Universo da obra
Universo da obra
Bonaparte estava de pé sobre o monte de cinzas. Avistou, através da planície, uma mancha em movimento, e sacudiu as abas do casaco para cima e para baixo, na expectativa de uma cena.
A carroça vinha lentamente. Waldo jazia encolhido entre os sacos, na parte de trás da carroça, a mão no peito repousando sobre a máquina de tosquiar ovelhas. Estava pronta agora. A ideia certa lhe ocorrera no dia anterior, enquanto se sentava, meio adormecido, vendo a água passar sobre a roda do moinho. Murmurava consigo mesmo, de olhos semicerrados:
— Amanhã alisar as engrenagens — apertar um pouco os parafusos — mostrá-la a eles.
Depois de uma pausa:
— Pelo mundo inteiro — o mundo inteiro — minha, que eu fiz!
Apertava as rodinhas e polias no bolso até que estalassem. Pouco depois, seu murmúrio tornou-se mais alto:
— E cinquenta libras — um chapéu preto para meu papai — para Lyndall uma seda azul, muito clara; e uma roxa como as campânulas-do-chão, e sapatos brancos.
Murmurava ainda:
— Uma caixa cheia, cheia de livros. Eles me contarão tudo, tudo, tudo — acrescentou, movendo os dedos com desejo: — por que os cristais crescem em formas tão belas; por que o raio corre para o ferro; por que as pessoas negras são negras; por que a luz do sol aquece as coisas. Vou ler, ler, ler — murmurou devagar.
Então veio subitamente sobre ele aquilo que chamava “a presença de Deus”; a sensação de alguma coisa boa e forte dobrando-se em torno dele. Sorriu através dos olhos semicerrados.
— Ah, Pai, meu próprio Pai, é tão doce sentir-te, como a luz quente do sol. As Bíblias e os livros não podem falar de ti e de tudo quanto te sinto. Eles se misturam às palavras dos homens; mas tu...
Seu murmúrio afundou numa confusão inaudível, até que, abrindo muito os olhos, percebeu que a planície castanha que fitava era a velha fazenda de casa. Havia meia hora que viajavam por ela, e ele não soubera. Despertou o condutor, que cochilava na frente da carroça sob a luz da manhã cedo. Estavam a meia milha da propriedade. Pareceu-lhe ter estado longe de todos eles por um ano.
Imaginou poder ver Lyndall de pé sobre o muro de tijolos para vigiá-lo; seu pai, passando de uma casa a outra, parando para olhar.
Chamou em voz alta os bois. Para cada um em casa trouxera alguma coisa. Para o pai, um pedaço de tabaco comprado na loja junto ao moinho; para Em, um dedal; para Lyndall, uma bela flor arrancada com as raízes num lugar onde haviam desatrelado; para Tant Sannie, um lenço. Quando se aproximaram da casa, lançou o chicote ao condutor cafre e saltou da lateral da carroça para correr à frente. Bonaparte o deteve quando ele passava correndo pelo monte de cinzas.
— Bom-dia, meu querido menino. Para onde corre tão depressa com essas bochechas rosadas?
O menino ergueu os olhos para ele, contente até por ver Bonaparte.
— Vou à cabana — disse, sem fôlego.
— Você não os encontrará lá agora — não o seu bom velho pai — disse Bonaparte.
— Onde ele está? — perguntou o rapaz.
— Ali, além dos cercados — disse Bonaparte, acenando oratoriamente com a mão para os cercados de pedra dos avestruzes.
— O que ele está fazendo lá? — perguntou o menino.
Bonaparte afagou-lhe a face, bondoso.
— Não pudemos conservá-lo por mais tempo; estava quente demais. Nós o enterramos, meu menino — disse Bonaparte, tocando com o dedo a face do menino. — Não pudemos conservá-lo mais. Hi, hi, hi! — riu Bonaparte, enquanto o menino fugia ao longo do muro baixo de pedra, quase furtivo, como alguém com medo.
Às cinco horas, Bonaparte estava ajoelhado diante de uma caixa no quarto do alemão. Ocupava-se em desarrumá-la.
Ficara combinado entre Tant Sannie e ele que, agora que o alemão se fora, ele, Bonaparte, não seria mais mestre-escola, mas feitor da fazenda. Em troca de seus labores escolares passados, declarara-se disposto a tomar posse dos bens e do quarto do morto. Tant Sannie não gostou muito do arranjo. Tinha muito mais respeito pelo alemão morto do que pelo alemão vivo, e preferiria que seus bens tivessem passado pacificamente ao filho.
Pois ela acreditava firmemente nas frestas do mundo de cima, onde não apenas ouvidos, mas olhos, podiam ser aplicados para ver como iam as coisas neste mundo de baixo. Nunca se sentia segura de até que ponto o mundo dos espíritos poderia sobrepor-se a este mundo dos sentidos, e, por regra, abstinha-se prudentemente de fazer qualquer coisa que pudesse ofender ouvintes invisíveis. Por essa razão abstinha-se de maltratar a filha e a sobrinha do inglês morto, e por essa razão preferiria que o menino tivesse ficado com os bens do pai.
Mas era difícil recusar qualquer coisa a Bonaparte quando ela e ele se sentavam tão felizes à noite, bebendo café, Bonaparte lhe dizendo, no holandês quebrado que aprendia depressa, como adorava mulheres gordas e que esplêndido fazendeiro era.
Assim, às cinco horas daquela tarde, Bonaparte estava ajoelhado no quarto do alemão.
— Em algum lugar, está aqui — disse, enquanto tirava cuidadosamente as roupas velhas da caixa e, não encontrando nada, tornava a guardá-las. — Em algum lugar deste quarto está; e se está aqui, Bonaparte acha — repetiu. — Você não ficou aqui todos esses anos sem juntar um dinheirinho em algum canto, meu cordeirinho. Você não era tão tolo quanto parecia. Oh, não! — disse Bonaparte.
Agora caminhou pelo quarto, enfiando os dedos em toda parte: metendo-os nas grandes frestas da parede e espantando as aranhas; batendo com eles contra o velho reboco até que rachasse e caísse em pedaços; espiando pela chaminé, até que a fuligem caísse sobre sua cabeça calva e a enegrecesse. Apalpou bolsinhas azuis; tentou levantar a pedra da lareira; sacudiu cada livro, até que folhas velhas caíssem em chuvadas pelo chão.
Escurecia, e Bonaparte ficou de pé com o dedo no nariz, refletindo. Por fim caminhou até a porta, atrás da qual pendiam as calças e o colete que o morto usara por último. Já os havia apalpado, mas às pressas, logo depois do funeral, no dia anterior; iria examiná-los de novo. Enfiando os dedos nos bolsos do colete, encontrou num canto um buraco. Empurrando a mão por ele, entre o forro e o pano, logo entrou em contato com alguma coisa.
Bonaparte a retirou: um pequeno pacote quadrado, costurado em lona. Fitou-o, apertou-o; estalou, como se estivesse cheio de notas de banco. Meteu-o depressa no próprio bolso do colete e espiou por cima da meia-porta para ver se alguém vinha. Nada se via, exceto os últimos raios amarelos do poente, pintando os arbustos do karoo na planície e brilhando sobre o monte de cinzas, onde as galinhas bicavam.
Virou-se e sentou-se na cadeira mais próxima; tirando o canivete, rasgou o pacote. A primeira coisa que caiu foi uma chuva de papéis amarelos e desbotados. Bonaparte abriu-os cuidadosamente, um a um, e alisou-os sobre o joelho. Havia algo muito valioso para estar escondido com tanto cuidado, embora ele não conseguisse decifrar as letras alemãs. Quando chegou ao último, sentiu que havia alguma coisa dura dentro dele.
— Você achou, Bon, meu rapaz! Você achou! — gritou, batendo forte na perna. Aproximando-se mais da porta, pois a luz morria, abriu cuidadosamente o papel. Dentro não havia nada senão uma aliança lisa de ouro.
— Melhor que nada! — disse Bonaparte, tentando colocá-la no dedo mínimo, que, no entanto, revelou-se gordo demais.
Tirou-a e a pôs sobre a mesa diante de si, olhando-a com seus olhos enviesados.
— Quando essa hora auspiciosa, Sannie — disse —, tiver chegado, quando, arfante, eu te conduzir, iluminado pela tocha de Himeneu, ao altar conjugal, então sobre teu belo dedo amarântico, minha noiva jubilosa, repousará este anel.
“Teu belo corpo, ó minha menina, Bonaparte possuirá; Seus dedos nos teus sacos de dinheiro, Lá também se meterá.”
Tendo dado vazão a essa torrente de poesia, ficou sentado, perdido em alegre reflexão.
— Lá também se meterá — repetiu, meditativo.
Nesse instante, como Bonaparte jurou, e jurou com verdade até o fim da vida, uma batida lenta e distinta foi dada na coroa de sua cabeça calva.
Bonaparte sobressaltou-se e olhou para cima. Nenhum riem ou correia pendia das vigas acima, e nenhuma criatura humana estava perto da porta. Escurecia; ele não gostava daquilo. Começou a dobrar os papéis rapidamente. Estendeu a mão para o anel. O anel desaparecera! Desaparecera, embora nenhuma criatura humana tivesse entrado no quarto; desaparecera, embora nenhuma forma tivesse cruzado a porta. Desaparecera!
Ele não dormiria ali; disso estava certo.
Enfiou os papéis no bolso. Enquanto o fazia, três batidas lentas e distintas foram dadas na coroa de sua cabeça. A mandíbula de Bonaparte caiu: cada junta separada perdeu a força; ele não podia mover-se; não ousava levantar-se; a língua jazia solta em sua boca.
— Leve tudo, leve tudo! — gorgolejou na garganta. — Eu... eu não quero. Leve...
Aqui um puxão resoluto nos cachos grisalhos da parte de trás de sua cabeça fez com que saltasse de pé, berrando furiosamente. Haveria ele de ficar sentado, paralisado, para ser arrastado em corpo até o diabo? Com gritos terríveis fugiu, sem lançar um olhar para trás.
Quando o orvalho caía e a tarde estava escura, uma pequena figura moveu-se para o portão do cercado de avestruzes mais distante, conduzindo uma ave à frente. Quando o portão foi aberto, a ave tocada para dentro e o portão fechado, a figura se afastou; mas então parou de repente perto do muro de pedra.
— É você, Waldo? — disse Lyndall, ouvindo um som.
O menino estava sentado no chão úmido, com as costas contra o muro. Não lhe respondeu.
— Venha — disse ela, inclinando-se sobre ele —, estive procurando você o dia inteiro.
Ele resmungou alguma coisa.
— Você não comeu nada. Pus um pouco de jantar no seu quarto. Deve vir para casa comigo, Waldo.
Ela tomou-lhe a mão, e o menino levantou-se devagar.
Fez com que ele tomasse seu braço e entrelaçou os pequenos dedos nos dele.
— Você deve esquecer — sussurrou. — Desde que aconteceu, eu ando, falo, nunca fico quieta. Se lembrarmos, não podemos trazer os mortos de volta. Esquecer é a melhor coisa. Ele viu aquilo chegando — sussurrou logo depois. — Essa é a coisa terrível, ver chegando!
Estremeceu.
— Quero que venha assim para mim também. Por que acha que eu estava tocando aquela ave? — acrescentou depressa. — Era Hans, a ave que odeia Bonaparte. Soltei-o esta tarde; pensei que ele o perseguiria e talvez o matasse.
O menino não deu sinal de interesse.
— Não o apanhou; mas pôs a cabeça por cima da meia-porta da sua cabana e o assustou horrivelmente. Ele estava lá, ocupado roubando as suas coisas. Talvez agora as deixe em paz; mas eu queria que a ave tivesse pisado nele.
Nada mais disseram até chegar à porta da cabana.
— Há uma vela e jantar sobre a mesa. Você deve comer — disse ela, autoritária. — Não posso ficar com você agora, para que não descubram sobre a ave.
Ele lhe agarrou o braço e trouxe a boca para junto do ouvido dela.
— Não há Deus! — quase silvou. — Nenhum Deus; em parte alguma!
Ela estremeceu.
— Em parte alguma!
Ele triturou as palavras entre os dentes, e ela sentiu-lhe o hálito quente na face.
— Waldo, você está louco — disse ela, afastando-se dele instintivamente.
Ele soltou o braço e também se desviou dela.
Em verdade, não é este o caminho da vida? Lutamos nossas pequenas batalhas sozinhos; você as suas, eu as minhas. Não devemos ajudar nem encontrar ajuda.
Quando sua vida é mais real, para mim você está louco; quando sua agonia é mais negra, olho para você e me espanto. A amizade é boa, um bastão forte; mas quando chega a hora de apoiar-se com força, ela cede. No dia de sua necessidade mais amarga, todas as almas estão sós.
Lyndall ficou ao lado dele no escuro, com pena, com espanto. Quando ele caminhou para a porta, ela foi atrás.
— Coma seu jantar; vai lhe fazer bem — disse.
Esfregou a face contra o ombro dele e então saiu correndo.
Na sala da frente, a pequena cafre de cabeça lanosa lavava os pés de Tant Sannie numa pequena tina, e Bonaparte, sentado no sofá de madeira, tirava sapatos e meias para que seus próprios pés também fossem lavados. Havia três velas acesas na sala, e ele e Tant Sannie estavam sentados bem perto um do outro, com a hotentote magra não muito longe; pois quando há fantasmas por perto é preciso muita luz, e há grande força nos números.
Bonaparte recuperara-se completamente dos efeitos do susto da tarde, e as numerosas doses de conhaque que fora necessário administrar-lhe para efetuar sua restauração haviam-no colocado num estado singularmente agradável e amável.
— Aquele menino Waldo — disse Bonaparte, esfregando os dedos dos pés — escapuliu friamente esta manhã assim que a carroça chegou e não fez um tostão de trabalho o dia inteiro. Não admitirei esse tipo de coisa agora que sou o senhor desta fazenda.
A criada hotentote traduziu.
— Ah, suponho que esteja triste porque o pai morreu — disse Tant Sannie. — É natural, sabe. Chorei a manhã inteira quando meu pai morreu. A gente sempre pode conseguir outro marido, mas não consegue outro pai — disse Tant Sannie, lançando um olhar de soslaio para Bonaparte.
Bonaparte expressou o desejo de dar a Waldo as ordens para o trabalho do dia seguinte, e assim a pequena cafre de cabeça lanosa foi enviada para chamá-lo. Depois de um tempo considerável, o menino apareceu e ficou de pé à porta.
Ainda que o vestissem com um daqueles casacos de cauda de andorinha e untassem seu cabelo até que as gotas caíssem dele, e ele ficasse liso como o de um ancião no domingo de sacramento, ainda haveria alguma coisa não ungida no aspecto do sujeito.
Do modo como estava, em seu estranho traje velho, a cabeça com muito a aparência de ter sido profundamente rolada na areia, as pálpebras inchadas, o cabelo pendendo sobre a testa, e uma taciturnidade obstinada nas feições, ele apresentava sobretudo o aspecto de um búfalo jovem de mau temperamento.
— Senhor amado! — gritou Tant Sannie. — Como ele está! Entre, menino. Não podia vir me dar bom-dia? Não quer jantar?
Ele disse que não queria nada e desviou dela os olhos pesados.
— Foi visto um fantasma no quarto de seu pai — disse Tant Sannie. — Se tiver medo, pode dormir na cozinha.
— Dormirei em nosso quarto — disse o menino, devagar.
— Bem, pode ir agora — disse ela; — mas levante cedo para cuidar das ovelhas. O pastor...
— Sim, levante cedo, meu menino — interrompeu Bonaparte, sorrindo. — Sou agora o senhor desta fazenda; e seremos bons amigos, espero, muito bons amigos, se você tentar cumprir seu dever, meu querido menino.
Waldo virou-se para ir embora, e Bonaparte, olhando benignamente para a vela, estendeu um pé sem meia; Waldo, sem olhar para nada em particular, tropeçou nele e caiu pesadamente no chão.
— Deus do céu! Espero que não esteja ferido, meu menino — disse Bonaparte. — Você terá muitas coisas mais duras do que esta, porém, antes de atravessar a vida — acrescentou, consolador, enquanto Waldo se levantava.
A hotentote magra riu até a sala ressoar; e Tant Sannie soltou risadinhas até lhe doerem os lados.
Depois que ele se foi, a pequena criada começou a lavar os pés de Bonaparte.
— Oh, Senhor, Senhor amado, como ele caiu! Não consigo parar de pensar — gritou Tant Sannie, e riu outra vez. — Eu sempre soube que ele não era certo; mas esta noite qualquer um podia ver — acrescentou, enxugando do rosto as lágrimas de riso. — Os olhos dele estão selvagens como se o diabo estivesse dentro deles. Nunca foi como as outras crianças. O querido Senhor sabe, se ele não caminha sozinho por horas falando consigo mesmo. Se você fica no quarto com ele, vê os lábios dele se mexendo o tempo todo; e se lhe fala vinte vezes, ele não ouve. Olhos-de-doido; está louco como só louco pode estar.
A repetição da palavra louco levou sentido à mente de Bonaparte. Ele parou de mover os dedos dos pés na água.
— Louco, louco? Conheço esse tipo de loucura — disse Bonaparte —, e sei o que dar para ela. A ponta de um pequeno chicote de cavalo, a pontinha! Coisa boa; tira isso dele — disse Bonaparte.
A hotentote riu e traduziu.
— Nada de caminhar por aí falando consigo mesmo nesta fazenda agora — disse Bonaparte; — nada de cuidar das ovelhas e ler livros ao mesmo tempo. A ponta de um chicote de cavalo é uma coisinha, mas acho que ele vai prová-la dentro em pouco.
Bonaparte esfregou as mãos e olhou prazerosamente por cima do nariz; e então os três riram juntos, sombrios.
E Waldo, em sua cabana, agachou-se no escuro, num canto, com os joelhos puxados até o queixo.
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