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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 14 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 1.XII. Ele Morde.

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Capítulo 1.XII. Ele Morde.

Bonaparte Blenkins voltava para casa montado na égua cinzenta. Saíra a cavalo naquela tarde, em parte para benefício da saúde, em parte para manter seu caráter de administrador da fazenda. Enquanto cavalgava devagar, tocava pensativamente as orelhas da égua cinzenta com o chicote.

— Não, Bon, meu rapaz — dirigiu-se a si mesmo —, não peça em casamento! Você não pode casar antes de quatro anos, por causa do testamento; então por que pedir? Engambela-a, bajula-a, enreda-a, mas não a deixe ficar segura de você. Quando uma mulher — disse Bonaparte, pousando sabiamente o dedo ao lado do nariz —, quando uma mulher está segura de você, faz o que quer com você; mas, quando não está, você faz com ela o que quer. E eu...

Aqui puxou de súbito a rédea do cavalo e olhou. Já estava perto da casa, e, inclinada sobre o muro do chiqueiro, na companhia de Em, que lhe mostrava os porcos, havia uma figura feminina estranha. Era a primeira visita que aparecia na fazenda desde sua chegada, e ele a olhou com interesse. Era uma moça alta e rechonchuda, de quinze anos, pesando cento e cinquenta libras, com faces flácidas e pendentes e nariz arrebitado. Assemelhava-se notavelmente a Tant Sannie, de forma e de feições, mas seus bons olhos sonolentos careciam daquele faiscar que habitava as pequenas órbitas da mulher bôer. Vestia uma chita verde-viva, trazia argolas de latão nas orelhas e contas de vidro ao redor do pescoço, e chupava a ponta de seu dedo grande enquanto olhava os porcos.

— Quem foi que chegou? — perguntou Bonaparte, quando, de pé, bebia seu café na sala da frente.

— Ora, minha sobrinha, está claro — disse Tant Sannie, traduzindo a criada khoikhoi. — É a única filha do meu único irmão, Paul, e veio me visitar. Será um bom bocado para o homem que a conseguir — acrescentou Tant Sannie. — O pai dela tem duas mil libras na caixa verde do vagão debaixo da cama, e uma fazenda, e cinco mil ovelhas, e Deus Todo-Poderoso sabe quantas cabras e cavalos. Ordenham dez vacas em pleno inverno, e os rapazes andam atrás dela como moscas em redor de uma tigela de leite. Ela diz que pretende casar dentro de quatro meses, mas ainda não sabe com quem. Comigo era assim quando eu era jovem — disse Tant Sannie. — Eu ficava de vigília com os rapazes quatro e cinco noites por semana. E eles virão cavalgando outra vez assim que souberem que terminou o prazo que o inglês me fez prometer de não casar.

A mulher bôer sorriu de si para consigo, complacente.

— Aonde vai? — perguntou Tant Sannie pouco depois, vendo Bonaparte levantar-se.

— Ah! Vou apenas aos kraals; volto para a ceia — disse Bonaparte.

No entanto, quando chegou à própria porta, parou e entrou. Pouco depois estava diante do pequeno espelho, envergando sua melhor camisa branca, com as pequenas pregas, e barbeando-se. Vestia suas melhores calças, e untara pesadamente de óleo a pequena franja na parte de trás da cabeça, a qual, porém, recusava-se a ficar mais escura. Mas o que mais o afligia era o nariz — estava muito vermelho. Esfregou o dedo e o polegar na parede e passou um pouco de cal sobre ele; mas, vendo que isso antes piorava a coisa, esfregou-o de novo para retirar. Depois olhou cuidadosamente nos próprios olhos. Certamente estavam um pouco puxados para baixo nos cantos externos, o que lhes dava aparência de olhar vesgo; mas eram de um azul bonito. Assim, vestiu o melhor casaco, apanhou a bengala e saiu para a ceia, sentindo-se, no conjunto, bem satisfeito.

— Tia — disse Trana a Tant Sannie quando, naquela noite, deitavam juntas na grande cama de madeira —, por que o inglês suspira tanto quando olha para mim?

— Ah! — disse Tant Sannie, que estava meio adormecida, mas sobressaltou-se de repente, bem acordada. — É porque pensa que você se parece comigo. Eu lhe digo, Trana — disse Tant Sannie —, o homem está louco de amor por mim. Disse-lhe outro dia que eu não podia casar até Em fazer dezesseis anos, ou perderia todas as ovelhas que o pai dela me deixou. E ele falou de Jacó trabalhando sete anos e mais sete anos pela esposa. E, naturalmente, queria dizer eu — disse Tant Sannie, pomposa. — Mas não me terá tão facilmente como pensa; terá de pedir mais de uma vez.

— Ah! — disse Trana, que era uma moça pesada e pouco dada a falar; mas, pouco depois, acrescentou: — Tia, por que o inglês sempre esbarra na gente quando passa?

— É porque você está sempre no caminho — disse Tant Sannie.

— Mas, tia — disse Trana, depois de um tempo —, acho-o muito feio.

— Pff! — disse Tant Sannie. — É só porque não estamos acostumadas a narizes assim neste país. No país dele, diz que todo mundo tem narizes assim, e quanto mais vermelho é o nariz, mais alta é a pessoa. Ele é da família da rainha Vitória, você sabe — disse Tant Sannie, despertando com o assunto —, e não dá importância nenhuma a governadores, anciãos da igreja e gente assim; para ele, não são nada. Quando a tia dele, a hidrópica, morrer, terá dinheiro bastante para comprar todas as fazendas deste distrito.

— Ah! — disse Trana. Isso certamente fazia diferença.

— Sim — disse Tant Sannie —, e ele só tem quarenta e um anos, embora você o tomasse por sessenta. E ontem à noite ele me contou a verdadeira razão de sua calvície.

Tant Sannie então passou a relatar como, aos dezoito anos, Bonaparte cortejara uma bela jovem. Como um rival mortal, invejoso de suas madeixas verdejantes, de seus cabelos dourados e fluentes, lhe dera de presente, com uma maldita e insinuante perfídia, um pote de pomada. Como, ao aplicá-la à noite, ao levantar pela manhã encontrou o travesseiro coberto das madeixas douradas e, olhando-se no espelho, contemplou a extensão lisa e brilhante que daí por diante teria de suportar. Os poucos fios restantes tornaram-se de um branco prateado, e a jovem casou-se com o rival.

— E — disse Tant Sannie solenemente —, se não fosse pela graça de Deus e pela leitura dos salmos, ele diz que teria se matado. Diz que poderia se matar com bastante facilidade se quisesse casar com uma mulher e ela não o aceitasse.

— Alle wereld! — disse Trana; e então adormeceram.

Logo todos estavam perdidos no sono; mas da janela da cabana saía um fio de luz. Vinha de um fogo de esterco, sobre o qual Waldo se mantinha absorto. Hora após hora ficou sentado ali, de vez em quando lançando ao fogo um novo pedaço de combustível, que ardia bravamente e depois afundava num grande leito de brasas vermelhas, refletidas nos olhos do menino enquanto ele permanecia ali, absorto, absorto, absorto. Por fim, quando o fogo ardia em seu brilho mais vivo, ele se levantou de repente e caminhou lentamente até uma viga da qual pendia um riem de boi. Desprendendo-o, fez um laço numa ponta e depois o dobrou em torno do braço.

— Meu, meu! Tenho direito — murmurou; e depois, um pouco mais alto: — Se eu cair e morrer, tanto melhor!

Abriu a porta e saiu para a luz das estrelas.

Caminhou de olhos baixos para o chão, mas acima dele havia uma daquelas brilhantes noites austrais em que cada espaço pequeno o bastante para ser coberto pela mão mostra cinquenta pontos brancos e frios, e a Via Láctea é uma faixa de prata aguda, coberta de geada. Passou pela porta onde Bonaparte sonhava com Trana e sua riqueza, e subiu os degraus da escada. Dali trepou, com alguma dificuldade, ao telhado da casa. Era de palha velha e apodrecida, com uma cumeeira de reboco branco, e esfarelava-se sob seus pés a cada passo. Pisou o mais pesadamente que pôde. Tanto melhor se caísse.

Ajoelhou-se ao chegar ao frontão distante e começou a prender seu riem aos tijolos que se desfaziam. Abaixo ficava a pequena janela do sótão. Com uma ponta do riem amarrada ao frontão e a outra à cintura, que fácil seria deslizar até ela, abri-la por uma das vidraças quebradas, entrar, encher os braços de livros e tornar a subir! Haviam queimado um livro — ele teria vinte. A mão de todos estava contra a sua — a sua estaria contra a de todos. Ninguém o ajudaria — ele se ajudaria.

Afastou os cabelos negros e úmidos da testa franzida e olhou em volta, para refrescar o rosto ardente. Então viu que noite régia era aquela. Ajoelhou-se em silêncio e olhou para cima. Mil olhos o fitavam de lá, brilhantes e tão frios. Havia neles uma ironia risonha.

“Tão quente, tão amargo, tão zangado? Pobre pequeno mortal?”

Sentiu vergonha. Cruzou os braços e sentou-se na cumeeira do telhado, olhando para eles.

“Tão quente, tão amargo, tão zangado?”

Era como se uma mão fria tivesse sido pousada sobre sua testa palpitante, e lentamente começaram a desvanecer e a empalidecer. Tant Sannie e o livro queimado, Bonaparte e a máquina quebrada, a caixa no sótão, ele mesmo sentado ali — como tudo se tornou pequeno! Até o túmulo lá adiante. Aquelas estrelas, que brilhavam tão quietas lá no alto, tinham visto mil pequenas existências como aquelas lutar com igual ferocidade, flamejar com igual brilho e apagar-se; e elas, as velhas, velhas estrelas, brilhavam para sempre.

“Tão quente, tão zangada, pobre pequena alma?”, diziam.

O riem escorregou-lhe dos dedos; ele ficou sentado, de braços cruzados, olhando para cima.

“Nós”, diziam as estrelas, “vimos a terra quando era jovem. Vimos pequenas coisas arrastarem-se para sua superfície — pequenas coisas que rezavam, amavam e choravam muito alto, e depois tornavam a rastejar para debaixo dela. Mas nós”, diziam as estrelas, “somos tão antigas quanto o Desconhecido.”

Ele apoiou o queixo na palma da mão e olhou para elas. Ficou tanto tempo sentado ali que estrelas brilhantes se puseram e outras nasceram, e ele ainda continuava ali.

Então, por fim, pôs-se de pé e começou a soltar o riem do frontão.

Que importavam os livros? A avidez e o desejo por eles haviam morrido. Se quisessem guardá-los longe dele, que guardassem. Que importava? Era uma coisa muito pequena. Por que odiar, lutar, combater? Que fosse como fosse.

Enrolou o riem em torno do braço e voltou caminhando pela cumeeira da casa.

A essa altura, Bonaparte Blenkins terminara seu sonho com Trana, e, ao virar-se para novo cochilo, ouviu passos descendo a escada. Seu primeiro impulso foi puxar a coberta sobre a cabeça e as pernas para debaixo do corpo, e gritar; mas, lembrando-se de que a porta estava trancada e a janela cuidadosamente aferrolhada, deixou a cabeça aflorar lentamente entre as cobertas e escutou com atenção. Quem quer que fosse, não havia perigo de chegar até ele; assim, saiu da cama, foi na ponta dos pés até a porta e encostou o olho ao buraco da fechadura. Nada se via; então, caminhando até a janela, levou o rosto tão perto do vidro quanto o nariz permitiu. Uma figura mal se discernia. O rapaz não tentava andar em silêncio, e o pesado arrastar dos conhecidos velschoen podia ser ouvido claramente através da janela fechada enquanto atravessavam as pedras do pátio. Bonaparte escutou até que morressem ao virar o canto da cocheira dos vagões; e, sentindo que as pernas nuas estavam ficando frias, pulou de volta para a cama.


— O que você guarda lá em cima no seu sótão? — perguntou Bonaparte à mulher bôer na noite seguinte, apontando para cima e elucidando seu sentido com o acréscimo de algumas palavras holandesas que conhecia, pois o magro khoikhoi já fora para casa.

— Peles secas — disse a mulher bôer —, e garrafas vazias, e caixas, e sacos, e sabão.

— Você não guarda nenhum mantimento lá... açúcar, por exemplo? — disse Bonaparte, apontando para o açucareiro e depois para o sótão.

Tant Sannie sacudiu a cabeça.

— Só sal e pêssegos secos.

— Pêssegos secos! Hem? — disse Bonaparte. — Feche a porta, minha querida criança, feche bem — chamou para Em, que estava na sala de jantar. Depois se inclinou sobre o braço do sofá e trouxe o rosto o mais perto possível do da mulher bôer, fazendo sinais de comer. Então disse alguma coisa que ela não compreendeu; depois disse: — Waldo, Waldo, Waldo — apontou para o sótão e fez novamente sinais de comer.

Agora um vislumbre de seu significado despontou na mente da mulher bôer. Para torná-lo mais claro, moveu as pernas à maneira de alguém que sobe uma escada, fingiu abrir uma porta, mastigou vigorosamente, disse: — Pêssegos, pêssegos, pêssegos — e pareceu descer a escada.

Estava agora evidente para Tant Sannie que Waldo estivera em seu sótão e comera seus pêssegos.

Para exemplificar sua própria participação no processo, Bonaparte deitou-se no sofá e, fechando firmemente os olhos, disse: — Noite, noite, noite! — Depois sentou-se de súbito, parecendo escutar atentamente, imitou com os pés a descida de uma escada e olhou para Tant Sannie. Isso mostrava claramente como, acordado à noite, descobrira o roubo.

— Ele deve ter sido muito tolo para comer meus pêssegos — disse Tant Sannie. — Estão cheios de ácaros como uma pele de ovelha, e duros como pedras.

Bonaparte, remexendo no bolso, nem sequer ouviu a observação dela, e tirou da aba do casaco um pequeno chicote de cavalo, bem enrolado. Bonaparte piscou para o pequeno chicote de rinoceronte, para a mulher bôer e depois para a porta.

— Vamos chamá-lo... Waldo, Waldo? — disse.

Tant Sannie assentiu e deu risadinhas. Havia algo tão extremamente humorístico na ideia de que ele fosse bater no menino, embora, por sua parte, ela não visse que os pêssegos valessem isso. Quando a criada kaffir entrou com a tina de lavar, foi mandada chamar Waldo; e Bonaparte dobrou o pequeno chicote e o meteu no bolso. Então se aprumou, preparado para desempenhar seu importante papel com a gravidade adequada. Logo Waldo estava à porta e tirou o chapéu.

— Entre, entre, meu rapaz — disse Bonaparte —, e feche a porta atrás de você.

O menino entrou e ficou de pé diante deles.

— Você não precisa ter tanto medo, criança — disse Tant Sannie. — Eu também já fui criança. Não é grande mal se você pegou alguns.

Bonaparte percebeu que a observação dela não estava de acordo com a natureza do procedimento nem com o pequeno drama que pretendia encenar. Contraindo os lábios e agitando a mão, dirigiu-se solenemente ao menino.

— Waldo, entristece-me além de toda expressão ter de convocá-lo para um propósito tão doloroso; mas é o chamado imperativo do dever, ao qual não ouso me esquivar. Não afirmo que uma confissão franca e sem reservas afastará a necessidade do castigo, que, se necessário, será plenamente administrado; mas a natureza desse castigo pode ser mitigada por uma confissão livre e humilde. Waldo, responda-me como responderia a seu próprio pai, em cujo lugar agora estou para você: você comeu ou não comeu, tomou ou não tomou parte dos pêssegos no sótão?

— Diga que pegou, menino, diga que pegou, então ele não vai bater muito em você — disse a holandesa, bondosamente, começando a sentir um pouco de pena dele.

O menino ergueu os olhos devagar e os fixou nela, vazios; então, de súbito, o rosto se lhe escureceu de sangue.

— Então, você não tem nada a nos dizer, meu rapaz? — disse Bonaparte, esquecendo por um momento sua dignidade e inclinando-se para a frente com um pequeno rosnado. — Mas o que quero dizer é exatamente isto, meu rapaz: quando um menino leva três quartos de hora para encher um pote de sal, e quando, às três da manhã, anda batendo pelas portas de um sótão, é natural supor que haja travessura nisso. É certo que há travessura nisso; e, quando há travessura dentro, ela precisa ser tirada — disse Bonaparte, sorrindo de dentes à mostra para o rosto do menino. Então, sentindo que caíra daquela alta gravidade que era como o tempero do pudim e o sabor de toda a pequena tragédia, endireitou-se. — Waldo — disse —, confesse-me imediatamente, e sem reservas, que comeu os pêssegos.

O rosto do menino estava branco agora. Os olhos se prendiam ao chão, as mãos cruzadas diante de si com obstinação.

— Como, não pretende responder?

O menino olhou para eles uma vez, por baixo das sobrancelhas curvadas, e depois baixou os olhos novamente.

— A criatura parece ter todos os diabos do inferno dentro dela — gritou Tant Sannie. — Diga que pegou, menino. Coisas jovens são coisas jovens; eu era mais velha que você quando comia bultong no sótão de minha mãe e fazia os negrinhos levarem a surra por isso. Diga que pegou.

Mas o menino nada disse.

— Creio que um pouco de confinamento solitário talvez seja benéfico — disse Bonaparte. — Isso lhe permitirá, Waldo, refletir sobre a enormidade do pecado que cometeu contra nosso Pai no céu. E poderá também pensar na submissão que deve aos que são mais velhos e mais sábios do que você, e cujo dever é contê-lo e corrigi-lo.

Dizendo isso, Bonaparte levantou-se e tirou a chave do depósito de combustível, que pendia de um prego na parede.

— Caminhe, meu rapaz — disse Bonaparte, apontando para a porta; e, ao segui-lo para fora, puxou expressivamente a boca para um lado e fez a ponta do pequeno chicote sair do bolso e sacudir-se para cima e para baixo.

Tant Sannie sentiu um pouco de pena do rapaz; mas não pôde deixar de rir: era sempre tão engraçado quando alguém ia levar uma surra, e aquilo lhe faria bem. De todo modo, esqueceria tudo quando os lugares sarassem. Ela mesma não apanhara muitas vezes, ficando melhor por isso?

Bonaparte apanhou uma vela acesa que fora deixada sobre a mesa da cozinha e disse ao menino que andasse à sua frente. Foram ao depósito de combustível. Era uma pequena construção de pedra que se projetava do lado da cocheira dos vagões. Era baixa e sem janela, e o esterco seco estava empilhado num canto, enquanto o moedor de café ficava em outro, preso ao alto de um poste curto, de cerca de três pés de altura. Bonaparte tirou o cadeado da porta rústica.

— Entre, meu rapaz — disse.

Waldo obedeceu, sombrio; para ele, um lugar era quase o mesmo que outro. Não tinha objeção a ser trancado.

Bonaparte entrou atrás dele e fechou cuidadosamente a porta. Pôs a luz sobre a pilha de esterco no canto, e introduziu discretamente a mão sob as abas do casaco, tirando devagar do bolso a ponta de uma corda, que ocultou atrás de si.

— Lamento muito, muitíssimo, Waldo, meu rapaz, que você tenha agido dessa maneira. Isso me entristece — disse Bonaparte.

Moveu-se em direção às costas do menino. Não gostava muito do olhar nos olhos do sujeito, embora ele estivesse ali imóvel. E se saltasse sobre ele!

Assim, puxou a corda com todo cuidado e deslocou-se para junto do poste de madeira. Havia um nó corrediço numa ponta da corda, e um movimento súbito puxou as mãos do menino para trás e passou-o em torno delas. Foi trabalho de um instante arrastá-la duas vezes ao redor do poste de madeira: então Bonaparte estava seguro.

Por um momento o menino lutou para se libertar; depois soube que estava impotente e ficou quieto.

— Cavalos que dão coice precisam ter as pernas amarradas — disse Bonaparte, enquanto passava a outra ponta da corda ao redor dos joelhos do menino. — E agora, meu caro Waldo — tirando o chicote do bolso —, vou bater em você.

Pausou por um momento. Estava perfeitamente quieto; podiam ouvir a respiração um do outro.

— “Castiga teu filho enquanto há esperança” — disse Bonaparte —, “e não poupe tua alma por causa de seu choro.” São palavras de Deus. Agirei como um pai para você, Waldo. Creio que será melhor deixarmos suas costas nuas.

Tirou o canivete e rasgou a camisa do ombro até a cintura.

— Agora — disse Bonaparte —, espero que o Senhor abençoe e santifique para você o que vou lhe fazer.

O primeiro golpe correu do ombro através do meio das costas; o segundo caiu exatamente no mesmo lugar. Um estremecimento atravessou o corpo do menino.

— Bom, hein? — disse Bonaparte, espiando-lhe o rosto de lado, falando com a língua presa, como se falasse a uma criancinha. — Bó, hein?

Mas os olhos estavam negros e sem brilho, e pareciam não vê-lo. Depois de dezesseis golpes, Bonaparte interrompeu o trabalho para limpar do chicote uma pequena gota de sangue.

— Frio, hein? Por que treme tanto? Talvez queira puxar a camisa para cima? Mas ainda não acabei bem.

Quando terminou, limpou de novo o chicote e o pôs no bolso. Cortou a corda com o canivete e depois apanhou a luz.

— Parece que ainda não encontrou a língua. Esqueceu como se chora? — disse Bonaparte, dando-lhe tapinhas no rosto.

O menino ergueu os olhos para ele — não sombrios, não irados. Havia nos olhos um terror selvagem e intermitente. Bonaparte apressou-se a sair, fechar a porta e deixá-lo sozinho na escuridão. Ele mesmo tinha medo daquele olhar.


Era quase manhã. Waldo jazia com o rosto contra o chão, ao pé da pilha de combustível. Havia um buraco redondo perto do alto da porta, onde caíra um nó da madeira, e por ele entrava uma faixa de luz cinzenta.

Ah, afinal ia acabar. Nada dura para sempre, nem mesmo a noite. Como nunca pensara nisso antes? Pois, em toda aquela longa noite escura, estivera muito forte, nunca se cansara, nunca sentira dor, correra sem parar, para cima e para baixo, para cima e para baixo; não ousara ficar parado, e não soubera que aquilo terminaria. Estivera tão forte que, quando bateu a cabeça com toda a força contra a parede de pedra, isso não o atordoou nem lhe causou dor — apenas o fez rir. Foi uma noite terrível.

Quando apertou as mãos freneticamente e rezou — “Ó Deus, meu belo Deus, meu doce Deus, uma vez, apenas uma vez, deixa-me sentir-te perto de mim esta noite!” — não pôde senti-lo. Rezou em voz alta, muito alta, e não recebeu resposta; quando escutava, tudo estava perfeitamente quieto — como quando os sacerdotes de Baal clamavam em voz alta a seu deus: “Ó Baal, ouve-nos! Ó Baal, ouve-nos! Mas Baal saíra para caçar.”

Foi uma longa noite selvagem, e pensamentos selvagens vieram e foram nela; mas deixaram suas marcas para sempre: pois, assim como anos não podem passar sem deixar rastros, tampouco noites em que se comprimem pensamentos e sofrimentos de anos. E agora a aurora vinha, e por fim ele estava muito cansado. Tremeu e tentou puxar a camisa sobre os ombros. Estavam ficando rígidos. Não soubera, durante a noite, que estavam cortados. Olhou para a luz branca que entrava pelo buraco no alto da porta e estremeceu. Depois voltou o rosto para o chão e dormiu novamente.

Algumas horas mais tarde, Bonaparte veio até o depósito de combustível com um pedaço de pão na mão. Abriu a porta e espiou para dentro; depois entrou e tocou o sujeito com a bota. Vendo que respirava pesadamente, embora não acordasse, Bonaparte atirou o pão ao chão. Estava vivo, isso era uma coisa. Inclinou-se sobre ele e, com a unha do indicador, cuidadosamente tornou a abrir um dos cortes, examinando com muito interesse o trabalho da noite anterior. Teria de contar ele mesmo as ovelhas naquele dia; o menino estava literalmente todo retalhado. Trancou a porta e foi embora outra vez.

— Oh, Lyndall — disse Em, entrando na sala de jantar naquela tarde, banhada em lágrimas —, estive suplicando a Bonaparte que o deixasse sair, e ele não quer.

— Quanto mais você suplicar, mais ele não quererá — disse Lyndall.

Ela cortava aventais sobre a mesa.

— Oh, mas está tarde, e acho que querem matá-lo — disse Em, chorando amargamente; e, vendo que não obteria mais consolo da prima, saiu aos soluços: — Admira-me que você consiga cortar aventais enquanto Waldo está trancado desse jeito.

Durante dez minutos depois que ela saiu, Lyndall continuou trabalhando quieta; então dobrou o tecido, enrolou-o apertado e ficou diante da porta fechada da sala de visitas, com as mãos fortemente cruzadas. Um rubor subiu-lhe ao rosto: abriu a porta de repente e entrou, indo até o prego em que pendia a chave do depósito de combustível. Bonaparte e Tant Sannie estavam ali sentados e a viram.

— O que você quer? — perguntaram juntos.

— Esta chave — disse ela, erguendo-a e olhando para eles.

— Você quer que ela a tenha? — disse Tant Sannie em holandês.

— Por que você não a impede? — perguntou Bonaparte em inglês.

— Por que você não a toma dela? — disse Tant Sannie.

Assim ficaram olhando um para o outro, falando, enquanto Lyndall caminhava para o depósito de combustível com a chave, mordendo o lábio inferior.

— Waldo — disse ela, enquanto o ajudava a se pôr de pé e torcia-lhe o braço em torno de sua cintura para sustentá-lo —, não seremos crianças para sempre; também teremos poder algum dia.

Beijou-lhe o ombro nu com sua boquinha macia. Era todo o consolo que sua jovem alma podia lhe dar.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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