Universo da obra
Universo da obra
“Dize-me o que uma alma deseja, e eu te direi o que ela é.” Assim corre a frase.
“Dize-me o que um homem sonha, e eu te direi o que ele ama.” Isso também tem sua verdade.
Pois, desde a primeira infância até a idade derradeira, dia após dia e passo após passo, a vida desperta e ocupada é seguida e refletida pela vida dos sonhos — sonhos acordados, sonhos adormecidos. Estranhos, enevoados e distorcidos como a imagem invertida de uma miragem, ou uma figura vista através da névoa da montanha, eles ainda são reflexos de uma realidade.
Na noite em que Gregory contou sua história, Waldo sentou-se sozinho diante do fogo, a ceia intocada diante de si. Estava cansado depois de seu dia de trabalho — cansado demais para comer. Pôs o prato no chão para Doss, que o lambeu até deixá-lo limpo, e depois voltou para seu canto. Passado algum tempo, o dono atirou-se atravessado ao pé da cama sem se despir e adormeceu ali. Dormiu tanto que a vela se consumiu, e o quarto ficou às escuras. Mas sonhou um belo sonho enquanto jazia ali.
Em seu sonho, à sua direita erguiam-se altas montanhas, os cumes coroados de neve, as encostas vestidas de mato e banhadas pelo sol. A seus pés estava o mar, azul e cheio de brisa, mais azul que qualquer mar terreno, como o mar com que sonhara na infância. Na estreita mata que corria entre as montanhas e o mar, o ar era rico com o perfume da trepadeira-de-mel que pendia dos arbustos verde-escuros, e pela relva aveludada pequenos riachos murmuravam descendo para o mar.
Ele se sentava numa alta rocha quadrada entre os arbustos, e Lyndall estava ao seu lado e cantava para ele. Era apenas uma criancinha, com um avental azul e um rostinho grave, grave. Ele olhava para as montanhas, e então, de repente, quando se voltou, ela desaparecera. Deslizou de sua rocha e foi procurá-la, mas encontrou apenas suas pequenas pegadas; encontrou-as na relva verde e brilhante, na areia úmida, e ali onde os pequenos riachos murmuravam ao descer para o mar.
Para dentro e para fora, para dentro e para fora, e entre os arbustos onde pendia a trepadeira-de-mel, ele foi à sua procura. Por fim, ao longe, ao sol, viu-a recolhendo conchas na areia. Já não era uma criança, mas uma mulher, e o sol brilhava em seus cabelos castanhos macios, e em seu vestido branco ela punha as conchas que recolhia. Estava curvada; mas, ao ouvir os passos dele, ergueu-se, segurando a saia junto de si, e esperou que ele viesse.
Pôs uma das mãos na dele, e juntos caminharam pela areia cintilante e pelas conchinhas rosadas; e ouviram as folhas falando, e ouviram as águas tagarelando a caminho do mar, e ouviram o mar cantando para si mesmo, cantando, cantando.
Por fim chegaram a um lugar onde havia uma longa extensão de areia pura e branca; ali ela parou e deixou cair na areia, uma a uma, as conchas que recolhera. Então olhou para o rosto dele com seus belos olhos. Nada disse; mas ergueu uma das mãos e a pousou suavemente na testa dele; a outra, pousou em seu coração.
Com um grito de agonia contida, Waldo saltou da cama, abriu violentamente a metade superior da porta e inclinou-se para fora, respirando pesadamente.
Grande Deus! podia ser apenas um sonho, mas a dor era muito real, como se uma faca lhe atravessasse o coração, como se algum assassino traiçoeiro se insinuasse sobre ele no escuro! O homem forte tomou fôlego como uma mulher assustada.
— Apenas um sonho, mas a dor era muito real — murmurou, enquanto apertava a mão direita contra o peito. Depois cruzou os braços sobre a porta e ficou olhando para a luz das estrelas.
O sonho ainda estava com ele; a mulher que era sua amiga não estava separada dele por anos — apenas naquela mesma noite ele a vira. Olhou para o céu noturno que durante toda a sua vida se misturara à sua existência. Havia mil rostos que ele amava olhando para baixo, mil estrelas em sua glória, em coroas, em círculos e em grandeza solitária.
Para o homem, não eram menos caras do que tinham sido para o menino, nem menos misteriosas; contudo, ele olhou para elas e estremeceu; por fim desviou-se delas com horror.
Tantas multidões inumeráveis estendendo-se para longe no espaço, e ainda assim em nenhuma delas ela estava! Ainda que as percorresse todas, até o ponto de luz mais distante e mais tênue, em parte alguma poderia jamais dizer: “Ela está aqui!” O sol de amanhã se ergueria e douraria as montanhas do mundo, e brilharia em seus mil vales; ele se poria, e as estrelas avançariam de novo.
Ano após ano, século após século, as velhas mudanças da natureza prosseguiriam, dia e noite, verão e inverno, sementeira e colheita; mas de nenhuma delas ela participaria!
Fechou a porta para impedir a entrada daquele brilho hediondo e, porque a escuridão era intolerável, acendeu uma vela e pôs-se a andar pelo quartinho, cada vez mais depressa. Via diante de si as longas eras da eternidade que rolariam, rolariam, e jamais a trariam. Ela não existiria mais. Uma névoa escura encheu o quartinho.
— Oh, pequena mão! oh, pequena voz! oh, pequena forma! — gritou. — Oh, pequena alma que caminhou com a minha! oh, pequena alma que olhou tão sem medo para dentro dos abismos, existes tu para sempre não mais — por todo o tempo?
Gritou mais amargamente:
— É por esta hora — esta — que os homens cegam a razão e esmagam o pensamento! Por esta hora — esta, esta — trocam verdade e conhecimento por qualquer mentira, qualquer credo, contanto que não lhes sussurre, acerca dos mortos, que estão mortos! Oh, Deus! por um Além!
A dor tornou sua alma fraca; ela clamou pela antiga fé. São as lágrimas que caem no túmulo recém-aberto que cimentam o poder do sacerdote. Pois o grito da alma que ama e perde é este, somente este: “Constrói uma ponte sobre a Morte; mistura o Aqui com o Além; faze o mortal revestir-se de imortalidade; não me deixes dizer de meu Morto que ele está morto! Crerei em todo o resto, suportarei todo o resto, aguentarei todo o resto!”
Murmurando consigo mesmo, Waldo caminhava de cabeça baixa, a névoa nos olhos.
Ao grito selvagem da alma pelo que é seu há muitas respostas. Ele começou a pensar nelas. Não haveria uma só, entre todas, de que pudesse sugar uma gota de consolo?
“Você a verá de novo”, diz o cristão, o verdadeiro cristão bíblico. “Sim, você a verá de novo. ‘E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante de Deus. E os livros foram abertos, e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros. E todo aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo, que é a segunda morte.’ Sim; você a verá de novo.
“Ela morreu assim — sem dobrar o joelho, sem erguer a mão, sem pronunciar uma prece, no orgulho de seu intelecto e na força de sua juventude. Amou e foi amada; mas não rezou a Deus; não clamou por misericórdia; não se arrependeu de pecado algum! Sim; você a verá de novo.”
Em sua amargura, Waldo riu baixo.
Ah, há muito deixara de escutar a voz infernal.
Mas ainda outra fala.
“Você a verá de novo”, disse o cristão do século XIX, em cuja alma a incredulidade e o pensamento modernos se insinuaram profundamente, embora ele não o saiba. É ele quem usa a Bíblia como os pescadores de pérolas usam suas conchas, separando joias do refugo; ajusta suas pérolas à sua maneira, e as ajusta bem. “Não tema”, diz; “inferno e julgamento não existem. Deus é amor. Sei que além deste céu azul acima de nós há um amor que se espalha vastamente sobre tudo.
“O Pai de Todos há de mostrá-la a você outra vez; não apenas espírito — as pequenas mãos, os pequenos pés que você amou, você poderá deitar-se e beijá-los, se quiser. Cristo ressuscitou, e comeu e bebeu; assim ela ressuscitará. Os mortos, todos os mortos, ressuscitados incorruptíveis! Deus é amor. Você a verá de novo.”
É uma canção celeste, esta do cristão do século XIX. Um homem poderia secar as lágrimas para ouvi-la, não fosse por isto — Waldo murmurou para si mesmo, confuso:
“A coisa que amei era uma mulher orgulhosa e jovem; teve uma mãe certa vez, que, morrendo, beijou sua bebezinha e rogou a Deus que pudesse vê-la de novo. Se ela tivesse vivido, a coisa amada teria tido, ela própria, um filho, que, quando fechasse os olhos cansados e alisasse a testa enrugada da mãe, haveria de rogar a Deus para ver aquele velho rosto sorrir de novo no Além.
“Para o filho, o céu não será céu se o doce rosto gasto não estiver em um dos coros; ele o procurará através da falange dos anjos glorificados de Deus; e o jovem procurará a moça, e a mãe, o bebê. ‘E de quem será ela, então, na ressurreição dos mortos?’”
— Ah, Deus! ah, Deus! um belo sonho — gritou —; mas alguém pode sonhá-lo sem dormir?
Waldo continuou a andar, gemendo de agonia e anseio.
Ouviu a alta resposta do Transcendentalista.
“Que tens tu a ver com a carne, a veste grosseira e miserável em que o espírito se esconde? Tu a verás de novo. Mas a mão, o pé, a testa que amaste, não verás mais. Os amores, os temores, as fraquezas que nascem com a carne, com a carne morrerão. Deixa-os morrer! Há no homem algo que não pode morrer — uma semente, um germe, um embrião, uma essência espiritual.
“Mais alta do que era na terra, assim como a árvore é mais alta que a semente, o homem que o embrião, assim a contemplarás; transformada, glorificada!”
Altas palavras, de bom ressoar; são a oferta de joias ao faminto, de ouro ao homem que morre por pão. O pão é corruptível, o ouro é incorruptível; o pão é leve, o ouro é pesado; o pão é comum, o ouro é raro; mas o faminto trocaria todas as vossas minas por um só bocado de pão. Ao redor do trono de Deus pode haver coros e companhias de anjos, querubins e serafins, erguendo-se camada sobre camada, mas não é por nenhum deles que a alma clama em voz alta.
Talvez apenas por uma pequena mulher humana, cheia de pecado, que certa vez amou.
— Mudança é morte, mudança é morte! — gritou ele. — Não quero anjo algum, apenas ela; nem mais santa, nem melhor, com todos os seus pecados sobre si; dai-me ela ou não me deis nada!
E, na verdade, não ama o coração os seus com paixão mais forte justamente por suas fraquezas? O céu poderia guardar seus anjos, se os homens fossem apenas deixados aos homens.
— Mudança é morte — gritou ele —, mudança é morte! Quem ousa dizer que o corpo nunca morre, porque torna outra vez a ser relva e flores? E, contudo, ousam dizer que o espírito nunca morre, porque no espaço algum estranho ser não terreno talvez tenha brotado sobre suas ruínas. Deixem-me! Deixem-me! — gritou em amargura frenética. — Devolvam-me o que perdi, ou não me deem nada.
Pois o grito feroz da alma pela imortalidade é este — somente este: devolve-me depois da morte a coisa como ela era antes. Deixa-me no Além o ser que sou hoje. Rouba-me os pensamentos, os sentimentos, os desejos que são minha vida, e não deixaste nada que tomar. Tua imortalidade é aniquilação; teu Além é mentira.
Waldo escancarou a porta e saiu para a luz das estrelas, seus pensamentos feridos de dor impelindo-o sempre enquanto caminhava ali.
— Deve haver um Além porque o homem anseia por ele! — sussurrou. — Não é toda a vida, do berço ao túmulo, um longo anseio por aquilo que nunca tocamos? Deve haver um Além porque não podemos conceber fim algum para a vida. Podemos conceber um começo? É mais fácil dizer “eu não era” do que dizer “eu não serei”? E contudo, onde estávamos há noventa anos? Sonhos, sonhos! Ah, tudo sonhos e mentiras! Nenhum chão em parte alguma.
Voltou para a cabana e caminhou ali dentro. Hora após hora passou, e ele estava sonhando.
Pois, note-se, os homens hão de sonhar; o máximo que se pode pedir deles é apenas que o sonho não esteja em discordância demasiado gritante com aquilo que sabem. Ele caminhava de cabeça baixa.
Tudo morre, tudo morre! As rosas são vermelhas com a matéria que outrora avermelhou a face da criança; as flores desabrocham mais belas sobre o campo de batalha do ano passado; a obra do dedo da morte, astutamente entrelaçada, está no coração de todas as coisas, até das vivas.
O dedo da morte está em toda parte. As rochas são construídas de uma vida que já foi. Corpos, pensamentos e amores morrem: de onde brota aquele sussurro à diminuta alma do homem: “Não morrerás”? Ah, não haverá verdade de que este sonho seja sombra?
Caiu em silêncio perfeito. E, por fim, enquanto caminhava ali de cabeça baixa, sua alma desceu os degraus da contemplação para aquela vasta terra onde há sempre paz; aquela terra onde a alma, olhando por muito tempo, perde toda consciência de seu pequeno eu e quase sente a mão pousada no velho mistério da Unidade Universal que a cerca.
— Não há morte, não há morte — murmurou; — há aquilo que nunca morre — que permanece. É apenas o indivíduo que perece; o todo permanece. É o organismo que desaparece; os átomos estão ali. É apenas o homem que morre; o Todo Universal de que ele faz parte o retrabalha em seu eu mais íntimo. Ah, que importa que o dia do homem seja breve! — que o nascer do sol o veja, e o pôr do sol veja sua sepultura; aquilo de que ele é apenas o sopro o exalou e o recolheu de volta. Aquilo permanece — nós permanecemos.
Para a pequena alma que clama em voz alta pela continuidade da existência pessoal para si e para seu amado, não há socorro. Para a alma que não mais se sabe unidade, mas parte da Unidade Universal de que o Amado também é parte; que sente dentro de si o pulsar da Vida Universal; para essa alma não há morte.
— Morramos, amado, tu e eu, para que passemos para sempre através da Vida Universal! Nesse profundo mundo de contemplação todos os desejos ferozes se extinguem, e a paz desce.
Ele, Waldo, enquanto caminhava ali, já não via o mundo que estava ao redor; já não clamava pela coisa que perdera. Sua alma descansava. Foi somente João, pensais vós, quem viu os céus abertos? Os sonhadores os veem todos os dias.
Muitos anos antes, o pai caminhara na pequena cabana e vira coros de anjos e um príncipe semelhante aos homens, porém vestido de imortalidade.
O conhecimento do filho não era o do pai; por isso o sonho tinha nova coloração, mas toda a doçura estava ali, a paz infinita que os homens não encontram no pequeno reino carcomido do tangível. As grades do real estão postas muito perto de nós; não podemos abrir as asas sem que elas batam nelas e caiam sangrando. Mas, quando deslizamos entre as grades para o grande desconhecido além, podemos velejar para sempre no azul glorioso, sem ver nada além de nossas próprias sombras.
Assim uma era sucede a outra, e um sonho sucede a outro, e da alegria do sonhador ninguém sabe senão aquele que sonha.
Nossos pais tiveram seu sonho; nós temos o nosso; a geração que nos seguirá terá o seu. Sem sonhos e fantasmas o homem não pode existir.
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