Universo da obra
Universo da obra
Quando as duas meninas contornaram o lado do kopje, apresentou-se uma cena incomum. Um grande grupo reunira-se à porta dos fundos da casa da fazenda. No degrau estava a mulher bôer, uma mão em cada quadril, o rosto vermelho e ardente, a cabeça balançando ferozmente. A seus pés sentava-se a criada hotentote amarelada, seu satélite, e ao redor estavam as criadas kaffir negras, com cobertores torcidos em torno das figuras meio nuas. Duas, que pilavam milho num bloco de madeira, seguravam nas mãos os grandes pilões e fitavam estupidamente o objeto da atração.
Certamente não fora para olhar o velho feitor alemão, que estava no centro do grupo, que todos se haviam reunido. Seu terno sal-e-pimenta, a barba grisalha e preta, e os olhos cinzentos eram tão familiares a todos na fazenda quanto os próprios frontões vermelhos da casa; mas ao lado dele estava o estranho, e nele todos os olhos se fixavam. De quando em quando, o recém-chegado lançava um olhar por cima do nariz vermelho e pendente para o lugar onde estava a mulher bôer, e sorria de leve.
— Não sou criança — gritou a mulher bôer, em baixo holandês do Cabo —, e não nasci ontem. Não, pelo Senhor, não! Você não me engana! Minha mãe não me desmamou na segunda-feira. Com uma piscada de olho eu vejo a coisa toda. Não terei vagabundos dormindo na minha fazenda — gritou Tant Sannie, bufando. — Não, pelo diabo, não! Nem que ele tivesse sessenta vezes seis narizes vermelhos.
Nisso o feitor alemão interveio brandamente, dizendo que o homem não era um vagabundo, mas um indivíduo altamente respeitável, cujo cavalo morrera em um acidente três dias antes.
— Não me diga — gritou a mulher bôer —; não nasceu ainda o homem que possa me passar para trás. Se ele tivesse dinheiro, não teria comprado um cavalo? Homens que andam a pé são ladrões, mentirosos, assassinos, padres de Roma, sedutores! Vejo o diabo no nariz dele! — gritou Tant Sannie, sacudindo o punho para ele. — E vir andando para dentro da casa da filha deste bôer e apertar mãos como se viesse montado! Oh, não, não!
O estranho tirou o chapéu, uma cartola alta e surrada, revelou uma cabeça calva, atrás da qual havia uma pequena franja de cabelos brancos encaracolados, e fez uma reverência a Tant Sannie.
— O que ela observa, meu amigo? — perguntou, voltando para o velho alemão os olhos estrábicos.
O alemão esfregou as mãos velhas e hesitou.
— Ah... bem... ah... os... holandeses... sabe... não gostam de pessoas que andam a pé... neste país... ah!
— Meu caro amigo — disse o estranho, pousando a mão no braço do alemão —, eu teria comprado outro cavalo para mim, mas, atravessando, cinco dias atrás, um rio cheio, perdi minha bolsa — uma bolsa com quinhentas libras dentro. Passei cinco dias na margem do rio tentando encontrá-la — não consegui. Paguei nove libras a um kaffir para entrar e procurá-la, com risco da própria vida — não conseguiu encontrá-la.
O alemão teria traduzido essa informação, mas a mulher bôer não lhe deu ouvidos.
— Não, não; ele vai embora esta noite. Veja como olha para mim — uma pobre fêmea desprotegida! Se ele me fizer mal, quem me fará justiça? — gritou Tant Sannie.
— Acho — disse o alemão em voz baixa — que, se o senhor não olhasse tanto para ela, talvez fosse aconselhável. Ela... ah... ela... poderia imaginar que o senhor gosta demais dela; de fato... ah...
— Certamente, meu caro amigo, certamente — disse o estranho. — Não olharei para ela.
Dizendo isso, virou o nariz inteiro para um pequeno kaffir de dois anos. Aquele pequeno filho de Cam, nu, ficou instantaneamente tão aterrorizado que fugiu, uivando horrivelmente, para se proteger no cobertor da mãe. Diante disso, o recém-chegado fixou pensativamente os olhos no bloco de pilar milho, cruzando as mãos sobre a cabeça da bengala. As botas estavam rotas, mas ele ainda possuía a bengala de um cavalheiro.
— Seu Engelschman de vagabundos! — disse Tant Sannie, olhando diretamente para ele.
Isso se aproximava bastante do inglês puro; mas o homem contemplava o bloco de modo abstrato, completamente inconsciente de que alguma hostilidade se exibia contra ele.
— O senhor não seria por acaso escocês, ou algo desse tipo? — sugeriu o alemão. — São os ingleses que ela odeia.
— Meu caro amigo — disse o estranho —, sou irlandês até o último fio de cabelo: pai irlandês, mãe irlandesa. Não tenho uma gota de sangue inglês nas veias.
— E não seria casado, por acaso? — insistiu o alemão. — Se tivesse esposa e filhos, agora? Os holandeses não gostam dos que não são casados.
— Ah — disse o estranho, olhando ternamente para o bloco —, tenho uma esposa querida e três doces filhinhos — duas meninas encantadoras e um nobre menino.
Transmitida essa informação à mulher bôer, ela, depois de mais alguma conversa, pareceu ligeiramente abrandada; mas permaneceu firme na convicção de que os desígnios do homem eram malignos.
— Pois, Senhor amado! — gritou. — Todos os ingleses são feios; mas já se viu coisa de nariz vermelho como trapo, botas rotas e olhos tortos igual a este? Leve-o para o seu quarto — gritou ao alemão —; mas todo pecado que ele cometer eu ponho à sua porta.
Quando o alemão lhe disse como as coisas tinham sido arranjadas, o estranho fez profunda reverência a Tant Sannie e seguiu seu anfitrião, que o conduziu ao próprio quartinho.
— Pensei que logo ela voltaria a seu melhor eu — disse o alemão alegremente. — Tant Sannie não é de todo má, longe disso, longe.
Então, vendo o companheiro lançar-lhe um olhar furtivo, que ele tomou por surpresa, acrescentou depressa:
— Ah, sim, sim; somos todos um povo primitivo aqui — não muito elevado. Não lidamos com títulos. Todos são Tante e Oom — tia e tio. Este pode ser meu quarto — disse, abrindo a porta. — É rústico, o quarto é rústico; não é um palácio — não exatamente. Mas talvez seja melhor que os campos, um pouco melhor! — disse, olhando em volta para o companheiro. — Entre, entre. Há alguma coisa para comer — uma bocada: não a comida de imperadores ou reis; mas não passamos fome, ainda não — disse, esfregando as mãos e olhando ao redor com um sorriso satisfeito e meio nervoso no rosto velho.
— Meu amigo, meu caro amigo — disse o estranho, agarrando-lhe a mão —, que o Senhor o abençoe, que o Senhor o abençoe e recompense — o Deus dos órfãos e do estrangeiro. Sem o senhor, esta noite eu teria dormido nos campos, com os orvalhos do céu sobre a cabeça.
Mais tarde, naquela noite, Lyndall desceu até a cabana com as rações do alemão. Pela minúscula janela quadrada a luz jorrava para fora, e, sem bater, ela ergueu o trinco e entrou. Havia um fogo aceso na lareira, e ele lançava seu brilho rubro sobre o pequeno quarto sombrio, com seus caibros carcomidos, chão de barro e paredes caiadas e quebradas. Um lugarzinho curioso, cheio de todo tipo de artigos.
Junto ao fogo havia uma grande caixa de ferramentas; além dela, a pequena estante com seus livros muito usados; além dela, no canto, um monte de sacos de grãos cheios e vazios. Dos caibros pendiam correias, riems, botas velhas, pedaços de arreio e uma réstia de cebolas. A cama ficava em outro canto, coberta por uma colcha de retalhos com leões vermelhos desbotados, e separada do resto do quarto por uma cortina azul, agora puxada para trás. Sobre a prateleira da lareira havia uma coleção sem fim de pequenos sacos e pedras; e na parede pendia um mapa do sul da Alemanha, com uma linha vermelha traçada por ele para mostrar por onde o alemão havia vagueado.
Esse lugar era o único lar que as meninas haviam conhecido por muitos anos. A casa onde Tant Sannie vivia e reinava era um lugar para dormir, para comer, não para ser feliz. Era em vão que ela lhes dizia que estavam crescidas demais para ir ali; todas as manhãs e noites as encontravam naquele quarto.
Não havia demasiadas memórias douradas penduradas no velho lugar para que elas o abandonassem? Longas noites de inverno, quando se sentavam ao redor do fogo e assavam batatas, e faziam adivinhas, e o velho lhes contava da pequena aldeia alemã onde, cinquenta anos antes, um menino alemão brincara de bolas de neve e levara para casa as meias tricotadas de uma menininha que depois se tornaria a mãe de Waldo; não lhes parecia ver as camponesas alemãs andando de tamancos, com cabelos amarelos trançados, e as crianças comendo a ceia em pequenas tigelas de madeira quando as boas mães as chamavam para tomar leite e batatas? E não havia tempos ainda melhores que esses? Noites de luar em que corriam em brincadeiras à porta, com o velho, ainda mais criança que qualquer uma delas, e riam até o velho telhado do galpão das carroças ressoar? Ou, melhor de tudo, não havia noites quentes, escuras e estreladas, quando se sentavam juntos no degrau da porta, de mãos dadas, cantando hinos alemães, suas vozes subindo claras no ar imóvel da noite — até que o alemão retirava de repente a mão para enxugar depressa uma lágrima que as crianças não deviam ver? Ficavam olhando para as estrelas e falando delas — do querido Cruzeiro do Sul, do vermelho e ardente Marte, de Órion com seu cinturão, e das Sete Irmãs Misteriosas — e começavam a especular sobre elas. Que idade tinham? Quem habitava nelas? E o velho alemão dizia que talvez as almas que amávamos vivessem nelas; ali, naquele pequeno ponto cintilante, talvez estivesse a menininha cujas meias ele levara para casa; e as crianças olhavam para ele com amor e o chamavam de “a estrela do tio Otto”. Então caíam em especulações mais profundas — sobre os tempos e estações em que os céus serão enrolados como um pergaminho, e as estrelas cairão como a figueira lança seus figos verdes, e não haverá mais tempo: “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os seus santos anjos com Ele”. Em tons cada vez mais baixos falavam, até por fim caírem em sussurros; então desejavam boa-noite baixinho e voltavam para casa, caladas e quietas.
Naquela noite, quando Lyndall entrou, Waldo sentava-se diante do fogo, vigiando uma panela que fervia ali, com a ardósia e o lápis na mão; o pai sentava-se à mesa, mergulhado nas colunas de um jornal de três semanas; e o estranho jazia estendido na cama do canto, dormindo profundamente, a boca aberta, os grandes membros soltos, denunciando muito cansaço. A menina pôs as rações sobre a mesa, aparou o pavio da vela e ficou olhando para a figura na cama.
— Tio Otto — disse em seguida, pousando a mão no jornal e fazendo o velho alemão olhar por cima dos óculos —, há quanto tempo aquele homem disse que estava andando?
— Desde esta manhã, pobre sujeito! Um cavalheiro — não acostumado a andar — cavalo morreu — pobre sujeito! — disse o alemão, projetando o lábio e lançando, por cima dos óculos, um olhar compassivo na direção da cama, onde o estranho jazia com o queixo flácido e duplo e as botas rotas por onde a carne brilhava.
— E o senhor acredita nele, tio Otto?
— Acreditar nele? Ora, é claro que acredito. Ele mesmo me contou a história três vezes, distintamente.
— Se — disse a menina lentamente — ele tivesse andado por apenas um dia, as botas não pareceriam assim; e se...
— Se! — disse o alemão, levantando-se de repente na cadeira, irritado porque alguém duvidasse de prova tão irrefutável. — Se! Ora, ele mesmo me contou! Veja como está deitado ali — acrescentou o alemão pateticamente —, exausto... pobre sujeito! Temos alguma coisa para ele, porém — disse, apontando com o indicador por sobre o ombro para a panela que estava no fogo. — Não somos cozinheiros — não cozinheiros franceses, não exatamente; mas dá para beber, dá para beber, eu acho; melhor que nada, eu acho — acrescentou, balançando a cabeça de modo jovial, que evidenciava a alta estima que tinha pelo conteúdo da panela e sua profunda satisfação com ele.
— Psi! psi! minha pintainha — disse, enquanto Lyndall batia o pezinho para cima e para baixo no chão. — Psi! psi! minha pintainha, você vai acordá-lo.
Moveu a vela para que sua própria cabeça ficasse entre ela e o rosto do adormecido; e, alisando o jornal, ajustou os óculos para ler. Os olhos cinzento-negros da criança repousaram na figura sobre a cama, depois se voltaram para o alemão, depois repousaram novamente sobre a figura.
— Acho que ele é mentiroso. Boa-noite, tio Otto — disse lentamente, virando-se para a porta.
Muito depois que ela saiu, o alemão dobrou metodicamente o jornal e o guardou no bolso. O estranho não despertara para tomar a sopa, e seu filho adormecera no chão. Tirando duas peles de ovelha brancas do monte de sacos no canto, o velho as dobrou e, erguendo gentilmente a cabeça do menino da ardósia sobre a qual repousava, colocou as peles debaixo dela.
— Pobre cordeirinho, pobre cordeirinho! — disse, dando palmadinhas ternas na grande cabeça áspera, semelhante à de um ursinho. — Está cansado!
Lançou um sobretudo sobre os pés do menino e retirou a panela do fogo. Não havia lugar onde o velho pudesse deitar-se confortavelmente, então retomou seu assento. Abrindo uma Bíblia muito gasta, começou a ler, e, enquanto lia, pensamentos e visões agradáveis se amontoavam sobre ele.
— “Eu era estrangeiro, e me acolhestes” — leu.
Virou-se outra vez para a cama onde jazia o adormecido.
— Eu era estrangeiro.
Com muita ternura o velho o olhou. Não via o corpo inchado nem o rosto maligno do homem; mas, como que sob profundo disfarce e ocultamento carnal, a forma que longos anos de sonho haviam tornado muito real para ele.
— Jesus, amado, e nos é dado a nós, fracos e pecadores, frágeis e errantes, servir-Te, acolher-Te! — disse suavemente, enquanto se levantava do assento.
Cheio de alegria, começou a andar pelo pequeno quarto. De vez em quando, enquanto caminhava, cantava versos de um hino alemão ou murmurava palavras quebradas de oração. O pequeno quarto estava cheio de luz. Parecia ao alemão que Cristo estava muito perto dele, e que quase a qualquer momento a fina névoa de treva terrena que velava seus olhos humanos poderia ser retirada, e manifestar-se aquilo de que os amigos em Emaús, ao contemplá-lo, disseram: “É o Senhor!”
De novo, e ainda de novo, durante as longas horas daquela noite, enquanto o velho caminhava, olhava para o teto de seu quartinho, com seus caibros escurecidos, e contudo não os via. Seu rosto áspero e barbudo estava iluminado por uma alegria radiante; e a noite não foi mais curta para os sonhadores adormecidos do que para aquele cujos sonhos acordados aproximavam o céu.
Tão depressa fugiu a noite que ele ergueu os olhos com surpresa quando, às quatro horas, as primeiras faixas cinzentas da aurora de verão se mostraram pela pequena janela. Então o velho voltou-se para juntar as poucas brasas que jaziam sob as cinzas, e seu filho, virando-se sobre as peles de ovelha, murmurou sonolento, perguntando se já era hora de levantar.
— Fique deitado, fique deitado! Eu só vou fazer fogo — disse o velho.
— O senhor passou a noite acordado? — perguntou o menino.
— Sim; mas foi curta, muito curta. Durma de novo, meu pintinho; ainda é cedo.
E saiu para buscar mais combustível.
Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.
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Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.
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