Universo da obra
Universo da obra
Fora um dia principesco. A longa manhã se derretera lentamente numa tarde rica. As chuvas haviam coberto o karoo com uma pesada capa verde, que escondia por toda parte a terra vermelha. Nas próprias fendas dos muros de pedra pendiam folhas verde-escuras, e a beleza e o crescimento haviam se insinuado até nos leitos dos regos arenosos, forrando-os de ervas. Sobre os muros quebrados de torrões do velho chiqueiro, a morugem vicejava, e plantas-de-gelo erguiam suas folhas transparentes. Waldo trabalhava outra vez no galpão das carroças.
Fazia uma mesa de cozinha para Em. Enquanto as longas aparas se juntavam em montes diante de sua plaina, ele parava por um instante, de vez em quando, para atirar uma delas a uma pequena criança negra nua, que se escapara da mãe, parada ao sol batendo manteiga, e engatinhara para dentro do galpão das carroças.
De tempo em tempo, o pequeno animal erguia a mão gorda, esperando nova chuva de aparas; até que Doss, ciumento de que seu dono notasse qualquer outra criatura pequena além dele, apanhava a apara com a boca e fazia o pequeno cafre rolar na serragem, para grande contentamento daquele pequeno animal. Era uma tarde preguiçosa demais para ser realmente maldosa; assim, Doss contentava-se em beliscar com os dentes os dedos da pequena criança negra e sentar-se sobre ela até que ela risse.
Waldo, enquanto trabalhava, olhava para baixo de vez em quando e sorria; mas nunca olhava para fora, através da planície. Tinha consciência, sem olhar, daquela ampla terra verde; ela tornava seu trabalho agradável. Perto da sombra do frontão, a mãe da criança negra batia manteiga. Devagar, erguia e deixava cair o bastão em suas mãos, murmurando para si mesma um canto sonolento como os de que seu povo gosta; soava como o zumbido de abelhas distantes.
Uma vida diferente se mostrava na frente da casa, onde a carroça de Tant Sannie estava pronta, atrelada, e a própria mulher bôer sentava-se na sala da frente, bebendo café.
Viera visitar sua enteada, provavelmente pela última vez, pois pesava agora duzentas e sessenta libras e já não se movia com facilidade. Numa cadeira sentava-se seu jovem e manso marido, embalando o bebê — uma criança de cara de pudim e olhos fracos.
— Pegue isso e entre na carroça com ele — disse Tant Sannie. — Que quer aqui, ouvindo nossa conversa de mulheres?
O jovem levantou-se e saiu mansamente com o bebê.
— Estou muito contente que você vá se casar, minha filha — disse Tant Sannie, sorvendo a última gota de sua xícara de café. — Eu não diria isso enquanto aquele menino estivesse aqui, porque o deixaria convencido demais; mas o casamento é a coisa mais fina do mundo. Estive nisso três vezes, e, se agradasse a Deus tirar este marido de mim, eu teria outro. Não há nada igual, minha filha; nada.
— Talvez não convenha a todas as pessoas, em todos os tempos, tão bem quanto convém à senhora, Tant Sannie — disse Em. Havia uma pequena sombra de cansaço na voz.
— Não convém a todo mundo! — disse Tant Sannie. — Se o amado Redentor não pretendia que os homens tivessem esposas, para que fez as mulheres? É o que digo. Se uma mulher tem idade bastante para casar e não casa, está pecando contra o Senhor — é querer saber mais que Ele. Ora, pensa ela que o Senhor teve todo esse trabalho de fazê-la para nada? É evidente que Ele quer bebês; senão, por que os manda? Não que eu tenha feito grande coisa nesse sentido — disse Tant Sannie, pesarosa —, mas fiz o melhor que pude.
Levantou-se com alguma dificuldade da cadeira e começou a mover-se devagar em direção à porta.
— É uma coisa estranha — disse —, mas não se pode amar um homem antes de ter um bebê dele. Agora, aquele menino ali: quando nos casamos, se ele apenas espirrasse à noite eu lhe dava um tapa nas orelhas; agora, se deixa cinza do cachimbo cair nos meus panos de leite, nem penso em pôr-lhe um dedo. Não há nada como estar casada — disse Tant Sannie, enquanto bufava em direção à porta. — Se uma mulher tem um bebê e um marido, tem as melhores coisas que o Senhor pode lhe dar; desde que o bebê não tenha convulsões.
Quanto a marido, é quase tudo a mesma coisa quem se tem. Alguns homens são gordos, alguns são magros; alguns bebem aguardente, outros bebem gim; mas, no fim, tudo vem dar no mesmo; é tudo uma coisa só. Um homem é um homem, sabe.
Nesse ponto encontraram Gregory, que estava sentado à sombra diante da casa. Tant Sannie apertou-lhe a mão.
— Estou contente que vá se casar — disse ela. — Espero que em cinco anos vocês tenham tantos filhos quanto uma vaca tem bezerros, e ainda mais. Acho que vou só dar uma olhada no seu tacho de sabão antes de partir — disse, voltando-se para Em. — Não que eu acredite nesse novo plano de pôr soda no tacho. Se o querido Pai tivesse querido que se pusesse soda no sabão, para que teria feito os milk-bushes e os teria espalhado por todo o veld, tão cerrados quanto cordeiros na época da parição?
Saiu bamboleando atrás de Em na direção do tacho de sabão embutido, deixando Gregory como o encontraram, com o cachimbo apagado deitado no banco a seu lado e os olhos azuis fitando, para muito longe, a planície, como alguém que se senta à beira-mar observando aquilo que se afasta, afasta-se dele.
Contra o peito trazia uma carta encontrada na escrivaninha, endereçada a ele, mas jamais postada. Continha apenas quatro palavras: “Você deve casar com Em.” Usava-a num saquinho preto ao redor do pescoço. Era a única carta que ela jamais lhe escrevera.
— Você vai ver se as ovelhas não pegam sarna este ano! — disse Tant Sannie, bamboleando atrás de Em. — É com todas essas invenções novas que a ira de Deus deve cair sobre nós.
Por que os filhos de Israel foram punidos, se não foi por fazerem um bezerro de ouro? Posso ter meus pecados, mas lembro bem o décimo mandamento: “Honra teu pai e tua mãe para que te vá bem e vivas muito tempo na terra que o Senhor teu Deus te dá!” É muito bonito dizer que os honramos, e depois ficar descobrindo coisas que eles nunca souberam, e fazendo as coisas de um jeito que eles nunca fizeram! Minha mãe fervia sabão com arbustos, e eu hei de ferver sabão com arbustos.
Se a ira de Deus há de cair sobre esta terra — disse Tant Sannie, com a serenidade da virtude consciente —, não será por minha causa.
— Que façam suas carroças a vapor e suas carruagens de fogo; que prossigam como se o querido Senhor não soubesse o que fazia quando deu pernas aos cavalos e aos bois — a destruição do Senhor os seguirá. Não sei como essas pessoas leem suas Bíblias.
Quando ouvimos falar de Moisés ou Noé andando numa estrada de ferro? O Senhor mandava carruagens de fogo do céu naqueles dias; não há chance de que as mande para nós se continuarmos desse jeito — disse Tant Sannie, pesarosa, pensando na esplêndida oportunidade que aquela geração perdera.
Chegada ao tacho de sabão, olhou para dentro dele pensativamente.
— Pode estar certa de que vocês vão pegar coceira, ou alguma outra doença; a bênção do Senhor jamais repousará sobre isso — disse a mulher bôer. Então, de repente, prorrompeu: — E ela com oitenta e dois, e cabras, e carneiros, e oito mil morgen, e os carneiros angorá de verdade, e duas mil ovelhas, e um touro short-horn — disse Tant Sannie, endireitando-se e plantando uma mão em cada quadril.
Em olhou para ela em silencioso espanto. Teriam a bem-aventurança conjugal e as alegrias da maternidade realmente transtornado a cabeça da velha mulher bôer?
— Sim — disse Tant Sannie —; quase me esqueci de contar. Pelo Senhor, se eu o tivesse aqui! Estávamos indo para a igreja no último domingo do Sacramento, Piet e eu. Bem à nossa frente ia a velha Tant Trana, com hidropisia e câncer, que não viverá oito meses. Andando ao lado dela estava uma coisa com as mãos debaixo das abas do casaco, flap, flap, flap; e o queixo no ar, e um colarinho em pé, e o chapéu preto bem atrás na cabeça. Eu o conheci! “Quem é aquele?”, perguntei.
“O inglês rico com quem Tant Trana casou na semana passada.” “Inglês rico! Eu lhe dou inglês rico”, disse eu; “vou contar duas coisas a Tant Trana.” Meus dedos já estavam quase nos seus cachinhos brancos. Se não fosse o bendito Sacramento, ele não teria andado mais tão sourka, sourka, sourka. Mas pensei: espere até eu recebê-lo, e então —. Mas ele, raposa matreira, filho de Satanás, semente do amalequita, viu-me olhando para ele na igreja.
— O bendito Sacramento não estava nem pela metade quando ele toma Tant Trana pelo braço, e lá se vão. Atirei meu bebê no colo do pai e fui atrás deles. Mas — disse Tant Sannie, com pesar — não consegui alcançá-los; sou gorda demais. Quando cheguei à esquina, ele estava puxando Tant Trana para dentro da carroça. “Tant Trana”, eu disse, “você casou com o cão de um cafre, com o brakje de um hotentote.” Eu já não tinha mais fôlego.
Ele piscou para mim; piscou para MIM — disse Tant Sannie, os flancos tremendo de indignação —, primeiro com um olho, depois com o outro, e então foi embora. Filho do amalequita! — disse Tant Sannie. — Se não fosse o bendito Sacramento. Senhor, Senhor, Senhor!
Aqui a pequena menina bosquímana veio correndo dizer que os cavalos não ficariam parados por mais tempo, e, ainda respirando vingança contra seu antigo adversário, Tant Sannie laborou em direção à carroça. Apertando a mão de Em e beijando-a afetuosamente, foi içada com alguma dificuldade. Então, devagar, a carroça rolou para longe, a boa mulher bôer pondo a cabeça entre as lonas para sorrir e acenar.
Em ficou algum tempo a observá-la; depois, como o sol lhe ofuscasse os olhos, voltou-se. Não havia utilidade em ir sentar-se com Gregory! ele gostava mais de ficar ali sozinho, fitando o karoo verde; e, enquanto a criada não terminasse de bater a manteiga, não havia nada a fazer; assim, Em caminhou até o galpão das carroças, subiu na ponta da mesa de Waldo e ali se sentou, balançando lentamente um pezinho para lá e para cá, enquanto as aparas de madeira da plaina se amontoavam contra seu vestido preto de chita.
— Waldo — disse por fim —, Gregory me deu o dinheiro que recebeu pela carroça e pelos bois, e tenho além disso cinquenta libras que certa vez pertenceram a alguém. Sei o que eles gostariam de ter feito com esse dinheiro. Você deve aceitá-lo e ir para algum lugar estudar por um ou dois anos.
— Não, pequenina, não o aceitarei — disse ele, enquanto continuava a plainar devagar. — Houve um tempo em que eu teria ficado muito grato a qualquer pessoa que me desse um pouco de dinheiro, um pouco de ajuda, um pouco de poder para adquirir conhecimento. Mas agora, fui tão longe sozinho que posso continuar até o fim. Não o quero, pequenina.
Ela não pareceu ferida pela recusa, mas balançou o pé para lá e para cá, a pequena testa velha e enrugada mais enrugada que nunca.
— Por que é sempre assim, Waldo, sempre assim? — disse. — Ansiamos pelas coisas, ansiamos por elas, rezamos por elas; daríamos tudo o que temos para chegar perto delas, mas nunca as alcançamos. Então por fim, tarde demais, justamente quando já não as queremos, quando toda a doçura lhes foi tirada, então elas vêm. Já não as queremos — disse, cruzando resignadamente as mãos sobre o pequeno avental.
Depois de algum tempo acrescentou:
— Lembro-me de uma vez, muito tempo atrás, quando eu era uma garotinha, minha mãe tinha uma caixa de costura cheia de carretéis coloridos. Eu sempre quis brincar com eles, mas ela nunca deixava. Por fim, um dia, disse que eu podia pegar a caixa. Fiquei tão contente que mal sabia o que fazer. Corri ao redor da casa e sentei-me com ela nos degraus dos fundos. Mas quando abri a caixa, todos os fios tinham sido tirados.
Sentou-se ainda por algum tempo, até que a criada cafre acabou de bater a manteiga e a levou para a casa. Então Em preparou-se para deslizar da mesa, mas primeiro pousou sua pequena mão sobre a de Waldo. Ele parou de plainar e ergueu os olhos.
— Gregory vai à cidade amanhã. Vai entregar nossos proclamas ao pastor; vamos nos casar dentro de três semanas.
Waldo ergueu-a da mesa com muita delicadeza. Não a felicitou; talvez pensasse na caixa vazia, mas beijou-lhe gravemente a testa.
Ela caminhou para a casa, mas parou a meio caminho.
— Vou lhe trazer um copo de leitelho quando estiver fresco — chamou; e logo sua voz clara veio ressoando pelas janelas dos fundos, enquanto cantava “Água Azul” consigo mesma e lavava a manteiga.
Waldo não esperou até que ela voltasse. Talvez afinal tivesse realmente se cansado do trabalho; talvez sentisse frio no galpão das carroças, pois estremecera duas ou três vezes, embora isso fosse pouco provável naquele quente tempo de verão; ou talvez, e mais provavelmente, um de seus antigos acessos de sonho lhe houvesse sobrevindo de repente.
Juntou suas ferramentas, prontas para o dia seguinte, e saiu devagar. Ao lado do galpão das carroças havia um mundo de sol vivo, e uma galinha com seus pintinhos ciscava entre o cascalho. Waldo sentou-se perto deles, com as costas apoiadas no muro de tijolos vermelhos. A longa tarde já passara da metade, e o kopje começava a lançar sua sombra sobre as flores amarelas de cabeça redonda que cresciam entre ele e a casa da fazenda.
Entre as flores pairavam borboletas brancas, e sobre os velhos montes do kraal três cabritos brancos saltitavam; à porta de uma das cabanas, uma velha mulher cafre de cabelos grisalhos sentava-se no chão, remendando suas esteiras. Uma paz balsâmica, repousante, parecia reinar em toda parte. Até a velha galinha parecia satisfeita. Ciscava entre as pedras e chamava seus pintinhos quando encontrava um tesouro; e o tempo todo cacarejava para si mesma com intensa satisfação interior.
Waldo, sentado com os joelhos recolhidos até o queixo e os braços cruzados sobre eles, olhou tudo aquilo e sorriu. Mundo mau, enganador, traiçoeiro, feito de miragem, talvez fosse; mas ainda assim era um mundo encantador, e sentar-se ali, regalando-se à luz do sol, era perfeito. Valia a pena ter sido uma criancinha e ter chorado e rezado tanto para poder sentar-se ali. Moveu as mãos como se as lavasse no sol.
Haverá sempre algo pelo que viver enquanto houver tardes cintilantes. Waldo deu uma risadinha de intensa satisfação interior, como fizera a velha galinha — ela, pelos insetos e pelo calor; ele, pelos velhos muros de tijolo, pela névoa luminosa e pelos pequenos arbustos. A beleza é o vinho de Deus, com que Ele recompensa as almas que o amam; Ele as embriaga.
Waldo olhou, e por fim estendeu uma das mãos para uma pequena planta-de-gelo que crescia no muro de torrões do chiqueiro; não como se fosse arrancá-la, mas como numa saudação amistosa. Ele a amava. Uma folhinha da planta-de-gelo erguia-se direita, e o sol brilhava através dela. Ele podia ver cada pequena célula cristalina como uma gota de gelo no verde transparente, e isso o atravessou de comoção.
Há apenas raros momentos em que a alma de um homem pode ver a Natureza.
Enquanto qualquer paixão celebra ali sua festa, os olhos são retidos para que não a vejam.
Saia, se quiser, e caminhe sozinho pela encosta ao entardecer; mas, se seu filho favorito jaz doente em casa, ou se sua amada chega amanhã, ou se junto ao seu coração repousa um plano para adquirir riqueza, então você voltará como saiu; nada terá visto.
Pois a Natureza, sempre, como o antigo Deus hebreu, clama: “Não terás outros deuses diante de mim.” Só então, quando vem uma pausa, um vazio em sua vida, quando o velho ídolo está quebrado, quando a velha esperança está morta, quando o velho desejo foi esmagado, então a divina compensação da Natureza se manifesta. Ela se mostra a você. Aproxima-se tanto de você que o sangue parece fluir dela para você através de um cordão ainda não cortado: você sente o pulsar de sua vida.
Quando chega esse dia, em que você se senta despedaçado, sem uma única criatura humana a que se agarre, com seus amores mortos e vivos-mortos; quando a própria sede de conhecimento, depois de longa frustração contínua, tornou-se opaca; quando no presente não há desejo, e no futuro não há esperança, então, oh, com ternura benéfica, a Natureza o envolve.
Então os grandes flocos brancos de neve, enquanto descem tremulando, suavemente, um a um, sussurram de modo consolador: “Descansa, pobre coração, descansa!” É como se nossa mãe alisasse nossos cabelos, e somos consolados.
E as abelhas de pernas amarelas, zumbindo, fazem uma lírica sonhadora; e a luz sobre o muro de pedra marrom é uma grande obra de arte; e o fulgor entre as folhas faz pulsar o coração.
Bom morrer então; pois, se você vive, tão certo como os anos vêm, tão certo como a primavera sucede ao inverno, tão certo as paixões hão de erguer-se. Elas rastejarão de volta, uma a uma, para o peito que as expulsou, e ali se prenderão de novo, e a paz se irá. Desejo, ambição e a feroz e agonizante enchente de amor pelos vivos brotarão outra vez. Então a Natureza baixará seu véu; com todo o seu anseio você não poderá erguer-lhe sequer uma ponta; não poderá trazer de volta aqueles dias pacíficos.
Bom morrer então!
Sentado ali, com os braços cruzados sobre os joelhos e o chapéu caído sobre o rosto, Waldo olhava para a luz amarela do sol, que tingia até o próprio ar com a cor do milho maduro, e era feliz.
Era uma criatura tosca, de pequeno saber, e sem perspectiva futura a não ser fazer mesas e muros de pedra sem fim; contudo, enquanto ali estava sentado, parecia-lhe que a vida era uma coisa rara e muito rica. Esfregou as mãos ao sol.
Ah, viver assim, ano após ano, que bom! Sempre no presente; deixando cada dia deslizar, trazendo seu próprio labor e sua própria beleza; a lenta iluminação das colinas, a noite e as estrelas, a luz do fogo e as brasas! Viver assim, calmamente, longe dos caminhos dos homens; e olhar para a vida das nuvens e dos insetos; olhar fundo no coração das flores e ver com que amor o pistilo e os estames se aninham ali juntos; e ver nas vagens de espinho como as sementinhas sugam sua vida pelo delicado fio enrolado, e como o pequeno embrião dorme lá dentro! Bom, que bom, sentar-se assim de um lado, sem tomar parte na vida do mundo; mas, quando grandes homens florescem em livros, olhar também para essas flores, para ver como o mundo dos homens se abre lindamente, folha após folha.
Ah! a vida é deliciosa; bom viver muito e ver a escuridão se romper, e o dia chegar! O dia em que uma alma não repelirá outra alma que queira aproximar-se dela; em que os homens não serão impelidos a buscar solidão por causa do clamor de seus corações por amor e simpatia. Bom viver muito e ver o novo tempo despontar. Bom viver muito; a vida é doce, doce, doce!
No bolso junto ao peito, onde outrora ficava a lousa quebrada, havia agora um pequeno sapato de dança de sua amiga que dormia. Podia senti-lo quando apertava o braço contra o peito; e isso também estava bem. Puxou o chapéu mais para baixo sobre os olhos e ficou tão imóvel que os pintinhos pensaram que ele dormia e se juntaram mais perto dele. Um deles até se aventurou a bicar sua bota, mas fugiu depressa. Pequenino companheiro amarelo que era, sabia que os homens são perigosos; mesmo dormindo, podem despertar. Mas Waldo não dormia e, voltando de seu sonho ensolarado, estendeu a mão para que a pequenina coisa subisse.
Mas o pintinho examinou a mão, depois correu para esconder-se sob a asa da mãe, e de lá às vezes punha para fora a cabecinha redonda para espiar a grande figura sentada ali. Logo seus irmãos correram atrás de uma pequena mariposa branca, e ele correu para juntar-se a eles; quando a mariposa esvoaçou para longe, por cima de suas cabeças, ficaram olhando para o alto, desapontados, e então correram de volta para a mãe.
Waldo os olhava com os olhos semicerrados. Pensando, temendo, desejando, aquelas minúsculas faíscas de vida irmã — que eram elas, tão reais ali naquele velho pátio naquela tarde ensolarada? Alguns anos — onde estariam? Estranhos pequenos espíritos irmãos! Estendeu-lhes a mão, pois seu coração se derramava para eles; mas nenhuma das criaturinhas se aproximou, e ele as observou gravemente por algum tempo; depois sorriu e começou a murmurar consigo mesmo à sua velha maneira.
Depois dobrou os braços sobre os joelhos e apoiou a testa neles. E assim ficou sentado ali no sol amarelo, murmurando, murmurando, murmurando consigo mesmo.
Não muito depois, Em saiu pela porta dos fundos com uma toalha lançada sobre a cabeça e, na mão, uma xícara de leite.
— Ah — disse, aproximando-se dele —, agora ele está dormindo. Vai encontrá-la quando acordar, e ficará contente.
Pôs a xícara no chão ao lado dele. A mãe galinha ainda trabalhava entre as pedras, mas os pintinhos haviam subido sobre ele e pousavam nele. Um ficou em seu ombro e esfregou suavemente a cabecinha contra os cachos negros; outro tentava equilibrar-se na borda mesma do velho chapéu de feltro. Um pequenino ficou em sua mão e tentou cantar de galo; outro se aninhara confortavelmente na manga do velho casaco e adormecera ali.
Em não os enxotou; apenas cobriu suavemente o copo ao lado dele.
— Ele acordará logo — disse —, e ficará contente.
Mas os pintinhos eram mais sábios.
Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.
Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.
Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.