Universo da obra
Universo da obra
Gregory Rose estava ausente havia sete meses. Em sentava-se sozinha sobre uma pele branca de carneiro diante do fogo.
O vento noturno de agosto, estranho e agudo, uivava ao redor das chaminés, pelas frestas das paredes e das portas, e soltava um longo grito baixo ao forçar passagem entre as fendas das pedras no kopje. Era uma noite bravia. A figueira-da-índia, rígida e ereta ao sustentar os braços, sentia a força do vento e batia pesadamente suas folhas chatas umas contra as outras, até que grandes ramos se quebrassem.
Os cafres, enquanto dormiam em suas cabanas de palha, sussurravam uns aos outros que antes da manhã não restaria nos telhados um braço cheio de sapé; e as vigas do galpão das carroças estalavam e gemiam como se fosse pesado trabalho resistir à importunidade do vento.
Em não se fora deitar. Quem poderia dormir numa noite como aquela? Assim, na sala de jantar, acendera o fogo e sentara-se no chão diante dele, virando os bolinhos de brasa que jaziam sobre as brasas para assar. Isso pouparia trabalho pela manhã; e ela apagara a luz, porque o vento pelas frestas da janela a fazia tremular e correr; e estava sentada, cantando consigo mesma, enquanto vigiava os bolos.
Eles jaziam numa ponta da larga lareira sobre um leito de brasas, e na outra uma chama ardia firmemente, lançando seu brilho de âmbar sobre os cabelos claros de Em e seu vestido preto, com o babado de crepe ao redor do pescoço, e sobre os cachos brancos da pele de carneiro em que ela estava sentada.
Mais alto e mais feroz uivou a tempestade; mas Em continuou cantando, e nada ouviu senão as palavras de sua canção, e ouviu-as apenas de leve, como algo repousante. Era uma velha canção infantil que muitas vezes ouvira a mãe cantar, muito tempo antes:
Onde os juncos dançam junto ao rio, Onde se diz a canção do salgueiro, No rosto da água matinal Reflete-se a cabeça de uma flor branca.
Ela cruzou as mãos e cantou sonhadoramente o verso seguinte:
Onde os juncos tremem junto ao rio, Onde se derrama o brilho do luar, No rosto da água adormecida, Duas folhas de uma flor branca flutuam mortas. Mortas, Mortas, Mortas!
Ecoou suavemente o refrão até que ele se extinguisse, e então o repetiu. Era como se, sem que ela o soubesse, ele se harmonizasse com as imagens e pensamentos que se sentavam com ela ali, sozinha, à luz do fogo. Virou os bolos, enquanto o vento derrubava uma fileira de tijolos do frontão e fazia tremer as paredes.
Pouco depois parou e escutou; havia um som como de algo batendo à porta dos fundos. Mas o vento erguera mais alto o seu tom, e ela prosseguiu no trabalho. Por fim o som se repetiu. Então se levantou, acendeu a vela no fogo e foi ver. Apenas para certificar-se, dizia a si mesma, de que nada podia estar lá fora numa noite daquelas.
Abriu um pouco a porta e segurou a luz atrás de si para defendê-la do vento. A figura de um homem alto estava ali, e antes que ela pudesse falar ele já se enfiara para dentro, forçando a porta a fechar-se atrás de si.
— Waldo! — gritou ela, espantada.
Ele estivera ausente por mais de um ano e meio.
— Você não esperava me ver — respondeu, voltando-se para ela. — Eu teria dormido no anexo, e não a teria incomodado esta noite; mas pela veneziana vi lampejos de luz.
— Venha para junto do fogo — disse ela. — É uma noite terrível para qualquer criatura estar lá fora. Não devemos ir buscar suas coisas primeiro? — acrescentou.
— Não tenho nada além disto — disse ele, indicando o pequeno embrulho em sua mão.
— Seu cavalo?
— Está morto.
Sentou-se no banco diante do fogo.
— Os bolos estão quase prontos — disse ela. — Vou buscar algo para você comer. Por onde esteve vagando todo este tempo?
— Para cima e para baixo, para cima e para baixo — respondeu ele, cansado. — E agora deu-me o capricho de voltar para cá. Em — disse, pondo a mão em seu braço quando ela passou por ele —, você teve notícias de Lyndall ultimamente?
— Sim — disse Em, desviando-se rapidamente.
— Onde está ela? Recebi uma carta dela, mas faz quase um ano — logo que ela partiu. Onde está?
— No Transvaal. Vou buscar sua ceia; conversaremos depois.
— Pode me dar o endereço exato dela? Quero escrever-lhe.
Mas Em havia entrado no cômodo ao lado.
Quando a comida estava sobre a mesa, ela se ajoelhou diante do fogo, virando os bolos, falando inquieta, ansiosa, ora disto, ora daquilo. Estava contente em vê-lo — Tant Sannie viria em breve mostrar-lhe seu novo bebê — ele devia ficar na fazenda agora e ajudá-la. E o próprio Waldo ficou bem contente em comer sua refeição em silêncio, sem fazer mais perguntas.
— Gregory volta na próxima semana — disse ela. — Amanhã fará exatamente cento e três dias que se foi. Recebi carta dele ontem.
— Por onde ele esteve?
Mas sua companheira curvou-se para tirar um bolo do fogo.
— Como venta! Mal se ouve a própria voz — disse. — Tome este bolo quente; ninguém faz bolos como os meus. Ora, você não comeu nada!
— Estou um pouco cansado — disse ele. — O vento estava louco esta noite.
Cruzou os braços e encostou a cabeça na lareira enquanto ela retirava os pratos da mesa. Sobre a prateleira da chaminé havia um tinteiro e algumas folhas de papel. Pouco depois ele as pegou e ergueu a ponta da toalha da mesa.
— Escreverei algumas linhas — disse —, até que você esteja pronta para se sentar e conversar.
Em, enquanto sacudia a toalha, observou-o curvado atentamente sobre o papel. Ele mudara muito. O rosto afinara; as faces estavam quase encovadas, embora cobertas por uma barba escura.
Ela se sentou na pele ao lado dele e apalpou o pequeno embrulho sobre o banco; era dolorosamente pequeno e macio. Talvez contivesse uma camisa e um livro, mas nada além disso. O velho chapéu preto tinha um pedaço de musselina sem bainha torcido ao redor, e no cotovelo havia um grande remendo preso com linha amarela, de um modo que lhe doía no coração. Só os cabelos não haviam mudado, caindo em belas ondas sedosas quase até os ombros.
Amanhã ela tiraria a borda esfarrapada de seu colarinho e poria uma nova tira no chapéu. Não o interrompeu, mas admirou-se de que se sentasse para escrever tão atentamente depois de sua longa e fatigante caminhada. Ele não estava cansado agora; sua pena corria rápida e inquieta sobre o papel, e seus olhos brilhavam. Pouco depois Em ergueu a mão ao peito, onde jazia a carta que a véspera lhe trouxera. Logo se esqueceu dele tão inteiramente quanto ele se esquecera dela; cada um estava em seu próprio mundo com o que era seu.
Ele escrevia a Lyndall. Contaria a ela tudo o que vira, tudo o que fizera, ainda que nada valesse ser contado. Parecia ter voltado a ela e estar conversando com ela agora que se sentava ali, na velha casa.
“— e então cheguei à cidade seguinte, e meu cavalo estava cansado, de modo que não pude ir adiante, e procurei trabalho. Um lojista concordou em me empregar como caixeiro. Fez-me assinar uma promessa de permanecer seis meses, e deu-me para dormir um quartinho vazio nos fundos da loja. Eu ainda tinha três libras minhas, e quando a gente acaba de vir do campo três libras parecem muito.
“Quando fazia três dias que eu estava na loja, quis partir de novo. Um caixeiro de loja tem o trabalho mais baixo de todas as pessoas. É muito melhor quebrar pedras; há o céu azul sobre nós, e apenas as pedras diante das quais se curvar. Pedi a meu patrão que me deixasse ir, e ofereci dar-lhe minhas duas libras e o saco de mealies que eu comprara com a outra; mas ele não quis.
“Descobri depois que ele me pagava apenas metade do que pagava aos outros — era por isso. Eu tinha medo, quando olhava para os outros caixeiros, de acabar por me tornar como eles. O dia inteiro faziam mesuras e sorrisos afetados para as mulheres que entravam; sorriam quando tudo o que queriam era tirar-lhes o dinheiro. Corriam para buscar vestidos e fitas e mostrá-los, e pareciam-me vermes cobertos de óleo. Havia uma coisa respeitável naquela loja — era o encarregado cafre do armazém.
Seu trabalho era carregar e descarregar, e ele nunca precisava sorrir senão quando tinha vontade, e nunca dizia mentiras.
“Os outros caixeiros deram-me o nome de Velho Salvação; mas havia uma pessoa de quem gostei muito. Era caixeiro em outra loja. Passava muitas vezes diante da porta. Parecia-me diferente dos outros — seu rosto era claro e fresco como o de uma criancinha. Quando vinha à loja, eu sentia que gostava dele. Um dia vi um livro em seu bolso, e isso me fez sentir próximo dele. Perguntei se gostava de ler, e ele disse que sim, quando não havia mais nada a fazer.
“No dia seguinte ele veio até mim e perguntou se eu não me sentia solitário; nunca me via sair com os outros rapazes; viria me ver naquela noite, disse.
“Fiquei contente, e comprei carne e farinha, porque a égua cinzenta e eu sempre comíamos mealies; é o mais barato; quando se ferve bem duro, não se consegue comer muito. Fiz bolos, e dobrei meu capote sobre a caixa para deixá-la mais macia para ele; e por fim ele veio.
“‘Você tem um lugarzinho esquisito aqui’, disse.
“Veja, não havia nele senão caixotes de embalagem como móveis, e era bastante vazio. Enquanto eu punha a comida sobre a caixa, ele olhou meus livros; leu os títulos em voz alta. ‘Fisiologia Elementar’, ‘Primeiros Princípios’.
“‘Diabo!’, disse ele. ‘Tenho em casa um monte de coisa seca como essa que ganhei de prêmio na escola dominical; mas agora só guardo para acender meu cachimbo; servem bem para isso.’ Então me perguntou se eu já lera um livro chamado ‘A Crioula de Olhos Negros’. ‘Esse é o meu estilo’, disse; ‘lá onde o sujeito agarra a negrinha pelo braço, e o outro sujeito o corta fora! É disso que eu gosto.’
“Mas o que ele disse depois disso eu não lembro; só sei que me fez sentir como se estivesse tendo um sonho ruim, e eu queria estar bem longe.
“Quando acabou de comer, não ficou muito; tinha de acompanhar algumas moças para casa depois de uma reunião de oração; e perguntou como era que nunca me via passeando com nenhuma aos domingos à tarde. Disse que tinha muitas namoradas, e que ia ver uma na quarta-feira seguinte numa fazenda, e pediu que eu lhe emprestasse minha égua. Eu disse que ela era muito velha. Mas ele respondeu que não fazia mal; viria buscá-la no dia seguinte.
“Depois que ele se foi, meu quartinho voltou a ter seu antigo aspecto. Eu o amava tanto; ficava tão contente ao entrar nele à noite, e ele parecia me censurar por tê-lo trazido ali. No dia seguinte ele levou a égua cinzenta. Na quinta-feira não a trouxe de volta, e na sexta encontrei a sela e a rédea paradas à minha porta.
“À tarde, ele olhou para dentro da loja e gritou: ‘Espero que tenha recebido sua sela, Farber. Seu saco de ossos bateu as botas a seis milhas daqui. Amanhã mando uns dois xelins, embora o couro velho não valesse isso. Bom dia.’
“Mas saltei por cima do balcão e agarrei-o pela garganta. Meu pai era tão delicado com ela; nunca a fazia subir uma ladeira montado, e agora aquele sujeito a assassinara! Perguntei onde a matara, e sacudi-o até que escorregou da minha mão. Ficou à porta, rindo.
“‘Não foi preciso muito para matar aquele saco de ossos, cujo dono dorme num caixote e espera a companhia terminar de comer para usar o prato. Não me admiraria se você a alimentasse com sacos de açúcar’, disse ele; ‘e se pensa que a esporeei demais, vá ver por si mesmo. Vai encontrá-la ao longo da estrada, perto dos aasvogels que a estão comendo.’
“Agarrei-o pelo colarinho, levantei-o do chão e o atirei para a rua, quase até o meio dela. Ouvi o guarda-livros dizer ao caixeiro que sempre havia o diabo nesses sujeitos calados; mas nunca mais me chamaram Salvação depois disso.
“Estou lhe escrevendo sobre coisas muito pequenas, mas não há outra coisa a contar; tudo foi pequeno, e você gostará. Sempre que algo acontecia, eu pensava que o contaria a você. O pensamento ao fundo de minha mente é sempre você. Depois disso, só um velho veio me visitar. Eu o vira muitas vezes nas ruas; sempre usava roupas pretas muito sujas, e um chapéu com crepe ao redor, e tinha um olho só, por isso reparei nele. Um dia veio ao meu quarto com uma lista de subscrição para o salário de um pastor.
“Quando eu disse que nada tinha para dar, ele me olhou com seu único olho.
“‘Jovem’, disse ele, ‘como é que nunca o vejo na casa do Senhor?’ Achei que ele tentava fazer o bem, então senti pena dele, e disse que nunca ia à capela. ‘Jovem’, disse ele, ‘entristece-me ouvir palavras tão ímpias dos lábios de alguém tão moço — já tão avançado nos caminhos da perdição. Jovem, se você se esquecer de Deus, Deus se esquecerá de você. Há um banco do lado direito, quando se entra pela porta de baixo, que você pode ocupar.
“Se você se entrega aos prazeres e frivolidades deste mundo, que será de sua alma imortal?’
“Ele não se foi até que eu lhe desse meia coroa para o salário do pastor. Depois ouvi dizer que era o homem que cobrava os aluguéis dos bancos e recebia uma porcentagem. Não cheguei a conhecer mais ninguém.
“Quando terminou meu tempo naquela loja, empreguei-me para conduzir uma das carroças de um carreteiro.
“Naquela primeira manhã, quando me sentei à frente e chamei meus bois, e nada vi ao meu redor senão as colinas, com o azul descendo até elas, e os arbustos do karoo, fiquei embriagado; ri; meu coração batia até doer. Fechei os olhos com força para que, ao abri-los, pudesse ver que não havia prateleiras ao meu redor. Deve haver beleza em comprar e vender, se há beleza em tudo; mas para mim aquilo é muito feio.
“Minha vida como carreteiro teria sido a melhor vida do mundo se eu tivesse tido apenas uma carroça para conduzir. Meu patrão disse que conduziria uma, eu outra, e contrataria outra pessoa para a terceira. Mas no primeiro dia conduzi duas para ajudá-lo, e depois disso ele me deixou conduzir as três. Sempre que chegávamos a uma hospedaria, ele ficava para trás a fim de beber, e quando voltava às carroças já não conseguia ficar de pé; o hotentote e eu costumávamos erguê-lo.
“Viajávamos sempre a noite inteira, e costumávamos desatrelar por cinco ou seis horas no calor do dia para descansar. Planejei que me deitaria sob uma carroça e leria uma ou duas horas todos os dias antes de dormir, e assim fiz nos primeiros dois ou três dias; mas depois disso só queria dormir, como os outros, e guardei meus livros.
“Quando se tem três carroças para vigiar durante toda a noite, às vezes se fica tão cansado que mal se pode ficar de pé. No começo, quando eu caminhava à noite conduzindo minhas carroças, era glorioso; as estrelas nunca me tinham parecido tão belas; e nas noites escuras, quando atravessávamos o mato, fogos-fátuos dançavam dos dois lados da estrada. Descobri que até a umidade e a escuridão são belas. Mas logo mudei, e nada via senão a estrada e meus bois.
“Só desejava um trecho liso de estrada, para me sentar à frente e cochilar. Nos lugares onde desatrelávamos havia às vezes plantas e flores raras, festões pendendo das árvores do mato, e nozes e insetos como nunca vemos aqui; mas, depois de algum tempo, eu nunca olhava para eles — estava cansado demais.
“Comia o quanto podia, e então me deitava de bruços debaixo da carroça até que o menino viesse me acordar para atrelar, e então seguíamos de novo a noite inteira; assim ia, assim ia. Às vezes penso que, ao caminhar junto de meus bois, eu os chamava dormindo, pois sei que não pensava em nada; era como um animal. Meu corpo era forte e apto para o trabalho, mas meu cérebro estava morto. Se você não sentiu isso, Lyndall, não pode compreender. Pode-se trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, até ser apenas corpo, não alma.
“Agora, quando vejo um daqueles homens de mau aspecto que vêm da Europa — trabalhadores braçais, com o rosto bestial, afundado, diferente do rosto de qualquer cafre —, sei o que trouxe aquele olhar para seus olhos; e se tenho apenas uma polegada de tabaco, dou-lhes metade. É o trabalho, o trabalho mecânico, moedor, que eles ou seus antepassados fizeram, que os transformou em bestas. Pode-se trabalhar o corpo de um homem de tal maneira que sua alma morra. O trabalho é bom.
“Trabalhei na velha fazenda desde o nascer até o pôr do sol, mas tive tempo de pensar, e tempo de sentir. Pode-se trabalhar um homem até que nada nele reste senão o animal; e este se fortalece com o labor físico.
“Pode-se trabalhar um homem até que ele se torne um demônio. Sei disso porque o senti. Você nunca compreenderá a mudança que veio sobre mim. Ninguém além de mim saberá jamais quão grande foi ela. Mas eu nunca estava infeliz; quando conseguia impedir que meus bois ficassem atolados, e quando podia achar um lugar para me deitar, eu tinha tudo o que queria. Depois de eu ter conduzido por oito meses, veio uma estação de chuvas. Durante dezoito horas em cada vinte e quatro trabalhávamos molhados.
“A lama às vezes subia até os eixos, e precisávamos cavar para tirar as rodas, e não íamos longe em um dia. Meu patrão me xingava mais que nunca, mas quando terminava sempre me oferecia seu cantil de aguardente. Quando cheguei, ele me oferecera, e eu sempre recusara; mas agora bebia como meus bois quando eu lhes dava água — sem pensar. Por fim passei a comprar aguardente para mim sempre que passávamos por uma hospedaria.
“Um domingo desatrelamos às margens de um rio cheio para esperar que baixasse. Ainda chuviscava, por isso me deitei sob a carroça na lama. Não havia lugar seco em parte alguma; e todo o esterco estava molhado, de modo que não havia fogo para cozinhar. Meu pequeno cantil estava cheio de aguardente, e bebi um pouco e adormeci. Quando acordei ainda chuviscava, então bebi mais. Estava rígido e frio; e meu patrão, que jazia ao meu lado, ofereceu-me seu cantil, porque o meu estava vazio.
“Bebi um pouco, e então pensei que iria ver se o rio estava baixando. Lembro-me de caminhar até a estrada, e ela parecia afastar-se de mim. Quando acordei, estava deitado junto a um pequeno arbusto na margem do rio. Era tarde; todas as nuvens tinham ido embora, e o céu era de um azul profundo. O menino bosquímano assava costelas no fogo. Olhou para mim e sorriu de orelha a orelha. ‘Patrão estava meio alegre’, disse ele, ‘e deitou no caminho.
“Alguma coisa podia passar por cima do patrão, então carreguei ele para cá.’ Sorriu de novo para mim. Era como se dissesse: ‘Você e eu somos camaradas. Eu também já deitei numa estrada. Sei tudo a respeito.’
“Quando desviei dele a cabeça, vi a terra, tão pura depois da chuva, tão verde, tão fresca, tão azul; e eu era um carreteiro bêbado, que seu guia apanhara na lama e deitara à beira da estrada para dormir a bebedeira. Lembrei minha antiga vida, e lembrei você. Vi como um dia você leria nos jornais: ‘Um carreteiro alemão, chamado Waldo Farber, morreu ao cair de sua carroça, sendo imediatamente esmagado pela roda.
“Supõe-se que o falecido estivesse bêbado no momento do acidente.’ Há desses avisos no jornal todos os meses. Sentei-me, tirei do bolso o cantil de aguardente e o arremessei o mais longe que pude na água escura. O rapaz hotentote correu até a beira para ver se podia apanhá-lo; afundara até o fundo. Nunca mais bebi. Mas, Lyndall, o pecado parece muito mais terrível aos que olham para ele do que aos que o cometem.
“Um condenado, ou um homem que bebe, parece algo tão distante e horrível quando o vemos; mas para si mesmo ele parece muito próximo de nós, e semelhante a nós. Perguntamo-nos que espécie de criatura ele é; mas ele somos justamente nós mesmos. Somos apenas a madeira; a faca que nos entalha é a circunstância.
“Não sei por que continuei trabalhando tanto para aquele patrão. Penso que era como os bois que vêm todos os dias e ficam junto das cangas; não sabem por quê. Talvez eu estivesse com ele ainda; mas um dia partimos com cargas para os Campos Diamantíferos. Os bois estavam muito magros agora, e haviam passado o dia inteiro parados na canga, sem alimento, enquanto as carroças eram carregadas. Não longe da cidade havia uma colina. Quando chegamos ao pé, a primeira carroça atolou.
“Tentei por algum tempo estimular os bois, mas logo vi que uma só junta jamais a puxaria até o alto. Fui à outra carroça para soltar aquela junta e juntá-la à frente, mas o carreteiro, que estava deitado na parte de trás da carroça, saltou para fora.
“‘Eles a levarão colina acima; e, se metade deles morrer por isso, hão de fazê-lo sozinhos’, disse.
“Ele não estava bêbado, mas de mau humor, porque estivera bêbado na noite anterior. Xingou-me e mandou que eu pegasse o chicote e o ajudasse. Tentamos por algum tempo, então eu lhe disse que não adiantava, que jamais conseguiriam. Ele xingou mais alto e chamou os guias para virem com seus chicotes, e juntos açoitaram. Havia um boi, um boi preto, tão magro que a crista de sua espinha quase lhe cortava a carne.
“‘É você, demônio, que não quer puxar?’, disse o carreteiro. ‘Vou lhe mostrar uma coisa.’ Parecia um demônio.
“Mandou os meninos pararem de açoitar, segurou o boi pelo chifre, pegou uma pedra redonda e bateu-lhe no nariz até sair sangue. Quando terminou, chamaram os bois e tomaram de novo os chicotes, e os bois forçaram com as costas arqueadas, mas a carroça não se moveu uma polegada.
“‘Então você não quer, não é?’, disse ele. ‘Eu ajudo.’
“Tirou do bolso o canivete e cravou-o na perna do boi trêmulo três vezes, até o cabo. Depois guardou a faca no bolso, e pegaram os chicotes. Os flancos dos bois tremiam, e eles espumavam pela boca. Fazendo esforço, moveram a carroça alguns pés adiante; depois ficaram com as costas curvadas para impedir que ela escorregasse para trás. Das narinas do boi preto escorriam espuma e sangue para o chão. Ele virou a cabeça em sua angústia e olhou para mim com seus grandes olhos saltados.
“Pedia ajuda em sua agonia e fraqueza, e eles pegaram outra vez os chicotes. A criatura berrou alto. Se há um Deus, chamava por seu Criador em busca de auxílio. Então um jato de sangue claro rebentou de ambas as narinas; caiu no chão, e a carroça escorregou para trás. O homem aproximou-se dele.
“‘Vai se deitar, demônio? Veremos se não fica confortável demais.’
“A coisa estava morrendo. Ele abriu o canivete e curvou-se sobre ela. Não sei o que fiz então. Mas depois sei que o tinha sobre as pedras, e eu estava ajoelhado em cima dele. Os meninos me arrancaram dali. Queria que não tivessem feito isso. Deixei-o de pé na areia da estrada, sacudindo-se, e caminhei de volta à cidade. Nada tirei daquela carroça maldita; assim eu tinha apenas dois xelins. Mas não importava. No dia seguinte consegui trabalho numa loja de atacado.
“Meu trabalho era empacotar e desempacotar mercadorias, carregar caixas, e eu tinha de trabalhar das seis da manhã às seis da tarde; por isso tinha bastante tempo.
“Aluguei um quartinho e assinei uma biblioteca, de modo que tinha tudo de que precisava; e na semana das férias de Natal fui ver o mar. Caminhei a noite inteira, Lyndall, para escapar ao calor, e pouco depois do nascer do sol cheguei ao alto de uma colina. Diante de mim havia uma montanha longa, baixa, azul, monótona. Caminhei olhando para ela, mas pensava no mar que queria ver.
“Por fim me perguntei que coisa azul curiosa seria aquela; então me ocorreu que era o mar! Eu teria voltado, se não estivesse cansado demais. Pergunto-me se todas as coisas que ansiamos ver — as igrejas, os quadros, os homens da Europa — nos decepcionarão assim! Veja, eu sonhara com ele por tanto tempo. Quando era menininho, cuidando das ovelhas atrás do kopje, costumava ver as ondas estendendo-se até onde os olhos alcançavam à luz do sol. Meu mar! Será a ideia sempre mais bela que o real?
“Cheguei à praia naquela tarde, vi a água subir e descer pela areia, vi as ondas de espuma branca; eram bonitas, mas pensei que voltaria no dia seguinte. Não era o meu mar.
“Mas comecei a gostar dele quando me sentei à sua beira naquela noite, ao luar; e no dia seguinte gostei mais; e antes de partir eu o amava. Não era como o céu e as estrelas, que falam do que não tem começo nem fim; mas é tão humano. De todas as coisas que já vi, só o mar se parece com um ser humano; o céu não, nem a terra. Mas o mar está sempre se movendo; sempre algo profundo em si mesmo o agita. Nunca descansa. Está sempre querendo, querendo, querendo.
“Ele se apressa; e então recua lentamente sem ter alcançado, gemendo. Está sempre fazendo uma pergunta, e nunca recebe a resposta. Posso ouvi-lo de dia e de noite; as ondas de espuma branca dizem aquilo que eu penso. Caminho sozinho com elas quando não há ninguém que me veja, e canto com elas. Deito-me na areia e as observo com os olhos semicerrados. O céu é melhor, mas está tão alto acima de nossas cabeças. Amo o mar. Às vezes precisamos olhar para baixo também.
“Depois de cinco dias voltei para Grahamstown.
“Eu tinha livros gloriosos, e à noite podia sentar-me em meu quartinho e lê-los; mas estava solitário. Os livros não são as mesmas coisas quando se vive entre pessoas. Não sei dizer por quê, mas ficam mortos. Na fazenda eles teriam sido seres vivos para mim; mas ali, onde havia tanta gente à minha volta, eu queria alguém que me pertencesse. Eu estava solitário. Queria algo que fosse carne e sangue.
“Certa vez, nesta fazenda, veio um estranho; não perguntei seu nome, mas ele se sentou entre os arbustos do karoo e falou comigo. Agora, por onde quer que eu tenha viajado, procurei-o — em hotéis, nas ruas, em carros de passageiros quando chegavam correndo, pelas janelas abertas das casas eu olhei em busca dele, mas não o encontrei — nunca ouvi voz como a dele. Um dia fui ao Jardim Botânico. Era meio feriado, e a banda ia tocar. Fiquei na longa alameda elevada e olhei para baixo.
“Havia muitas flores, e senhoras e crianças passeavam belamente vestidas. Por fim a música começou. Eu nunca ouvira música assim.
“No começo era lenta e regular, como a vida de todos os dias, quando caminhamos por ela sem pensamento nem sentimento; depois se tornou mais rápida, depois parou, hesitou, ficou inteiramente silenciosa por um instante, e então irrompeu. Lyndall, fizeram o céu certo quando o fizeram todo música. Ela nos ergue e nos leva embora, embora, até que tenhamos as coisas por que ansiamos, até ficarmos junto delas. Saímos para um lugar largo, livre, aberto.
“Eu não podia ver nada enquanto ela tocava; estava com a cabeça encostada em minha árvore; mas, quando acabou, vi que havia senhoras sentadas perto de mim num banco de madeira, e o estranho que falara comigo naquele dia no karoo estava sentado entre elas. As senhoras eram muito bonitas, e seus vestidos, belos. Não acho que estivessem ouvindo a música, pois conversavam e riam muito baixo. Ouvi tudo o que disseram, e pude até sentir o perfume da rosa no peito de uma delas.
“Eu tinha medo de que ele me visse; por isso passei para o outro lado da árvore, e logo eles se levantaram e começaram a passear para cima e para baixo pela alameda.
“Durante todo o tempo em que a música tocou, eles conversaram, e ele carregava no braço a echarpe da senhora mais bonita. Eu não ouvi a música; tentava captar o som de sua voz cada vez que passava. Quando escutava a música, eu não sabia que estava malvestido; agora sentia tanta vergonha de mim mesmo. Nunca soubera antes que coisa baixa e horrível eu era, vestido de tancord. Naquele dia na fazenda, quando nos sentamos no chão sob as acácias, pensei que ele pertencia inteiramente a mim; agora vi que não era meu.
“Mas ainda era belo. Seus olhos castanhos são mais belos que os olhos de qualquer pessoa, exceto os seus.
“Por fim viraram para ir embora, e eu caminhei atrás deles. Quando saíram pelo portão, ele ajudou as senhoras a subir num faetonte e ficou um momento com o pé no estribo, conversando com elas. Tinha uma bengalinha na mão, e um galgo italiano corria atrás dele. Bem quando partiram, uma das senhoras deixou cair o chicote.
“‘Apanhe isso, rapaz’, disse; e quando eu o levei a ela, jogou seis pence no chão. Eu poderia ter voltado ao jardim então; mas não queria música; queria roupas, e ser elegante e fino. Senti que minhas mãos eram grosseiras, e que eu era vulgar. Nunca mais tentei vê-lo.
“Fiquei em minha situação quatro meses depois disso, mas não era feliz. Não tinha repouso. As pessoas ao meu redor me comprimiam, e me tornavam insatisfeito. Eu não conseguia esquecê-las. Mesmo quando não as via, elas me pressionavam e me faziam infeliz. Eu não amava os livros; queria pessoas. Quando caminhava para casa sob as árvores sombreadas da rua, não conseguia ser feliz, pois quando passava pelas casas ouvia música e via rostos entre as cortinas. Eu não queria nenhum deles, mas queria alguém que fosse meu, para mim.
“Não podia evitar. Queria uma vida mais fina.
“Só uma vez algo me fez feliz. Uma ama veio à loja com uma menininha pertencente a um de nossos caixeiros. Enquanto a criada entrava no escritório para dar um recado ao pai, a criancinha ficou olhando para mim. Pouco depois aproximou-se de mim e espiou meu rosto de baixo para cima.
“‘Cachos bonitos, cachos bonitos’, disse; ‘eu gosto de cachos.’
“Sentiu todo o meu cabelo com suas mãozinhas. Quando estendi o braço, deixou-me tomá-la e sentá-la em meu joelho. Beijou-me com sua boca macia. Ficamos felizes até a ama vir sacudi-la e perguntar se não se envergonhava de sentar no joelho daquele homem estranho. Mas acho que minha pequena não se importou. Riu para mim ao sair.
“Se o mundo fosse todo de crianças, eu poderia gostar dele; mas homens e mulheres me atraem de modo tão estranho, e depois me afastam, até eu ficar em agonia. Eu não fui feito para viver entre pessoas. Talvez um dia, quando for mais velho, eu consiga viver entre elas e olhá-las como olho para as rochas e os arbustos, sem deixar que me perturbem e me tirem de mim mesmo; mas agora não. Assim fiquei miserável; uma espécie de febre parecia comer-me; eu não podia repousar, nem ler, nem pensar; por isso voltei para cá.
“Eu sabia que você não estava aqui, mas parecia que estaria mais perto de você; e é você que eu quero — você, que as outras pessoas me sugerem, mas não podem me dar.”
Ele enchera todas as folhas que pegara, e agora tirou da prateleira da chaminé a última. Em adormecera, e jazia dormindo tranquilamente sobre a pele diante do fogo. Lá fora a tempestade ainda grassava; mas de modo irregular, como se estivesse meio cansada de si mesma. Ele se curvou novamente sobre o papel, com a face ansiosa e afogueada, e continuou a escrever.
“Foi uma viagem deliciosa, esta viagem de volta. Vim a pé. Anteontem à tarde, quando era quase pôr do sol, eu estava com os pés um pouco doloridos e com sede, e saí da estrada para procurar água. Desci a um pequeno kloof profundo. Algumas árvores corriam pelo fundo, e pensei encontrar água ali. O sol já se pusera inteiramente quando cheguei ao fundo. Estava muito quieto — nem uma folha se movia em parte alguma. No leito da torrente da montanha pensei que poderia achar água.
“Cheguei à margem e saltei para o leito seco. O chão em que pisei era de fina areia branca, e as margens se erguiam de todos os lados como as paredes de um quarto.
“Acima havia um precipício de rochas, e um filete minúsculo de água escorria delas e caía lentamente sobre a pedra lisa abaixo. Cada gota podia ser ouvida ao cair, como um pequeno sino de prata. Havia uma árvore entre as da margem que se recortava contra o céu branco. Todas as outras estavam silenciosas; mas aquela tremia e estremecia contra o céu. Todo o resto estava imóvel; mas aquelas folhas fremiam, fremiam. Fiquei parado na areia; não podia ir embora.
“Quando estava completamente escuro, e as estrelas haviam surgido, arrastei-me para fora. Parece-lhe estranho que isso me tenha feito tão feliz? É porque não consigo dizer-lhe quão perto me senti das coisas que não podemos ver, mas sempre sentimos. Esta noite foi uma noite selvagem, tempestuosa. Caminhei pela planície durante horas no escuro. Gostei do vento, porque parecia que eu forçava caminho até você. Eu sabia que você não estava aqui, mas ouviria falar de você.
“Quando costumava sentar-me na carroça de transporte, meio adormecido, sobressaltava-me desperto porque suas mãos estavam sobre mim. Em meus alojamentos, muitas noites apaguei a luz e sentei-me no escuro para poder ver seu rosto surgir mais distintamente. Às vezes era o rosto da menininha que costumava vir até mim atrás do kopje quando eu cuidava das ovelhas, e sentar-se a meu lado em seu avental azul; às vezes era mais velho. Amo ambos.
“Sou muito indefeso; jamais farei coisa alguma; mas você trabalhará, e eu tomarei seu trabalho por meu. Às vezes uma alegria tão súbita me toma quando lembro que em algum lugar do mundo você vive e trabalha. Você é minha de modo tão próprio; nada mais é meu assim. Quando terminar, vou olhar a porta de seu quarto —”
Ele escrevia; e o vento, que gastara sua fúria, gemia ao redor da casa, mais parecido com uma criança cansada de chorar.
Em despertou e sentou-se diante do fogo, esfregando os olhos e escutando-o, enquanto ele soluçava ao redor dos frontões e se afastava ao longo dos compridos muros de pedra.
— Como ficou quieto agora — disse ela, e suspirou também, em parte de cansaço, em parte por simpatia ao vento cansado.
Ele não lhe respondeu; estava perdido em sua carta.
Depois de algum tempo ela se levantou devagar e apoiou a mão em seu ombro.
— Você tem muitas cartas para escrever — disse.
— Não — respondeu ele —; é apenas uma para Lyndall.
Ela se afastou e ficou longo tempo diante do fogo, olhando para dentro dele. Se você tem um fruto mortal a oferecer, ele não ficará mais doce por guardá-lo.
— Waldo, querido — disse ela, pondo a mão sobre a dele —, pare de escrever.
Ele afastou os cabelos escuros da testa e olhou para ela.
— Não adianta mais escrever — disse ela.
— Por que não? — perguntou.
Ela pôs a mão sobre os papéis que ele escrevera.
— Waldo — disse ela —, Lyndall está morta.
Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.
Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.
Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.
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