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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 13 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 1.XI. Ele Abocanha.

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Capítulo 1.XI. Ele Abocanha.

— Encontrei uma coisa no sótão — disse Em a Waldo, que, uma semana depois, empilhava sem ânimo os torrões de combustível sobre o muro do kraal. — É uma caixa de livros que pertenciam a meu pai. Pensávamos que Tant Sannie os tivesse queimado.

O menino pôs no chão o torrão que erguia e olhou para ela.

— Não acho que sejam muito bons, não são histórias — acrescentou ela —, mas você pode ir lá e pegar os que quiser.

Dito isso, apanhou o prato em que lhe trouxera o desjejum e caminhou de volta para a casa.

Depois disso, o menino trabalhou depressa. A pilha de combustível que Bonaparte lhe mandara arrumar estava sobre o muro em meia hora. Foi então espalhar sal sobre as peles postas a secar. Ao encontrar vazio o pote, subiu ao sótão para enchê-lo.

Bonaparte Blenkins, cuja porta se abria ao pé da escada, viu o menino subir e ficou de pé à entrada, esperando que ele voltasse. Queria que suas botas fossem engraxadas. Doss, vendo que não podia seguir o dono pelos degraus redondos, sentou-se pacientemente ao pé da escada. Depois de algum tempo, ergueu os olhos com desejo, mas ninguém apareceu. Então Bonaparte também olhou para cima e começou a chamar; mas não houve resposta. Que estaria o menino fazendo? O sótão era uma terra desconhecida para Bonaparte. Muitas vezes se perguntara o que havia lá em cima; gostava de saber o que existia em todos os lugares fechados à chave e em todos os cantos fora de mão, mas tinha medo de subir a escada. Assim, Bonaparte olhou para cima e, em nome de tudo quanto havia de mais provocador, perguntou o que fazia o menino lá em cima. O sótão era usado apenas como quarto de trastes. Que poderia aquele sujeito encontrar ali que o prendesse por tanto tempo?

Se a mulher bôer pudesse ter contemplado Waldo naquele instante, qualquer dúvida remanescente que ainda lhe restasse quanto à loucura do menino se dissiparia de imediato. Pois, depois de encher o pote de sal, ele começou a procurar a caixa de livros entre os entulhos que enchiam o sótão. Debaixo de uma pilha de sacos, encontrou-a: um caixote grosseiro de embalagem, pregado, mas com uma tábua solta. Levantou-a e viu os dorsos alinhados de uma fileira de livros. Ajoelhou-se diante da caixa e passou a mão pelas bordas ásperas, como para se certificar de sua existência. Enfiou a mão entre os livros e puxou dois. Apalpou-os, meteu os dedos entre as folhas e as amassou um pouco, como um amante apalpa os cabelos de sua amada. O menino regalava-se com seu tesouro. Tivera uma dúzia de livros no curso de sua vida; agora, ali estava uma mina deles aberta a seus pés. Depois de algum tempo começou a ler os títulos e, aqui e ali, abria um livro e lia uma frase; mas estava excitado demais para apreender claramente os sentidos. Por fim chegou a um volume opaco, castanho. Leu o nome, abriu-o no meio e, onde abriu, começou a ler. Caíra sobre um capítulo acerca da propriedade — comunismo, fourierismo, saint-simonismo, numa obra de Economia Política. Leu uma página inteira e virou para a seguinte; leu essa sem mudar uma polegada de postura; leu a próxima, e a próxima, sempre de joelhos, com o livro na mão e os lábios entreabertos.

Nem tudo quanto lia ele compreendia plenamente; os pensamentos eram novos para ele; mas esta era a alegria atônita que o livro lhe dava: os pensamentos eram seus, pertenciam-lhe. Nunca os pensara antes, mas eram seus.

Riu em silêncio e por dentro, com a intensidade imóvel de uma alegria triunfante.

Então, afinal, nem todas as criaturas pensantes lançavam o mesmo grito: “Assim como tu, querido Senhor, criaste as coisas no princípio, assim são elas agora, assim devem ser, assim serão, por todos os séculos dos séculos; e não nos diz respeito o que elas sejam. Amém.” Havia homens a quem não apenas kopjes e pedras chamavam imperiosamente: “Que somos nós, e de onde viemos? Compreendei-nos, conhecei-nos”; mas a quem até as velhas, velhas relações entre homem e homem, e os costumes das eras, chamavam, e não podiam ser silenciados nem esquecidos.

O corpo pesado do menino tremia de excitação. Então ele não estava sozinho, não estava sozinho. Não poderia dizer exatamente a ninguém por que estava tão contente e por que aquele calor lhe viera. As faces ardiam. Não admira que Bonaparte chamasse em vão, e que Doss pusesse as patas na escada e choramingasse até passarem três quartos de hora. Por fim, o menino colocou o livro contra o peito e abotoou bem a roupa sobre ele. Apanhou o pote de sal e foi até o alto da escada. Bonaparte, com as mãos cruzadas sob as abas do casaco, ergueu os olhos quando ele apareceu e o interpelou.

— Você demorou bastante lá em cima, meu rapaz — disse, enquanto o menino descia com uma pressa trêmula, muito diversa de seus movimentos habitualmente lentos. — Suponho que não me ouviu chamar?

Bonaparte sacudiu para cima e para baixo as abas do casaco enquanto o olhava. Ele, Bonaparte Blenkins, tinha olhos que enxergavam muito longe. Olhou para o pote. Era um pote bastante pequeno para ter levado três quartos de hora a encher. Olhou para o rosto. Estava corado. E, no entanto, Tant Sannie não guardava vinho — ele não estivera bebendo; os olhos estavam bem abertos e brilhantes — não estivera dormindo; não havia menina alguma lá em cima — não estivera fazendo a corte. Bonaparte olhou-o sagazmente. Que explicaria a maravilhosa mudança entre o menino que descera a escada e o que subira por ela? Havia uma coisa. Tant Sannie não guardaria no sótão bultong e boas linguiças defumadas? Devia haver lá em cima alguma coisa gostosa para comer! Ahá! Era isso!

Bonaparte ficou tão interessado em levar adiante essa cadeia de raciocínio indutivo que se esqueceu por completo de mandar engraxar as botas.

Viu o menino afastar-se arrastando os pés, com o pote de sal debaixo do braço; depois ficou à porta e ergueu os olhos ao céu azul tranquilo, formulando audivelmente para si mesmo este enigma:

— Qual é a relação entre as costas nuas de certo menino com um sobretudo no corpo e um pote de sal debaixo do braço, e a ponta de um chicote? Resposta: por enquanto, nenhuma; mas em breve haverá.

Bonaparte ficou tão satisfeito com esse rasgo de engenho que soltou uma risadinha e foi deitar-se na cama.

Naquela tarde assava-se pão; havia fogo aceso no forno de tijolos atrás da casa, e Tant Sannie deixara a grande cadeira de braços de madeira, em que passava a vida, e saíra bamboleando para vê-lo. Não muito longe estava Waldo, que, depois de despejar um balde de comida no chiqueiro, agora se inclinava sobre o muro de barro olhando os porcos. Metade do chiqueiro estava seca, mas a parte mais baixa era uma poça de lama, à beira da qual a porca-mãe jazia de olhos fechados, com seus dez pequenos a mamar; o porco-pai, atolado até os joelhos, metia o focinho numa abóbora podre e agitava a cauda enrolada.

Waldo perguntava a si mesmo, sonhadoramente, enquanto os contemplava, por que eram agradáveis de olhar. Tomados um a um, não eram belos; tomados em conjunto, eram. Não seria porque havia certa harmonia entre eles? A porca velha se ajustava aos leitõezinhos, os leitõezinhos à mãe, o velho cachaço à abóbora podre, e todos à lama. Não sugeriam o pensamento de coisa alguma que devesse ser acrescentada, nem de coisa alguma que devesse ser retirada. E, continuava ele a se perguntar vagamente, não seria esse o segredo de toda beleza, que você, que olha... Assim ficou sonhando, inclinando-se cada vez mais sobre o muro de barro, e olhando os porcos.

Durante todo esse tempo, Bonaparte Blenkins vinha descendo da casa de modo aparentemente sem rumo; mas conservava um olho fixo no chiqueiro, e cada giro o aproximava dele. Waldo estava como uma coisa adormecida quando Bonaparte chegou bem junto dele.

Nos velhos tempos, quando era um menininho brincando na sarjeta de uma rua irlandesa, ele, Bonaparte, fora familiarmente conhecido entre os companheiros pelo título de Ben, o Tropeçador; isso pela rara facilidade e destreza com que, apenas projetando o pé, conseguia precipitar qualquer companheiro infeliz sobre o alto da própria cabeça. Os anos haviam passado, e Ben, o Tropeçador, tornara-se Bonaparte; mas o velho dom ainda estava nele. Aproximou-se do chiqueiro. Todas as memórias defuntas de sua meninice voltaram-lhe em torrente quando, com um movimento hábil, enfiou a perna entre Waldo e o muro e o mandou para dentro do chiqueiro.

Os leitõezinhos assustaram-se com o estranho intruso e correram para trás da mãe, que o farejou. Tant Sannie bateu as mãos uma na outra e riu; mas Bonaparte estava longe de acompanhá-la. Perdido em devaneio, fitava o horizonte distante.

A súbita inversão de cabeça e pés fizera cair o volume que Waldo levava no peito. Bonaparte apanhou-o e começou a examiná-lo, enquanto o menino subia devagar de volta por cima do muro. Teria ido embora, sombrio, mas queria seu livro, e esperou até que lhe fosse entregue.

— Ah! — disse Bonaparte, erguendo os olhos das folhas do livro que examinava. — Espero que seu casaco não tenha sido danificado; tem um corte elegante. Herança de família, suponho, de seu avô paterno? Está bonito agora.

— Ah, Senhor! Ah, Senhor! — gritou Tant Sannie, rindo e segurando os lados. — Olhe como está a criança... como se pensasse que a lama nunca mais fosse sair. Ah, Senhor, vou morrer! Você, Bonaparte, é o homem mais engraçado que já vi.

Bonaparte Blenkins estava agora examinando cuidadosamente o volume que apanhara. Entre os assuntos sobre os quais as trevas de seu entendimento haviam sido iluminadas durante a juventude, a Economia Política não figurava. Portanto, não tinha muita clareza quanto à natureza do livro; e, como o nome do autor, J. S. Mill, poderia, pelo que sabia em contrário, ter pertencido a um venerável membro da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, isso não lançava de modo algum luz sobre a questão. Não tinha certeza nenhuma de que Economia Política nada tivesse que ver com o modo mais barato de obter vestimenta para o exército e a marinha, o que seria, certamente, um assunto ao mesmo tempo político e econômico.

Mas Bonaparte logo chegou a uma conclusão sobre a natureza do livro e seu conteúdo pela aplicação de uma regra simples, hoje largamente praticada, mas que, se se tornasse universal, pouparia muito pensamento e tempo precioso. É de maravilhosa simplicidade, de utilidade infinita, de aplicabilidade universal. Pode ser facilmente decorada e diz assim:

Sempre que entrar em contato com qualquer livro, pessoa ou opinião de que você absolutamente nada compreenda, declare esse livro, pessoa ou opinião imoral. Salpique-o de lama, injurie-o, insista vigorosamente em que qualquer homem ou mulher que o abrigue é tolo ou patife, ou ambos. Abstenda-se cuidadosamente de estudá-lo. Faça tudo quanto estiver ao seu alcance para aniquilar esse livro, pessoa ou opinião.

Agindo segundo essa regra, tão ampla em sua abrangência, tão belamente simples em sua operação, Bonaparte aproximou-se de Tant Sannie com o livro na mão. Waldo deu um passo para mais perto, mirando-o como um cão cuja cria caíra em mãos perversas.

— Este livro — disse Bonaparte — não é estudo adequado nem apropriado para uma mente jovem e imatura.

Tant Sannie não entendeu uma palavra, e disse:

— O quê?

— Este livro — disse Bonaparte, batendo com energia o dedo sobre a capa —, este livro é sleg, sleg, Davel, Davel!

Tant Sannie percebeu, pela gravidade de sua fisionomia, que não era caso de riso. Pelas palavras “sleg” e “Davel”, compreendeu que o livro era mau e tinha alguma ligação com o príncipe que puxa os fios do mal por toda a terra.

— Onde você arranjou este livro? — perguntou, virando seus olhinhos faiscantes para Waldo. — Que minhas pernas fiquem tão finas como as de um inglês se ele não é um dos livros de seu pai. Ele tinha mais pecados do que todos os kaffirs de Kafferland, por mais que fingisse ser tão bom todos aqueles anos, e viver sem mulher porque pensava na que estava morta! Como se dez mulheres mortas pudessem compensar uma mulher gorda com braços e pernas! — gritou Tant Sannie, bufando.

— Não era livro de meu pai — disse o menino, ferozmente. — Tirei-o do seu sótão.

— Meu sótão! Meu livro! Como se atreve? — gritou Tant Sannie.

— Era do pai de Em. Ela me deu — murmurou ele, mais sombrio ainda.

— Dê aqui. Qual é o nome? De que trata? — perguntou ela, pondo o dedo sobre o título.

Bonaparte compreendeu.

— Political Economy — disse, devagar.

— Querido Senhor! — disse Tant Sannie. — Não se ouve pelo próprio som que é um livro ímpio? Mal se consegue dizer o nome. Já não temos maldições suficientes nesta fazenda? — gritou Tant Sannie, eloquente. — Meu melhor carneiro merino importado morrendo não se sabe de quê, a vaca shorthorn perdendo seus dois bezerros, as ovelhas comidas pela sarna e pela seca? E este é momento de trazer coisas ímpias para este lugar, invocando a vingança do Deus Todo-Poderoso para nos castigar ainda mais? O ministro não me disse, quando fui confirmada, que eu não devia ler livro nenhum além da minha Bíblia e do hinário, que o diabo estava em todos os outros? E eu nunca li outro livro — disse Tant Sannie com virtuosa energia —, e nunca lerei!

Waldo viu que o destino de seu livro estava selado e virou-se sombrio nos calcanhares.

— Então você não fica para ouvir o que tenho a dizer! — gritou Tant Sannie. — Tome aí sua Politi-goliti-gomínia, seu livro do diabo! — gritou, atirando-lhe o livro à cabeça com grande energia.

Ele apenas tocou-lhe a testa de lado e caiu ao chão.

— Vá! — gritou ela. — Sei que vai falar sozinho. Pessoas que falam sozinhas sempre falam com o diabo. Vá contar tudo a ele. Vá, vá! Corra! — gritou Tant Sannie.

Mas o menino nem apressou nem diminuiu o passo, e passou sombrio por trás da cocheira dos vagões.

Livros já foram atirados a outras cabeças antes e depois daquela tarde de verão, por mãos mais brancas e delicadas que as da mulher bôer; mas se o resultado do processo foi, em algum caso, inteiramente satisfatório, pode-se questionar. Amamos com ternura peculiar, guardamos com cuidado peculiar, tem para nós um valor quase fictício aquilo pelo qual sofremos. Se não podemos carregá-lo em mais nenhum lugar, havemos de carregá-lo no coração, e sempre, até o fim.

Bonaparte Blenkins foi apanhar o volume, agora desprendido da capa, enquanto Tant Sannie empurrava para mais dentro do forno os tocos de madeira. Bonaparte chegou-se a ela, bateu no livro com ar entendido, assentiu e olhou para o fogo. Tant Sannie compreendeu e, tomando-lhe o volume da mão, atirou-o para o fundo do forno. Ele ficou sobre a pilha de brasas, fumegou, inflamou-se e ardeu, e a “Economia Política” não existia mais — desaparecida da existência, como muito outro pobre herege de carne e osso.

Bonaparte sorriu largo e, para assistir ao processo, aproximou tanto o rosto da porta do forno que os pelos brancos de suas sobrancelhas se chamuscaram. Em seguida perguntou se havia mais livros no sótão.

Ao saber que havia, fez sinais indicativos de tomar braçadas deles e lançá-las ao fogo. Mas Tant Sannie ficou hesitante. O falecido inglês havia deixado todos os seus objetos pessoais especialmente para a filha. Era muito bom para Bonaparte falar em queimar os livros. Ele tivera os cabelos espiritualmente arrancados, e ela não desejava repetir a experiência.

Ela sacudiu a cabeça. Bonaparte ficou contrariado. Mas então lhe ocorreu um pensamento feliz. Sugeriu que a chave do sótão dali por diante fosse posta sob sua guarda e custódia seguras — ninguém tomando posse dela sem sua permissão. A isso Tant Sannie assentiu prontamente, e os dois caminharam amorosamente para a casa a fim de procurá-la.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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