murmura. — E se seu Deus for cruel! E se não houver Deus! E se você descobrir que tudo é imaginação! E se...

Rimos dele. Quando um homem está sentado ao sol quente, você lhe pede prova disso? Ele sente — é tudo. E nós sentimos — é tudo. Não queremos prova de nosso Deus. Sentimos, sentimos!

Não cremos em nosso Deus porque a Bíblia nos fala Dele. Cremos na Bíblia porque Ele nos fala dela. Sentimo-Lo, sentimo-Lo, sentimos — é tudo! E o pobre diabo, meio submerso, murmura:

— Mas e se vier o dia em que você não sentir?

E nós rimos e abafamos sua voz com nosso choro.

— Esse dia nunca virá — nunca —, e o pobre diabo se esgueira para dormir de novo, com o rabo entre as pernas. A afirmação feroz, muitas vezes repetida, é difícil de enfrentar; só o tempo separa a verdade da mentira. Assim seguimos sonhando.

Um dia vamos com nosso pai à cidade, à igreja. Os moradores da cidade farfalham em suas sedas, e os homens em seus tecidos lustrosos, acomodam-se nos bancos, e a luz entra pelas janelas sobre as flores artificiais nos chapéus das mulheres. Temos a mesma sensação miserável que sentimos numa loja onde todos os caixeiros estão muito elegantes. Desejamos que nosso pai não nos tivesse levado à cidade, e que estivéssemos fora, no karoo. Então o homem no púlpito começa a pregar. Seu texto é: “Aquele que não crê será condenado.”

No dia anterior, o escrivão do magistrado, que era ateu, morrera na rua, fulminado por um raio.

O homem no púlpito não menciona nome algum; mas fala da “mão de Deus tornada visível entre nós”. Conta como, quando o golpe branco caiu, tremulante e nu, a alma fugiu, despojada de seu invólucro terreno, e jazeu ao escabelo de Deus; como sobre sua cabeça se derramou a ira do Poderoso, cuja existência negara; e, tremendo e aterrorizada, fugiu para a sombra eterna.

Nós, ao escutarmos, quase nos levantamos; cada gota de sangue em nosso corpo correu para a cabeça. Ele mente! Ele mente! Ele mente! Aquele homem no púlpito mente! Ninguém o impedirá? Nenhum deles ouviu, nenhum deles sabe que, quando a pobre alma escura fechou os olhos na terra, abriu-os na luz quieta do céu? Que não há ira onde está o rosto de Deus? Que, se alguém pudesse ao menos rastejar até o escabelo de Deus, haveria ali paz eterna, como a fresca quietude da manhã cedo? Enquanto o ateu jazia maravilhado e com medo, Deus inclinou-se e disse: “Meu filho, aqui estou — Eu, a quem não conheceste; Eu, em quem não creste; estou aqui. Enviei Meu mensageiro, o relâmpago branco em lençol, para chamar-te de volta para casa. Estou aqui.”

Então a pobre alma voltou-se para a luz — sua fraqueza e sua dor tinham ido embora para sempre.

Eles não souberam, não ouviram, quem é que governa?

“Por um breve momento escondi de ti o meu rosto; mas com bondade eterna terei misericórdia de ti, diz o Senhor, teu Redentor.”

Continuamos murmurando para nós mesmos, até que alguém nos puxa violentamente pelo braço para lembrar-nos de que estamos na igreja. Não vemos nada além de nossas próprias ideias.

Logo todos se voltam para rezar. Há seiscentas almas erguendo-se para a Luz Eterna.

Atrás de nós sentam-se duas damas bonitas; uma passa suavemente seu frasco de perfume à outra, e uma mãe puxa para baixo o vestido da menininha. Uma dama deixa cair o lenço; um cavalheiro o apanha; ela cora. As mulheres do coro viram suavemente as folhas de seus livros de música, para estarem prontas quando a oração terminar. É como se pensassem mais no canto do que no Pai Eterno. Oh, não seria mais culto a Ele sentar-se sozinho no karoo e beijar uma pequena flor roxa que Ele fez? Não é zombaria? Então vem o pensamento: “Que fazes aqui, Elias?” Nós que julgamos, em que somos melhores do que eles? — antes piores. É desculpa dizer: “Sou apenas uma criança e preciso vir”? Deus permite que alguma alma se interponha entre o espírito que Ele fez e Ele próprio? Que fazemos ali naquele lugar, onde todas as palavras são mentiras contra o Pai de Todos? Cheios de horror, voltamo-nos e fugimos daquele lugar. Na calçada, batemos o pé e juramos em nossa alma de criança nunca mais entrar nesses lugares onde os homens vêm cantar e rezar. Depois somos interrogados. Por que saímos da igreja?

Como explicar? — ficamos em silêncio. Então nos pressionam ainda mais, e tentamos contar. Então uma cabeça se balança solenemente para nós. Ninguém pode achar errado ir à casa do Senhor; é a desculpa ociosa de um menino perverso. Quando pensaremos seriamente em nossa alma, e amaremos ir à igreja? Somos maus, muito maus. E nós — nós nos esgueiramos para longe e vamos chorar sozinhos. Será sempre assim? Quer odiemos e duvidemos, quer creiamos e amemos, havemos sempre de parecer maus aos que nos são mais queridos?

Ainda não sabemos que, na busca da alma pela verdade, a amargura está nisto: a luta nem sempre pode esconder-se entre os pensamentos; mais cedo ou mais tarde ela se vestirá de ação exterior; então se interpõe e divide a alma daquilo que ama. Todas as coisas na terra têm seu preço; e pela verdade pagamos o mais caro. Trocamo-la por amor e simpatia. A estrada para a honra é calçada de espinhos; mas, no caminho para a verdade, a cada passo você pousa o pé sobre o próprio coração.

VI.

Então, por fim, um novo tempo — o tempo do despertar; curto, agudo e nada agradável, como tantas vezes são os despertares.

Sono e sonhos existem sob esta condição — que ninguém acorde o sonhador.

E agora a vida nos toma entre o dedo e o polegar, sacode-nos furiosamente até que nossa pobre cabeça pendida quase role dos ombros, e nos depõe um pouco duramente sobre a terra nua, machucados e doloridos, mas sobrenaturalmente despertos.

Dissemos em nossos dias de sonho: “Injustiça e erro são aparência; a dor é sombra. Nosso Deus, Ele é real, Ele que fez todas as coisas, e Ele somente é Amor.”

Agora a vida nos toma pelo pescoço e nos mostra algumas outras coisas — sepulturas recém-abertas com a areia vermelha voando em torno delas; olhos que amamos sendo comidos por vermes; homens maus andando lisos e gordos, todo o terrível tumulto daquilo que se chama vida —, e ela diz: “Que pensa disto?” Não ousamos dizer: “Nada.” Sentimo-las; são muito reais. Mas tentamos estender as mãos e sentir aquela outra coisa que sentíamos antes. Na noite escura do depósito de combustível, clamamos ao nosso Belo deus-sonho: “Oh, deixa-nos chegar perto de ti e pousar a cabeça junto a teus pés. Agora, em nossa hora de necessidade, fica perto de nós.” Mas Ele não está ali; foi embora. O velho diabo questionador está ali.

Teríamos de ser despertados cedo ou tarde. A imaginação não pode triunfar sempre sobre a realidade, nem o desejo sobre a verdade. Teríamos de ser despertados. Se isso foi feito um pouco asperamente, que importa? Foi feito por completo, e tinha de ser feito.

VII.

E uma nova vida começa para nós — um novo tempo, uma vida tão fria como a de um homem que se senta no pináculo de um iceberg e vê os cristais cintilantes todos ao redor. A velha vida parece, de fato, um longo delírio quente, povoado de fantasias. A nova é fria o bastante.

Agora não temos Deus. Tivemos dois: o velho Deus que nossos pais nos transmitiram, que odiávamos e nunca apreciamos; o novo que fizemos para nós mesmos, que amávamos; mas agora ele se esvaiu de nós, e vemos de que era feito — a sombra de nosso mais alto ideal, coroado e entronizado. Agora não temos Deus.

“Disse o néscio em seu coração: Não há Deus.” Pode ser. A maior parte das coisas ditas ou escritas foi obra de néscios.

Isto é certo: néscio é aquele que diz: “Nenhum homem disse em seu coração: Não há Deus.”

Isso foi dito muitos milhares de vezes em corações com profunda amargura de fé sincera.

Não gritamos nem choramos: sentamo-nos com olhos frios e olhamos o mundo. Não somos miseráveis. Por que seríamos? Comemos e bebemos, e dormimos a noite inteira; mas os mortos não são mais frios.

E dizemos devagar, mas sem suspirar: “Sim, agora vemos; não há Deus.”

E acrescentamos, ficando um pouco mais frios ainda: “Não há justiça. O boi morre no jugo, sob o chicote do dono; volta para a luz do sol seus olhos cheios de angústia, mas não há sinal de recompensa que lhe seja feita. O homem negro é abatido como um cão, e tudo corre bem para quem atirou. Os inocentes são acusados, e o acusador triunfa. Se você se der ao trabalho de arranhar a superfície em qualquer lugar, verá, debaixo da pele, um ser sensível contorcendo-se em angústia impotente.”

E dizemos ainda, e nosso coração é como o coração dos mortos de tão frio: “Não há ordem; todas as coisas são impelidas por um acaso cego.”

Aquilo que a alma bebe com o leite materno não a deixará em um dia. Desde nossa primeira hora nos ensinaram que o pensamento do coração, a formação da nuvem de chuva, a quantidade de lã que cresce no lombo de uma ovelha, a duração de uma seca e o crescimento do milho não dependem de nada que se mova imutável no coração de todas as coisas; mas da vontade mutável de um ser mutável, a quem nossas orações podem alterar. Para nós, desde o princípio, a natureza foi apenas uma coisa pobre e plástica, com que se pode brincar deste ou daquele modo, conforme o homem agrade ou não sua divindade; vá ou não à igreja; diga corretamente ou não suas orações; viaje ou não num domingo. Seria possível para nós, num instante, ver a Natureza como ela é — a veste fluente de uma realidade imutável? Quando a alma se solta dos braços de uma superstição, pedaços de garras e unhas quebram-se dentro dela. Não é trabalho de um dia espremê-los para fora.

E assim, para nós, desaparecido o guia e condutor à semelhança humana, toda a existência, quando olhamos para ela com nossos olhos gelados e maravilhados, é um erguer-se e inchar sem rumo de águas mutáveis. Em todo esse caos fervilhante, não conseguimos ver um ponto do tamanho da mão de um homem onde pousar o pé.

Que um homem creia ou não num Deus à semelhança humana é coisa pequena. Que olhe para o mundo mental e físico e não veja relação alguma entre causa e efeito, ordem alguma, mas um acaso cego brincando — este é o fato mais poderoso que pode ser registrado em qualquer existência espiritual. Seria quase uma misericórdia cortar-lhe a garganta, se é que ele próprio não o faz.

Nós, porém, não cortamos a garganta. Fazê-lo implicaria algum desejo e sentimento, e não temos desejo nem sentimento; estamos apenas frios. Não desejamos viver e não desejamos morrer. Um dia, uma cobra enrosca-se na cintura de uma mulher kaffir. Nós a tomamos na mão, giramo-la em círculos e a atiramos ao chão — morta. Todos nos olham com olhos de admiração. Quase rimos. É maravilhoso arriscar aquilo de que nada nos importa?

Na verdade, nada importa. Este mundinho sujo, cheio de confusão, e o trapo azul, estendido por cima como céu, é tão baixo que poderíamos tocá-lo com a mão.

A existência é uma grande panela, e a velha Fatalidade que a mexe não se importa com o que sobe à tona e com o que afunda, e ri quando as bolhas estouram. E nós não nos importamos. Que ferva à vontade. Por que nos preocuparíamos? Entretanto, as sensações físicas são reais. A fome dói, e a sede; por isso comemos e bebemos; a inação nos fere, por isso trabalhamos como escravos de galé. Ninguém o exige, mas nos pomos a construir uma grande represa na areia vermelha além dos túmulos. Na aurora cinzenta, antes que as ovelhas sejam soltas, trabalhamos nela. O dia inteiro, enquanto os jovens avestruzes que vigiamos se alimentam ao nosso redor, trabalhamos sob o calor mais feroz. As pessoas se perguntam que novo espírito nos tomou agora. Não sabem que trabalhamos para viver. Carregamos as maiores pedras e sentimos satisfação quando cambaleamos sob elas, feridos por uma dor que nos atravessa o peito. Enquanto comemos a refeição do meio-dia, continuamos levando cestos cheios de terra, como se o diabo nos impelisse. Os criados kaffirs têm uma história de que à noite uma bruxa e dois bois brancos vêm nos ajudar. Nenhum muro, dizem, poderia crescer tão depressa sob as mãos de um só homem.

À noite, sozinhos em nossa cabana, já não nos sentamos cismando diante do fogo. Em que pensaríamos agora? Tudo é vazio. Assim, tomamos a velha aritmética; e a tabuada, que aprendêramos há muito tempo com tanto esforço e esquecêramos imediatamente, aprendemos agora em poucas horas, e nunca mais esquecemos. Encontramos estranha satisfação em resolver problemas aritméticos. Interrompemos nossa construção para cobrir as pedras de números e cálculos. Guardamos dinheiro para comprar uma Gramática Latina e uma Álgebra, e as levamos nos bolsos, debruçando-nos sobre elas como outrora sobre nossa Bíblia. Pensáramos que éramos inteiramente estúpidos, incapazes de lembrar qualquer coisa, de aprender qualquer coisa. Agora descobrimos que tudo é fácil. Teria uma nova alma se insinuado nesse velho corpo, de tal modo que até nossas faculdades intelectuais se transformaram? Nós nos maravilhamos; não percebemos que aquilo que um homem gasta em oração e êxtase não pode sobrar para adquirir conhecimento. Nunca se derrama uma lágrima, nem se cria uma bela imagem, nem se estremece de emoção, sem pagar por isso na extremidade prática e calculadora de sua natureza. Você tem apenas certa quantidade de força: quando um canal transborda, o outro seca.

E agora nos voltamos para a Natureza. Todos esses anos vivemos ao lado dela, e nunca a vimos; e agora abrimos os olhos e olhamos para ela.

As rochas foram para nós uma mancha marrom: inclinamo-nos sobre elas, e as massas desorganizadas dissolvem-se numa forma de existência multicolorida, multiforme, cuidadosamente arranjada. Aqui, massas de cristais irisados, meio fundidos entre si; ali, faixas de cinza liso e vermelho sobrepondo-se metodicamente. Esta rocha aqui está coberta por delicado traçado prateado, de algum mineral, semelhante a folhas e ramos; ali, na pedra lisa em que tantas vezes nos sentamos para chorar e rezar, olhamos para baixo e a vemos coberta de pegadas fósseis de grandes aves e do belo esqueleto de um peixe. Muitas vezes tentamos imaginar como seriam os restos fossilizados de criaturas, e todo o tempo estivemos sentados sobre eles; fomos tão cegados por pensar e sentir que nunca vimos o mundo.

A planície lisa foi para nós uma extensão de vermelho monótono. Olhamo-la, e cada punhado de areia salta para a vida. Aquele povo maravilhoso, as formigas, aprendemos a conhecer; vemos que fazem guerra e paz, brincam e trabalham, e constroem seus enormes palácios. E travamos conhecimento com aquele povo menor, que vive nas flores. A flor bitto fora para nós mera mancha amarela; descobrimos que seu coração se compõe de cem flores perfeitas, moradas do minúsculo povo negro de listras vermelhas, que entra e sai naquela pequena cidade amarela. Cada campainha azul tem seu habitante. Todos os dias o karoo nos mostra uma nova maravilha adormecida em seu seio fecundo.

No caminho de volta ao trabalho, paramos para ver a aranha-da-terra fazer sua armadilha, enterrar-se na areia e então esperar que seu inimigo caia.

Mais adiante caminha um besouro chifrudo e, perto dele, abre-se de súbito a porta de uma aranha, que espia cuidadosamente para fora e a puxa depressa para baixo outra vez. Num arbusto do karoo, uma mosca verde põe seus ovos de prata. Levamo-los para casa e vemos as cascas serem perfuradas, a larva manchada sair, transformar-se em mosca verde e voar. Não nos satisfazemos com o que a Natureza nos mostra, e vemos algo por nós mesmos. Sob a galinha branca, colocamos uma dúzia de ovos e quebramos um por dia, para ver a mancha branca crescer até ser pintinho. Não nos excitamos nem nos entusiasmamos com isso; mas um homem não deve abrir a própria garganta, precisa pensar em alguma coisa. Assim plantamos sementes em fileiras sobre o muro de nossa represa e arrancamos uma por dia para ver como vai com elas. Aladim enterrou sua pedra maravilhosa, e um palácio de ouro surgiu a seus pés. Fazemos muito mais. Pomos uma semente marrom na terra, e uma coisa viva salta para fora — salta para cima — por que, não mais que Aladim podemos dizer — salta para cima, e não desiste até ficar mais alta que nossas cabeças, cintilando de orvalho no início da manhã, resplandecendo de flores amarelas, sacudindo sementes marrons com pequenas almas embrionárias sobre o chão. Olhamos para ela solenemente, desde o tempo em que consiste em duas folhas espiando acima do solo e uma raiz branca e macia, até termos de erguer o rosto para contemplá-la; mas não encontramos razão para aquele salto para cima.

Olhamos dentro de patos e cordeiros mortos. À noite, levamo-los para casa, espalhamos jornais no chão e ficamos trabalhando neles até meia-noite. Com um sentimento sobressaltado, quase aparentado ao êxtase, abrimos o naco de carne chamado coração e encontramos lá dentro pequenas portas e cordas. Tocamo-las e guardamos o coração; mas, de quando em quando, voltamos para olhar e tocá-las novamente. Por que gostamos tanto delas, mal podemos dizer.

Um ganso se afoga em nossa represa. Nós o tiramos, abrimo-lo na margem e ficamos ajoelhados, olhando. Acima estão os órgãos divididos por tecidos delicados; abaixo, os intestinos artisticamente curvados em forma espiral, e cada camada coberta por uma delicada rede de vasos sanguíneos que se destacam vermelhos contra o fundo azul pálido. Cada ramo dos vasos sanguíneos compõe-se de um tronco, bifurcando-se e rebifurcando-se nos fios mais delicados, finos como cabelos, simetricamente arranjados. Sua beleza singular nos impressiona. E, além disso — e aqui deixamos de estar de joelhos e caímos numa postura sentada —, isto também observamos: dessa mesma forma exata e contorno é nossa árvore espinhosa vista contra o céu no meio do inverno; dessa forma também é o delicado traçado metálico entre nossas rochas; por esse mesmo caminho corre nossa água quando, sem sulco, a conduzimos da represa; assim se moldam as hastes do besouro chifrudo. Como se relacionam essas coisas para que exista entre todas uma união tão profunda? É acaso? Ou não serão todas os finos ramos de um único tronco, cuja seiva corre através de todos nós? Isso explicaria. Assentimos sobre as entranhas do ganso.

Esta coisa que chamamos existência; não será algo cujas raízes descem muito fundo abaixo, na escuridão, e cujos ramos se estendem para a imensidão acima, que nós, entre os ramos, não conseguimos ver? Não uma selva casual; uma coisa viva, um Uno. O pensamento nos dá intensa satisfação, não sabemos por quê.

Assentimos sobre o ganso; depois saltamos de repente, olhamos para o céu azul, atiramos o ganso morto e os restos na represa e voltamos ao trabalho.

E assim acontece, com o tempo, que a terra deixa de ser para nós um caos fervilhante. Caminhamos no grande salão da vida, olhando para cima e em redor com reverência. Nada é desprezível — tudo é cheio de sentido; nada é pequeno — tudo é parte de um todo, cujo princípio e fim não conhecemos. A vida que palpita em nós é princípio e fim que não conhecemos. A vida que palpita em nós é uma pulsação dele; poderosa demais para nossa compreensão, não pequena demais.

E assim acontece, por fim, que, enquanto o céu era a princípio um pequeno trapo azul estendido sobre nós, tão baixo que nossas mãos poderiam tocá-lo, comprimindo-nos, ele se ergue num imensurável arco azul sobre nossas cabeças, e começamos a viver outra vez.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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