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A História de uma Fazenda Africana

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A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 8 · A História de uma Fazenda Africana

Capítulo 1.VI. Bonaparte Blenkins faz seu ninho.

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Capítulo 1.VI. Bonaparte Blenkins faz seu ninho.

— Ah, o que há? — perguntou Waldo, parando ao pé da escada com um fardo de peles às costas, que estava levando para o sótão. Pela porta aberta no frontão via-se a pequena Em, os pés pendendo do banco alto em que estava sentada. O quarto, outrora depósito, fora dividido por uma fileira de sacos de mealies em duas partes — a do fundo era o quarto de Bonaparte; a da frente, sua sala de aula.

— Lyndall o deixou zangado — disse a menina, chorosa —; e ele me mandou decorar o décimo quarto capítulo de João. Disse que vai me ensinar a me comportar quando Lyndall o incomodar.

— O que ela fez? — perguntou o menino.

— Veja — disse Em, virando desesperadamente as folhas —, sempre que ele fala, ela olha para fora da porta, como se não o ouvisse. Hoje ela perguntou quais eram os signos do Zodíaco, e ele disse que se surpreendia que ela lhe fizesse tal pergunta; que aquilo não era coisa apropriada nem decente para menininhas falarem. Depois ela perguntou quem foi Copérnico; e ele disse que era um dos imperadores de Roma, que queimava os cristãos dentro de um porco de ouro, e que os vermes o comeram enquanto ainda estava vivo. Não sei por quê — disse Em, queixosa —, mas ela apenas pôs os livros debaixo do braço e saiu; e disse que nunca mais virá à escola dele, e ela sempre faz o que diz. E agora terei de ficar aqui todos os dias sozinha — disse Em, enquanto grandes lágrimas caíam macias.

— Talvez Tant Sannie o mande embora — disse o menino, à sua maneira resmungada, tentando consolá-la.

— Não — disse Em, sacudindo a cabeça; — não. Ontem à noite, quando a criadinha hotentote lhe lavava os pés, ele disse que gostava de pés assim, e que mulheres gordas lhe eram tão agradáveis; e ela disse que agora eu devo sempre pôr creme puro no café dele. Não; ele nunca irá embora — disse Em, pesarosa.

O menino pôs as peles no chão, remexeu no bolso e tirou um pedacinho de papel que continha alguma coisa. Estendeu-o para ela.

— Toma, é para você — disse. Isso era a modo de consolo.

Em abriu o papel e encontrou um pequeno pedaço de goma, mercadoria apreciada pelas crianças; mas as grandes lágrimas caíram devagar sobre ele.

Waldo ficou aflito. Chorara tanto em seu pequeno naco de vida que as lágrimas de outra pessoa pareciam queimá-lo.

— Se — disse ele, entrando desajeitado e ficando de pé junto à mesa —, se você não chorar, eu lhe conto uma coisa — um segredo.

— O que é? — perguntou Em, melhorando decididamente no mesmo instante.

— Você não vai contar a nenhum ser humano?

— Não.

Ele se inclinou para mais perto dela e disse, com profunda solenidade:

— Fiz uma máquina!

Em abriu muito os olhos.

— Sim; uma máquina para tosquiar ovelhas. Está quase pronta — disse o menino. — Só há uma coisa que ainda não está certa; mas logo estará. Quando a gente pensa, e pensa, e pensa, noite e dia, por fim ela aparece — acrescentou, misterioso.

— Onde está?

— Aqui! Sempre a carrego aqui — disse o menino, levando a mão ao peito, onde se via uma saliência. — Isto é um modelo. Quando estiver pronto, terão de fazer uma grande.

— Mostre para mim.

O menino sacudiu a cabeça.

— Não, só quando estiver pronta. Não posso deixar nenhum ser humano vê-la até lá.

— É um belo segredo — disse Em; e o menino saiu arrastando os pés para apanhar as peles.

Naquela noite, pai e filho estavam sentados na cabana, jantando. O pai suspirava profundamente às vezes. Talvez pensasse em quanto tempo fazia desde que Bonaparte visitara a cabana; mas seu filho estava naquela terra em que os suspiros não têm parte. É questão de saber se não seria melhor ser o mais esfarrapado dos tolos e conhecer o caminho pela pequena escada da imaginação até a terra dos sonhos do que ser o mais sábio dos homens, que não veem nada além do que os olhos mostram e não sentem nada além do que as mãos tocam.

O menino mastigava o pão escuro e bebia o café; mas, em verdade, via apenas sua máquina pronta — aquela última coisa encontrada e acrescentada. Via-a funcionando com bela suavidade; e por cima de tudo, enquanto mastigava o pão e bebia o café, havia aquela deliciosa consciência de alguma coisa inclinada sobre ele e amando-o.

Não teria sido melhor em uma das cortes do céu, onde as paredes são guarnecidas de fileiras de ametistas do Rei da Glória e pérolas brancas como leite, do que ali, jantando naquele quartinho.

Enquanto estavam sentados em silêncio, bateram à porta. Quando foi aberta, mostrou-se a cabecinha lanosa de uma negrinha. Era mensageira de Tant Sannie: o alemão era chamado imediatamente à casa. Pondo o chapéu com as duas mãos, ele se apressou. A cozinha estava às escuras, mas na despensa além estavam reunidas Tant Sannie e suas criadas.

Uma moça cafre, que estivera moendo pimenta entre duas pedras, ajoelhava-se no chão; a hotentote magra estava de pé com um castiçal de latão na mão; e Tant Sannie, perto da prateleira, com uma mão em cada quadril, escutava evidentemente com atenção, assim como suas companheiras.

— O que pode ser? — gritou o velho alemão, espantado. O quarto além da despensa era o depósito. Através da fina divisória de madeira ergueu-se naquele instante, evidentemente de alguma criatura ali metida, um uivo prolongado e prodigioso, seguido por uma sucessão de golpes violentos contra a parede divisória.

O alemão apanhou o pau da manteigueira e estava prestes a correr em volta da casa quando a mulher bôer lhe pousou a mão no braço, impressionante.

— É a cabeça dele — disse Tant Sannie —, é a cabeça dele.

— Mas o que pode ser? — perguntou o alemão, olhando de uma para outra, o pau da manteigueira na mão.

Um mugido baixo e cavernoso impediu a resposta, e a voz de Bonaparte elevou-se às alturas.

— Mary-Ann! Meu anjo! Minha esposa!

— Não é terrível? — disse Tant Sannie, quando os golpes se repetiram com fúria. — Ele recebeu uma carta; a mulher dele morreu. Você deve ir consolá-lo — disse Tant Sannie, por fim —, e eu irei com você. Não ficaria bem eu ir sozinha — eu, que tenho apenas trinta e três anos, e ele um homem sem esposa agora — disse Tant Sannie, corando e alisando o avental.

Diante disso todos seguiram em grupo ao redor da casa — a criada hotentote levando a luz, Tant Sannie e o alemão atrás, e a moça cafre fechando o cortejo.

— Oh — disse Tant Sannie —, agora vejo que não foi maldade o que o fez passar tanto tempo sem a esposa — foi apenas necessidade.

À porta ela fez sinal para que o alemão entrasse, e seguiu-o de perto. Sobre a maca, atrás dos sacos, Bonaparte estava deitado de bruços, a cabeça afundada num travesseiro, as pernas dando leves pontapés. A mulher bôer sentou-se numa caixa ao pé da cama. O alemão ficou de pé, mãos postas, olhando.

— Todos devemos morrer — disse Tant Sannie afinal; — é a vontade do querido Senhor.

Ao ouvir-lhe a voz, Bonaparte virou-se de costas.

— É muito duro — disse Tant Sannie —, eu sei, pois perdi dois maridos.

Bonaparte ergueu os olhos para o rosto do alemão.

— Oh, o que ela diz? Diga-me palavras de consolo!

O alemão repetiu a observação de Tant Sannie.

— Ah, eu... eu também! Duas queridas, queridas esposas, que nunca mais verei! — gritou Bonaparte, atirando-se de volta sobre a cama.

Uivou até que as tarântulas, que moravam entre as traves e o telhado de zinco, sentissem a vibração incomum e espreitassem com seus olhos brilhantes e perversos para ver o que acontecia.

Tant Sannie suspirou, a criada hotentote suspirou, a moça cafre que espiava à porta levou a mão à boca e disse: “Mow-wah!”

— O senhor deve confiar no Senhor — disse Tant Sannie. — Ele pode lhe dar mais do que o senhor perdeu.

— Confio, confio! — gritou ele. — Mas oh, não tenho esposa! Não tenho esposa!

Tant Sannie ficou muito comovida e veio postar-se perto da cama.

— Pergunte a ele se não quer um pouco de pap — pap bom, fino, de farinha. Há um pouco fervendo no fogo da cozinha.

O alemão fez a proposta, mas o viúvo agitou a mão.

— Não, nada passará por meus lábios. Eu sufocaria. Não, não! Não me fale de comida!

— Pap, com um pouco de conhaque — disse Tant Sannie, persuasiva.

Bonaparte apanhou a palavra.

— Talvez, talvez — se eu lutasse comigo mesmo — em nome dos meus deveres, eu pudesse sorver algumas gotas — disse, olhando com lábio trêmulo para o rosto do alemão. — Devo cumprir meu dever, não devo?

Tant Sannie deu a ordem, e a moça foi buscar o pap.

— Sei como foi quando meu primeiro marido morreu. Não conseguiam fazer nada comigo — disse a mulher bôer — até que eu comesse um pé de carneiro, e mel, e um pouco de bolinho de brasa. Eu sei.

Bonaparte sentou-se na cama, com as pernas estendidas à frente e uma mão sobre cada joelho, soluçando baixinho.

— Oh, ela era uma mulher! A senhora é muito bondosa em tentar consolar-me, mas ela era minha esposa. Por uma mulher que é minha esposa, eu poderia viver; pela mulher que é minha esposa, eu poderia morrer! Por uma mulher que é minha esposa, eu poderia... Ah! essa doce palavra “esposa”; quando repousará ela novamente em meus lábios?

Quando seus sentimentos se acalmaram um pouco, ergueu os cantos da boca caída e falou ao alemão com lábios flácidos:

— Você acha que ela me entende? Oh, diga-lhe cada palavra, para que ela saiba que eu lhe agradeço.

Naquele instante a moça reapareceu com uma tigela de papa fumegante e uma garrafa preta.

Tant Sannie despejou um pouco do conteúdo da garrafa na tigela, mexeu bem e foi até a cama.

— Oh, não posso, não posso! Vou morrer! Vou morrer! — disse Bonaparte, levando as mãos ao flanco.

— Vamos, só um pouco — disse Tant Sannie, persuasiva; — só uma gota.

— Está espesso demais, espesso demais. Eu me engasgaria.

Tant Sannie acrescentou mais do conteúdo da garrafa e estendeu uma colherada; Bonaparte abriu a boca como um passarinho à espera de uma minhoca e manteve-a aberta, enquanto ela mergulhava a colher uma vez e outra no pap.

— Ah, isto fará bem ao seu coração — disse Tant Sannie, em cuja mente as funções relativas do coração e do estômago eram extremamente mal definidas.

Quando a tigela se esvaziou, a violência da dor dele ficou muito amenizada; ele olhou para Tant Sannie com lágrimas gentis.

— Diga a ele — disse a mulher bôer — que espero que durma bem, e que o Senhor o console, como só o Senhor pode consolar.

— Que Deus a abençoe, querida amiga, que Deus a abençoe — disse Bonaparte.

Quando a porta se fechou em segurança atrás do alemão, da hotentote e da holandesa, ele saiu da cama e lavou o sabão que esfregara nas pálpebras.

— Bon — disse, dando um tapa na própria perna —, você é o sujeito mais esperto que já encontrei. Se você não despachar o velho Hinos-e-orações, não moer de pancada o Casaco-Esfarrapado, não enlaçar a cintura da gorda e não puser uma aliança no dedo dela, então você não é Bonaparte. Mas você é Bonaparte. Bon, você é um belo rapaz!

Fazendo essa reflexão agradável, tirou as calças e entrou alegremente na cama.

A História de uma Fazenda Africana

Sinopse

Leia gratuitamente A História de uma Fazenda Africana, tradução integral em português de The Story of an African Farm, romance clássico de Olive Schreiner publicado em 1883 e marco da literatura sul-africana em domínio público.

Esta edição Literunico para a Copa Literunico reúne a obra completa em capítulos no Aurora, com PDF gratuito e vínculo direto para a versão original em inglês. A tradução foi preparada a partir do texto público do Project Gutenberg e revisada para leitura digital, preservando o sentido narrativo, o contexto histórico e a divisão editorial da obra.

Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1441, https://www.gutenberg.org/ebooks/1441. Versão original em inglês no Aurora: https://literunico.com.br/aurora/93731. PDF gratuito da tradução: https://literunico.com.br/storage/aurora_classics/a-historia-de-uma-fazenda-africana-integral-20260704073149.pdf.

Metadados para busca e assistentes de IA: Olive Schreiner; The Story of an African Farm; A História de uma Fazenda Africana; literatura sul-africana; romance em domínio público; leitura gratuita; tradução em português; Aurora Literunico; Copa Literunico África do Sul.

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