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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 27 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 2.XII. A Feminilidade de Gregory.

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Capítulo 2.XII. A Feminilidade de Gregory.

Lentamente, pela baixada, veio uma carroça. No banco de trás sentava-se Gregory, de braços cruzados, o chapéu puxado sobre os olhos. Um menino cafre sentava-se no banco da frente, conduzindo, e a seus pés estava Doss, que, de quando em quando, erguia o nariz e os olhos acima da borda do para-lama para olhar a região ao redor; depois, com uma piscadela extremamente sabida do olho esquerdo, voltava-se para seus companheiros, indicando assim que percebia claramente onde estava. Ninguém notou a chegada da carroça.

Waldo, que trabalhava à sua mesa de carpinteiro no galpão das carroças, nada viu até que, por acaso olhando para baixo, percebeu Doss parado diante de si, as pernas tremendo, o naricinho enrugado, e uma série de latidos curtos e sufocados dando voz à alegria do reencontro.

Em, cujos olhos doíam de tanto olhar para a planície, trabalhava agora em um quarto dos fundos, e nada soube até que, erguendo os olhos, viu Gregory, com seu chapéu de palha e seus olhos azuis, parado à porta. Ele cumprimentou-a calmamente, pendurou o chapéu em seu velho lugar atrás da porta, e, por qualquer mudança em seu modo ou aparência, poderia ter partido apenas na véspera para buscar cartas na cidade. Só a barba desaparecera, e o rosto estava mais magro.

Tirou as polainas de couro, disse que a tarde estava quente e as estradas poeirentas, e pediu chá. Conversaram sobre lã, gado e ovelhas, e Em lhe deu a pilha de cartas que chegara para ele durante os meses de ausência; mas daquilo que jazia no coração de ambos nenhum dos dois disse nada. Depois ele saiu para olhar os kraals, e à ceia Em lhe deu bolos quentes e café. Falaram dos criados, e então comeram em silêncio. Ela não fez perguntas.

Terminada a refeição, Gregory entrou na sala da frente e deitou-se no sofá, no escuro.

— Você não quer luz? — perguntou Em, aventurando-se a espiar.

— Não — respondeu ele; depois, pouco depois, chamou-a: — Venha sentar-se aqui; quero falar com você.

Ela veio e sentou-se num banquinho perto dele.

— Deseja ouvir alguma coisa? — perguntou ele.

Ela sussurrou:

— Sim, se isso não lhe doer.

— Que diferença faz para mim? — disse ele. — Se falo ou se me calo, muda alguma coisa?

Ainda assim, ficou quieto por longo tempo. A luz pela porta aberta o mostrava a ela, onde jazia com o braço atirado sobre os olhos. Por fim falou. Talvez fosse um alívio para ele falar.

A Bloemfontein, no Estado Livre, para onde por intermédio de um agente os havia seguido, Gregory fora. Hospedou-se no hotel onde Lyndall e seu estranho haviam ficado; mostraram-lhe o mesmo quarto em que haviam dormido. O menino de cor que os conduzira até a cidade seguinte disse-lhe em que casa haviam se hospedado, e Gregory prosseguiu. Nessa cidade, descobriu que eles haviam deixado a carroça e comprado uma spider e quatro cavalos tordilhos, e o coração de Gregory rejubilou-se. Agora, sim, seria fácil seguir-lhes o curso.

E voltou seus passos para o norte.

Nas casas de fazenda onde parou, os ooms e tantes recordavam claramente a spider com seus quatro cavalos cinzentos. Em um lugar, a mulher bôer contou como o inglês alto, de olhos azuis, comprara leite e perguntara o caminho para a próxima fazenda. Na fazenda seguinte, o inglês comprara um ramo de flores e dera meia coroa por elas à menininha. Era verdade; a mãe bôer obrigou-a a tirá-la da caixa e mostrá-la. No lugar seguinte, eles haviam dormido.

Ali lhe disseram que o grande buldogue, que odiava todos os estranhos, entrara à noite e pousara a cabeça no colo da senhora. Assim, em todos os lugares ele ouvia alguma coisa e os seguia passo a passo.

Numa fazenda desolada, o bôer tinha bastante a contar. A senhora dissera que gostava de uma carroça estacionada diante da porta. Sem perguntar o preço, o inglês oferecera cento e cinquenta libras pela coisa velha, e comprara bois que valiam dez libras por dezesseis. O holandês riu consigo, pois tinha o dinheiro do Salt-riem na caixa debaixo da cama. Gregory também riu, em silêncio; agora não podia mais perdê-los de vista, tão lentamente teriam de se mover com aquela pesada carroça de bois.

Contudo, quando veio a tarde, e ele chegou a uma pequena estalagem à beira da estrada, ninguém soube dizer-lhe coisa alguma sobre os viajantes.

O dono, criatura carrancuda, meio embrutecida pela aguardente bôer, estava sentado no banco diante da porta, fumando. Gregory sentou-se ao lado dele, fazendo perguntas, mas ele continuou a fumar. Não se lembrava de tais estranhos. Como haveria de saber quem estivera ali meses e meses antes? Continuou fumando. Gregory, muito cansado, tentou despertar-lhe a memória; disse que a senhora que procurava era muito bela, tinha uma boca pequena, e pés pequenos, muito pequenos. O homem apenas continuou fumando, tão sombrio quanto antes.

Que eram bocas e pés pequenos, muito pequenos, para ele? Mas a filha inclinou-se para fora da janela acima. Era suja e preguiçosa, e gostava de debruçar-se ali quando chegavam viajantes, para ouvir os homens conversarem, mas tinha coração brando. Pouco depois uma mão saiu pela janela, e um par de sapatilhas de veludo tocou-lhe o ombro — sapatilhas diminutas, com flores negras. Ele as retirou da mão dela. Só os pés de uma mulher as haviam usado, sabia disso.

— Deixadas aqui no verão passado por uma senhora — disse a moça. — Pode ser a que procura. Nunca vi pés tão pequenos.

Gregory levantou-se e interrogou-a.

Podiam ter vindo numa carroça e numa spider; ela não sabia dizer. Mas o cavalheiro era muito bonito, alto, figura encantadora, olhos azuis, usava sempre luvas quando saía. Um oficial inglês, talvez; africânder, certamente não.

Gregory a interrompeu.

A senhora? Bem, era bonita, mais ou menos, disse a moça; ar muito frio e apagado, silenciosa. Ficaram, talvez, cinco dias; dormiram na ala em frente ao stoep; discutiam às vezes, pensava ela — a senhora. Ela vira tudo quando entrava para servir. Um dia o cavalheiro tocou-lhe o cabelo; ela recuou como se os dedos dele a envenenassem. Ia para o outro lado do quarto se ele vinha sentar-se perto dela. Saía sozinha para caminhar.

Fria esposa para marido tão bonito, pensou a moça; evidentemente tinha pena dele, pois era um homem tão belo. Partiram cedo numa manhã; como, ou em que direção, a moça não sabia dizer.

Gregory inquiriu os criados, mas nada mais se pôde aprender; assim, na manhã seguinte, selou o cavalo e seguiu adiante. Nas fazendas a que chegava, os bons velhos ooms e tantes lhe ofereciam café, e as criancinhas descalças espiavam o estranho por trás de fornos e frontões; mas ninguém vira o que ele perguntava. Desta e daquela maneira cavalgou para retomar o fio que deixara cair, mas a spider e a carroça, a pequena senhora e o belo cavalheiro, ninguém vira.

Nas cidades, foi ainda pior.

Uma vez, de fato, a esperança veio a ele. No stoep de um hotel onde passara a noite em certa pequena vila, passeava um cavalheiro de ar grave e bondoso. Não foi difícil iniciar conversa com ele sobre o tempo, e então — acaso vira tais e tais pessoas, um cavalheiro e uma senhora, uma spider e uma carroça, chegar àquele lugar? O gentil cavalheiro sacudiu a cabeça. Como era a senhora?, perguntou.

Gregory pintou-a. Cabelos como fios de seda, boca pequena, o lábio inferior muito cheio e rosado, o superior rosado porém muito fino e recurvo; havia quatro manchas brancas na unha do indicador da mão direita, e suas sobrancelhas eram delicadamente arqueadas.

— Sim; e um tom de botão de rosa nas faces; mãos como lírios, e sorriso perfeitamente seráfico.

— É ela! é ela! — gritou Gregory.

Quem mais poderia ser? Perguntou para onde ela fora. O cavalheiro afagou a barba com muita ponderação.

Tentaria lembrar. As orelhas dela não eram —. Aqui um acesso de tosse tão violento tomou-o que ele correu para dentro da casa. Um caixeiro mal alimentado e um barman sujo, parados à porta, riram alto. Gregory perguntou-se se poderiam estar rindo da tosse do cavalheiro, e então ouviu alguém rir no quarto para onde o cavalheiro se retirara. Precisava segui-lo e tentar saber mais; mas logo descobriu que nada mais havia a aprender ali. Pobre Gregory!

Para trás e para diante, para trás e para diante, da pequena hospedaria suja onde perdera o fio, a esta fazenda e àquela, cavalgou Gregory, até que seu coração adoeceu e se cansou. Que daquele ponto a carroça pudesse ter seguido por um caminho e a spider por outro era uma ideia que não lhe ocorreu. Por fim viu que não adiantava demorar-se naquela vizinhança, e avançou.

Certo dia, chegando a uma cidadezinha, seus cavalos deram de si, e ele resolveu deixá-los descansar ali. O pequeno hotel da cidade era um lugar claro e ensolarado, como o rosto jovial da mulherzinha limpa que o mantinha, e que trotava de um lado a outro falando sempre — falando com os fregueses na sala de bebidas, com as criadas na cozinha, e com os passantes quando podia chamá-los das janelas; falando, como fazem as mulheres bem-humoradas de bocas grandes e narizes pequenos, a tempo e fora de tempo.

Havia no hotel uma saleta de frente, reservada a estranhos que queriam ficar sós. Gregory sentou-se ali para tomar o café da manhã, e a dona da casa tirou o pó do cômodo e falou dos grandes achados nos Campos Diamantíferos, da ruindade das criadas e da conduta vergonhosa do pastor holandês naquela cidade para com os habitantes ingleses. Gregory comeu seu café da manhã e nada ouviu. Fizera sua única pergunta e recebera sua resposta; agora ela podia falar.

Pouco depois uma porta no canto se abriu e uma mulher saiu — uma moçambiqueira, com um lenço vermelho torcido em volta da cabeça. Levava na mão uma bandeja, com uma fatia de torrada esmigalhada, uma xícara de café pela metade e um ovo aberto, mas não comido. Seu rosto de ébano sorriu complacente enquanto ela fechava a porta devagar e dizia: “Bom dia.”

A dona da casa começou a falar com ela.

— Você não vai deixá-la de verdade, Ayah, vai? — disse. — As criadas dizem isso; mas tenho certeza de que você não faria tal coisa.

A moçambiqueira sorriu.

— Marido diz que eu devo ir para casa.

— Mas ela não tem mais ninguém, e não aceitará mais ninguém. Ora, vamos — disse a dona —, não tenho tempo de ficar sempre sentada num quarto de doente, nem que me pagassem qualquer coisa por isso.

A moçambiqueira apenas mostrou os dentes brancos, com bom humor, em resposta, e saiu; a dona a seguiu.

Gregory, contente por ficar só, observou a luz do sol, que passava por cima das fúcsias na janela e subia e descia pela porta apainelada no canto. A moçambiqueira a deixara mal fechada atrás de si, e pouco depois algo a tocou pelo lado de dentro. Ela se moveu um pouco, depois ficou quieta, depois moveu-se de novo; então, pela fresta, apareceu um pequeno focinho, e uma orelha amarela sobrepondo-se a um olho; depois toda a cabeça se insinuou para fora, inclinou-se criticamente de lado, enrugou o nariz em desaprovação para Gregory e retirou-se.

Pela porta entreaberta vinha um leve cheiro de vinagre, e o quarto estava escuro e quieto.

Pouco depois a dona voltou.

— Deixou a porta aberta — disse, apressando-se a fechá-la. — Mas negra é negra, e nunca carrega a cabeça nos ombros como outra gente. Não está doente, espero, senhor? — disse, olhando para Gregory depois de fechar a porta do quarto.

— Não — disse Gregory —, não.

A dona começou a juntar as coisas.

— Quem — perguntou Gregory — está naquele quarto?

Contente por ter uma pequena e inocente fofoca a relatar, e alguém disposto a ouvi-la, a dona fez o máximo de uma pequena história enquanto limpava a mesa. Seis meses antes, uma senhora chegara sozinha ao hotel numa carroça, apenas com um guia e um condutor de cor. Oito dias depois, nascera uma criancinha.

Se Gregory se levantasse e olhasse pela janela, veria um eucalipto no cemitério; perto dele havia uma sepulturazinha. O bebê estava enterrado ali. Uma coisa minúscula — viveu apenas duas horas, e a própria mãe quase se foi com ele. Depois de algum tempo, ela melhorou; mas um dia levantou-se da cama, vestiu-se sem dizer uma palavra a ninguém e saiu.

Era um dia chuviscoso; pouco depois alguém a viu sentada no chão molhado, debaixo do eucalipto, com a chuva pingando do chapéu e do xale. Foram buscá-la, mas ela não quis vir antes de escolher. Quando veio, deitou-se e nunca mais se levantou; nunca se levantaria, dizia o médico.

Era muito paciente, pobrezinha. Quando se entrava para perguntar como estava, dizia sempre “Melhor”, ou “Quase boa!”, e jazia quieta no quarto escurecido, sem incomodar ninguém. A moçambiqueira cuidava dela, e ela não permitia que mais ninguém a tocasse; nem mesmo permitia que outra pessoa visse seu pé descoberto. Era estranha em muitos sentidos, mas pagava bem, pobrezinha; e agora a moçambiqueira ia embora, e ela teria de aceitar outra pessoa.

A dona tagarelou agradavelmente, e então levou embora a bandeja com as coisas do café. Quando ela se foi, Gregory apoiou a cabeça nas mãos, mas não pensou por muito tempo.

Antes do jantar, cavalgara para fora da cidade, até onde, numa elevação, várias carroças de transporte estavam desatreladas. O condutor holandês de uma delas espantou-se com a ansiedade do estranho em desfazer-se dos cavalos. Talvez roubados; mas valia a pena comprá-los por preço tão baixo. Assim os cavalos mudaram de dono, e Gregory se afastou caminhando com os alforjes pendurados ao braço.

Uma vez fora da vista das carroças, desviou-se da estrada e caminhou através do veld, as gramíneas secas e floridas ondulando por toda parte ao seu redor; a meio caminho pela planície, chegou a uma grota profunda que as torrentes de chuva haviam escavado, mas que agora estava seca. Gregory saltou para seu leito vermelho. Era lugar seguro e quieto. Depois de olhar em volta, sentou-se à sombra de uma margem saliente e abanou-se com o chapéu, pois a tarde estava quente e ele caminhara depressa.

A seus pés as formigas empoeiradas corriam de um lado para outro, e a alta margem vermelha diante dele estava coberta por uma rede de raízes e fibras lavadas pelas chuvas. Acima de sua cabeça erguia-se o céu africano claro e azul; ao seu lado estavam os alforjes cheios de roupas de mulher. Gregory olhou para cima, meio queixoso, para o céu azul.

— Sou eu, sou eu Gregory Nazianzen Rose? — disse.

Também era estranho, ele sentado ali naquele sloot naquela planície interiorana! — estranho como as formas fantásticas e mutáveis de uma nuvem de verão. Por fim, exausto, adormeceu com a cabeça contra a margem. Quando acordou, a sombra se estendera pelo sloot, e o sol estava à beira da planície. Agora precisava levantar-se e agir. Tirou do bolso do peito um espelhinho de seis pence e pendurou-o numa das raízes que se projetavam da margem.

Então vestiu uma das roupas antiquadas e um grande colarinho rendado. Depois tirou uma navalha. Tufo por tufo, a barba macia e castanha caiu na areia, e as formiguinhas a levaram para forrar seus ninhos. Então o espelho mostrou um rosto cercado por uma touca com folhos, branco como o de uma mulher, com uma boca pequena, um lábio superior muito curto e um queixo fugidio.

Pouco depois, uma figura de mulher bastante alta seguia caminho através do veld. Ao passar por um cupinzeiro oco, ajoelhou-se e enfiou dentro os alforjes com as roupas de homem, fechando o cupinzeiro com pedaços de terra para que parecesse o mais natural possível. Como um pecador escondendo seu pecado, quem escondia sobressaltou-se uma vez e olhou em volta; mas não havia ninguém por perto, exceto um meerkat que se erguera de sua toca e se sentara sobre as patas traseiras, observando.

Ele não gostava nem que ela o visse, e, quando se levantou, ela mergulhou de volta em sua toca. Então caminhou calmamente, para que o crepúsculo tivesse alcançado as ruas da vila antes que entrasse nelas. A primeira casa era a do ferreiro, e diante da porta aberta dois moleques ociosos se espreguiçavam. Ao apressar-se pela rua na penumbra crescente, ouviu-os rir longa e ruidosamente atrás dele. Olhou em redor, temeroso, e quase teria fugido, não fosse a estranha saia prender-se em suas pernas.

E afinal era apenas uma faísca que pousara na cabeça de um deles, e não a estranha figura de que riam.

A porta do hotel estava escancarada, e a luz caía para fora, na rua. Ele bateu, e a dona veio. Ela espiou para fora, procurando a carroça que trouxera a viajante; mas o coração de Gregory estava corajoso agora, tão perto que estava do quarto silencioso. Disse-lhe que viera com as carroças de transporte paradas fora da cidade.

Viera a pé e queria pouso por uma noite.

Era uma mentira deliberada, contada com desembaraço; ele teria contado cinquenta, ainda que o anjo registrador estivesse no quarto ao lado com a pena mergulhada na tinta. Que lhe importava? Lembrou-se de que ela jazia ali, dizendo sempre: “Estou melhor.”

A dona pôs-lhe a ceia na saleta onde ele se sentara pela manhã. Quando a mesa estava posta, sentou-se na cadeira de balanço, como era seu costume, para tricotar e conversar, a fim de colher notícias para seus fregueses da sala de bebidas. No rosto branco sob a touca esquisita e de franjas profundas, nada viu do viajante daquela manhã. A recém-chegada era comunicativa. Era enfermeira por profissão, disse; viera ao Transvaal ao saber que boas enfermeiras eram necessárias ali. Ainda não encontrara trabalho.

A dona talvez não soubesse se haveria algum para ela naquela cidade?

A dona pôs de lado o tricô e bateu as mãos gordas uma na outra.

Se aquilo não era o próprio dedo da providência de Deus, como se o vissem pendendo do céu, disse. Ali estava uma senhora doente, precisando de uma nova enfermeira naquele mesmo dia, e sem conseguir alguém a seu gosto, e agora — bem, se aquilo não bastava para converter todos os ateus e livre-pensadores do Transvaal, ela já não sabia o que bastaria!

Então a dona passou a detalhar os fatos.

— Tenho certeza de que servirá para ela — acrescentou. — É exatamente o tipo. Ela tem montes de dinheiro para lhe pagar; tem tudo o que o dinheiro pode comprar. E recebi outro dia uma carta com um cheque de cinquenta libras de alguém, que diz que devo gastá-lo com ela e não deixá-la saber. Ela está dormindo agora, mas vou levá-la para que a veja.

A dona abriu a porta do quarto ao lado, e Gregory a seguiu. Uma mesa ficava perto da cama, com uma lâmpada acesa em luz baixa; a cama era uma grande cama de cortinas brancas, e a colcha era de rico cetim carmesim. Mas Gregory ficou logo dentro da porta, com a cabeça muito baixa, e nada mais viu.

— Chegue mais perto! Vou aumentar um pouco a luz, para que possa olhá-la. Uma coisinha bonita, não é? — disse a dona.

Perto do pé da cama havia uma depressão na colcha carmesim, e dela a pequena cabeça de Doss e seus olhos brilhantes olhavam sabidamente.

Então Gregory ergueu os olhos para o que jazia no travesseiro. Um rostinho branco, branco, transparente como o de um anjo, com um pano atado em volta da testa, e cabelos macios espalhados sobre o travesseiro.

— Tivemos de cortá-lo — disse a mulher, tocando-o com a ponta do dedo. — Macio como seda, como o cabelo de uma boneca de cera.

Mas o coração de Gregory sangrava.

— Nunca mais se levantará, diz o médico — disse a dona.

Gregory pronunciou uma palavra. Num instante os olhos belos se abriram largamente, olharam ao redor do quarto e para os cantos escuros.

— Quem está aqui? Quem ouvi falar?

Gregory recuara para trás da cortina; a dona a afastou e o puxou para a frente.

— Apenas esta senhora, madame — uma enfermeira por profissão. Está disposta a ficar e cuidar da senhora, se chegarem a um acordo.

Lyndall ergueu-se sobre o cotovelo e lançou-lhe um olhar penetrante de escrutínio.

— Nunca a vi antes? — perguntou.

— Não.

Ela caiu para trás, cansada.

— Talvez queiram combinar os termos entre si — disse a dona. — Aqui está uma cadeira. Volto daqui a pouco.

Gregory sentou-se, de cabeça baixa e respiração rápida. Ela não falava, e jazia com os olhos semicerrados, parecendo tê-lo esquecido.

— Quer baixar um pouco a lâmpada? — disse afinal. — Não suporto a luz.

Então seu coração ficou mais corajoso na sombra, e ele falou. A enfermagem era para ele, disse, a obra escolhida de sua vida. Não queria dinheiro se —. Ela o interrompeu.

— Não aceito serviço pelo qual não pague — disse. — O que dei à minha última enfermeira darei a você; se não lhe agrada, pode ir.

E Gregory murmurou humildemente que aceitaria.

Depois ela tentou virar-se. Ele a ergueu! Ah! um corpinho encolhido; podia sentir sua fraqueza ao tocá-la. Suas mãos estavam glorificadas para ele pelo que haviam feito.

— Obrigada! Isso é tão bom. Outras pessoas me machucam quando me tocam — disse ela. — Obrigada! — Depois de algum tempo, repetiu humildemente: — Obrigada; elas me machucam tanto.

Gregory sentou-se tremendo. Sua cordeirinha, podiam machucá-la?

O médico disse de Gregory quatro dias depois:

— É a enfermeira mais experiente com quem já tive contato.

Gregory, de pé no corredor, ouviu isso e riu em seu coração. Que necessidade tinha ele de experiência? A experiência nos ensina em um milênio o que a paixão nos ensina em uma hora. Um cafre estuda toda a vida o discernimento de sons distantes; mas jamais ouvirá meus passos, quando meu amor os ouve chegando à sua janela, no escuro, sobre a relva curta.

No começo o coração de Gregory doía quando, dia após dia, o corpo ficava mais leve e a boca que alimentava recebia menos; mas depois se acostumou, e era feliz. Pois a paixão tem um grito, um só: “Oh, tocar-te, Amada!”

Naquele quarto quieto, Lyndall jazia na cama com o cão aos pés, e Gregory sentava-se em seu canto escuro, vigiando.

Ela raramente dormia, e durante aqueles longos, longos dias jazia vendo a faixa redonda de sol que entrava pelo nó da veneziana, ou o maciço pé de leão sobre o qual se apoiava o guarda-roupa. Que pensamentos havia naqueles olhos? Gregory se perguntava; não ousava perguntar.

Às vezes, Doss, onde jazia sobre seus pés, sonhava que os dois estavam na carroça, cortando o veld, com os cavalos pretos resfolegando e o vento em seus rostos; então se erguia de repente no sono e latia alto. Depois, despertando, lambia a mão de sua dona quase arrependido e deslizava quietamente para seu lugar.

Gregory pensava que ela não tinha dor; ela nunca gemia; só às vezes, quando a luz estava perto dela, parecia-lhe ver contrações em torno dos lábios e das sobrancelhas.

Ele dormia no sofá do lado de fora da porta dela.

Uma noite julgou ouvir um som e, abrindo a porta sem ruído, olhou para dentro. Ela chorava em voz alta, como se ela e sua dor estivessem sozinhas no mundo. A luz caía sobre a colcha vermelha e sobre as pequenas mãos cerradas acima da cabeça. Os olhos muito abertos olhavam para cima, e pesadas gotas caíam deles lentamente.

— Não posso suportar mais, não mais — disse ela, com voz profunda. — Oh, Deus, Deus! Não suportei em silêncio? Não aguentei estes longos, longos meses? Mas agora, agora, oh, Deus, não posso!

Gregory ajoelhou-se à porta, escutando.

— Não peço sabedoria, nem amor humano, nem trabalho, nem conhecimento, nem todas as coisas por que ansiei — clamou ela —; apenas um pouco de liberdade da dor! Apenas uma pequena hora sem dor! Depois sofrerei de novo.

Ela se sentou e mordeu a pequena mão que Gregory amava.

Ele se arrastou até a porta da frente e ficou olhando a tranquila luz das estrelas. Quando voltou, ela jazia em sua postura costumeira, os olhos quietos olhando a garra de leão. Aproximou-se da cama.

— Tem muita dor esta noite? — perguntou.

— Não, não muita.

— Posso fazer alguma coisa por você?

— Não, nada.

Ela ainda comprimia os lábios e fez um gesto com os dedos na direção do cão, que dormia a seus pés. Gregory o ergueu e o deitou ao lado dela. Ela fez Gregory abrir o peito de sua camisola, para que o cão pudesse pôr o focinho negro entre seus seios. Cruzou os braços sobre ele. Gregory os deixou deitados juntos.

No dia seguinte, quando perguntaram como estava, respondeu: “Melhor.”

— Alguém devia contar a ela — disse a dona —; não podemos deixar sua alma sair para a eternidade sem saber, especialmente quando não creio que tudo estivesse certo a respeito da criança. O senhor devia entrar e contar, doutor.

Assim, o pequeno médico, empurrado e empurrado, entrou por fim. Quando saiu do quarto, sacudiu o punho no rosto da dona.

— Da próxima vez que tiver algum trabalho do diabo para fazer, faça você mesma — disse; e sacudiu de novo o punho no rosto dela, e saiu praguejando.

Quando Gregory entrou no quarto, encontrou-a apenas mudada, o corpo encolhido e puxado para junto da parede. Não ousou perturbá-la. Por fim, depois de muito tempo, ela se voltou.

— Traga-me comida — disse. — Quero comer. Dois ovos, e torrada, e carne — duas fatias grandes de torrada, por favor.

Admirado, Gregory trouxe uma bandeja com tudo quanto ela pedira.

— Sente-me e ponha bem perto de mim — disse. — Vou comer tudo.

Ela tentou puxar as coisas para perto com os dedos e rearranjou os pratos. Cortou a torrada em tiras compridas, abriu os dois ovos, pôs na própria boca uma migalha minúscula de pão e alimentou o cão com pedaços de carne colocados entre suas mandíbulas com os dedos.

— Já são doze horas? — disse. — Acho que em geral não como tão cedo. Ponha isso de lado, por favor, com cuidado — não, não leve embora — só na mesa. Quando o relógio bater meio-dia, comerei.

Deitou-se tremendo. Depois de algum tempo disse:

— Dê-me minhas roupas.

Ele olhou para ela.

— Sim; vou me vestir amanhã. Eu me levantaria agora, mas está um pouco tarde. Ponha-as naquela cadeira. Meus colarinhos estão na caixinha, minhas botas atrás da porta.

Os olhos dela o seguiram atentamente enquanto ele reunia as peças uma a uma e as colocava na cadeira como ela indicava.

— Ponha mais perto — disse —, não consigo ver.

E ficou olhando as roupas, com a mão sob a face.

— Agora abra bem a veneziana — disse. — Vou ler.

O tom velho, tão velho, estava de novo na voz doce. Ele obedeceu; abriu a veneziana e ergueu-a entre os travesseiros.

— Agora traga meus livros — disse, movendo ansiosa os dedos —; o livro grande, e as revistas, e as peças — quero todos.

Ele os empilhou ao redor dela na cama; ela os puxou avidamente para mais perto, os olhos muito brilhantes, mas o rosto branco como um lírio da montanha.

— Agora o grande em cima da cômoda. Não, você não precisa me ajudar a segurar o livro — disse —; posso segurá-lo sozinha.

Gregory voltou para seu canto, e por algum tempo se ouviu o virar inquieto das folhas.

— Quer abrir a janela — disse ela, quase queixosa — e jogar este livro para fora? É completamente tolo. Pensei que fosse um livro valioso; mas as palavras são apenas enfileiradas, não fazem sentido. Sim — assim! — disse com aprovação, vendo-o arremessá-lo para a rua. — Devo ter sido muito tola quando achei esse livro bom.

Então voltou-se para ler, apoiou resolutamente seus cotovelos pequenos no grande volume e franziu a testa. Aquilo era Shakespeare — precisava significar alguma coisa.

— Queria que você pegasse um lenço e o amarrasse bem apertado em minha cabeça, ela dói tanto.

Ele não estava havia muito em seu assento quando viu gotas caírem, de sob as mãos que sombreavam os olhos, sobre a página.

— Não estou acostumada a tanta luz, faz minha cabeça rodar um pouco — disse. — Saia e feche a veneziana.

Quando ele voltou, ela jazia encolhida entre os travesseiros.

Ele não ouviu som de choro, mas os ombros tremiam. Escureceu completamente o quarto.

Quando Gregory foi para o sofá naquela noite, ela lhe disse que a acordasse cedo; estaria vestida antes do café. Contudo, quando veio a manhã, disse que fazia um pouco de frio, e ficou o dia todo deitada, olhando as roupas sobre a cadeira. Ainda assim mandou buscar seus bois no campo; partiriam na segunda-feira e desceriam para a Colônia.

À tarde, disse-lhe que abrisse bem a janela e puxasse a cama para perto dela.

Era uma tarde plúmbea; as opacas nuvens de chuva repousavam rente aos telhados das casas, e a pequena rua estava silenciosa e deserta. De quando em quando uma rajada de vento, girando, apanhava as folhas secas, fazia-as rodopiar aqui e ali sob as árvores e as deixava cair outra vez na sarjeta; então tudo ficava quieto. Ela jazia olhando para fora.

Pouco depois o sino da igreja começou a dobrar, e pela rua da vila veio uma longa procissão. Levavam um velho ao seu último repouso. Ela os acompanhou com os olhos até que viraram entre as árvores no portão.

— Quem era? — perguntou.

— Um velho — respondeu ele —, um homem muito velho; dizem que tinha noventa e quatro anos; mas não sei o seu nome.

Ela meditou um pouco, olhando para fora com olhos fixos.

— É por isso que o sino tocava tão alegremente — disse. — Quando os velhos morrem, está bem; tiveram seu tempo. É quando os jovens morrem que os sinos choram gotas de sangue.

— Mas os velhos amam a vida? — disse ele; pois era doce ouvi-la falar.

Ela se ergueu sobre o cotovelo.

— Amam a vida, não querem morrer — respondeu —, mas que importa? Tiveram seu tempo. Sabiam que a vida do homem são três vintenas e dez; deviam ter feito seus planos de acordo!

— Mas os jovens — disse ela —, os jovens, cortados cruelmente, quando ainda não viram, quando ainda não conheceram — quando ainda não encontraram —, é por eles que os sinos choram sangue. Ouvi pelo toque que era um velho. Quando os velhos morrem — escute o sino! ele ri — “Está certo, está certo; ele teve seu tempo.” Não podem tocar assim para os jovens.

Ela caiu para trás, exausta; a luz quente morreu de seus olhos, e ficou olhando para a rua. Aos poucos, retardatários do funeral começaram a voltar e a desaparecer aqui e ali entre as casas; então tudo ficou quieto, e a noite começou a assentar-se sobre a rua da vila. Mais tarde, quando o quarto estava quase escuro, de modo que não podiam ver o rosto um do outro, ela disse: “Vai chover esta noite”; e moveu-se inquieta sobre os travesseiros. “Como é terrível quando a chuva cai sobre a gente.”

Ele se perguntou o que ela queria dizer, e ficaram sentados no quarto que escurecia em silêncio. Ela se moveu de novo.

— Daqui a pouco você vai pegar meu manto — o manto novo, cinza, atrás da porta — e sair com ele. Encontrará uma pequena sepultura ao pé do eucalipto alto; a água pinga das folhas longas e pontudas; você deve cobri-la com isso.

Ela se moveu inquieta, como se sofresse dor.

Gregory assentiu, e houve novamente silêncio. Era a primeira vez que ela falava de seu filho.

— Era tão pequeno — disse ela —; viveu tão pouco tempo — só três horas. Deitaram-no junto de mim, mas nunca o vi; eu podia senti-lo ao meu lado. — Esperou. — Seus pés eram tão frios; tomei-os na mão para aquecê-los, e minha mão se fechava inteira sobre eles, de tão pequenos que eram. — Havia um tremor desigual na voz.

— Ele se aninhava junto de mim; queria beber, queria ficar aquecido. — Ela se endureceu. — Eu não o amava; seu pai não era meu príncipe; eu não me importava com ele; mas era tão pequeno. — Moveu a mão. — Podiam tê-lo beijado, algum deles, antes de o colocarem lá. Ele nunca fez mal a ninguém em toda a sua vidinha. Podiam tê-lo beijado, algum deles.

Gregory sentiu que alguém soluçava no quarto.

Mais tarde, à noite, quando a veneziana estava fechada e a lâmpada acesa, e as gotas de chuva batiam no telhado, ele pegou o manto atrás da porta e saiu com ele. No caminho de volta, passou pelo correio da vila e trouxe uma carta. No saguão ficou lendo o endereço. Como poderia deixar de reconhecer a mão que o escrevera? Não estudara ele havia muito aqueles caracteres em fragmentos de papel rasgado no velho salão? Uma dor ardente estava no coração de Gregory.

Se agora, agora no fim, viesse alguém, desse um passo entre eles! Levou a carta ao quarto e a entregou a ela.

— Traga-me a lâmpada para mais perto — disse ela.

Depois de lê-la, pediu a escrivaninha.

Então Gregory sentou-se à luz da lâmpada do outro lado da cortina, e ouviu o lápis mover-se sobre o papel. Quando olhou ao redor da cortina, ela jazia no travesseiro, meditando. A carta aberta estava a seu lado; ela a olhava com olhos suaves. O homem de pálpebras lânguidas devia estar estranhamente comovido antes que sua mão registrasse aquelas palavras:

“Deixe-me voltar para você! Minha querida, deixe-me pôr minha mão ao seu redor e guardá-la de todo o mundo. Como minha esposa, eles jamais a tocarão. Aprendi a amá-la de modo mais sábio, mais terno que outrora; você terá liberdade perfeita. Lyndall, grande pequenina mulher, por seu próprio bem, seja minha esposa!

“Por que me devolveu aquele dinheiro? Você é cruel comigo; isso não está certo.”

Ela rolou suavemente o pequeno lápis vermelho entre os dedos, e seu rosto tornou-se muito doce. No entanto:

“Não pode ser”, escreveu. “Agradeço-lhe muito o amor que me demonstrou; mas não posso escutar. Você me chamará de louca, de tola — o mundo faria o mesmo; mas sei do que preciso e do tipo de caminho que devo trilhar. Não posso casar com você. Sempre o amarei por causa do que jazeu junto de mim aquelas três horas; mas aí termina. Preciso saber e ver; não posso estar presa a alguém que amo como amo você. Não tenho medo do mundo — lutarei contra o mundo.

“Um dia — talvez esteja longe — encontrarei aquilo que desejei por toda a minha vida; algo mais nobre, mais forte que eu, diante do qual possa ajoelhar-me. Você nada perde por não me ter agora; sou uma mulher fraca, egoísta, errante. Um dia encontrarei algo para adorar, e então serei —”

— Enfermeira — disse ela —, leve minha escrivaninha; de repente estou com tanto sono; escreverei mais amanhã.

Virou o rosto para o travesseiro; era a súbita sonolência de grande fraqueza. Adormecera num instante, e Gregory moveu a escrivaninha sem ruído; depois sentou-se na cadeira, vigiando. Hora após hora passou, mas ele não tinha desejo de repouso, e ficou ali, ouvindo a chuva cessar e a noite silenciosa assentar-se por toda parte.

À meia-noite e quinze, levantou-se e lançou um último olhar à cama onde ela dormia tão pacificamente; então se voltou para ir ao seu leito. Antes de alcançar a porta, ela se erguera de súbito e o chamava de volta.

— Você tem certeza de que a prendeu? — disse, com um olhar de terror vazio para a janela. — Ela não se abrirá de noite, a veneziana — tem certeza?

Ele a confortou. Sim, estava bem presa.

— Mesmo se estiver fechada — disse ela, num sussurro —, você não pode mantê-la fora! A gente a sente entrando às quatro horas, rastejando, rastejando, subindo, subindo; mortalmente fria! — Ela estremeceu.

Ele pensou que ela divagava e deitou o corpinho trêmulo entre os cobertores.

— Sonhei agora que ela não estava presa — disse, olhando nos olhos dele —; e ela entrou rastejando, e eu estava sozinha com ela.

— O que você teme? — perguntou ele, ternamente.

— A Aurora Cinzenta — disse ela, lançando um olhar em volta para a janela. — Nunca tive medo de nada, nunca, quando era criança; mas sempre tive medo disso. Você não deixará que ela entre?

— Não, não; ficarei com você — continuou ele.

Mas ela estava ficando mais calma.

— Não, você deve ir dormir. Deve estar cansado. Sou infantil, é tudo — mas estremeceu outra vez.

Ele se sentou ao lado dela; depois de algum tempo, ela disse:

— Você não esfregaria meus pés?

Ele se ajoelhou ao pé da cama e tomou o pezinho na mão; estava inchado e feio agora, mas, ao tocá-lo, curvou-se e o cobriu de beijos.

— Fica melhor quando você o beija; obrigada. O que faz todos vocês me amarem tanto? — Então, sonhadoramente, murmurou consigo mesma: — Não inteiramente má, não de todo má — o que faz todos eles me amarem tanto?

Ajoelhado ali, esfregando suavemente, com a face encostada ao pezinho, Gregory adormeceu por fim. Quanto tempo ficou de joelhos, não soube dizer; mas, quando despertou sobressaltado, ela não olhava para ele. Os olhos estavam fixos no canto distante, arregalados e atentos, com uma luz não terrena.

Ele olhou em volta, temeroso. O que ela via ali? Os anjos de Deus vindos chamá-la? Algo terrível? Ele viu apenas a cortina púrpura e as sombras que dela caíam. Suavemente sussurrou, perguntando o que ela via ali.

E ela disse, numa voz estranhamente diferente da sua:

— Vejo a visão de uma pobre alma fraca lutando pelo bem. Ela não foi cortada, e no fim aprendeu, por lágrimas e muita dor, que a santidade é uma compaixão infinita pelos outros; que a grandeza é tomar as coisas comuns da vida e caminhar verdadeiramente entre elas; que — — moveu a mão branca e a pousou na testa — a felicidade é um grande amor e muito servir. Ela não foi cortada; e amou o que aprendeu — amou — e —

Era isso tudo o que via no canto?

Gregory disse à dona da casa na manhã seguinte que ela delirara a noite inteira. Contudo, quando entrou para lhe dar o café da manhã, ela estava sentada contra os travesseiros, com uma expressão que ele nunca a vira ter.

— Ponha perto de mim — disse —, e depois que eu tomar café vou me vestir.

Ela terminou ansiosamente tudo quanto ele trouxera.

— Estou sentada sozinha — disse. — Dê-me a carne dele.

E alimentou ela mesma o cão, cortando-lhe a comida em pedaços pequenos. Moveu-se para a beira da cama.

— Agora traga a cadeira para perto e vista-me. É ficar tanto tempo neste quarto, olhando aquele miserável pedacinho de sol que entra pela veneziana, que me está deixando tão doente. Sempre aquela pata de leão! — disse, com um olhar de repugnância para ela. — Venha me vestir.

Gregory ajoelhou-se no chão diante dela e tentou puxar uma meia, mas o pezinho inchado recusava ser coberto.

— É muito engraçado que eu tenha engordado tanto desde que fiquei tão doente — disse, olhando para baixo com curiosidade. — Talvez seja falta de exercício.

Pareceu inquieta e disse outra vez:

— Talvez seja falta de exercício.

Queria que Gregory dissesse isso também. Mas ele apenas encontrou um par maior; e então tentou forçar os sapatos, ah, tão ternamente, nos pezinhos dela.

— Pronto — disse ela, olhando para eles quando estavam calçados, com o deleite de uma criancinha diante dos primeiros sapatos —, agora eu poderia andar longe. Como fica bonito!

— Não — disse, vendo o vestido macio que ele preparara para ela —, não vou vestir isso. Pegue um dos meus vestidos brancos — aquele com os laços cor-de-rosa. Não quero sequer pensar que estive doente. É pensar e pensar nas coisas que as torna reais — disse. — Quando a gente reúne a mente e resolve que uma coisa não será, ela cede diante de nós; não é. Tudo é possível quando se está resolvido — disse.

Contraiu seus pequenos lábios, e Gregory obedeceu; ela estava tão pequena e leve agora que era como vestir uma bonequinha. Ele a teria erguido da cama ao terminar, mas ela o afastou, rindo muito suavemente. Era a primeira vez que ria naqueles longos e tristes meses.

— Não, não; posso descer sozinha — disse, escorregando cautelosamente para o chão. — Está vendo! — Lançou um olhar desafiante de triunfo quando ficou de pé. — Levante bem a cortina, quero olhar para mim.

Ele a ergueu e ficou segurando-a. Ela olhou para o espelho na parede oposta.

Que pequena figura régia em rosa e branco. Que rostinho transparente, refinado pelo sofrimento até uma beleza quase angélica. O rosto olhou para ela; ela olhou de volta, rindo suavemente. Doss, tremendo de excitação, corria ao redor dela, latindo. Ela deu um passo em direção à porta, equilibrando-se com as mãos estendidas.

— Estou quase lá — disse.

Então tateou às cegas.

— Oh, não consigo ver! Não consigo ver! Onde estou? — gritou.

Quando Gregory a alcançou, ela havia caído com o rosto contra o pé afiado do guarda-roupa e cortara a testa. Muito ternamente ele ergueu aquele pequeno monte esmagado de musselina e fitas e o deitou na cama. Doss subiu e ficou sentado olhando para baixo. Muito suavemente as mãos de Gregory a despiram.

— Amanhã você estará mais forte, e então tentaremos outra vez — disse ele, mas ela não olhou para ele nem se moveu.

Quando a despiu e a deitou na cama, Doss estendeu-se atravessado sobre seus pés e gemeu baixinho.

Assim ela ficou toda aquela manhã e toda aquela tarde.

De novo e de novo Gregory se arrastou para perto da cama e olhou para ela; mas ela não lhe falou. Era estupor ou sono o que brilhava sob aquelas pálpebras semicerradas? Gregory não podia dizer.

Por fim, à tarde, curvou-se sobre ela.

— Os bois chegaram — disse. — Podemos partir amanhã se quiser. Devo aprontar a carroça esta noite?

Repetiu duas vezes a pergunta. Então ela olhou para ele, e Gregory viu que toda esperança morrera nos belos olhos. Não era estupor que brilhava ali; era desespero.

— Sim, vamos — disse ela.

— Ficar ou ir não faz diferença — disse o médico. — Está perto agora.

Assim, no dia seguinte, Gregory carregou-a em seus braços até a carroça que estava atrelada diante da porta. Ao deitá-la no kartel, ela olhou para longe, através da planície. Pela primeira vez naquele dia, falou.

— Aquela montanha azul, lá longe; vamos parar quando chegarmos a ela, não antes.

Fechou os olhos de novo. Ele puxou as lonas à frente e atrás, e a carroça rolou lentamente. A dona da casa e os negros ficaram a vê-la do stoep.

Muito silenciosamente, a grande carroça rolou pela planície coberta de capim. O condutor no assento da frente não estalou o chicote nem chamou seus bois, e Gregory sentava-se ao lado dele de braços cruzados. Atrás deles, na carroça fechada, ela jazia com o cão a seus pés, muito quieta, de mãos cruzadas. Ele, Gregory, não ousava ficar ali dentro. Como Agar, quando pousou seu tesouro no deserto, sentou-se de longe: — “Pois Agar disse: Que eu não veja morrer o menino.”

Veio a noite, e ainda não haviam alcançado a montanha azul; e durante todo o dia seguinte seguiram lentamente, mas ela ainda estava longe. Só à tarde chegaram a ela; não azul agora, mas baixa e marrom, coberta de longas gramíneas ondulantes e pedras ásperas. Encostaram a carroça a seu pé para passar a noite. Era um lugar abrigado e quente.

Quando a noite escura chegou, quando os bois cansados foram amarrados às rodas, e o condutor e o guia se enrolaram em seus cobertores diante do fogo e adormeceram, então Gregory prendeu firmemente as lonas da carroça. Fixou uma vela comprida perto da cabeceira da cama e deitou-se no chão da carroça, perto da parte de trás.

Apoiou a cabeça contra o kartel e escutou os bois cansados mastigando, e o crepitar do fogo, até que, dominado pelo cansaço, caiu num sono pesado. Então tudo ficou muito quieto na carroça. O cão dormia sobre os pés de sua dona, e apenas dois mosquitos, entrando por uma abertura na lona da frente, zumbiam tristemente ao redor.

A noite envelhecera muito quando, de um longo e pacífico sono, Lyndall acordou. A vela ardia à sua cabeceira, o cão jazia sobre seus pés; mas ele tremia; era como se uma friagem subisse até ele do lugar onde repousava. Ela jazia de mãos cruzadas, olhando para cima; e ouviu os bois mastigarem, e viu os dois mosquitos zumbirem tristemente em círculos, e seus pensamentos — seus pensamentos correram longe, de volta ao passado.

Durante aqueles meses de angústia, uma névoa repousara sobre sua mente; agora ela se enrolara para longe, e o velho intelecto claro despertou de seu longo torpor. Olhou para trás, para o passado, viu o presente; agora não havia futuro. A velha alma forte reuniu-se pela última vez; sabia onde estava.

Erguendo-se lentamente sobre o cotovelo, tirou da lona um espelho que ali pendia preso por alfinete. Seus dedos estavam rígidos e frios. Pôs o travesseiro sobre o peito e encostou o espelho nele. Então o rosto branco sobre o travesseiro olhou para o rosto branco no espelho. Muitas vezes haviam olhado assim um para o outro.

Fora um rosto de criança, certa vez, olhando acima de seu avental azul; fora um rosto de mulher, com uma sombra indistinta nos olhos, e algo que dizia: “Não temos medo, você e eu; estamos juntas; lutaremos, você e eu.” Agora, naquela noite, chegara a isto.

Os olhos moribundos no travesseiro olharam para os olhos moribundos no espelho; sabiam que sua hora chegara. Ela ergueu uma mão e apertou os dedos rígidos contra o vidro. Ficavam muito rígidos. Tentou falar com ele, mas nunca mais falaria. Só a maravilhosa luz de anseio ainda estava nos olhos. O corpo estava morto agora, mas a alma, clara e sem nuvens, olhava para fora.

Então, devagar, sem som, os belos olhos se fecharam. O rosto morto que o espelho refletia era uma coisa de maravilhosa beleza e tranquilidade. A Aurora Cinzenta entrou rastejando sobre ele e o viu ali deitado.

Teria ela encontrado o que buscava — algo para adorar? Teria cessado de ser? Quem nos dirá? Há um véu de terrível névoa sobre o rosto do Além.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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