Universo da obra
Universo da obra
— Aqui — disse Tant Sannie à sua criada khoikhoi —, estou nesta casa há quatro anos e nunca subi ao sótão. Mulheres mais gordas que eu sobem escadas; hoje vou subir e ver como é lá em cima, e pôr tudo em ordem. Traga a escadinha e fique embaixo.
— Há quem sentiria muito se a senhora caísse — disse a criada khoikhoi, lançando um olhar enviesado para o cachimbo de Bonaparte, que jazia sobre a mesa.
— Cale a boca, desavergonhada — disse a patroa, tentando esconder um sorriso satisfeito —, e vá buscar a escada.
Havia uma portinhola nunca usada numa extremidade da sala de estar: a criada khoikhoi empurrou-a para abrir e, encostando a escada a ela, a mulher bôer, com algum perigo e dificuldade, subiu ao sótão. Depois a criada khoikhoi levou embora a escada, pois seu marido estava consertando a cocheira dos vagões e precisava dela; mas a portinhola ficou aberta.
Por algum tempo, Tant Sannie remexeu entre garrafas vazias e peles, e olhou para o saco de pêssegos que supostamente Waldo apreciara tanto; depois sentou-se perto da portinhola, ao lado de um barril de carneiro salgado. Achou que os pedaços de carne eram grandes demais e tirou seu canivete para dividi-los.
Era sempre assim quando se deixavam as coisas por conta de criados, resmungou consigo mesma; mas, quando afinal estivesse casada com seu marido Bonaparte, não importaria se uma ovelha estragasse ou não — quando afinal a tia rica dele, a hidrópica, estivesse morta. Sorriu enquanto enfiava a mão na salmoura.
Nesse instante, a sobrinha entrou no cômodo abaixo, seguida de perto por Bonaparte, com a cabeça inclinada para um lado, sorrindo de modo enjoativo. Se Tant Sannie tivesse falado naquele momento, a vida de Bonaparte Blenkins teria seguido curso inteiramente diverso; como estava, permaneceu calada, e nenhum dos dois notou a portinhola aberta sobre suas cabeças.
— Sente-se ali, meu amor — disse Bonaparte, indicando a Trana a cadeira de braços da tia, e puxando outra bem para perto, diante dela, na qual se sentou. — Aí, ponha também os pés sobre o fogão. Sua tia saiu para algum lugar. Há muito espero este acontecimento auspicioso!
Trana, que não entendia uma palavra de inglês, sentou-se na cadeira e se perguntou se aquele seria um dos estranhos costumes de outras terras: que um velho cavalheiro aproximasse a cadeira da sua e se sentasse com os joelhos tocando nos seus. Estivera cinco dias na companhia de Bonaparte, e temia o velho, e não gostava de seu nariz.
— Há quanto tempo desejo este momento! — disse Bonaparte. — Mas essa tua idosa parente está sempre lançando sua sombra profana sobre nós. Olhe em meus olhos, Trana.
Bonaparte sabia que ela não compreendia uma sílaba; mas entendia que é o olho, o tom, a ação, e de modo algum a palavra racional, que toca as cordas do amor. Viu que ela mudou de cor.
— A noite inteira — disse Bonaparte — fico acordado; nada vejo senão teu semblante angélico. Abro os braços para receber-te — onde estás, onde? Tu não estás ali! — disse Bonaparte, ajustando a ação às palavras, abrindo os braços e trazendo-os ao peito.
— Oh, por favor, não entendo — disse Trana —, quero ir embora.
— Sim, sim — disse Bonaparte, recostando-se na cadeira, para grande alívio dela, e comprimindo as mãos sobre o coração —, desde que teu semblante ametistino se imprimiu aqui... o que não sofri, o que não senti? Oh, os suplícios indizíveis, ardendo como carvão vivo num peito ígneo e imaculado! — disse Bonaparte, inclinando-se novamente para a frente.
— Querido Senhor! — disse Trana consigo mesma. — Como fui tola! O velho está com dor no estômago e agora, como minha tia saiu, veio me pedir ajuda.
Sorriu bondosamente para Bonaparte e, passando por ele, foi ao quarto, voltando rapidamente com uma garrafa de gotas vermelhas na mão.
— São muito boas para benauwdheid; minha mãe sempre bebe — disse, estendendo-lhe a garrafa.
O rosto na portinhola estava de um vermelho de fogo. Como um gato-do-mato pronto a saltar. Tant Sannie agachou-se, com a peça de carneiro na mão. Bem debaixo dela estava Bonaparte. Ela se levantou e agarrou com os dois braços o barril de carne salgada.
— Como, rosa do deserto, rouxinol da colônia, que com teu canto amoroso recreias a noite solitária! — gritou Bonaparte, agarrando a mão que segurava o vonlicsense. — Não, não resistas! Voa como corça ferida para os braços que desejam abraçar-te, tu...
Aqui uma torrente de salmoura fria, pesada de costelas e espáduas, descendo-lhe sobre a cabeça, encerrou abruptamente seu discurso. Meio cego, Bonaparte olhou para cima através das gotas que pendiam de suas pálpebras e viu o rosto vermelho que o fitava de cima. Com um grito selvagem, fugiu. Ao passar pela porta da frente, uma espádua de carneiro, bem dirigida, atingiu o casaco preto na parte baixa das costas.
— Traga a escada! Traga a escada! Vou atrás dele! — gritou a mulher bôer, enquanto Bonaparte Blenkins fugia desvairado pelos campos.
Mais tarde, à noite, naquele mesmo dia, Waldo ajoelhava-se no chão de sua cabana. Banhava o pé de seu cão, perfurado por um espinho. Os vergões em suas próprias costas haviam tido cinco dias para sarar, e, exceto por certa rigidez nos movimentos, nada havia de notável no menino.
Os sofrimentos dos jovens logo passam; não deixam marca exterior. Se ferimos uma árvore em sua juventude, a casca depressa cobrirá o talho; mas, quando a árvore estiver muito velha, arrancando-se a casca e olhando com cuidado, veremos a cicatriz ainda ali. Nem tudo o que está enterrado está morto.
Waldo derramou o leite morno sobre a pequena pata inchada; Doss jazia muito quieto, com lágrimas nos olhos. Então houve uma batida à porta. Num instante Doss pareceu bem desperto e piscou para expulsar as lágrimas entre as pequenas pálpebras.
— Entre — disse Waldo, concentrado no trabalho; e a porta se abriu lenta e cautelosamente.
— Boa noite, Waldo, meu rapaz — disse Bonaparte Blenkins em voz branda, sem se aventurar a pôr mais que o nariz dentro da porta. — Como está esta noite?
Doss rosnou, mostrou os dentinhos e tentou levantar-se, mas a pata doeu tanto que ele choramingou.
— Estou muito cansado, Waldo, meu rapaz — disse Bonaparte, queixoso.
Doss mostrou de novo os dentinhos brancos. Seu dono continuou o trabalho sem se virar. Há pessoas para cujas mãos é melhor não olhar. Por fim ele disse:
— Entre.
Bonaparte avançou cautelosamente alguns passos no quarto e deixou a porta aberta atrás de si. Olhou para a ceia do menino sobre a mesa.
— Waldo, não comi nada o dia inteiro... estou com muita fome — disse.
— Coma — disse Waldo depois de um momento, inclinando-se ainda mais sobre o cão.
— Você não vai contar a ela que estou aqui, vai, Waldo? — disse Bonaparte, muito inquieto. — Ouviu como ela me tratou, Waldo? Fui maltratado; você mesmo saberá um dia o que é não poder manter uma pequena conversa com uma dama sem que lhe atirem carne salgada e salmoura. Waldo, olhe para mim; estou com a aparência que um cavalheiro deve ter?
Mas o menino nem ergueu os olhos nem respondeu, e Bonaparte ficou mais inquieto.
— Você não iria contar a ela que estou aqui, iria? — disse Bonaparte, choramingando. — Não se sabe o que ela faria comigo. Tenho tanta confiança em você, Waldo; sempre o considerei um rapaz tão promissor, embora talvez você não soubesse, Waldo.
— Coma — disse o menino. — Não direi nada.
Bonaparte, que reconhecia a verdade quando outro a dizia, fechou a porta, pondo cuidadosamente a tranqueta. Depois verificou se a cortina da janela estava bem cerrada e sentou-se à mesa. Logo mastigava a carne fria e o pão. Waldo permanecia ajoelhado no chão, banhando a pata com mãos que o cão lambia amorosamente. Uma vez apenas lançou um olhar para a mesa, e desviou-o depressa.
— Ah, sim! Não me admira que não consiga olhar para mim, Waldo — disse Bonaparte; — minha condição tocaria qualquer coração. Veja, a água estava gordurosa, e isso fez toda a areia grudar em mim; e meu cabelo — disse Bonaparte, tocando ternamente a pequena franja na parte de trás da cabeça — está todo empastado, como uma pequena tábua; você nem pensaria que é cabelo — disse Bonaparte, queixoso. — Tive de rastejar ao longo dos muros de pedra com medo de que ela me visse, e sem nada na cabeça além de um lenço vermelho, amarrado sob o queixo, Waldo; e esconder-me num sloot o dia inteiro, sem uma migalha de comida, Waldo. E ela me deu um golpe tão forte bem aqui — disse Bonaparte.
Ele havia limpado o prato até o último bocado quando Waldo se levantou e caminhou para a porta.
— Oh, Waldo, meu querido rapaz, você não vai chamá-la — disse Bonaparte, levantando-se ansioso.
— Vou dormir no vagão — disse o menino, abrindo a porta.
— Oh, nós dois podemos dormir nesta cama; há bastante espaço. Fique, meu rapaz, por favor.
Mas Waldo saiu.
— Era um chicotinho tão pequeno, Waldo — disse Bonaparte, seguindo-o com ar suplicante. — Não pensei que fosse lhe doer tanto. Era um chicotinho tão pequeno. Tenho certeza de que você não pegou os pêssegos. Você não vai chamá-la, Waldo, vai?
Mas o menino se afastou.
Bonaparte esperou até sua figura desaparecer ao contornar a frente da cocheira dos vagões, e então escorregou para fora. Escondeu-se ao redor da esquina, mas continuou espiando para ver quem vinha. Tinha certeza de que o menino fora chamar Tant Sannie. Seus dentes batiam de frio interior enquanto olhava em torno, na escuridão, e pensava nas cobras que poderiam mordê-lo, nas coisas terríveis que poderiam atacá-lo e nos mortos que poderiam erguer-se de seus túmulos se ele dormisse no campo a noite inteira. Mas passou mais de uma hora e nenhum passo se aproximou.
Então Bonaparte voltou para a cabana. Pôs a tranqueta na porta e encostou a mesa contra ela; e, dando um pontapé no cão para silenciar seu gemido quando a pata latejou, subiu para a cama. Não apagou a luz, por medo do fantasma, mas, exausto pelas dores do dia, logo adormeceu também.
Por volta das quatro horas, Waldo, deitado entre os assentos do vagão de cavalos, foi despertado por um toque leve na cabeça.
Sentando-se, avistou Bonaparte olhando por uma das janelas, com uma vela acesa na mão.
— Estou prestes a partir, meu querido rapaz, antes que meus inimigos se levantem, e não pude ir embora sem vir despedir-me de você — disse Bonaparte.
Waldo olhou para ele.
— Pensarei sempre em você com afeição — disse Bonaparte. — E há aquele seu velho chapéu; se pudesse me deixá-lo como lembrança...
— Pegue — disse Waldo.
— Pensei que você diria isso, por isso o trouxe comigo — disse Bonaparte, pondo-o na cabeça. — Que o Senhor o abençoe, meu querido rapaz. Você não teria alguns xelins... uma ninharia de que não precise... teria?
— Pegue os dois xelins que estão no vaso quebrado.
— Que a bênção de meu Deus repouse sobre você, minha querida criança — disse Bonaparte; — que Ele o guie e abençoe. Dê-me sua mão.
Waldo cruzou firmemente os braços e deitou-se.
— Adeus, adieu! — disse Bonaparte. — Que a bênção de meu Deus e do Deus de meu pai repouse sobre você, agora e para todo o sempre.
Com essas palavras, a cabeça e o nariz retiraram-se, e a luz desapareceu da janela.
Depois de alguns instantes, o menino, deitado no vagão, ouviu passos furtivos enquanto passavam pela cocheira dos vagões e seguiam pela estrada. Escutou-os tornarem-se cada vez mais fracos, até por fim se apagarem de todo; e, desde aquela noite, o passo de Bonaparte Blenkins nunca mais foi ouvido na velha fazenda.
FIM DA Parte I..
Parte II.
“E tudo fora brincadeira, e ninguém podia dizer para que aquilo vivera e trabalhara. Um esforço, e outro esforço, e um fim em nada.”
Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.
Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.
Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.
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