Universo da obra
Universo da obra
Por fim chegou o ano da grande seca, o ano de mil oitocentos e sessenta e dois. De uma extremidade à outra da terra, o chão clamava por água. Homem e animal erguiam os olhos para o céu impiedoso que, como o teto de algum forno de bronze, arqueava-se acima. Na fazenda, dia após dia, mês após mês, a água dos açudes baixava mais e mais; as ovelhas morriam nos campos; o gado, mal capaz de rastejar, cambaleava de um ponto a outro em busca de alimento.
Semana após semana, mês após mês, o sol olhou para baixo a partir do céu sem nuvens, até que os arbustos do karoo fossem gravetos sem folhas, quebrados dentro da terra, e a própria terra ficasse nua e despojada; e somente os arbustos-leiteiros, como velhas bruxas, apontavam seus dedos enrugados para o céu, rezando pela chuva que nunca vinha.
Foi numa tarde de um longo dia daquele verão sedento que, no lado do kopje mais distante da casa, as duas meninas se sentaram. Tinham crescido um pouco desde os dias em que brincavam ali de esconde-esconde, mas ainda eram simples crianças. Suas roupas eram de tecido escuro e grosseiro; os aventais azuis comuns chegavam-lhes aos tornozelos, e nos pés usavam velschoens feitos em casa.
Sentaram-se sob uma pedra saliente, sobre cuja superfície ainda eram visíveis algumas antigas pinturas bosquímanas, seus pigmentos vermelhos e negros preservados durante longos anos do vento e da chuva pelo beiral de rocha que se projetava; bois grotescos, elefantes, rinocerontes e um animal de um só chifre, como nenhum homem jamais viu ou jamais verá. As meninas sentavam-se de costas para as pinturas. No colo tinham algumas folhas de samambaia e de planta-de-gelo, que, à força de muita procura, haviam recolhido sob as rochas.
Em tirou o grande kapje marrom e começou a abanar vigorosamente com ele o rosto vermelho; mas sua companheira inclinou-se sobre as folhas no colo e, por fim, pegou uma folha de planta-de-gelo e prendeu-a com um alfinete à frente do avental azul.
— Diamantes devem ser parecidos com estas gotas — disse ela, curvando-se cuidadosamente sobre a folha e esmagando uma gota cristalina com a delicada unha pequena. — Quando eu crescer — disse —, vou usar diamantes de verdade nos cabelos, exatamente iguais a estes.
A companheira abriu os olhos e franziu a testa baixa.
— Onde vai encontrá-los, Lyndall? As pedras são apenas cristais que apanhamos ontem. O velho Otto diz isso.
— E você acha que eu vou ficar aqui para sempre?
O lábio tremeu de desprezo.
— Ah, não — disse a companheira. — Suponho que algum dia iremos a algum lugar; mas agora temos apenas doze anos, e não podemos casar antes dos dezessete. Quatro anos, cinco — é muito tempo para esperar. E talvez não tivéssemos diamantes mesmo se casássemos.
— E você acha que eu vou ficar aqui até lá?
— Bem, para onde você vai? — perguntou a companheira.
A menina esmagou uma folha de planta-de-gelo entre os dedos.
— Tant Sannie é uma velha miserável — disse. — Seu pai casou-se com ela quando estava morrendo porque pensou que ela cuidaria melhor da fazenda, e de nós, do que uma inglesa. Ele disse que devíamos ser ensinadas e mandadas para a escola. Agora ela economiza cada tostão para si mesma, não compra para nós nem um livro velho. Ela não nos maltrata — por quê? Porque tem medo do fantasma de seu pai. Ainda esta manhã disse à hotentote dela que teria batido em você por quebrar o prato, se três noites atrás não tivesse ouvido um roçar e um grunhido atrás da porta da despensa, e soubesse que era seu pai vindo assombrá-la.
— Ela é uma velha miserável — disse a menina, atirando a folha para longe —, mas eu pretendo ir à escola.
— E se ela não deixar?
— Eu a farei deixar.
— Como?
A criança não deu a menor atenção à última pergunta e cruzou os pequenos braços sobre os joelhos.
— Mas por que você quer ir, Lyndall?
— Nada ajuda neste mundo — disse a criança lentamente — senão ser muito sábia, e saber tudo... ser inteligente.
— Mas eu não gostaria de ir à escola! — insistiu o rostinho sardento.
— E você não precisa. Quando tiver dezessete anos, essa mulher bôer irá embora; você terá esta fazenda e tudo que há nela como seu. Mas eu — disse Lyndall — não terei nada. Preciso aprender.
— Oh, Lyndall! Eu lhe darei algumas das minhas ovelhas — disse Em, com uma súbita explosão de generosidade compassiva.
— Não quero suas ovelhas — disse a menina lentamente; — quero coisas minhas. Quando eu crescer — acrescentou, o rubor nos traços delicados aprofundando-se a cada palavra —, não haverá nada que eu não saiba. Serei rica, muito rica; e usarei, não apenas em dias especiais, mas todos os dias, seda branca pura, e pequenos botões de rosa, como a senhora no quarto de Tant Sannie, e minhas saias de baixo serão bordadas, não apenas na barra, mas por inteiro.
A senhora no quarto de Tant Sannie era uma criatura esplêndida de uma folha de moda, que a mulher bôer, tendo obtido em algum lugar, colara aos pés da cama para profunda admiração das crianças.
— Seria muito bonito — disse Em; mas parecia um sonho de glória demasiado transcendente para jamais se realizar.
Nesse instante apareceram ao pé do kopje duas figuras — uma delas, um cão, branco e lustroso, com uma orelha amarela caída sobre o olho esquerdo; a outra, seu dono, um rapaz de catorze anos, e ninguém menos que o menino Waldo, crescido num jovem pesado e desajeitado de catorze anos. O cão subiu o kopje rapidamente; seu dono seguiu devagar. Usava uma jaqueta velha, grande demais para ele, enrolada nos punhos, e, como antes, um par de velschoens arruinados e um chapéu de feltro. Por fim, parou diante das duas meninas.
— O que vocês fizeram hoje? — perguntou Lyndall, erguendo os olhos para o rosto dele.
— Cuidei das ovelhas e dos cordeiros abaixo do açude. Aqui! — disse ele, estendendo a mão sem jeito. — Trouxe para você.
Havia algumas lâminas verdes de capim tenro.
— Onde encontrou?
— No muro do açude.
Ela as prendeu ao lado da folha em seu avental azul.
— Ficam bonitas aí — disse o menino, esfregando sem jeito as grandes mãos e observando-a.
— Sim; mas o avental estraga tudo; não é bonito.
Ele olhou bem para ele.
— Sim, os quadrados são feios; mas fica bonito em você... lindo.
Então ficou calado diante delas, as grandes mãos pendendo frouxas dos lados.
— Alguém chegou hoje — resmungou de repente, quando a ideia lhe veio.
— Quem? — perguntaram as duas meninas.
— Um inglês a pé.
— Como ele é? — perguntou Em.
— Não reparei; mas tem um nariz muito grande — disse o menino lentamente.
— Ele perguntou o caminho para a casa.
— Não lhe disse o nome?
— Sim: Bonaparte Blenkins.
— Bonaparte! — disse Em. — Ora, isso é como aquela contradança que o hotentote Hans toca no violino:
“Bonaparte, Bonaparte, minha mulher está doente; No meio da semana, mas domingo não, dou-lhe arroz e feijão em caldo” —
É um nome engraçado.
— Houve um homem vivo chamado Bonaparte, certa vez — disse a de grandes olhos.
— Ah, sim, eu sei — disse Em —, o pobre profeta que os leões comeram. Sempre sinto tanta pena dele.
A companheira lançou-lhe um olhar quieto.
— Ele foi o maior homem que já viveu — disse —, o homem de quem mais gosto.
— E o que ele fez? — perguntou Em, consciente de que cometera um engano e de que seu profeta não era aquele homem.
— Ele era um homem só, apenas um — disse lentamente sua pequena companheira —, e ainda assim todas as pessoas do mundo o temiam. Não nasceu grande, era comum como nós; e, no fim, foi senhor do mundo. Primeiro era apenas uma criancinha; depois, tenente; depois, general; depois, imperador. Quando dizia uma coisa a si mesmo, nunca a esquecia. Esperava, esperava e esperava, e ela vinha afinal.
— Deve ter sido muito feliz — disse Em.
— Não sei — disse Lyndall —; mas teve o que disse que teria, e isso é melhor do que ser feliz. Era senhor deles, e todas as pessoas ficavam brancas de medo dele. Juntaram-se para combatê-lo. Ele era um, e eles eram muitos, e afinal o derrubaram. Eram como gatos selvagens quando seus dentes se prendem num grande cão, como gatos selvagens covardes — disse a criança —, não o soltavam. Eram muitos; ele era apenas um. Mandaram-no para uma ilha no mar, uma ilha solitária, e ali o mantiveram preso. Era um homem só, e eles eram muitos, e tinham pavor dele. Foi glorioso! — disse a criança.
— E depois? — disse Em.
— Depois ele ficou sozinho naquela ilha, com homens sempre vigiando — disse a companheira, lenta e quietamente. — E, nas longas noites solitárias, costumava ficar acordado pensando nas coisas que fizera nos velhos tempos, e nas coisas que faria se o deixassem sair de novo. De dia, quando caminhava perto da praia, parecia-lhe que o mar ao redor era uma corrente fria em torno de seu corpo, apertando-o até a morte.
— E depois? — disse Em, muito interessada.
— Ele morreu lá naquela ilha; nunca escapou.
— É uma história bastante bonita — disse Em —, mas o fim é triste.
— É um fim terrível, odioso — disse a pequena narradora, inclinando-se para a frente sobre os braços cruzados —; e o pior é que é verdade. Tenho observado — acrescentou a criança, com muita deliberação — que só as histórias inventadas acabam bem; as verdadeiras acabam todas assim.
Enquanto ela falava, os olhos escuros e pesados do menino repousavam em seu rosto.
— Você leu isso, não leu?
Ele assentiu.
— Sim; mas a História de Brown conta apenas o que ele fez, não o que pensou.
— Foi na História de Brown que li sobre ele — disse a menina —; mas eu sei o que ele pensou. Os livros não contam tudo.
— Não — disse o menino, aproximando-se lentamente dela e sentando-se a seus pés. — O que a gente quer saber, eles nunca contam.
Então as crianças caíram em silêncio, até que Doss, o cão, inquieto com a duração dele, farejou um e outro, e seu dono irrompeu de repente:
— Se eles pudessem falar, se pudessem nos contar agora! — disse, movendo a mão sobre os objetos ao redor. — Então saberíamos alguma coisa. Este kopje, se pudesse nos contar como veio parar aqui! A Geografia Física diz — prosseguiu, muito depressa e confusamente — que as terras que agora são secas foram outrora lagos; e o que eu penso é isto: estas colinas baixas foram um dia as margens de um lago; este kopje é parte das pedras que estavam no fundo, reunidas pela água. Mas há isto: como a água veio a fazer um só monte aqui, sozinho, no centro da planície?
Era uma pergunta ponderosa; ninguém ofereceu resposta.
— Quando eu era pequeno — disse o menino —, sempre olhava para ele e me perguntava, e pensava que um grande gigante estava enterrado embaixo. Agora sei que a água deve ter feito isso; mas como? É muito maravilhoso. Será que uma pedrinha veio primeiro e deteve as outras enquanto rolavam? — disse o menino com seriedade, em voz baixa, mais como se falasse consigo mesmo do que com elas.
— Oh, Waldo, Deus pôs o pequeno kopje aqui — disse Em com solenidade.
— Mas como ele o pôs aqui?
— Querendo.
— Mas como o querer o trouxe para cá?
— Porque trouxe.
As últimas palavras foram proferidas com o ar de quem apresenta um argumento decisivo. Que efeito teve sobre o questionador não ficou evidente, pois ele não respondeu e se voltou para outro lado.
Aproximando-se mais dos pés de Lyndall, disse depois de algum tempo, em voz baixa:
— Lyndall, nunca lhe pareceu que as pedras falavam com você? Às vezes — acrescentou em tom ainda mais baixo —, fico deitado ali embaixo com minhas ovelhas, e parece que as pedras estão realmente falando — falando das coisas antigas, do tempo em que viviam os peixes e animais estranhos que agora viraram pedra, e os lagos estavam aqui; e depois do tempo em que os pequenos bosquímanos viviam aqui, tão pequenos e tão feios, e dormiam nos buracos dos cães-selvagens e nos sloots, e comiam cobras, e atiravam nos antílopes com suas flechas envenenadas. Foi um deles, um desses velhos bosquímanos selvagens, que pintou aquelas coisas — disse o menino, indicando as pinturas com a cabeça —, um que era diferente dos outros. Ele não sabia por quê, mas queria fazer algo belo — queria fazer alguma coisa, então fez estas. Trabalhou duro, muito duro, para encontrar o sumo com que fazer a tinta; e então encontrou este lugar onde as rochas pendem por cima, e as pintou. Para nós, são apenas coisas estranhas, que nos fazem rir; mas para ele eram muito belas.
As crianças haviam se virado e olhado para as pinturas.
— Ele costumava ajoelhar-se aqui nu, pintando, pintando, pintando; e maravilhava-se com as coisas que ele próprio fazia — disse o menino, levantando-se e movendo a mão em profunda excitação. — Agora os bôeres os mataram todos a tiros, de modo que nunca vemos uma carinha amarela espiando entre as pedras.
Calou-se, uma expressão sonhadora tomando-lhe o rosto.
— E os antílopes selvagens se foram, e aqueles dias também, e nós estamos aqui. Mas logo também teremos ido, e só as pedras continuarão deitadas aqui, olhando para tudo como olham agora. Sei que sou eu quem está pensando — acrescentou o rapaz lentamente —, mas parece que são elas que estão falando. Nunca lhe pareceu assim, Lyndall?
— Não, nunca me parece assim — respondeu ela.
O sol mergulhara agora atrás das colinas, e o menino, lembrando-se de repente das ovelhas e dos cordeiros, pôs-se de pé num salto.
— Vamos também para casa ver quem chegou — disse Em, enquanto o menino se arrastava para longe a fim de juntar-se ao rebanho, e Doss corria atrás dele, mordiscando as pontas das calças rasgadas que tremulavam ao vento.
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Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.
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