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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 17 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 2.II. O Estranho de Waldo.

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Capítulo 2.II. O Estranho de Waldo.

Waldo jazia de bruços sobre a areia vermelha. Os pequenos avestruzes que pastoreava vagavam ao seu redor, bicando a comida que ele cortara, ou seixos e gravetos secos. À sua direita estavam os túmulos; à esquerda, a represa; na mão tinha um grande poste de madeira coberto de entalhes, no qual trabalhava. Doss jazia diante dele, aquecendo-se ao sol de inverno, e de vez em quando lançava um olhar expectante para o canto do cercado de avestruzes mais próximo. As mirradas árvores espinhosas sob as quais estavam não davam sombra, mas sombra nenhuma era necessária naquele glorioso tempo de junho, quando, mesmo na parte mais quente da tarde, o sol era apenas agradavelmente morno; e o rapaz continuava a entalhar, sem erguer os olhos, mas consciente da terra morena e serena em torno dele e do céu intensamente azul acima.

Pouco depois, no canto do cercado, apareceu Em, trazendo num dos braços um pires coberto e, no outro, uma jarra com uma xícara por cima. Crescera e se tornara uma pequena velha prematura de dezesseis anos, ridiculamente gorda. Pôs a jarra e o pires no chão diante do cão e de seu dono, e deixou-se cair ao lado deles, arquejante e sem fôlego.

— Waldo, quando eu vinha subindo pelos cercados encontrei alguém a cavalo, e acredito mesmo que deve ser o homem novo que está chegando.

O homem novo era um inglês a quem a mulher bôer alugara metade da fazenda.

— Hum! — disse Waldo.

— Ele é bem jovem — disse Em, segurando o lado do corpo —, e tem cabelo castanho, e barba que se enrola juntinho ao rosto, e uns olhos azul-escuros! E, Waldo, fiquei tão envergonhada! Eu estava só olhando para trás, sabe, para ver, e aconteceu de ele estar olhando para trás também, e olhamos bem um no rosto do outro; e ele ficou vermelho, e eu fiquei tão vermelha. Acho que é o homem novo.

— Sim — disse Waldo.

— Preciso ir agora. Talvez ele tenha trazido cartas do correio, de Lyndall. Você sabe que ela não pode ficar muito mais tempo na escola, deve voltar logo. E o homem novo terá de ficar conosco até a casa dele ser construída. Preciso preparar o quarto dele. Adeus!

Ela saltitou de volta, e Waldo continuou a entalhar seu poste. Doss jazia com o focinho bem perto do pires coberto e cheirava que alguém fizera bons bolinhos gordos naquela tarde. Ambos estavam tão concentrados em suas ocupações que só ergueram os olhos quando cascos de cavalo bateram na areia junto deles e viram um cavaleiro puxar as rédeas.

Certamente não era o estranho que Em descrevera. Um homenzinho moreno, de aparência um tanto francesa, de vinte e oito anos, antes robusto, com olhos pesados e nublados e bigodes pontudos. Seu cavalo era uma criatura fogosa, bem aparelhada; uma bolsa de sela de fino acabamento pendia da sela; as mãos do homem estavam enluvadas, e ele apresentava a aparência — aparência rara naquela fazenda — de um cavalheiro bem-vestido.

Com voz extraordinariamente melodiosa, perguntou se lhe seria permitido permanecer ali por uma hora. Waldo indicou-lhe a casa da fazenda, mas o estranho recusou. Queria apenas descansar sob as árvores e dar água ao cavalo. Tirou a sela, e Waldo levou o animal até a represa. Quando voltou, o estranho se instalara sob as árvores, com as costas contra a sela. O rapaz ofereceu-lhe dos bolinhos. Ele recusou, mas bebeu um gole da jarra; e Waldo deitou-se não muito longe e pôs-se outra vez a trabalhar. Não importava se olhos frios o vissem. Aquilo não era sua máquina de tosquiar ovelhas. Com os amores materiais, como com os humanos, enlouquecemos uma vez, gastamos o amor e terminamos. Nunca recuperamos pela segunda vez o verdadeiro entusiasmo. Aquilo era apenas uma coisa que fizera, sobre a qual labutara, que amara e apreciara — nada mais —, não sua máquina.

O estranho afundou-se mais contra a sela e bocejou. Era uma tarde sonolenta, e ele detestava viajar por aquelas paragens fora do mundo. Preferia a vida civilizada, onde a cada hora do dia um homem pode esperar seu copo de vinho, sua poltrona e seu jornal; onde, à noite, pode trancar-se em seu quarto com seus livros e uma garrafa de conhaque, e saborear alegrias mentais e físicas. O mundo dizia dele — o mundo onisciente, onipotente, que tranca nenhuma pode barrar, que tem a propensão felina de enxergar melhor no escuro — o mundo dizia que, mais que os livros, ele amava o conhaque, e mais que os livros ou o conhaque, aquilo que teria sido melhor amar menos. Mas ele nada se importava com o mundo; sorria benignamente para seus dentes. Toda a vida é um sonho; se vinho, filosofia e mulheres impedem que o sonho se torne pesadelo, tanto melhor. É para isso que servem, é para isso que podem ser usados. Havia outro lado em sua vida e pensamento; mas desse o mundo nada sabia, nem dizia, como é o modo do sábio mundo.

O estranho olhou por baixo das pálpebras sonolentas para a terra morena que se estendia, bela apesar de si mesma naquele sol de junho; olhou para os túmulos, para os frontões da casa da fazenda aparecendo por sobre os muros de pedra dos cercados, para o sujeitinho grosseiro a seus pés, e bocejou. Mas bebera do chá da cerva, e precisava dizer alguma coisa.

— A propriedade é de seu pai, suponho? — perguntou, sonolento.

— Não; sou apenas um criado.

— Gente holandesa?

— Sim.

— E você gosta da vida?

O rapaz hesitou.

— Em dias como estes.

— E por quê, nestes?

O rapaz esperou.

— São muito belos.

O estranho olhou para ele. Parecia que, quando os olhos escuros do sujeito fitavam a terra morena, acendiam-se com intensa satisfação; depois voltavam ao entalhe.

Que tinha aquela criatura, tão grosseiramente vestida e rústica, que ver com as alegrias sutis do tempo? Ele próprio, de mãos brancas e delicadas, poderia ouvir a música que a luz trêmula do sol e a solidão tocam nas cordas finamente tensas da natureza; mas aquele sujeito! Não seria o ouvido naquele grande corpo demasiado grosseiro para murmúrios tão delicados?

Logo disse:

— Posso ver em que trabalha?

O sujeito entregou-lhe o poste de madeira. Não era de modo algum belo. Os homens e pássaros eram quase grotescos em sua trabalhosa semelhança com a natureza, e traziam sinais de pensamento paciente. O estranho virou a coisa sobre o joelho.

— Onde aprendeu esse trabalho?

— Ensinei a mim mesmo.

— E estas linhas em zigue-zague representam...

— Uma montanha.

O estranho olhou.

— Tem algum sentido, não tem?

O rapaz murmurou, confuso:

— Só coisas.

O inquiridor olhou para ele — a figura enorme e pesada, de tamanho de homem, mas, pelo direito de suas feições infantis e cabelos encaracolados, de criança; e aquilo lhe doeu — atraiu-o e lhe doeu. Era algo entre piedade e simpatia.

— Há quanto tempo trabalha nisto?

— Nove meses.

Do bolso, o estranho tirou a carteira e dela retirou alguma coisa. Poderia prender o poste de algum modo ao cavalo e atirá-lo na areia quando estivesse a uma distância segura.

— Você aceita isto por seu entalhe?

O rapaz lançou um olhar à nota de cinco libras e sacudiu a cabeça.

— Não; não posso.

— Acha que vale mais? — perguntou o estranho, com um leve escárnio.

Ele apontou com o polegar para um túmulo.

— Não; é para ele.

— E quem está ali? — perguntou o estranho.

— Meu pai.

O homem devolveu em silêncio a nota à carteira e entregou o entalhe ao rapaz; e, puxando o chapéu para os olhos, acomodou-se para dormir. Como não conseguisse, depois de um tempo espiou por cima do ombro do sujeito para vê-lo trabalhar. O rapaz entalhava letras no verso.

— Se — disse o estranho, com sua voz melodiosa, rica de uma doçura que nunca se mostrava nos olhos nublados — pois a doçura permanece na voz muito depois de haver morrido nos olhos —, se é para tal propósito, por que escrever isso nele?

O rapaz olhou de relance para ele, mas não respondeu. Quase esquecera sua presença.

— Certamente você acredita — disse o estranho — que algum dia, mais cedo ou mais tarde, estes túmulos se abrirão, e esses tios bôeres, com suas esposas, caminharão por aqui na areia vermelha, com as mesmíssimas pernas carnais com que foram dormir? Então por que dizer: “Ele dorme para sempre”? Você acredita que ele se levantará de novo?

— Você acredita? — perguntou o rapaz, erguendo por um instante os olhos pesados para o rosto do estranho.

Meio desconcertado, o estranho riu. Era como se um curioso girinozinho que ele segurasse sob o vidro de observação levantasse de súbito a cauda e começasse a interrogá-lo.

— Eu? Não. — Riu seu riso curto e espesso. — Sou um homem que não crê em nada, não espera nada, não teme nada, não sente nada. Estou fora dos limites da humanidade; não sou critério do que você deve ser, você que vive aqui entre seus avestruzes e arbustos.

No momento seguinte, o estranho foi surpreendido por um movimento súbito do sujeito, que o trouxe para perto de seus pés. Pouco depois, ele ergueu o entalhe e o pôs sobre o joelho do homem.

— Sim, vou lhe contar — murmurou. — Vou lhe contar tudo sobre ele.

Pôs o dedo sobre o homenzinho grotesco na base (ah! aquele homem que não acreditava em nada, não esperava nada, não sentia nada; como ele o amava!), e, com dedo ansioso, o sujeito subiu, explicando sobre figuras fantásticas e montanhas, até o pássaro culminante de cuja asa caía uma pena. Ao fim, falava com a respiração quebrada — palavras curtas, como alguém que profere coisas de enorme importância.

O estranho observava mais o rosto que o entalhe; e aqui e ali havia uma mostra de dentes brancos sob os bigodes enquanto escutava.

— Creio — disse brandamente, quando o rapaz terminou — que em parte compreendo você. É algo desta maneira, não? — Sorriu. — Em certos vales havia um caçador. — Tocou a pequena figura grotesca na base. — Dia após dia ele ia caçar aves selvagens nos bosques; e aconteceu que certa vez ficou de pé às margens de um grande lago. Enquanto esperava entre os juncos a chegada dos pássaros, uma grande sombra caiu sobre ele, e na água ele viu um reflexo. Levantou os olhos para o céu; mas a coisa desaparecera. Então um desejo ardente o tomou de ver outra vez aquele reflexo na água, e todo o dia vigiou e esperou; mas veio a noite, e ele não retornara. Então voltou para casa com a bolsa vazia, sombrio e calado. Seus companheiros vieram interrogá-lo para saber a razão, mas ele nada lhes respondeu; sentou-se sozinho e cismou. Então veio seu amigo, e a ele falou.

“‘Vi hoje’, disse ele, ‘aquilo que nunca vi antes — uma vasta ave branca, de asas de prata estendidas, navegando no azul eterno. E agora é como se um grande fogo queimasse em meu peito. Foi apenas um brilho, um reluzir, um reflexo na água; mas agora nada desejo mais na terra que segurá-la.’

“Seu amigo riu.

“‘Foi apenas um raio brincando na água, ou a sombra de sua própria cabeça. Amanhã você a terá esquecido’, disse.

“Mas amanhã, e amanhã, e amanhã o caçador caminhou sozinho. Procurou na floresta e nos bosques, junto aos lagos e entre os juncos, mas não pôde encontrá-la. Não caçava mais aves selvagens; que eram elas para ele?

“‘Que mal o aflige?’, disseram os companheiros.

“‘Está louco’, disse um.

“‘Não; mas está pior’, disse outro; ‘quereria ver aquilo que nenhum de nós viu e fazer de si uma maravilha.’

“‘Vamos, renunciemos à sua companhia’, disseram todos.

“Assim o caçador caminhava sozinho.

“Uma noite, enquanto vagava na sombra, muito ferido no coração e chorando, um velho se pôs diante dele, mais grandioso e alto que os filhos dos homens.

“‘Quem és?’, perguntou o caçador.

“‘Sou a Sabedoria’, respondeu o velho; ‘mas alguns homens me chamam Conhecimento. Toda a minha vida cresci nestes vales; mas nenhum homem me vê até haver sofrido muito. Os olhos que hão de contemplar-me precisam ser lavados com lágrimas; e falo na medida em que um homem sofreu.’

“E o caçador gritou:

“‘Oh, tu que viveste aqui por tanto tempo, dize-me: que é aquela grande ave selvagem que vi navegando no azul? Querem fazer-me crer que ela é um sonho; a sombra de minha própria cabeça.’

“O velho sorriu.

“‘Seu nome é Verdade. Quem uma vez a viu nunca mais descansa. Até a morte, deseja-a.’

“E o caçador gritou:

“‘Oh, dize-me onde posso encontrá-la.’

“Mas o velho disse:

“‘Ainda não sofreste o bastante’, e foi-se.

“Então o caçador tirou do peito a lançadeira da Imaginação, e nela enrolou o fio de seus Desejos; e a noite inteira ficou sentado, tecendo uma rede.

“De manhã estendeu a rede dourada no chão e nela lançou alguns grãos de credulidade, que seu pai lhe havia deixado e que ele guardava no bolso do peito. Eram como brancas puff-balls e, quando se pisava nelas, saía uma poeira marrom. Então sentou-se perto para ver o que aconteceria. O primeiro a entrar na rede foi um pássaro branco como a neve, com olhos de pomba, e cantava uma bela canção: ‘Um Deus-humano! um Deus-humano! um Deus-humano!’ cantava. O segundo que veio era negro e místico, com olhos escuros e belos que olhavam para as profundezas da alma, e só cantava isto: ‘Imortalidade!’

“E o caçador tomou ambos nos braços, pois disse:

“‘Certamente pertencem à bela família da Verdade.’

“Então veio outro, verde e dourado, que cantava em voz estridente, como alguém clamando na praça do mercado: ‘Recompensa após a Morte! Recompensa após a Morte!’

“E ele disse:

“‘Não és tão belo; mas és belo também’, e o tomou.

“E outros vieram, de cores vivas, cantando canções agradáveis, até que todos os grãos se acabaram. E o caçador reuniu todos os seus pássaros, construiu uma forte gaiola de ferro chamada novo credo, e pôs nela todos os pássaros.

“Então as pessoas vieram em volta, dançando e cantando.

“‘Oh, feliz caçador!’, gritavam. ‘Oh, homem maravilhoso! Oh, pássaros encantadores! Oh, belas canções!’

“Ninguém perguntou de onde vinham os pássaros, nem como tinham sido apanhados; mas dançavam e cantavam diante deles. E o caçador também se alegrou, pois disse:

“‘Certamente a Verdade está entre eles. Com o tempo ela trocará as penas, e eu verei sua forma branca como a neve.’

“Mas o tempo passou, e as pessoas cantavam e dançavam; mas o coração do caçador pesou. Ele se esgueirava sozinho, como antes, para chorar; o terrível desejo despertara novamente em seu peito. Um dia, enquanto estava sentado só, chorando, aconteceu de a Sabedoria encontrá-lo. Ele contou ao velho o que fizera.

“E a Sabedoria sorriu tristemente.

“‘Muitos homens’, disse, ‘estenderam essa rede para a Verdade; mas nunca a encontraram. Dos grãos da credulidade ela não se alimentará; na rede dos desejos seus pés não podem ser presos; no ar destes vales ela não respirará. Os pássaros que apanhaste são da ninhada das Mentiras. Belos e encantadores, mas ainda mentiras; a Verdade não os conhece.’

“E o caçador gritou, em amargura:

“‘E devo então ficar sentado, para ser devorado por esta grande queimadura?’

“E o velho disse:

“‘Escuta, e, por haveres sofrido muito e chorado muito, eu te direi o que sei. Aquele que parte em busca da Verdade deve deixar estes vales da superstição para sempre, sem levar consigo um único fiapo que a eles tenha pertencido. Sozinho, deverá vagar até a Terra da Negação e da Recusa Absolutas; ali deverá permanecer; deve resistir à tentação; quando a luz despontar, deverá erguer-se e segui-la até o país do sol seco. As montanhas da severa realidade se erguerão diante dele; deve escalá-las; para além delas jaz a Verdade.’

“‘E ele a segurará firme! Ele a segurará em suas mãos!’, gritou o caçador.

“A Sabedoria sacudiu a cabeça.

“‘Nunca a verá, nunca a segurará. Ainda não chegou o tempo.’

“‘Então não há esperança?’, gritou o caçador.

“‘Há esta’, disse a Sabedoria. ‘Alguns homens subiram aquelas montanhas; círculo acima de círculo de rocha nua escalaram; e, vagando ali, naquelas altas regiões, alguns por acaso apanharam no chão uma pena branca de prata, caída da asa da Verdade. E acontecerá’, disse o velho, erguendo-se profeticamente e apontando o dedo para o céu, ‘acontecerá que, quando dessas penas de prata o bastante tiver sido reunido pelas mãos dos homens, e elas forem tecidas numa corda, e a corda numa rede, então nessa rede a Verdade poderá ser capturada. Nada senão a Verdade pode reter a Verdade.’

“O caçador levantou-se. ‘Eu vou’, disse.

“Mas a Sabedoria o deteve.

“‘Observa bem: quem deixa estes vales nunca retorna a eles. Ainda que chore lágrimas de sangue por sete dias e noites nas fronteiras, jamais poderá pôr o pé através delas. Deixados — ficam deixados para sempre. Na estrada por onde queres viajar, recompensa nenhuma é oferecida. Quem vai, vai livremente — pelo grande amor que há nele. A obra é sua recompensa.’

“‘Vou’, disse o caçador; ‘mas nas montanhas, dize-me, que caminho tomarei?’

“‘Sou filho do Conhecimento-Acumulado-das-Eras’, disse o homem; ‘só posso caminhar onde muitos homens pisaram. Nessas montanhas poucos pés passaram; cada homem abre um caminho para si. Vai por seu próprio risco: minha voz não ouvirá mais. Posso segui-lo, mas não posso ir à sua frente.’

“Então o Conhecimento desapareceu.

“E o caçador voltou-se. Foi à sua gaiola e, com as mãos, quebrou as barras, e o ferro irregular lhe rasgou a carne. Às vezes é mais fácil construir que quebrar.

“Um por um, tomou seus pássaros emplumados e os deixou voar. Mas, quando chegou ao pássaro de plumas escuras, segurou-o e olhou-lhe os belos olhos, e o pássaro lançou seu grito baixo e profundo: ‘Imortalidade!’

“E ele disse rapidamente: ‘Não posso separar-me dele. Não é pesado; não come alimento. Vou escondê-lo no peito; vou levá-lo comigo.’ E ali o enterrou e o cobriu com o manto.

“Mas a coisa que escondera tornou-se mais pesada, mais pesada, mais pesada — até jazer em seu peito como chumbo. Não conseguia mover-se com ela. Não podia deixar aqueles vales com ela. Então a tirou novamente e olhou para ela.

“‘Oh, minha bela! Minha própria do coração!’, gritou. ‘Não posso ficar contigo?’

“Abriu as mãos tristemente.

“‘Vai!’, disse. ‘Pode acontecer que, na canção da Verdade, uma nota seja como a tua; mas jamais a ouvirei.’

“Tristemente abriu a mão, e o pássaro voou para longe dele para sempre.

“Então, da lançadeira da imaginação, tirou o fio de seus desejos e o jogou no chão; e a lançadeira vazia pôs no peito, pois o fio fora feito naqueles vales, mas a lançadeira viera de um país desconhecido. Virou-se para partir, mas agora o povo veio em torno dele, uivando.

“‘Tolo, cão, lunático demente!’, gritavam. ‘Como ousaste quebrar tua gaiola e deixar os pássaros voar?’

“O caçador falou; mas não quiseram ouvi-lo.

“‘Verdade! Quem é ela? Pode-se comê-la? Pode-se bebê-la? Quem já a viu? Teus pássaros eram reais: todos podiam ouvi-los cantar! Oh, tolo! Réptil vil! Ateu!’, gritavam, ‘tu poluis o ar.’

“‘Vamos, apanhemos pedras e o apedrejemos’, gritaram alguns.

“‘Que temos nós com isso?’, disseram outros. ‘Deixem o idiota ir’, e foram embora. Mas os demais juntaram pedras e lama e o apedrejaram. Por fim, quando estava machucado e cortado, o caçador arrastou-se para longe, para dentro dos bosques. E anoitecia ao seu redor.”

A cada palavra que o estranho dizia, os olhos do sujeito lhe devolviam um lampejo — sim, e sim, e sim! O estranho sorriu. Quase valia o trabalho de fazer algum esforço, mesmo numa tarde preguiçosa, para ganhar aqueles lampejos apaixonados, mais sedentos e desejosos que os olhares amorosos de uma mulher.

— Ele vagou sem parar — disse o estranho —, e a sombra se adensou. Estava agora nas fronteiras da terra onde é sempre noite. Então entrou nela, e ali não havia luz. Tateou com as mãos; mas cada ramo que tocava se quebrava, e a terra estava coberta de cinzas. A cada passo, seu pé afundava, e uma fina nuvem de cinza impalpável lhe subia ao rosto; e estava escuro. Então sentou-se sobre uma pedra e enterrou o rosto nas mãos, para esperar na Terra da Negação e da Recusa até que viesse a luz.

“E havia noite também em seu coração.

“Então dos pântanos à sua direita e à sua esquerda ergueram-se névoas frias e se fecharam em torno dele. Uma chuva fina e imperceptível caía no escuro, e grandes gotas se acumulavam em seus cabelos e roupas. Seu coração batia devagar, e um entorpecimento se arrastava por todos os membros. Então, olhando para cima, duas luzes errantes e alegres vieram dançando. Ergueu a cabeça para vê-las. Mais perto, mais perto vieram. Tão quentes, tão brilhantes, dançavam como estrelas de fogo. Por fim ficaram diante dele. Do centro da chama radiante de uma, olhava para fora o rosto de uma mulher, ridente, com covinhas, de cabelos amarelos esvoaçantes. No centro da outra havia ondulações alegres e risonhas, como as bolhas de uma taça de vinho. Dançavam diante dele.

“‘Quem sois’, perguntou o caçador, ‘vós que sois as únicas a vir a mim em minha solidão e escuridão?’

“‘Somos as gêmeas Sensualidade’, gritaram. ‘O nome de nosso pai é Natureza-Humana, e o de nossa mãe é Excesso. Somos tão antigas quanto as colinas e os rios, tão antigas quanto o primeiro homem; mas nunca morremos’, riram.

“‘Oh, deixa-me envolver-te com meus braços!’, gritou a primeira; ‘eles são macios e quentes. Teu coração está congelado agora, mas eu o farei bater. Oh, vem a mim!’

“‘Derramarei minha vida quente dentro de ti’, disse a segunda; ‘teu cérebro está entorpecido, e teus membros estão mortos agora; mas viverão com vida feroz e livre. Oh, deixa-me derramá-la!’

“‘Oh, segue-nos’, gritaram, ‘e vive conosco. Corações mais nobres que o teu sentaram-se aqui nesta escuridão para esperar, e vieram a nós e nós a eles; e nunca nos deixaram, nunca. Todo o resto é ilusão, mas nós somos reais, somos reais, somos reais. A Verdade é uma sombra; os vales da superstição são uma farsa: a terra é de cinza, as árvores todas podres; mas nós — sente-nos — nós vivemos! Não podes duvidar de nós. Sente como somos quentes! Oh, vem a nós! Vem conosco!’

“Mais perto e mais perto pairavam em torno de sua cabeça, e as gotas frias derretiam em sua testa. A luz brilhante lhe penetrou os olhos, ofuscando-o, e o sangue congelado começou a correr. E ele disse:

“‘Sim, por que devo morrer aqui nesta terrível escuridão? Elas são quentes, derretem meu sangue congelado!’ e estendeu as mãos para tomá-las.

“Então, num instante, ergueu-se diante dele a imagem da coisa que havia amado, e sua mão caiu ao lado.

“‘Oh, vem a nós!’, gritaram.

“Mas ele enterrou o rosto.

“‘Vós me ofuscais os olhos’, gritou, ‘fazeis meu coração aquecer; mas não podeis me dar o que desejo. Esperarei aqui — esperarei até morrer. Ide!’

“Cobriu o rosto com as mãos e não quis ouvir; e, quando tornou a olhar para cima, eram duas estrelas cintilantes, que desapareciam à distância.

“E a longa, longa noite rolou.

“Todos os que deixam o vale da superstição passam por essa terra escura; mas alguns a atravessam em poucos dias, alguns se demoram ali por meses, alguns por anos, e alguns morrem ali.”

O rapaz havia se arrastado para mais perto; sua respiração quente quase tocava a mão do estranho; uma maravilha mística enchia-lhe os olhos.

— Por fim, para o caçador, uma luz tênue brincou ao longo do horizonte, e ele se levantou para segui-la; e alcançou enfim aquela luz, e entrou no sol amplo. Então diante dele se ergueram as montanhas todo-poderosas dos Fatos-Secos e das Realidades. O sol claro brincava sobre elas, e os cumes se perdiam nas nuvens. No sopé, muitos caminhos subiam. Um grito exultante irrompeu do caçador. Escolheu o mais reto e começou a subir; e as rochas e escarpas ressoaram com sua canção. Tinham exagerado; afinal, não era tão alto, nem a estrada tão íngreme! Alguns dias, algumas semanas, alguns meses no máximo, e então o topo! Não apanharia uma pena apenas; recolheria todas as que outros homens haviam encontrado — teceria a rede — capturaria a Verdade — segurá-la-ia firme — tocá-la-ia com as mãos — estreitá-la-ia!

“Riu ao sol alegre e cantou alto. A vitória estava muito próxima. No entanto, depois de algum tempo, o caminho tornou-se mais íngreme. Precisava de todo o fôlego para subir, e o canto morreu. À direita e à esquerda erguiam-se rochas enormes, desprovidas de líquen ou musgo, e na terra semelhante a lava abriam-se fendas. Aqui e ali via um brilho de ossos brancos. Então também o caminho começou a ficar cada vez menos marcado; depois tornou-se mero vestígio, com uma pegada aqui e ali; depois cessou por completo. Ele já não cantava, mas abria uma trilha para si, até que ela chegou a uma poderosa muralha de rocha, lisa e sem abertura, estendendo-se até onde a vista alcançava. ‘Erguerei uma escada contra ela; e, uma vez escalada esta muralha, estarei quase lá’, disse bravamente; e trabalhou. Com sua lançadeira da imaginação, escavou pedras; mas metade delas não se ajustava, e meio mês de trabalho rolava abaixo porque as de baixo estavam mal escolhidas. Mas o caçador continuou trabalhando, sempre dizendo a si mesmo: ‘Uma vez escalada esta muralha, estarei quase lá. Terminada esta grande obra!’

“Por fim saiu no topo e olhou em redor. Muito abaixo rolava a névoa branca sobre os vales da superstição, e acima dele elevavam-se as montanhas. Antes haviam parecido baixas; agora eram de altura imensurável, cercadas da coroa à base por muralhas de rocha que se erguiam camada sobre camada em poderosos círculos. Sobre elas brincava o sol eterno. Ele soltou um grito selvagem. Curvou-se até a terra e, quando se ergueu, seu rosto estava branco. Em silêncio absoluto, seguiu andando. Estava muito calado agora. Naquelas altas regiões, o ar rarefeito é difícil de respirar para os nascidos nos vales; cada respiração que tomava o feria, e o sangue lhe brotava das pontas dos dedos. Diante da próxima muralha de rocha, começou a trabalhar. A altura dela parecia infinita, e ele nada disse. O som de sua ferramenta ressoava noite e dia nas rochas de ferro em que entalhava degraus. Anos passaram por ele, e ainda trabalhava; mas a muralha sempre se elevava acima dele até o céu. Às vezes rezava para que um pouco de musgo ou líquen brotasse naquelas paredes nuas para lhe fazer companhia; mas nunca vinha. — O estranho observava o rosto do rapaz.

“E os anos rolaram; ele os contava pelos degraus que entalhara — poucos para um ano — apenas poucos. Não cantava mais; não dizia mais: ‘Farei isto ou aquilo’ — apenas trabalhava. E à noite, quando o crepúsculo baixava, olhavam para ele, dos buracos e fendas nas rochas, estranhos rostos selvagens.

“‘Pare seu trabalho, homem solitário, e fale conosco’, gritavam.

“‘Minha salvação está no trabalho; se eu parasse um só momento, vocês desceriam rastejando sobre mim’, respondia. E elas esticavam ainda mais seus longos pescoços.

“‘Olhe para baixo, na fenda a seus pés’, diziam. ‘Veja o que jaz ali — ossos brancos! Um homem tão forte e valente quanto você subiu até estas rochas.’ E ele olhou para cima. Viu que não adiantava lutar; jamais seguraria a Verdade, jamais a veria, jamais a encontraria. Assim deitou-se aqui, pois estava muito cansado. Dormiu para sempre. Pôs a si mesmo para dormir. O sono é muito tranquilo. Não se está sozinho quando se dorme, nem doem as mãos, nem o coração. E o caçador riu entre os dentes.

“‘Arranquei de meu coração tudo quanto havia de mais querido; vaguei sozinho na terra da noite; resisti à tentação; habitei onde a voz de minha espécie nunca se ouve, e trabalhei sozinho, para deitar-me e servir de alimento a vós, harpias?’

“Riu ferozmente; e os Ecos do Desespero se esgueiraram para longe, pois o riso de um coração valente e forte é para eles como golpe mortal.

“No entanto, voltaram a rastejar para fora e o olharam.

“‘Sabes que teus cabelos estão brancos?’, disseram. ‘Que tuas mãos começam a tremer como as de uma criança? Vês que a ponta de tua lançadeira se gastou? — já está rachada. Se um dia chegares a subir esta escada’, disseram, ‘será a última. Jamais subirás outra.’

“E ele respondeu: ‘Eu sei’, e continuou trabalhando.

“As velhas mãos magras cortavam as pedras mal e irregularmente, pois os dedos estavam rígidos e curvados. A beleza e a força do homem haviam ido embora.

“Por fim, um rosto velho, enrugado e encolhido apareceu acima das rochas. Viu as montanhas eternas erguerem-se com muralhas até as nuvens brancas; mas seu trabalho estava feito.

“O velho caçador cruzou as mãos cansadas e deitou-se junto ao precipício onde consumira a vida trabalhando. Era o tempo de dormir, enfim. Abaixo dele, sobre os vales, rolava a espessa névoa branca. Uma vez ela se abriu; e pela abertura os olhos moribundos olharam para as árvores e campos de sua infância. De longe pareceu-lhe trazido o grito de seus próprios pássaros selvagens, e ouviu o ruído das pessoas cantando enquanto dançavam. E pensou ouvir entre elas as vozes de seus velhos companheiros; e viu ao longe a luz do sol brilhar sobre sua primeira casa. Grandes lágrimas juntaram-se nos olhos do caçador.

“‘Ah! Os que morrem ali não morrem sozinhos’, gritou.

“Então as névoas se fecharam outra vez; e ele desviou os olhos.

“‘Procurei’, disse, ‘por longos anos trabalhei; mas não a encontrei. Não descansei, não me lamentei, e não a vi; agora minha força se foi. Onde me deito exausto, outros homens se levantarão, jovens e frescos. Pelos degraus que cortei eles subirão; pelas escadas que construí eles ascenderão. Nunca saberão o nome do homem que as fez. Do trabalho tosco rirão; quando as pedras rolarem, me amaldiçoarão. Mas subirão, e sobre meu trabalho; escalarão, e pela minha escada! Eles a encontrarão, e por meu intermédio! E nenhum homem vive para si, e nenhum homem morre para si.’

“As lágrimas rolaram sob as pálpebras murchas. Se a Verdade tivesse aparecido acima dele, entre as nuvens, já não poderia vê-la; a névoa da morte estava em seus olhos.

“‘Minha alma ouve o alegre passo deles chegando’, disse; ‘e eles subirão! Eles subirão!’ Levou a mão enrugada aos olhos.

“Então, lentamente, do céu branco acima, pelo ar imóvel, veio algo caindo, caindo, caindo. Suavemente flutuou para baixo e pousou no peito do moribundo. Ele a sentiu com as mãos. Era uma pena. Morreu segurando-a.”

O rapaz sombreara os olhos com a mão. Grandes gotas caíam sobre a madeira do entalhe. O estranho devia ter rido dele, ou permanecido calado. Fez isso.

— Como você soube? — sussurrou o rapaz por fim. — Não está escrito ali... não naquela madeira. Como você soube?

— Certamente — disse o estranho —, a história inteira não está escrita aqui, mas está sugerida. E o atributo de toda arte verdadeira, a mais alta e a mais baixa, é este: irradiar mais do que diz, e afastá-lo de si mesma. É uma pequena porta que se abre para um salão infinito, onde se pode encontrar o que se quiser. Homens, pensando diminuir, dizem: “As pessoas leem nesta ou naquela obra de gênio mais do que jamais foi escrito nela”, sem perceber que prestam o mais alto elogio. Se apanhamos o dedo e a unha de um homem verdadeiro, podemos decifrar uma história inteira — quase reconstruir a criatura inteira, da cabeça aos pés. Mas metade do corpo de um ídolo mumbo-jumbo nos deixa inteiramente no escuro quanto ao resto. Vemos o que vemos, mas nada mais. Não há nada tão universalmente inteligível quanto a verdade. Ela tem mil significados, e sugere mais mil.

Virou a coisa de madeira.

— Ainda que um homem a entalhe na matéria com a menor habilidade manipulativa possível, ela encontrará intérpretes. É a alma que olha para fora com olhos ardentes através do mais grosseiro filamento carnal. Quem quer que retratasse verdadeiramente a vida e a morte de uma florzinha — seu nascimento, a absorção de alimento, a reprodução de sua espécie, seu murchar e desaparecer — teria moldado um símbolo de toda a existência. Todos os verdadeiros fatos da natureza ou da mente são aparentados. Seu pequeno entalhe representa alguns fatos mentais como realmente são; portanto, cinquenta histórias verdadeiras diferentes poderiam ser lidas nele. O que falta à sua obra não é verdade, mas beleza de forma exterior, a outra metade da arte. — Inclinou-se quase gentilmente para o rapaz. — A habilidade pode vir com o tempo, mas você terá de trabalhar muito. O amor da beleza e o desejo por ela precisam nascer no homem; a habilidade para reproduzi-la ele precisa fazer. Precisa trabalhar muito.

— Toda a minha vida ansiei por vê-lo — disse o rapaz.

O estranho quebrou a ponta de seu charuto e acendeu-o. O rapaz ergueu a pesada madeira do joelho do estranho e se aproximou ainda mais dele. Havia algo soberbamente ridículo na maneira canina de sua aproximação, a menos que por acaso se a visse sob outra luz. Pouco depois, o estranho disse, soltando fumaça:

— Faça uma coisa por mim.

O rapaz pôs-se de pé de um salto.

— Não; fique onde está. Não quero que vá a lugar nenhum; quero que converse comigo. Conte-me o que fez em toda a sua vida.

O rapaz baixou-se de novo. Quisera que o homem lhe tivesse pedido arrancar arbustos com as mãos para o cavalo se alimentar; ou correr até a extremidade distante da planície em busca dos fósseis que ali jaziam, ou colher as flores que cresciam nas colinas à beira da planície; teria corrido e voltado depressa — mas agora!

— Nunca fiz nada — disse.

— Então conte-me esse nada. Gosto de saber o que outras pessoas andaram fazendo quando posso crer na palavra delas. É interessante. Qual foi a primeira coisa que você quis muito?

O rapaz esperou para recordar, depois começou hesitante, mas logo as palavras fluíram. No menor passado encontramos uma mina inesgotável quando começamos a cavá-lo.

Uma história confusa, desordenada — o pequeno tornado grande e o grande pequeno, e nada revelando seu sentido interior. Só quando o passado recuou muitos passos é que, diante dos olhos mais claros, ele se dispõe em imagens coordenadas. Só quando o eu de que falamos deixou de existir é que toma seu lugar entre outras realidades objetivas e encontra seu verdadeiro nicho no quadro. O presente e o passado próximo são uma confusão cujo sentido nos lampeja quando ela se esgueira para a distância.

O estranho acendeu um charuto na ponta de outro, fumou e escutou com olhos semicerrados.

— Lembrarei mais para contar, se o senhor quiser — disse o rapaz.

Falava com aquela extrema gravidade comum a todas as coisas muito jovens que sentem profundamente. Só aos vinte anos aprendemos a estar mortalmente sérios e a rir. O estranho assentiu, enquanto o sujeito procurava algo mais para relatar. Contaria tudo a esse homem seu — tudo que sabia, tudo que sentira, seu pensamento mais íntimo e dolorido. De repente, o estranho voltou-se para ele.

— Rapaz — disse —, você é feliz por estar aqui.

Waldo olhou para ele. Seu encantador estaria zombando dele? Aqui, com esta terra morena e estas colinas baixas, enquanto o raro, maravilhoso mundo todo jazia além. Afortunado por estar aqui?

O estranho leu seu olhar.

— Sim — disse —; aqui, com os arbustos do karoo e a areia vermelha. Pergunta-se o que quero dizer? Para todos os que nasceram na velha fé, chega um tempo de perigo, quando o velho escapa de nós e ainda não firmamos os pés no novo. Já não ouvimos a voz do Sinai trovejando, e a voz mansa e delicada da razão ainda não se faz ouvir. Provamos que a religião de que nossas mães nos alimentaram é uma ilusão; em nossa perplexidade não vemos regra alguma pela qual guiar os passos dia a dia; e, no entanto, todos os dias precisamos dar algum passo.

O estranho inclinou-se para a frente e falou mais depressa.

— Nunca fomos ensinados, por palavra ou ato, a distinguir entre a religião e as leis morais às quais ela astutamente se prendeu, e das quais sugou sua vitalidade. Quando arrancamos as ervas daninhas e trepadeiras que cobriam o muro sólido e descobrimos que eram madeira podre, imaginamos que o próprio muro também é madeira podre. Só descobrimos que ele é sólido e está de pé quando caímos de cabeça contra ele. Fomos ensinados que todo certo e errado se origina na vontade de um ser irresponsável. Leva algum tempo até vermos como os inexoráveis “Tu deves e não deves” estão talhados na natureza das coisas. Este é o tempo de perigo.

Seus olhos escuros e enevoados olharam nos do rapaz.

— No fim, a experiência inevitavelmente nos ensinará que as leis de uma vida sábia e nobre têm fundamento infinitamente mais profundo que o fiat de qualquer ser, Deus ou homem, mesmo no fundamento da natureza humana.

“Ela nos ensinará que quem derrama sangue de homem, embora por homem seu sangue não seja derramado, embora homem nenhum o vingue e inferno nenhum o espere, ainda assim cada gota abrirá bolhas em sua alma e nela corroerá em nome do morto. Ensinará que quem toma um amor que por direito não é seu colhe uma flor com veneno nas pétalas; que quem se vinga golpeia com uma espada de dois gumes — um para o adversário, outro para si mesmo; que quem vive para si está morto, embora a terra ainda não o cubra; que quem fere outro nubla o próprio sol; e que quem peca em segredo está maldito e condenado diante do único Juiz que distribui justiça eterna — seu próprio eu, que tudo sabe.

“A experiência nos ensinará isso, e a razão nos mostrará por que deve ser assim; mas, a princípio, o mundo oscila diante de nossos olhos, e voz nenhuma clama: ‘Este é o caminho, andai nele!’ Você é feliz por estar aqui, rapaz! Quando a suspensão o enche de dor, você constrói muros de pedra e escava terra em busca de alívio. Outros estiveram onde você está hoje e sentiram o que você sente; e outro alívio lhes foi oferecido, e eles o aceitaram.

“Quando chega o dia em que veem o caminho pelo qual poderiam andar, não têm força para segui-lo. Hábitos se prenderam a eles de que nada, salvo a morte, pode libertá-los; que aderem mais firmes que a santimônia sacerdotal a um sacerdote; que se alimentam do intelecto como verme, minando energia, esperança, poder criativo, tudo que torna um homem mais alto que uma fera — deixando apenas o poder de ansiar, arrepender-se e afundar mais baixo no abismo.

— Rapaz — disse, e o ouvinte não estava agora mais sério que o falante —, você é feliz por estar aqui! Fique onde está. Se alguma vez rezar, que seja apenas a antiga oração: “Não nos deixeis cair em tentação.” Viva aqui, tranquilamente. O tempo ainda pode vir em que você será aquilo que outros homens esperaram ser e já não serão jamais.

O estranho levantou-se, sacudiu o pó da manga e, envergonhado de seu próprio fervor, olhou entre os arbustos à procura do cavalo.

— Já deveríamos estar a caminho — disse. — Teremos uma longa cavalgada no escuro esta noite.

Waldo apressou-se a buscar o animal; mas voltou conduzindo-o devagar. Quanto antes ele chegasse, tanto antes seu cavaleiro partiria.

O estranho abria a bolsa de sela, em que havia um vistoso romance francês e um velho volume castanho. Tomou este último e estendeu-o ao rapaz.

— Pode lhe ser de alguma ajuda — disse, descuidoso. — Foi um evangelho para mim quando primeiro caí sobre ele. Você não deve esperar demais; mas pode lhe dar um centro em torno do qual pendurar suas ideias, em vez de deixá-las espalhadas numa confusão que faz a cabeça doer. Nós, desta geração, não estamos destinados a comer e estar satisfeitos como nossos pais; devemos contentar-nos em passar fome.

Sorriu seu sorriso de autômato e tornou a abotoar a bolsa. Waldo enfiou o livro no peito e, enquanto selava o cavalo, o estranho fez perguntas sobre a natureza da estrada e a distância até a próxima fazenda.

Quando as bolsas estavam presas, Waldo apanhou seu poste de madeira e começou a amarrá-lo à sela, prendendo-o com o pequeno lenço azul de algodão que tirou do pescoço. O estranho observou em silêncio. Quando terminou, o rapaz segurou o estribo para que ele montasse.

— Qual é o seu nome? — perguntou ele, tirando a luva da mão direita já na sela.

O rapaz respondeu.

— Bem, confio que nos encontraremos de novo algum dia, cedo ou tarde.

Cumprimentou-o com a mão sem luva; depois vestiu-a novamente, tocou o cavalo e afastou-se devagar. O rapaz ficou de pé, vendo-o partir.

Uma vez, quando o estranho já atravessara metade da planície, olhou para trás.

— Pobre-diabo — disse, sorrindo e acariciando o bigode. Depois olhou para ver se o pequeno lenço azul continuava bem amarrado. — Pobre-diabo!

Sorriu, e então suspirou cansadamente, muito cansadamente.

E Waldo esperou até que o ponto móvel desaparecesse no horizonte; então se inclinou e beijou apaixonadamente uma marca de casco na areia. Depois chamou seus jovens pássaros, pôs o livro debaixo do braço e caminhou para casa ao longo do muro de pedra. Havia rara beleza para ele no sol daquela tarde.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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